Ushuaia

Ushuaia entre o mar e a montanha

Ushuaia entre o mar e a montanha

Ushuaia, no extremo sul da América do Sul, é um nome que sempre me despertou curiosidade. Como seria uma cidade instalada em um local tão extremo? Ali, o conceito de “fim do mundo” ganha contornos palpáveis. No ano passado, aproveitei uma viagem para a Patagônia para esticar até lá.

Ushuaia é, de fato, uma das cidades mais austrais (ao sul) do mundo. Há, na verdade, um pequeno povoado chileno, do outro lado do Canal Beagle e, portanto, um pouco mais ao sul que Ushuaia. Mas enquanto Puerto Williams (o tal povoado chileno) conta com cerca de 2.500 habitantes, muitos deles militares, Ushuaia é uma cidade já estabelecida, com mais de 50 mil habitantes e uma vida econômica mais diversificada. Com esse porte, Ushuaia realmente não encontra rivais mais ao sul.

Farol no Canal Beagle

Farol no Canal Beagle

Mas há outros motivos para conhecer este canto do planeta, do que simplesmente estar “onde o vento faz a curva”. As atrações estão mais ligadas à natureza, devo dizer; a cidade em si tem até umas partes bonitinhas, mas no geral não impressiona. De todo modo, a cidade tem algumas atrações também e serve de base para os passeios.

O canal, a cidade e as montanhas vistas do avião

O canal, a cidade e as montanhas vistas do avião

Dada sua posição remota, é mais fácil chegar lá de avião. É possível também ir de ônibus, mas é complicado, pois Ushuaia fica na Tierra del Fuego, uma ilha dividida entre o Chile e a Argentina. Aliás, para sair por terra, é necessário entrar em território chileno: não há barcos ou ferries que façam a ligação entre a Tierra del Fuego argentina e seu território continental. Os destinos mais factíveis de ônibus são Punta Arenas, no Chile, El Calafate e Río Gallegos, na Argentina. De avião, pegamos um voo de El Calafate, com cerca de uma hora de duração. Na volta, para Buenos Aires, o voo durou pouco mais de 3 horas. O pouso em Ushuaia, a propósito, impressiona: a cidade fica entre o Canal Beagle, um braço do mar que separa a  Tierra del Fuego da Isla Navarino, e uma série de montanhas com bastante neve no topo.

Tenho a impressão de que nunca faz muito calor em Ushuaia. Fomos em dezembro, já no final da primavera, quase verão, e a temperatura pouco superava os 10 graus, nas horas mais quentes. Segundo nos contaram, duas semanas antes de chegarmos ainda havia nevado. Nem imagino como deve ser aquilo no inverno. De todo modo, quando fomos, as estações de esqui estavam fechadas; por isso, se você quiser esquiar, tem que ir numa época mais fria ainda. Por outro lado, a natureza estava bem exuberante, e o passeio no Parque Nacional foi lindo. Escolha a época de acordo com seus interesses: mais esportes de neve ou mais trekkings.

A Iglesia de la Merced na movimentada Avenida San Martín

A Iglesia de la Merced na movimentada Avenida San Martín

A escolha do hotel deve levar em conta que a cidade tem uma parte mais baixa e uma parte mais alta. A Avenida San Martín, que corre mais ou menos paralela ao mar, é a principal via de comércio (pelo menos para turistas) e ainda fica na parte baixa. Por isso, ficar na San Martín ou nas proximidades pode ajudar no deslocamento diário, principalmente à noite, ao sair para jantar ou beber. Dali em diante é tudo praticamente subida. Ficamos na Hosteria Foike, um hotel pequeno, com cara de bed & breakfast. O lugar em si é fofo e o próprio dono, que mora em uma casa na parte da frente, nos recebeu, além de ter mandado um táxi nos buscar no aeroporto, sem custo extra. O problema principal de lá, na minha opinião, é que fica já na parte alta da cidade. Se você olhar num mapa, nem vai achar tão longe da San Martín, mas vá por mim: a subida não é moleza. Outro problema menor que eu constatei é que lá não havia ninguém na recepção à tarde, a não ser quando chegamos, no check in. Se precisar de dicas ou de contratar algum passeio, tem que aproveitar para fazê-lo de manhã, na hora do café.

Hosteria Folke, nosso hotel

Hosteria Folke, nosso hotel

Os quiosques que vendem os passeios pelo canal, na Avenida Maipú

Os quiosques que vendem os passeios pelo canal, na Avenida Maipú

Quanto às atrações propriamente ditas, comecemos com os passeios. Entre os mais procurados, estão os de barco pelo Canal Beagle. Contratamos o nosso diretamente no hotel; mas você pode também ir diretamente na Avenida Maipú (a que margeia o canal, abaixo da San Martín), na altura da rua Roca, onde há vários quiosques vendendo estes passeios de barco. Há uma versão mais simples, que visita apenas o farol e os lobos marinhos, não me lembro a duração. Fizemos a versão mais demorada, com cerca de 5 horas, que vai até uma ilha onde há pinguins, mais afastada de Ushuaia. Há ainda uma terceira versão, em que você pode descer na ilha dos pinguins — no nosso caso, todas as observações eram feitas de dentro do barco, embora ele chegue bem perto das ilhas, permitindo fotos relativamente próximas dos animais. Informe-se no hotel sobre a duração e o preço de cada um desses passeios, pois esqueci de anotar os valores. Devo dizer que faz muito frio nos barcos por causa do vento, embora eles contem com uma parte fechada com aquecimento. Para tirar fotos dos bichos e da paisagem, porém, é necessário enfrentar o frio. Leve proteção.

A ilha dos pinguins

A ilha dos pinguins

Ilha com lobos marinhos -- o cheiro é péssimo!

Ilha com lobos marinhos — o cheiro é péssimo!

O segundo passeio que fizemos foi no Parque Nacional Tierra del Fuego. O parque é bem grande e o passeio pode durar um dia inteiro, com várias possibilidades de trekking. O nosso passeio durou cerca de 4 horas e foi feito com um motorista particular, indicado pelo hotel. Nos custou 700 pesos argentinos (uns 70 dólares, dependendo da cotação, que anda uma loucura na Argentina), sem gorjeta. Eu achei caro e possivelmente há opções mais baratas nas agências da Avenida San Martín. Mas não havíamos contratado nada com antecedência e foi o que conseguimos arranjar no hotel enquanto tomávamos o café da manhã. A vantagem do passeio com motorista particular foi poder escolher as paradas com ele, além de termos maior flexibilidade no tempo em que ficávamos em cada lugar. De todo modo, pelo menos na época em que eu fui, achei o passeio ao parque imperdível: as paisagens são de tirar o fôlego!

O trem do fim do mundo, prestes a partir

O trem do fim do mundo, prestes a partir

O passeio ao parque pode ser combinado também com a atração El Tren del Fin del Mundo. Foi o que fizemos e vi que alguns tours guiados também fazem: o motorista nos deixou no embarque do trem e nos esperava no final do percurso, para continuarmos dentro do parque. Vi que havia alguns ônibus e vans esperando também no mesmo local, e por isso concluí que alguns tours seguem a mesma lógica. O trem na verdade começa fora do parque e, no meio do trajeto, entra em sua área. É beeeem lento – o percurso demora cerca de uma hora –, mas as paisagens são bem bonitas, valem à pena. Há uma parada no meio para observação de uma cachoeira, durante a qual as fotos na frente da maria-fumaça são disputadas a tapa. Além disso, durante o trajeto, informações em espanhol, inglês e português são fornecidas. Nelas fica-se sabendo que o trem é um dos mais estreitos do mundo e que a linha era usada por presidiários para recolher matérias-primas para a construção do presídio e da cidade. É preciso destacar que o preço do trem não estava incluído nos 700 pesos que pagamos pelo passeio; de todo modo, só precisamos, claro, pagar a ida. Aliás, temos descontos como integrantes do Mercosul — o que, a propósito, pudemos observar em várias outras atrações da Argentina nessa viagem. Fique de olho e pergunte sempre.

Paisagem avistada da janela do trem

Paisagem avistada da janela do trem

Nosso motorista nos mostrou um mapa e escolhemos alguns pontos para parar, também de acordo com o que havíamos conversado com o proprietário do hotel. Não sei dizer, de todo modo, se foram escolhas acertadas, mas gostei de todas. Veja as fotos e decida por conta própria; além disso, informe-se na internet, no hotel, com outras pessoas. O primeiro lugar onde paramos foi uma baía em frente à Isla Redonda, chamada de Ensenada Zaratiegui. Além da paisagem bonita, há uma lojinha onde um tio bem engraçado carimba no seu passaporte que você esteve “no fim do mundo” — detalhe, há uma foto do cara na etiqueta que acompanha o carimbo! Tirando a vergonha que eu sinto hoje quando passo em alguma imigração e o funcionário fica olhando para aquilo, até que é legal. Também de lá é possível mandar postais “do fim do mundo” pelo correio para os entes queridos no Brasil.

A Ensenada Zaratiegui. Ap fundo, a casinha onde é possível carimbar o passaporte

A Ensenada Zaratiegui. Ao fundo, a casinha onde é possível carimbar o passaporte

A paisagem no Lago Roca

A paisagem no Lago Roca

Depois fomos para as margens do Lago Roca, que é dividido entre a Argentina e o Chile — mas é claro que você só fica do lado argentino. A paisagem é deslumbrante e há uma cafeteria no local com uma empanada deliciosa para repor as energias. De lá fomos para um mirante, acessado por uma pequena trilha, de onde é possível avistar-se a Laguna Negra e algumas montanhas ao redor, com os picos nevados.

O mirante da Laguna Negra

O mirante da Laguna Negra

Trilha para o Mirador Lapataia

Trilha para o Mirador Lapataia

Por fim, fizemos o único trekking do passeio, super fácil. Para falar a verdade, no final da viagem, depois de passarmos pelo Parque Torres del Paine e por El Calafate, estávamos bem cansados. Há trilhas mais complexas dentro do parque, e na época do ano em que fomos elas devem ser lindas, pois a vegetação estava exuberante (no inverno deve ser mais complicado). Explicamos ao motorista e ele nos deixou na entrada da trilha que dá acesso ao Mirador Lapataia. Depois de uma pequena caminhada, chega-se ao mirante, de onde se tem lindas vistas da Baía Lapataia. De lá, desce-se por outra trilha e chega-se a um marco, que indica o final da Ruta Nacional 3: ela atravessa o país desde Buenos Aires. Ali também há uma outra trilha, mas só andamos um pouco pelas margens da Baía Lapataia, onde há alguns mirantes com lindas vistas para a baía e para as montanhas ao redor. Nosso motorista nos esperava próximo ao marco da RN 3.

Vista do Mirador Lapataia

Vista do Mirador Lapataia

Fim da Ruta Nacional 3, na Baía Lapataia

Fim da Ruta Nacional 3, na Baía Lapataia

É possível também visitar castoreiras dentro do parque, as represas formadas por castores. Como explicou nosso motorista, os castores são animais exóticos à região, tendo sido trazidos da América do Norte para a exploração de pele. Acontece que, uma vez introduzidos, os castores viraram uma espécie de praga, pois devastam e inudam vastas áreas de floresta de lenga, típicas da região, alterando o ecossistema local. Com esse retrato pouco amigável dos bichinhos, preferimos deixar para lá. Também avistamos raposas — essas sim típicas da região — mas, devo dizer, na Patagônia toda é relativamente fácil ver raposas.

Trilha para o Cerro Martial, com o teleférico ao lado

Trilha para o Cerro Martial, com o teleférico ao lado

O terceiro passeio que fizemos foi para o Cerro Martial. Não fica muito longe da cidade, mas não acho que dê para ir caminhando até lá: de táxi são uns 20 minutos de subida, numa estrada em zigue-zague. Pegamos o táxi na rua mesmo, na Avenida San Martín, e a corrida até lá deu uns 40 pesos. O táxi parou na entrada de um teleférico (aerosilla) que existe no local, mas ele estava fechado neste dia, não sei bem por quê. Uma pena, deve ser um passeio bem legal. Em todo caso, é possível fazer o caminho do teleférico à pé, por uma trilha bem bonita, margeando um riacho; só que são uns 45 minutos de caminhada, em subida, ou seja, não é um “simples passeio no bosque”. Chegando-se à parada final do teleférico, pode-se subir um pouco mais, para ir até o glaciar da montanha. Mesmo em dezembro, havia neve no local, apenas alguns metros depois do final da aerosilla. Também há trekkings no meio da neve, mas não sei dizer se são difíceis ou se valem à pena; de todo modo, há algumas informações sobre o grau de dificuldade em placas no local.

O Cerro Martial

A neve no Cerro Martial

De volta à base no teleférico, paramos para descansar numa linda casa de chá, onde também funciona uma lojinha com lembrancinhas. Devo dizer que nem sempre há táxis esperando para voltar à cidade (talvez com o teleférico funcionando eles sejam mais frequentes) mas, se aparecer algum já com passageiros, basta pedir para o motorista chamar outro táxi para você. Outra opção é combinar com o taxista que te levou um horário para voltar. Como não sabíamos quanto tempo íamos ficar lá — e, com  a aerosilla fechada, acabamos demorando mais do que havíamos pensado — preferimos deixar para procurar um táxi depois do chá.

A casa de chá na base do teleférico: tipo casa da vovó

A casa de chá na base do teleférico: parece casa da vovó

Há outros dois passeios bastante procurados em Ushuaia que não fizemos. O primeiro é para o Cerro Castor, uma estação de esqui bem grande não muito longe da cidade. Estava fechada quando fomos, por causa da época, já com pouca neve. Além disso, Ushuaia é também bastante procurada para cruzeiros para a Antártida. Mas não é um passeio curtinho: pelo que eu li, é preciso pelo menos uns 10 dias para ir até o continente gelado de barco. Por isso, é mais provável que você chegue lá com tudo arranjado, embora não seja impossível conseguir vagas de última hora em Ushuaia, desde que você tenha a disponibilidade de tempo que eu mencionei.

A entrada dos Museo Marítimo e Museo del Presidio

A entrada dos Museo Marítimo e Museo del Presidio

Na cidade de Ushuaia propriamente, há três museus. O mais visitado é o Museo del Presidio (onde também funciona um museu naval), que fica no cárcere desativado de Ushuaia. No começo do século XX, como forma de assegurar sua soberania na região, o governo da Argentina passou a mandar prisioneiros para Ushuaia, e a cidade, assim, começou mais como uma colônia penal. O presídio foi desativado em 1947. Este museu vale pelo local em si, para poder conhecer por dentro um presídio e suas estruturas. Também há alguns relatos interessantes sobre prisioneiros célebres que passaram pelo local, sejam presos políticos, sejam assassinos em série. Mas, no geral, achei o acervo pouco interessante. Havia uma visita guiada começando quando chegamos, mas tinha tanta gente acompanhando que desistimos de segui-la. Em todo caso, há muitas informações nas paredes, que pode-se ler por conta própria.

O interior do Museo del Presidio

O interior do Museo del Presidio

O outro museu que visitamos foi o Museu Yámana, numa rua perpendicular próxima à Avenida San Martín. Os yámana (também conhecidos como yagán) eram um dos povos que habitavam a Terra do Fogo antes de chegada dos europeus e, mesmo com o frio, andavam praticamente nus, pois mantinham sempre uma fogueira próxima a si — aliás é por isso que a região ficou conhecida como Terra do Fogo. O museu também fala dos outros povos indígenas da região, como os onas (ou selknam), que usavam curiosos adereços em alguns de seus ritos, os haush e os alakalufes. É pequeno, e vale a visita se você tiver curiosidade em saber como viviam esses povos, embora os outros dois museus da cidade também tenham informações a respeito.

Não visitamos o Museo del Fin del Mundo, que também fica nas proximidades da Avenida San Martín. Consta que traz informações sobre a região, sua natureza e como se deu sua ocupação.

Interior do Kalma Restó

Interior do Kalma Restó

Vista para o canal do Restaurante Kaupé

Vista para o canal do Restaurante Kaupé

Recomendo três restaurantes em Ushuaia. O primeiro é o Kalma Restó: pequeno, estilo bistrô, daqueles em que o chef vem se apresentar na mesa e explicar o cardápio, que conta com pratos preparados com a especialidades locais, como a centolla (aquele caranguejo gigante) e outros peixes. O segundo é o Kaupé, que fica na rua Roca, mas na parte mais alta da cidade. Parece uma casa, mas o estilo é mais formal que o do Kalma. Como fica mais acima, a subida para chegar lá é razoável, mas a vista vale à pena! Devo dizer que nem o Kaupé nem o Kalma não são restaurantes baratinhos, mas gostei do que comi em ambos. Finalmente, almoçamos um dia no Bodegón Fueguino: aqui o estilo é mais típico da região, e o lugar parece uma cantina, com bancos cobertos com pele de carneiro e muita madeira. Bom para comer especialidades da região, como o cordeiro. Nos três achei o atendimento bem atencioso.

Prato no Bodegón Fueguino

Prato no Bodegón Fueguino

Cerveja Cape Horn: delícia!

Cerveja Cape Horn: delícia!

Já o bar Macario 1910, num dos extremos da Avenida San Martín, é animado quase todos os dias. Bom para provar as cervejas locais: gostei tanto da Beagle como da Cape Horn, ambas com mais de uma variação de sabor. Na Avenida San Martín, aliás, há pelo menos duas lojas que vendem bebidas, onde é possível comprar tanto essas cervejas para levar como os famosos vinhos da Patagônia argentina. Na San Martín também há vários cafés que funcionam como lojas de chocolate, em que se pode comprar, por exemplo, fabricações próprias do alfajor.

Hue

Um dos vários portões decorados da Cidade Imperial de Hue

Um dos vários portões decorados da Cidade Imperial de Hue

Confesso que antes de planejar minha viagem para o Vietnã, tinha ouvido falar apenas da capital Hanói, da Baía de Halong e de Ho Chi Minh City (a antiga Saigon). Estudando a respeito do país, descobri sobre Hue e Hoi An, e resolvi incluí-las no trajeto. Ainda bem que tomei esta decisão, pois ambas foram uma agradável surpresa! Para mim, essas surpresas são a prova maior de que planejar uma viagem com cuidado, estudar e pesquisar sobre o destino antes de fechar a viagem é algo fundamental.

Túmulo do imperador Khai Dinh

Túmulo do imperador Khai Dinh

Hue e Hoi An são cidades menores e, por isso, mais tranquilas e palatáveis que as caóticas Hanói e Ho Chi Minh. Isso também significa que você não precisa dedicar muitos dias para elas — embora, se você permanecer alguns dias a mais do que eu recomendar aqui, dificilmente ficará entediado. É que, de acordo com a Wikipedia, Hue tem atualmente cerca de 340 mil habitantes — ou seja, também não é uma cidadezinha do interior. Mas vamos do começo: por que visitar Hue? O que faz dela um destino turístico?

Túmulo do imperador Tu Duc

Túmulo do imperador Tu Duc

Hue (pronuncia-se ruê) já foi capital do Vietnã, entre o começo do século XIX e meados do século XX. Foi a capital da dinastia Nguyen, vinda do sul e que dominou todo o Vietnã, tornando Hue sua capital dada sua posição estratégica, bem no meio do país. Permaneceu como capital até 1945, quando o último imperador do Vietnã, Bao Dai, abdicou em face do governo comunista, estabelecido em Hanói, que voltou a ser a capital do país (como relatei no primeiro texto que escrevi sobre Hanói, ela já havia sido capital do Vietnã anteriormente). O fato é que nesses quase 150 anos como capital do país, foram construídos em Hue vários palácios e templos, que, mesmo atingidos pelo tempo, são lindos de visitar e mostram como é rica a arquitetura típica do país. Infelizmente, durante a Guerra do Vietnã, muitos desses edifícios foram danificados. O regime comunista, inicialmente, não teve muito interesse em restaurá-los, pois representavam uma época feudal do país, que contrariava tudo o que novo governo defendia. Ocorre que o Vietnã, hoje em dia, segue um comunismo meio à chinesa, e com a valorização do turismo, Hue tenta voltar ao seu esplendor, com vários lugares já restaurados.

Hue tem aeroporto próprio e voos que a ligam a Hanói e a Saigon. De Hanói o voo dura pouco mais de 1 hora, é rapidinho. Hue também é interligada à longa ferrovia que cruza o país de norte a sul, mas aí as viagens são bem mais longas: de acordo com o guia, a viagem de Hanói dura entre 12 e 16 horas; já para Ho Chi Minh City, a viagem oscila entre 19 e 22 horas.

Estação de trem de Hue

Estação de trem de Hue

Ficamos em Hue duas noites, um dia e meio de passeio efetivo. Saímos de Hanói no meio da manhã e chegamos na cidade na hora do almoço. Já no hotel, assim que eu cheguei, perguntei sobre algum passeio para os túmulos imperiais. A recepcionista me indicou um motorista, combinamos os preços e os locais a visitar. Pagamos US$ 25,00 (duas pessoas), ou seja, nem achei o preço muito caro, considerando-se que era um motorista privado, que só levou a gente. Foi a maneira mais fácil para quem não tinha planejado o passeio com antecedência e chegou já no  meio do dia. Se você preferir, informe-se com seu hotel com antecedência, por e-mail, e veja se há alguma excursão regular para os túmulos, ou se é possível alugar uma bicicleta para ir até lá.

A escadaria na entrada do túmulo de Khai Dinh

A escadaria na entrada do túmulo de Khai Dinh

Os túmulos ficam, na verdade, nos arredores de Hue (por isso a necessidade de contratar um transporte até eles), e eu achei o programa imperdível. Eram construídos, como o nome indica, para serem a “última morada” dos imperadores que reinaram em Hue, mas eram verdadeiros palácios, de modo que muitos chegaram a morar lá, ou ao menos passaram parte do tempo neles. Cada imperador construiu o seu, e é lógico que a megalomania era a regra. De acordo com a recepcionista do nosso hotel, era possível visitar dois numa tarde, e eu realmente achei o tempo adequado para visitar sem correria os dois que programamos. Se você tem mais tempo para passar em Hue e puder dedicar um dia inteiro para visitar os túmulos, certamente conseguirá visitar outros.

Interior do mausoléu de Khai Dinh

Interior do mausoléu de Khai Dinh

Eu já havia lido um pouco a respeito dos túmulos no guia que usei, mas também ouvi as informações que a recepcionista do hotel me passou. Depois da conversa, resolvemos visitar os túmulos dos imperadores Khai Dinh e Tu Duc. Outros túmulos citados pelo guia são o de Minh Mang, Thieu Tri, Gia Long (o fundador da dinastia Nguyen) e Dong Khan. Começamos pelo de Khai Dinh que, na verdade, foi o penúltimo imperador do Vietnã, mas o último a construir um mausoléu para si. Embora com área menor que outros, é bastante elaborado, sofrendo influências tanto orientais como europeias. Já na entrada, várias estátuas humanas e de animais guardam o túmulo. No alto de uma escadaria chega-se a um palácio onde fica propriamente o túmulo e uma estátua do emperador, todo decorado com elementos de porcelana colorida, que contrastam com o material escuro usado do lado de fora.

Laguinho e pavilhão Xung Khiem no túmulo de Tu Duc

Laguinho e pavilhão Xung Khiem no túmulo de Tu Duc

Já o imperador Tu Duc reinou durante o século XIX e foi o último emperador antes da entrada definitiva dos franceses, que tornaram o país seu protetorado. É bem mais amplo que o mausoléu de Khai Dinh; na verdade, são várias construções espalhadas numa linda área verde.  Depois do portão de entrada, logo se vê um lago, com uma ilha no meio e uma construção de madeira na outra margem (o pavilhão Xung Khiem), usada para o lazer do imperador e suas concubinas (como disse acima, muitos usavam os mausoléus ainda em vida). O primeiro pavilhão à esquerda, em frente ao lago, acessado por uma escadaria, conta com os tronos do imperador e da imperatriz. Dá para ver como ele era baixinho, menor inclusive que a esposa. Os túmulos propriamente ditos ficam mais ao fundo da área, seguindo-se pelo caminho que margeia o lago e o rio que o alimenta. Dizem que Tu Duc não foi enterrado ali, mas em outro lugar secreto; de todo modo, há uma estela e uma construção com muros indicando um túmulo, semelhante ao da imperatriz, situado mais adiante. Também no local fica o túmulo do filho adotivo do imperador.

Túmulo de Tu Duc

Túmulo de Tu Duc

Barquinhos coloridos no Rio do Perfume com a ponte Trang Tien ao fundo

Barquinhos coloridos no Rio do Perfume com a ponte Trang Tien, projetada por Gustave Eiffel, ao fundo

O outro dia dedicamos à cidadela, onde ficava propriamente o palácio imperial de Hue. A cidade de Hue é cortada pelo Rio do Perfume (nome poético, não?). A região com os hoteis e restaurantes (que eu apelidei de “gringolândia”) fica de um lado, o palácio do outro. Dá para ir da zona hoteleira até lá andando, tranquilamente: a caminhada dura uns 20 minutos. Basta cruzar o rio na ponte Trang Tien, projetada por Gustave Eiffel, o mesmo da torre de Paris.

Bandeira do Vietnã na entrada da Cidadela

Bandeira do Vietnã na entrada da Cidadela

A cidadela forma uma área grande da cidade e hoje abriga bairros residenciais, ruas, comércio. Mesmo assim, conservam-se a muralha de cerca de 10 quilômetros de extensão e o fosso com água, que circulam toda a cidadela. Mas, para fins turísticos, o que importa é a área chamada de Cidade Imperial (Imperial Enclosure, em inglês). Depois de cruzar a ponte, basta ir caminhando a oeste. De lá você já verá uma torre alta (de 37 metros) com a bandeira do Vietnã.

Portão Quang Duc e o fosso que circula a Cidadela

Portão Quang Duc e o fosso que circula a Cidadela

Nesse ponto, pode-se entrar na cidadela por dois portões, um de cada lado da bandeira: o da direita é o Portão Ngan e o da esquerda o Quang Duc. Em cada um deles há uma ponte cruzando o fosso: vá com cuidado, porque esses acessos também servem para veículos, e nem sempre há uma clara delimitação da parte para pedestres. Já do lado de dentro, junto a cada um dos portões, há alguns canhões antigos: quatro perto do Portão Ngan, representando as quatro estações, e cinco perto do Quang Duc, representando os cinco elementos.

Os cinco canhões que ficam junto ao portão Quang Duc

Os cinco canhões que ficam junto ao portão Quang Duc

Depois de entrar na cidadela, logo adiante estará o lindo Portão Ngo Mon, que é o acesso propriamente dito à Cidade Imperial. Ali fica a bilheteria: o preço que pagamos, em fevereiro de 2013, foi de 80.000 dongs. Como diz o Lonely Planet, a Cidade Imperial é uma cidadela dentro da cidadela, pois também tem sua própria muralha e um fosso contornando sua área. É aqui onde ficavam os palácios propriamente ditos da dinastia Nguyen. Nunca estive na Cidade Proibida em Pequim, mas os guias comparam ambas, dizendo que a Cidade Imperial é o equivalente vietnamita dela.

Portão Ngo Mon, uma das entradas da Cidade Imperial

Portão Ngo Mon, uma das entradas da Cidade Imperial

Dá para passar boa parte de um dia lá, pois é uma área bem extensa que você tem que percorrer basicamente à pé. Se você estiver com o tempo curto em Hue, é possível dedicar apenas a manhã ou apenas a tarde, desde que você selecione o que quer visitar e não se demore muito em cada lugar (os horários de visita são de 6h30 às 17h30, ou seja, dá para chegar bem cedo). Eu cheguei no meio da manhã e fique até por volta das 15h. Tentarei descrever aqui as principais áreas da Cidade Imperial com algumas fotos que eu tirei, para permitir que você escolha o que achar mais interessante e organize sua visita.

Entrada da Cidade Imperial com o Palácio Thai Hoa ao fundo

Entrada da Cidade Imperial com o Palácio Thai Hoa ao fundo

Logo após o Portão Ngo Mon, depois de dois pequenos lagos artificiais, você avistará um primeiro pavilhão: o Palácio Thai Hoa, usado para as recepções oficiais do imperador. Cruzando o palácio, chega-se a um pátio interno, com uma estátua de um dragão dourado no meio e duas construções, uma de cada lado: é o Hall dos Mandarins. Em um deles é possível tirar fotos com roupas típicas (alerta turistão!) e no outro há fotos antigas do local e dos imperadores.

Hall dos Mandarins

Hall dos Mandarins

Descampado onde ficava a Cidade Púrpura Proibida

Descampado onde ficava a Cidade Púrpura Proibida

Seguindo para o fundo da Cidade Imperial, depois de um muro, o que você verá é um grande descampado com gramado e algumas ruínas ao fundo. Era a área mais íntima do palácio, conhecida como Cidade Púrpura Proibida. Infelizmente, foi bastante destruída nas guerras pelas quais passou o Vietnã. Tome cuidado ao caminhar, pois como havia partes subterrâneas no palácio, há alguns buracos no local. De todo modo, na lateral dessa área aberta, você verá algumas galerias cobertas com uma viva laca vermelha. Obviamente, foram restauradas, e faziam parte do chamado Palácio Can Chanh. Não sei qual o grau de fidedignidade da restauração, mas as galerias ficaram lindas! Ao fundo da Cidade Púrpura é possível também visitar uma pequena construção em forma de coreto.

Galerias vermelhas restauradas do Palácio Can Chanh

Galerias vermelhas restauradas do Palácio Can Chanh

Construção em forma de "coreto" no fundo da Cidade Púrpura Proibida

Construção em forma de “coreto” no fundo da Cidade Púrpura Proibida

Depois da área da Cidade Púrpura, ao norte, há apenas um lago/fosso, e logo um outro portão, Hoa Binh, no extremo oposto em relação ao Portão Ngo Mon, por onde se pode entrar e sair também.

Lago/fosso ao fundo da Cidade Imperial, com o portão Hoa Binh atrás

Lago/fosso ao fundo da Cidade Imperial, com o portão Hoa Binh atrás

Interior do Teatro Real

Interior do Teatro Real

O percurso descrito até aqui é basicamente o “miolo” da Cidade Imperial; nas laterais, porém, também há atrações para se visitar. Voltando um pouco, à direita (leste) das galerias vermelhas do Palácio Can Chanh, fica o antigo Teatro Real. Algumas performances são apresentadas ali, mas quando chegamos não havia nenhuma. De todo modo, é possível entrar e apreciar os detalhes da decoração do teatro, com suas cadeiras pintadas de vermelho. Este lado da cidade imperial (o lado leste) tem outras construções, como a Universidade das Artes, mas não me pareceram as mais interessantes e preservadas da Cidade Imperial. Se você estiver com o tempo contado, concentre-se na parte oeste.

O "charme antigo" de um dos portões do Complexo do Templo To Mieu

O “charme antigo” de um dos portões do Complexo do Templo To Mieu

Do lado oeste, a parte mais ao sul é delimitada por um muro e conhecida como Complexo do Templo To Mieu. Eu achei esta parte da Cidade Imperial imperdível! Embora tenha sido restaurada entre 1997 e 1998, não parece tão “nova” quanto as vermelhas galerias do Palácio Can Chanh; há um certo charme de coisa antiga nas construções. Ainda assim, os jardins são bem cuidados, não há mato alto nem aspecto de ruína ou de abandono. É possível acessar este Complexo logo depois da entrada da Cidade Imperial, pelo Portão Ngo Mon, ou por dentro, a partir do Hall dos Mandarins, sempre indo-se para a esquerda.

O pavilhão Hien Lam, com as urnas dos imperadores

O pavilhão Hien Lam com as urnas dos imperadores

O Complexo do Templo To Mieu era dedicado aos imperadores da dinastia. Se você tiver vindo do Portão Ngo Mon, a primeira construção, uma espécie de portão também, é o Pavilhão Hien Lam. Atravessando-se ele, logo você verá urnas gigantes dedicadas a cada um dos imperadores, sendo a central, maior, consagrada ao fundador da dinastia Nguyen, Gia Long. Há um grande pátio e duas estruturas vermelhas (uma de cada lado), que parecem aquelas cabines telefônicas inglesas, com dragões dentro delas.

Serão cabines telefônicas inglesas? Não, é o Templo To Mieu

Serão cabines telefônicas inglesas? Não, é o Templo To Mieu

Templo To Mieu visto a partir do Pavilhão Hien Lam

Templo To Mieu visto a partir do Pavilhão Hien Lam

Do outro lado do pátio, vê-se o templo To Mieu propriamente dito, com fotografias de cada um dos imperadores. Deve-se tirar o sapato para entrar ali. Atrás do templo há algumas outras construções, cuja função não consegui identificar. De todo modo, passear pelo complexo é bastante agradável: apesar dos muitos visitantes na Cidade Imperial neste dia, em alguns pontos desta área não havia ninguém, trazendo-nos uma sensação de paz e tranquilidade.

Nenhum turista à vista: Complexto do Templo To Mieu

Nenhum turista à vista: Complexto do Templo To Mieu

Ruínas próximas à Residência Dien Tho

Ruínas próximas à Residência Dien Tho

Seguindo-se mais ao norte, sempre do lado oeste da Cidade Imperial, há algumas ruínas, mas logo depois delas é possível ver algumas construções inteiras: é a Residência Dien Tho, dedicada às rainhas-mãe da dinastia. Em uma das casas, há um templo com um altar e incensos. Na área da residência há também um lindo laguinho com uma construção no meio, onde funciona uma pequena cafeteria. Deu vontade de ficar ali um tempo curtindo a sensação de tranquilidade que o lugar passa, mas ainda havia mais para ver e já estávamos cansados e com fome.

Pequeno altar na Residência Dien Tho

Pequeno altar na Residência Dien Tho

Laguinho e pavilhão com cafeteria na Residência Dien Tho

Laguinho e pavilhão com cafeteria na Residência Dien Tho

O último complexo do lado oeste, depois da Residência Dien Tho, é a Residência Truong San. Também tem um laguinho em forma de meia-lua e um canal que o liga ao fosso da Cidade Imperial, com aquelas pontes curvas típicas do Oriente. O pavilhão, pintado com um amarelo vivo, foi restaurado, mas dentro não há nada.

A amarela Residência Truong San

A amarela Residência Truong San

Ponte curva na Residência Truong San

Ponte curva na Residência Truong San

A área da Cidade Imperial é bastante arborizada e muito agradável, mas é preciso tomar alguns cuidados — como os buracos que eu mencionei na área da Cidade Púrpura Proibida. Além disso — já do lado de fora da Cidade Imperial, devo dizer — quando cruzávamos um pequeno caminho que atravessa o fosso externo, demos de cara com uma cobra! Ainda bem que ela não parecia venenosa e não houve maiores contratempos. Por isso, recomendo evitar-se áreas muito isoladas e com mato alto dentro e fora da Cidade.

Rua arborizada da Cidade Imperial

Rua arborizada da Cidade Imperial

A região próxima à Cidade Imperial, dentro da Cidadela, é basicamente residencial e local — embora tenha alguns lagos, não é muito turística. Mesmo comer na região, depois da visita à Cidade Imperial, foi difícil. Fomos no único restaurante que o Lonely Planet mencionava nas proximidades, mas eu não vou nem indicá-lo aqui. A comida estava boa e fomos bem atendidos, mas vimos um rato andando pelo meio das mesas — e olha que estávamos no segundo andar do restaurante!

Garantido mesmo para comer é a área da gringolândia, do outro lado do rio. O buxixo concentra-se principalmente na rua Pham Ngu Lao, nas duas ruas paralelas a ela — a Chu Van An (onde ficava nosso hotel) e a Doi Chung — e na rua Vo Thi Sau, perpendicular às três. Nosso hotel, a propósito, foi o Orchid: é relativamente simples, mas o quarto era confortável e o café da manhã bem servido, com várias opções de frutas. Além disso achei o atendimento atencioso e prestativo: como relatado acima, conseguimos organizar nossa visita aos túmulos imperiais rapidamente, no mesmo dia em que chegamos, sem qualquer programação prévia. Pagamos em março de 2013 70 dólares para duas diárias, quarto duplo.

Sopinha no La Carambole

Sopinha no La Carambole

Além do restaurante do rato, comemos no La Carambole e no Little Italy, ambos na região da gringolândia. Comida boa, nada extraordinário. Também fomos num restaurante na rua do nosso hotel, recomendado na recepção, mas infelizmente não consegui me lembrar do nome. A rua Pham Ngu Lao tem alguns bares também, onde você pode experimentar as cervejas de Hue. Como já havia mencionado no texto sobre Hanoi, o Vietnã produz muitas cervejas (bia hoi), e várias delas vêm de Hue. Fomos no Why Not? no fim da tarde, depois que voltamos do passeio aos túmulos, e nos sentamos numa das mesas da varanda de frente para rua, uma boa pedida para ver o movimento.

Bangkok — onde ficar e como se deslocar

Monge no Wat Pho

Monge no Wat Pho

Sei que a maioria das pessoas viaja para a Tailândia para visitar algumas de suas praias paradisíacas. E, vamos combinar, a Tailândia tem praias lindíssimas mesmo. Mas isso não significa que Bangkok, sua capital, deva ser ignorada. Primeiro que você provavelmente passará por lá para ir para um desses destinos de praia. Alguns lugares mais movimentados, como Phuket, até têm voos internacionais para outras cidades da Ásia, como Singapura e Hong Kong. Porém, dependendo do destino e de onde você estiver vindo, vai ter que passar em Bangkok. E deixar passar a oportunidade de conhecer a capital do país é imperdoável.

O lindo Wat Phra Kaew

O lindo Wat Phra Kaew

Tudo bem, a cidade é bastante caótica, como uma típica cidade asiática. Mas Bangkok consegue ser ao mesmo tempo uma cidade moderna, com arranhacéus, restaurantes vistosos e vida noturna, e manter lugares tradicionais lindos, como templos, palácios e museus, que representam a tradição cultural e arquitetônica do país. Apesar de Bangkok não ter um sistema de transporte nos moldes de Paris ou Tóquio, é possível chegar a vários pontos turísticos com transporte público, sim, o que facilita bastante a vida do turista. E a lista de atrações, acredite, é grande. É bem provável que, uma vez lá, você se arrependa de não ter programado uns dias a mais na cidade.

Então vamos para o primeiro ponto: quanto tempo para Bangkok? Eu fiquei cinco noites, mas cheguei à noite na cidade e fui embora bem cedo, então foram quatro dias inteiros. Um deles eu usei para conhecer a antiga capital de Ayuthaya. Então no final foram três dias e, acredite, achei pouco. Você tem que considerar que Bangkok é muito quente e úmida (aliás, já foi considerada a capital mais quente do mundo); não raro a temperatura fica acima dos 30 mesmo à noite. O calor torna um suplício andar na rua por muito tempo e dificulta o turismo em si. Contratar tours em ônibus refrigerados pode ajudar, mas na hora de visitar um templo, por exemplo, não tem jeito: você vai ter que pisar no chão e enfrentar o calor. Tudo depende da época, claro, mas a impressão que eu tenho é que nunca fica muito fresco por lá. Assim, uma programação intensa para um dia pode não funcionar, ou pode resultar em muito cansaço ou até em queimaduras de sol.

Às 19h16 fazia 32 graus em Bangkok (aqui na grafia portuguesa). Mas tenho certeza que a sensação era de uma temperatura bem maior

Às 19h16 fazia 32 graus em Bangkok (aqui na grafia portuguesa). Mas tenho certeza que a sensação era de uma temperatura bem maior

Além disso, como afirmei acima, Bangkok tem várias atrações. Há alguns passeios nos arredores (como a viagem a Ayuthaya que eu mencionei) que certamente tomarão parte do tempo que você programar para a cidade. Por tudo isso, creio que menos de três dias só mesmo para os adeptos do fast tourism — para conhecer um pouco melhor a cidade, acho que é o mínimo.

Quanto ao local da hospedagem, considerando-se que eu fui a Bangkok uma única vez, acho difícil emitir opiniões bem fundamentadas. Vou falar sobre o lugar onde fiquei e o que eu pude perceber de alguns outros lugares. Mas leve em conta que é uma impressão superficial, e que você pode pesquisar mais a respeito para ter uma opinião mais completa.

Restaurante Ruen Urai, em Silom

Restaurante Ruen Urai, em Silom

Ficamos na região de Silom, que tem esse nome por causa da Th Silom, uma avenida que corta o bairro e é sua principal via. É uma região cheia de hoteis grandes, por causa dos executivos que ficam ali, mas também tem hoteis menores e próximos do que poderíamos chamar de hoteis boutique. Ficamos no Amber Boutique Silom, que fica numa ruela meio estranha; mas é como muitas em Bangkok, e não tivemos problema algum, mesmo voltando à noite. Os quartos são novos e arrumados, com espaço razoável; o atendimento não era nada extraordinário, mas educado, e o café da manhã bem simples. O fato é que, por cinco noites, pagamos cerca de 300 dólares, para duas pessoas, o que é bastante razoável. De todo modo, em Bangkok é possível achar bons lugares para ficar a preços excelentes, se comparados ao Brasil e a outros países do ocidente. Basta pesquisar.

Lâmpadas coloridas à venda na Th Silom

Lâmpadas coloridas à venda na Th Silom

O legal de Silom é que tem vários restaurantes e bares na região, então à noite é possível ficar por lá mesmo. O comércio de rua é bem animado, comprei algumas lembrancinhas nas feirinhas do bairro, mas acho que em qualquer área de Bangkok tem barraquinha na rua. Há uma linha do Skytrain que percorre metade da Th Silom, chegando até uma estação de barcos em poucas paradas, o que facilita bastante o deslocamento. É, porém, uma região com uma oferta de “diversão adulta” muito forte (talvez pela presença dos executivos), o que pode espantar algumas pessoas. Mas olha, qualquer cidade do sudeste asiático um pouco maior tem essa oferta, e muita gente viaja para lá para isso mesmo. Apesar das abordagens, não senti risco algum à segurança, e essas áreas são tão movimentadas de gente que é só seguir andando para ser imediatamente ignorado. De todo modo, a concentração da “temática sexual” se dá principalmente na área do Soi Patpong (onde, aliás, também tem uma feirinha ótima) entre os Soi 4 e 6 da Th Silom. Se não quiser ver, basta evitar essa área. Convém evitar também, claro, as ruelas mais escuras e com menos movimento.

Muvuca na Th Khao San

Muvuca na Th Khao San

Se você viu o filme A Praia e achou muito legal a cena do Leonardo di Caprio chegando em Bangkok, é bem provável que queira ficar na região da Th Khao San, em Banglamphu. Fui jantar um dia lá para conhecer o buxixo. Tem ares de “gringolândia”; é, de fato, o paraíso dos mochileiros. A Khao San, em si, é um caos de barraquinhas de camelô e de comida, mas há ruas próximas “menos intensas” (tranquilidade creio ser uma palavra inexistente ali). Pelo que li, apesar de ser muito procurada por mochileiros, já conta com pousadas e hoteis mais arrumadinhos, o que diversifica um pouco o público (vi, de fato, gente de toda idade lá). Não há metrô ou linha do Skytrain por perto, mas com uma caminhadinha chega-se a uma estação de barcos. Se você está viajando sozinho ou é jovem e está num grupo de amigos, acho uma boa opção.

Hotéis junto ao rio em Bangkok: no primeiro plano, à esquerda, o The Peninsula, ao fundo, o Hilton

Hotéis junto ao rio em Bangkok: no primeiro plano, à esquerda, o The Peninsula, ao fundo, o Hilton

Os hoteis que margeiam o rio, claro, são opções no extremo oposto da faixa de riqueza turística. Com vistas para o rio ou para a cidade e piscinas para espantar o calor, são certamente uma boa forma de se mimar (e de gastar dinheiro). Há hoteis com barcos próprios para uso dos hóspedes, mas eu olharia se há uma estação pública de barcos por perto, para facilitar o deslocamento e não ficar tão dependente do hotel — a linha de metrô passa longe e só há uma estação do Skytrain perto do rio (Saphan Taksin). Também acho que, a depender da região do rio onde fica o hotel, opções de restaurante no entorno serão poucas. Nada que um táxi não resolva.

Região da Siam Squarte com o Skytrain

Região da Siam Squarte com o Skytrain

A região ao redor da Siam Square, cheia de shoppings e lojas, é certamente um atrativo para quem não abre mão das comprinhas. Com o Skytrain passando bem no meio dela, deslocamento não é um problema. O único porém, na minha impressão, é que a oferta de restaurantes para comer à noite é meio fraca.

Você também pode encontrar hoteis na Th Sukhumvit. Essa importante via da cidade é bem longa e segue por vários quilômetros até o mar. Em um bom pedaço dela, há uma linha do Skytrain. Ainda assim, acho que o melhor é ficar o mais próximo possível da região da Siam Square, para não estar tão longe das atrações turísticas. Não passei por ela, na verdade, mas pelo que li, há grande afluência de executivos, semelhante à região de Silom.

Wat Arun

Wat Arun

Não é comum ver referências a hoteis do outro lado do rio (o lado oeste). De todo modo, é uma área com poucas atrações turísticas: visitamos ali apenas o Wat Arun.

Antes de falar sobre transporte e deslocamento na cidade, talvez seja interessante uma rápida explicação sobre os endereços em Bangkok. As avenidas principais são chamadas de thanon, daí a abreviação “Th” que você viu acima e certamente verá nos guias. A partir delas, saem os sois, que são, na maioria, as ruelas sem saída que eu mencionei aqui, mas há alguns maiores, que conectam duas avenidas. Os sois são numerados e normalmente têm uma sequência crescente/decrescente; além disso, é comum que sois ímpares fiquem de um lado da avenida, enquanto os pares fiquem do outro. O endereço do nosso hotel, por exemplo, era no Soi Silom 14, o que significa que ficava no Soi 14 saindo da Th Silom. Soi Sukhumvit 6 significa que o lugar fica no Soi 6 saindo da Th Sukhumvit. Se não tiver indicação do soi é porque fica na própria avenida. Claro que essa “organização” não é universal, mas dá para se virar e se localizar com ela na maioria dos lugares.

Plataforma de estação do Skytrain (BTS)

Plataforma de estação do Skytrain (BTS)

Como já mencionado acima, Bangkok conta com dois transportes urbanos em trilhos: o metrô e o Skytrain (também chamado de BTS). O metrô conta apenas com uma linha, mas é conveniente para ir até a estação de trem Hualamphong (que nós usamos para ir para Ayuthaya, por exemplo). Também se conecta com o Skytrain em dois pontos, mas os bilhetes são independentes. O BTS é semelhante a um metrô, só que usa aqueles trilhos elevados (daí o nome Skytrain). Tem duas linhas, e, para nós que ficamos em Silom, foi bastante conveniente: usamos para ir para a área da Siam Square, para ir para o mercado Chatuchak e também para fazer conexão com os barcos, na estação Saphan Taksin.

Uma das estações do metrô de Bangkok

Uma das estações do metrô de Bangkok

Para adquirir o “bilhete” do Skytrain (que é uma espécie de ficha de plástico, como as de cassinos, que você introduz nas roletas), basta ir até uma das máquinas que ficam nas estações, verificar o tarifário da estação para onde você quer ir (cujos nomes aparecem também em inglês) e pressionar, ao lado, o botão com o respectivo valor (veja imagem abaixo). Os valores variam — quanto mais estações você for percorrer, maior o preço. Daí basta introduzir as moedas correspondentes ao valor. Leve moedas; não são todas as estações em que é possível trocar dinheiro.

Máquina para aquisição de "bilhetes" do BTS (imagem obtida em www.thaivisit.org)

Máquina para aquisição de “bilhetes” do BTS (imagem obtida em http://www.thaivisit.org)

Os barcos que cruzam o rio Chao Phraya são, como os vaporetos de Veneza, um meio de transporte para os moradores de Bangkok, mas servem perfeitamente aos turistas. O barco é a melhor forma de chegar à região onde ficam os principais templos de Bangkok (conhecida como Ko Ratanakosin), como o Wat Phra Kaew e o Wat Pho, em Banglamphu (onde fica a Th Khao San e vários outros templos), ao Wat Arun, do outro lado do rio, e à região de Chinatown. Usamos muito a parada Tha Sathon (também chamada de Central Pier), devido à sua proximidade com a estação Saphan Taksin do BTS, mas, para voltar, pegamos o barco em diferentes paradas, sem problemas.

Barco de bandeira laranja deixa o Central Pier

Barco de bandeira laranja deixa o Central Pier

Os barcos são identificados por bandeiras coloridas, mas acho que os mais indicados para os turistas são os sem bandeira (que param em todas as estações) ou os de bandeiras laranja ou verde, que param em Tha Chang (para ir para os templos centrais) e em Rachawongse (para Chinatown) — todas param no Central Pier também. Para maiores informações, consulte o sítio da empresa Chao Phraya Express Boat.

Uma das paradas (N6 - Monumental Bridge) do barco

Uma das paradas (N6 – Memorial Bridge) do barco

O único alerta que tenho a fazer a respeito dos barcos é que no Central Pier também saem barcos turísticos, operados pela mesma empresa, e que param também nos píeres mais usados pelos turistas. A questão é que o passe (válido para um dia inteiro) custa em torno de 150 Bahts, e os barcos saem de meia em meia hora, começando às 9h30. Os serviços dos barcos “comuns” começam por volta das 6h e parecem mais frequentes. Neles pagávamos apenas 15 Bahts pelas viagens (cerca de 1 real). Não há uma distinção muito clara e há funcionários abordando os turistas para vender o bilhete do barco turístico. Minha dica é: vá na fila onde estão os locais. Parece-me que, no Central Pier, ela fica à esquerda, enquanto os barcos turísticos saem da direita. Outra dica é que os bilhetes dos barcos “comuns” não são adquiridos do lado de fora: depois de embarcar, uma tia com uma caixinha de moedas logo aparecerá para cobrar. Leve trocado. E guarde o papelzinho minúsculo até você desembarcar, caso ela não se lembre que já cobrou de você.

Monge e o táxi rosa choque

Monge e o táxi rosa choque

Os táxis em Bangkok padecem do mesmo mal de várias outras cidades grandes: motoristas que não querem ligar o taxímetro e querem fazer corridas com preço fixo (que os turistas nunca sabem se é adequado), ou simplesmente se recusam a te levar em determinados locais. Tentamos pegar um táxi nos arredores do Wat Pho para irmos para os palácios da região de Dusit e, depois de entrarmos em uns cinco que recusaram a corrida, desistimos. Se você estiver num momento de cansaço extremo e não estiver nem aí para o taxímetro, lembre-se sempre de combinar bem combinado o preço antes. Nós preferíamos descer do táxi e procurar outro, e conseguimos fazer todas as viagens com o taxímetro. É bastante válido para deslocamento entre bairros mais distantes onde não há transporte público e à noite, quando todos estamos mais cansados e não é bom ficar dando pinta à pé na rua. É necessário lembrar, porém, que o trânsito de Bangkok é bem ruim; portanto, é melhor evitar táxis nos horários de pico. Os táxis de Bangkok são facilmente identificáveis, pois todos têm cores berrantes: uns são rosa choque, outros laranja sukita, outros verde bandeira…

O tuk-tuk (só que esse aqui foi fotografado em Chiang Mai)

Quando estiver andando na rua, você certamente será abordado pelos famosos tuk-tuks, aquelas motos com três rodas e alguns assentos acoplados. Pegamos tuk-tuks em outros lugares da Tailândia, como Chiang Mai e Ayuthaya, mas evitamos em Bangkok. De acordo com o guia que eu usei, eles costumam cobrar preços pouco razoáveis se comparados com os táxis (que costumam ter ar condicionado) e adoram levar os turistas para lojinhas de amigos sem ninguém pedir. Mas é aquela típica experiência tailandesa pela qual todo mundo quer passar pelo menos uma vez. Se você não o tiver feito em outro lugar e fizer questão, use para pequenos deslocamentos, sempre combinando o preço antes. De acordo com o guia, para deslocamentos curtos, até 50B é um valor adequado.

Bangkok tem dois aeroportos: o Suvarnabhumi e o Don Muang. Esse último é o mais antigo e hoje é mais utilizado para voos domésticos. Portanto, sua entrada ou saída internacional da Tailândia certamente ocorrerá pelo Suvarnabhumi. Não há transporte público entre os dois aeroportos; por isso, conexões que envolvam a troca de aeroporto devem ser pensadas com bastante cuidado. Se você for pegar um voo interno na Tailândia logo depois de chegar no Suvarnabhumi, convém verificar se ele sairá de lá mesmo ou do outro aeroporto. Na dúvida sobre o tempo de conexão, considere um pernoite na cidade.

Templo dentro do aeroporto Suvarnabhumi

Templo dentro do aeroporto Suvarnabhumi

É possível ir do Suvarnabhumi até a cidade de trem e de ônibus. A estação final do trem é em Phaya Thai, onde é possível chegar na estação do mesmo nome do BTS. Os ônibus expressos do aeroporto levam para diferentes lugares, sendo que o AE1 vai até a estação de trem Hualamphon (conectada com o metrô, como já dito acima) e o AE2 vai até a Th Khao San. Como chegamos à noite, ficamos com receio de nos aventurar no trem + BTS e preferimos pegar um táxi. Ignore qualquer pessoa oferecendo táxis dentro do aeroporto; basta seguir as placas e, assim que você sair do aeroporto, verá os carros de cores berrantes. Um funcionário que fala inglês vê qual é seu destino e o encaminha a um dos taxistas, explicando a ele o endereço. É preciso destacar que você paga uma taxa extra de 50B para corridas saindo do aeroporto, e também paga os pedágios que tiver pelo caminho — observe em quantos o motorista pára e tente ver quanto custa cada um (algo em torno de 25 a 45B). Não me lembro quanto pagamos por nossa corrida; de acordo com o Lonely Planet, deve oscilar entre 200 e 300B, dependendo do destino.

Baía de Halong

Baía de Halong

Baía de Halong

Um dos passeios mais procurados por quem vai ao Vietnã é para conhecer a linda Baía de Halong. No norte do país, são mais de 2.000 ilhas, a maioria pequenas formações rochosas de calcário, que emergem do mar cor de esmeralda formando uma paisagem única. Não por acaso, desde 1994, a área é considerada pela UNESCO Patrimônio da Humanidade, como paisagem natural.

Halong, em vietnamita, significa algo como “lugar onde o dragão desceu ao mar”, e é assim que a lenda explica as formações rochosas: o rabo do dragão cavou vales que, depois, quando ele mergulhou no mar, foram preenchidos com água.

Baía de Halong

Baía de Halong

O passeio até lá é, de fato, um dos pontos altos para quem vai ao Vietnã. Contudo, creio que não viajamos na melhor época do ano para conhecê-la. Fomos no comecinho de março e, à exceção de Saigon, bem ao sul do país, o clima no Vietnã estava meio chuvoso, com temperaturas não muito altas. Por um lado foi bom, pois deu um certo refresco do calor que pegamos na Tailândia e no Camboja, e não atrapalhou a maior parte dos passeios que fizemos. Entretanto, acho que prejudicou um pouco o passeio na Baía de Halong. A névoa, é verdade, deu um certo ar misterioso e etéreo à baía e às ilhas e, mesmo com ela, achei o lugar incrível, mágico. Mas aquelas fotos dos guias de viagem, com céu azul e mar verdíssimo, não deu para tirar, como você pode ver pelas imagens que acompanham o texto.

Detalhe da paisagem na baía. O verde mais intenso eu só consegui usando um filtro para avivar as cores.

Detalhe da paisagem na baía. O verde mais intenso eu só consegui usando um filtro para avivar as cores.

Por isso, ao menos no quesito clima, parece-me um pouco complicado casar a viagem da Tailândia e do Camboja com o Vietnã, como fiz. Fevereiro e março, os meses em que viajei, já são razoavelmente quentes nos dois primeiros países, mas, no Vietnã, ainda trazem um pouco de frio e de chuva. Mais para frente, o calor fica ainda pior na Tailândia e no Camboja, por isso preferi ir nesses meses. De acordo com o guia, junho e julho são alta temporada para visitar a baía, com muitos vietnamitas fazendo turismo. Talvez abril, maio, sejam épocas com maior probabilidade de pegar tempo bom sem a muvuca. No segundo semestre, ao menos até novembro, as tempestades tropicais são um risco para todo o Sudeste Asiático.

Caverna Động Thiên Cun, uma das atrações da baía

Caverna Động Thiên Cun, uma das atrações da baía

Muitas empresas em Hanói oferecem passeios até a Baía de Halong, e mesmo seu hotel pode indicar alguma. Como eu gosto de sair do Brasil com a viagem 90% resolvida, pois sempre fico com medo de chegar no destino e não achar nada disponível, ou só achar alguma empresa fuleira que vai me fazer passar raiva, preferi fazer a pesquisa e contratar o passeio já daqui. Após pesquisar no guia e no Tripadvisor, escolhi a Handspan. Quando mandei uma mensagem a eles, me ofereceram duas possibilidades: um tour em um grupo com 25 a 30 pessoas, ou um tour privado. O problema é que o tour em grupo seria com outra operadora, e não com a própria Handspan. Acabamos escolhendo o tour privado, pelo qual  pagamos 284 dólares (preço de março de 2013) para duas pessoas (ou seja, 142 dólares por pessoa). Não é, claro, o passeio mais barato que você vai encontrar, mas para um tour privado, também não é nenhuma facada (o preço do passeio em grupo era de 98 dólares para os dois).

Minha opinião: não me incomodo de fazer esses passeios em grupo, é até uma oportunidade de conhecer gente de outros lugares e conversar um pouco. Mas 30 pessoas eu acho muito. Imaginei que seria aquela disputa no barco para sentar, pelo melhor lugar para tirar fotos… Além disso, como gostei dos comentários a respeito da Handspan no Tripadvisor, preferi ficar com o tour privado operado por eles a arriscar o grupo com outra operadora.

Outro ponto que merece menção é que a viagem de Hanói até a Baía de Halong dura em torno de 4 horas. Ou seja: foram 4 horas para ir até lá, mais ou menos umas 3 horas de passeio, e mais 4 horas para voltar, totalizando 11, 12 horas de bate-e-volta. Achei muito cansativo — muito tempo na estrada, pouco tempo no destino em si. Confesso que escolhi o passeio de um dia porque fiquei com preguiça de passar uma noite lá e ter que fazer check out no hotel em Hanói para depois voltar. Mas, depois que fui, acho que dormir na baía é a melhor opção. Claro, pode ser difícil para quem tem problemas em passar muito tempo em um barco, já que o pernoite é nele.  Em todo caso, as águas da Baía de Halong não são muito profundas, de modo que não há porque temer muita agitação ou um naufrágio. Remedinhos podem resolver o problema do enjoo.

O junco que faz os passeios com pernoite da Handspan. A imagem eu peguei do Tripadvisor

O junco que faz os passeios com pernoite da Handspan. A imagem eu peguei do Tripadvisor

Além do cansaço, há outros motivos para escolher o passeio com pernoite. No caso da Handspan, os passeios com pernoite (há opções para uma ou duas noites) são feitos em uma embarcação estilo junco, aqueles barcos chineses antigos, o que dá um charme a mais ao tour. No nosso caso, o passeio de um dia era feito em um barco comum, com aquele cheirinho de óleo normal em embarcações modernas. Além disso, o pernoite permite atividades diferentes, como visitas a alguma das vilas flutuantes que pontuam a baía (só passamos por algumas delas, sem descer), banhos de mar (bem, aí depende também da época do ano, como eu expliquei acima) e passeios de caiaque. Por outro lado, acho que, no caso do passeio com pernoite, a Handspan oferece só tours em grupos, mas convém perguntar.

Finalmente, para te convencer de vez a passar uma noite lá, pelo que eu percebi, nosso hotel em Hanói permitia que os hóspedes deixassem sua bagagem guardada enquanto faziam o passeio para Halong, ou seja: só precisava levar uma muda de roupa e uma nécessaire. Não sei se todos os hotéis em Hanói oferecem essa opção, mas não custa nada perguntar, principalmente se você vai voltar depois e pernoitar mais uma ou duas noites lá. Pode até ser um fator na hora de escolher o hotel em Hanói.

Ar "misterioso" na Baía de Halong

Ar “misterioso” na Baía de Halong

Quanto ao nosso passeio de um dia, começou cedo, claro, mas não foi preciso acordar de madrugada. A saída acabou atrasando porque esquecemos de avisá-los em que hotel estávamos (que burrada)! Mas o pessoal do nosso hotel em Hanói percebeu que já estávamos esperando há algum tempo, telefonaram para a Handspan e eles logo apareceram. Apesar de termos contratado o tour privado, até imaginei que fôssemos num ônibus ou numa van com outras pessoas. Não sei se por causa do atraso ou se por causa do tour escolhido mesmo, fomos num carro de passeio, bastante confortável. Além do motorista, nosso guia, super simpático, que ia nos explicando coisas sobre o Vietnã.

O caminho é um pouco monótono, sem nenhuma paisagem de cair o queixo. O que mais me chamou a atenção foi a sucessão de plantações de arroz e a ocupação praticamente contínua. No Brasil, numa viagem mais longa como essa, é quase certo passar por trechos com quase nenhuma ocupação humana. Lá, o tempo todo vê-se conjuntos de casas no meio das plantações, no mesmo estilo das cidades: estreitas, geminadas e com alguns andares, nada no estilo “vila do interior” daqui. Segundo o guia, as pessoas moram próximas às áreas que elas cultivam, daí a alta concentração. Há que se lembrar também que o Vietnã tem uma população de mais de 90 milhões de pessoas, então a ocupação da terra tem que ser mais densa mesmo.

Saindo do porto de Halong

Saindo do porto de Halong

Depois da longa viagem, chega-se a um porto da cidade de Halong, só para barcos de passeio. Não se assuste, o lugar é meio feioso e caótico mesmo, mas com o guia e com a operadora contratada, não há porque se preocupar. Logo se entra no barco e, em poucos minutos, o caos fica para trás e a beleza da baía começa a aparecer. Achei um pouco estranho o barco só para duas pessoas (além do guia e da tripulação, claro), mas, afinal, era um tour privado.

Luzes coloridas na caverna Động Thiên Cun

Luzes coloridas na caverna Động Thiên Cun

Caverna Hang Dau Go

Caverna Hang Dau Go

Pouco tempo depois, paramos numa ilha para visitar duas cavernas. A primeira, a  Động Thiên Cun, foi “adornada” com luzes coloridas meio bregas, bem como com pequenos trechos de água corrente artificial. Ainda assim, há formações rochosas bem interessantes que valem a visita. Ao lado, parte de um mesmo sistema, fica a Hang Dau Go, com menos iluminação artificial (e sem as cores berrantes). Nela, há algumas “pichações” antigas nas pedras, em chinês e em francês. Há outras cavernas na baía, mas acho que essas são as mais visitadas. De todo modo, quando paramos lá, não havia quase ninguém. Nosso guia explicou que eles organizam o tour para evitar a maior parte dos grupos. Ponto para a Handspan!

Entrada estilo casquinha de siri no almoço

Entrada estilo casquinha de siri no almoço

Molhinhos que acompanham as comidas vietnamitas

Molhinhos que acompanham as comidas vietnamitas

Depois das cavernas, voltamos para o barco e seguimos o passeio. Logo foi servido o almoço, composto basicamente de peixes e frutos do mar (avise antes se você não gostar ou for alérgico). Eu achei uma delícia, não esperava um almoço tão bom num passeio de barco. Os molhinhos vietnamitas que acompanham a refeição dão um toque especial; nosso guia explicava qual deles era indicado para cada comida. Para acompanhar, nos ofereceram vinho chileno (!!!) e um vietnamita, branco. Escolhemos, claro, o vietnamita, para conhecer. Não achei nada demais, mas também não estava ruim. Depois, em Hue, experimentei um vinho vietnamita tinto, mas preferi o branco que nos serviram neste passeio. É bom ressaltar, porém, que as bebidas não estão incluídas no preço e são cobradas no final.

Uma das "vilas" flutuantes na baía

Uma das “vilas” flutuantes na baía

Depois do almoço subimos para o deck. O tempo estava frio, com uma chuva fina às vezes, mas em alguns lugares foi possível admirar a beleza das formações rochosas e o mar de cor verde intensa. A maior parte das ilhas não é habitada; contudo, há algumas “vilas” artificiais flutuantes, cujos ocupantes vivem da pesca (e das visitas dos turistas). Não descemos em nenhuma delas, mas passamos por algumas durante o passeio. Depois de uma pequena volta na baía, retornamos ao porto. Ainda nos aguardava a longa viagem de volta. Paramos numa loja no caminho (esses passeios sempre param em algum lugar para compras), com produtos vietnamitas, mas até que não senti muita pressão para comprar, não. Como estávamos cansados, nos limitamos a ir ao banheiro e comprar alguma coisa para comer (tinha umas balas de coco ótimas!)

Baía de Halong

Baía de Halong

Independentemente do clima, achei um passeio imperdível; tirando o cansaço do bate-e-volta, gostei muito. De todo modo, é bom perguntar para a operadora se, em caso de tempo muito ruim, é possível cancelar o passeio e se há reembolso, caso o clima não melhore nos dias em que você estiver por lá.

Hanói — 2.ª parte

Fachada do Museu de Etnologia do Vietnã

Fachada do Museu de Etnologia do Vietnã

(Este texto é uma continuação deste outro)

No segundo dia, optamos por começar pelo Museu de Etnologia do Vietnã, que eu recomendo vivamente. Ele reúne artefatos e objetos das várias minorias étnicas do país, de um modo bastante interessante. Não deixe de forma alguma de visitar os jardins atrás do prédio do museu, onde estão recriações de construções tradicionais de algumas dessas minorias, em tamanho natural. Ou seja: dá inclusive para entrar e vê-las por dentro. A que eu mais gostei foi a casa comunitária da etnia Bahnar (foto abaixo), com telhado bem alto e pontudo. Há uma lojinha (claro) que vende artesanato vietnamita; comprei uma linda aquarela do bairro antigo de Hanoi que hoje enfeita minha mesa de trabalho.

Roupa tradicional do Museu de Etnologia do Vietnã

Roupa tradicional do Museu de Etnologia do Vietnã

Casa da etnia Bahnar no Museu de Etnografia

O único problema é que esse museu é beeeem longe do centro. Fomos de táxi; na ida, tudo tranquilo, pois nosso hotel chamou o táxi e explicou para onde íamos. Na volta, porém, pegamos um na saída do museu, e foi este que estava com o taxímetro adulterado. Veja no hotel se é possível contratar alguém para levar você até lá e esperar para a volta; assim você não fica apressado como numa excursão, e evita o problema de pegar um táxi pouco confiável na volta.

Entrada do templo Tran Quoc

Entrada do templo Tran Quoc

Mulheres fazendo orações na frente do pagode no templo de Tran Quoc

Mulheres fazendo orações na frente do pagode no templo de Tran Quoc

O taxista mala, na verdade, nos deixou nas proximidades do templo Tran Quoc. Assim como o Ngoc Son, fica numa ilhota, mas no lago Tay Ho, o maior da cidade, ao norte do mausoléu do Ho Chi Minh (Hanoi é cheia de lagos dentro de sua área urbana). O templo Tran Quoc é um dos mais antigos do Vietnã, mas o local já passou por algumas reconstruções. Quando chegamos, estava acontecendo alguma cerimônia, com várias mulheres vestidas de roxo dentro do pagode, de modo que mal conseguimos entrar nele. Em todo caso, foi bastante interessante observar as oferendas do lado de fora, como comidas e dinheiro falso, e a cerimônia em si. No Tran Quoc há também uma linda torre com detalhes e estátuas de porcelana, bem em estilo chinês.

Oferendas na frente do pagode no templo de Tran Quoc

Oferendas na frente do pagode no templo de Tran Quoc

Torre com detalhes em porcelana no templo de Tran Quoc

Torre com detalhes em porcelana no templo de Tran Quoc

Reservamos a tarde para passear no bairro antigo e para ver o teatro de marionetes aquáticas. Este teatro é uma tradição do norte do Vietnã bastante antiga, desenvolvida por trabalhadores das plantações de arroz. Como o nome diz, ele é apresentado dentro da água. Os bonecos de madeira são manipulados por meio de longas hastes que ficam embaixo d’água, e os artistas ficam escondidos por trás de uma cortina escura. As cenas normalmente representam episódios da vida no campo ou lendas do país, e são acompanhadas de música tradicional. Há vários locais espalhados pela cidade, mas escolhemos ver  no Teatro de Marionetes Aquáticas Thang Long, perto de onde estávamos, na proximidade do lago Hoan Kiem (endereço 57B P Dinh Tien Hoang). Compramos no mesmo dia, com algumas poucas horas de antecedência, o que nos permitiu almoçar nas proximidades; há várias performances ao longo do dia. E o programa que eles distribuem tem um resuminho de cada esquete. Para fotografar, é necessário pagar uma taxa extra.

Cena no teatro de marionetes aquáticas

Cena no teatro de marionetes aquáticas

Depois do teatro, saímos andando pelas ruelas do bairro antigo, um passeio bastante pitoresco, como disse no começo do texto. Há muitos séculos, as guildas de diferentes profissões se estabeleceram na área, cada uma ocupando uma rua, o que deu origem aos nomes das vias, quase sempre precedidos de um hang (mercadoria), seguido do nome do produto que era vendido ali. Claro que hoje em dia isso mudou, mas muitas ruas continuam especializadas em determinados produtos.

Sapatos na rua Hang Dau

Sapatos na rua Hang Dau

A rua do nosso hotel, por exemplo, Hang Dau (ou Dzau), tinha várias lojas de sapato, mas naquele estilo meio 25 de Março. A P Hang Chieu tinha lindas lojas de lanternas e flores de papel. Já a P Hang Quat tem altares e estátuas budistas aos montes. Algumas ruas vendem produtos mais prosaicos e menos “turísticos”, como espelhos e ferragem. Pegue um mapa no hotel para procurar ruas específicas, mas o legal também é sair andando meio sem rumo, presenciando cenas do quotidiano local. No “canto” nordeste do bairro antigo também fica um dos antigos portões da cidade, o Cua O Quand Chuong (Portão Leste).

Lanternas e flores na rua Hang Chieu

Cua O Quand Chuong (Portão Leste)

Cua O Quand Chuong (Portão Leste)

Ainda tentamos visitar a Catedral de São José, um dos templos católicos remanescentes da época francesa, em estilo neogótico, mas já era noite e ela estava fechada.

Fachada da loja de camisas e camisetas Unnui

Fachada da loja de camisas e camisetas Unnui

Hanoi tem várias lojas de camisetas com motivos locais, o que pode ser uma boa lembrança. Não tem nada daquela coisa “minha tia foi a Hanói e a única coisa que ela me trouxe foi esta camiseta vagabunda”, são desenhos mostrando cenas do bairro antigo, as onipresentes motocicletas, ou mesmo Buda, como a que eu comprei para mim. A mais onipresente é a Ginkgo, que vende inclusive em uma loja em Siem Reap, no Camboja, e em várias outras cidades do Vietnã. Comprei minha camiseta lá, na rua Hang Gai, mas tem outra perto de onde ficamos, na Hang Be. Outras lojas que visitamos foram a Unnui, na P Ta Hien, uma rua cheia de bares para gringos, e a Papaya, também com lojas em outras cidades, mas há várias espalhadas pelo bairro antigo e arredores.

Entrada do restaurante Green Tangerine

Entrada do restaurante Green Tangerine

Além do KOTO, já mencionado no texto, o outro restaurante que tenho para indicar é o Green Tangerine, também perto do nosso hotel, no bairro antigo. Entra-se por um lindo pátio com jardim e pés de tangerina — cujas mesas, infelizmente, estavam lotadas. Mas a parte interna também enche os olhos, já que o lugar é uma antiga casa colonial do começo do século XX. A comida estava ótima e, se os preços não estão entre os mais baratos do Vietnã, também não vão assustar um brasileiro (principalmente os paulistas, brasilienses e cariocas).

A área a oeste do lago Hoan Kiem tem vários bares e restaurantes também, principalmente ao redor da Catedral de São José. Comemos na nossa última noite no La Salsa, de estilo espanhol, que fica por ali. Nada memorável, mas o lugar é agradável, toca salsas e outros ritmos latinos, e como a rua onde ele fica (P Nha Tho) e a região em volta tem várias opções, se não te agradar muito você pode procurar outro lugar. Lembro que ficamos em dúvida entre ele e o Mediterraneo, de comida italiana.

Resumindo, tem muita coisa legal para ver e fazer em Hanói. Pode não ser a cidade mais agradável do mundo, mas é possível passar alguns dias lá e ver coisas bonitas e interessantes. Deixe as primeiras impressões de lado (e as impressões alheias também) e tire suas próprias conclusões.

Hanói — 1.ª parte

Cena do bairro antigo de Hanoi

Cena do bairro antigo de Hanói

Hanói é a capital do Vietnã. Embora seja a segunda maior cidade do país (a primeira é Ho Chi Minh City, antigamente conhecida por Saigon), possui mais de 6 milhões de habitantes — ou seja, não é uma cidade pequena. A cidade é bastante visitada pelos turistas que vão ao Vietnã, seja pelo seu status de capital do país, seja por ser ponto de partida para alguns dos passeios mais procurados por quem vai ao país, como as vilas rurais na região montanhosa de Sapa ou a linda Baía de Halong, com seus milhares de ilhotas rochosas.

Templo em Hanói

Templo em Hanói

Dito isso, se você perguntar a quem já foi, ou procurar na internet, verá muitas impressões negativas sobre Hanói. A cidade não está, de fato, entre as mais belas do mundo. O trânsito é caótico e a cidade é bem espalhada, sem um transporte público que atenda ao turista. Além do mais, tirando talvez o centro antigo, boa parte da cidade é uma sucessão de ruas sem qualquer característica especial. De todo modo, Hanói não é apenas a capital política do país, mas é também seu centro cultural mais importante. Ainda que Saigon e seus boulevares franceses pareçam mais atrativos ao primeiro olhar, aquela cidade, situada no sul do país, pouco tem a ver com a raiz cultural do Vietnã — na verdade, a assimilação do sul do país é relativamente recente na história do Vietnã. Hanói é uma cidade milenar — tornou-se capital do país, pela primeira vez, em 1010 — e é lá que você verá alguns dos templos e pagodes mais bonitos e importantes do Vietnã. Além do mais, parece pouco provável que você viaje ao Vietnã sem passar por sua capital — nem que seja para ir para Sapa ou para a Baía de Halong. Por isso, desconsidere a primeira impressão desagradável que cidade pode lhe trazer e se apóie no lado cultural milenar de Hanói. Este texto é uma tentativa de mostrar o que a cidade tem de legal e bonito.

Templo da Literatura

Templo da Literatura

O primeiro ponto é: quanto tempo ficar? Quem acompanha os textos do blog sabe que eu sempre faço aquele alerta de que a divisão do tempo é algo muito individual e particular, tem gente que prefere fazer as coisas com mais calma, tem gente que quer conhecer o maior número de lugares possível numa viagem… Dito isto, e considerando as ponderações do parágrafo anterior, minha estadia na cidade durou incríveis quatro noites. Mas se a cidade é meio desenxabida, como dito acima, vale à pena? Bem, tenho que destacar em primeiro lugar que chegamos bem tarde de Siem Reap, então na primeira noite fomos direto para o hotel dormir. Além disso, no último dia, fomos cedo de avião para Hue. Ou seja: as quatro noites foram, na realidade, três dias completos. Um deles foi utilizado numa viagem bate-e-volta para a Baía de Halong que consumiu o dia inteiro. Ou seja, no frigir dos ovos, foram dois dias para conhecer Hanói. Eu achei bastante razoável, mas devo dizer que foram dois dias com programação bem intensa, em que conseguimos ver muita coisa. Se você prefere fazer as coisas com mais calma, pode programar três dias (lembrando sempre que não vale incluir aí passeios e viagens bate-e-volta, como a que eu mencionei). Ficar mais do que esse tempo, na minha opinião, pode ser entendiante, mas lembre-se sempre: cada um tem seu ritmo.

Comida de rua em Hanói é assim - aqui, no bairro antigo

Comida de rua em Hanói é assim — aqui, no bairro antigo

O segundo ponto é: onde ficar? Escolhemos o Meracus Hotel, na parte antiga da cidade: a decoração é meio rococó demais para o meu gosto, mas o hotel é confortável e o atendimento superatencioso. Eles têm computadores com acesso à internet dentro dos quartos (o que parece ser uma constante no Vietnã, pois vimos isso em outras cidades também). O preço para 4 noites foi 260 dólares, o que é bastante razoável para um quarto duplo. Quanto à região, achei conveniente: o hotel fica próximo do lago Hoan Kiem, uma área movimentada com vários restaurantes e bares. A parte antiga de Hanói (Old Quarter) é muito pitoresca e rende fotos interessantes, bem no estilo chiclê-vietnamita: lojas entulhadas de bugigangas, gente comendo na rua em mini banquetas, tias com chapéu cônico carregando produtos naquele suporte parecido com uma balança. É lá também que ficam as tunnel houses, super estreitas na fachada e compridas na profundidade. O único problema foi um dia em que voltamos mais tarde para o hotel e a região estava bastante vazia, com umas pessoas estranhas que tentaram nos abordar. Mas dá para sair para jantar, por exemplo, e voltar à pé para o hotel, sem problemas; só não arrisque andar por lá depois da meia-noite. Se for sai e voltar nesse horário, pegue um táxi.

Lago Hoan Kiem

Lago Hoan Kiem

Há uma região mais ao sul da parte antiga, ao redor de onde fica a linda Ópera de Hanoi, área com algumas lojas de grife e galerias, que pode ser uma opção para hospedagem interessante (talvez mais cara). Também não fica muito distante do lago Hoan Kiem e é possível caminhar até a parte antiga. Se você encontrar um hotel nessa parte da cidade, acho que ficará também bem localizado. De todo modo, para outras atrações da cidade, como o mausoléu do Ho Chi Minh e o Templo da Literatura, é recomendável pegar um táxi (um táxi do nosso hotel, no bairro antigo, até o mausoléu custou aproximadamente 70.000 dongs).

Os táxis, para variar, são um problema. O Lonely Planet traz um alerta sobre a máfia de táxi do aeroporto de Hanói. Por isso, preferimos contratar um transfer na nossa chegada junto ao hotel, que custou 18 dólares (meio caro, mas o aerporto é bem longe). Quando íamos fazer passeios mais distantes de onde estávamos (como nos exemplos do parágrafo anterior), pedíamos para o pessoal do hotel chamar um táxi. Eles já explicavam para onde íamos e o preço do taxímetro sempre parecia correto. O problema era pegar um táxi para voltar; tínhamos que chamar um na rua mesmo. Mas só tivemos problema uma vez, em que o taxímetro devia estar adulterado, pois a corrida foi consideravelmente mais cara que a da ida. Um casal de brasileiros que conhecemos num trem nos disse que haviam lido que os táxis Mai Linh, de cor verde e branca, eram mais confiáveis. Não comprovei a informação, mas fica a dica.

Motocicletas frenéticas em Hanói

Motocicletas frenéticas em Hanói

Um outro problema de Hanoi (e do Vietnã de uma forma geral) é o de atravessar a rua. Sabe aquele joguinho antigo de Atari em que você tinha que atravessar uma galinha do outro lado da rua? Pois então, você vai se sentir mais ou menos daquele jeito. Os carros até que respeitam os sinais, mas as motos, que constituem uns 80% do tráfego vietnamita, sobem até na calçada. No hotel tinha até umas instruções sobre como atravessar a rua. Basicamente, você tem que fazer contato visual com os motoristas, e quando decidir atravessar, vá sempre em frente — os motoristas e motoqueiros presumem que você seguirá e vão te contornar por trás. Por isso, se você voltar pode se dar mal. Outra tática é esperar um local atravessar e ir meio que seguindo ele. Entendeu? Pois é, segura na mão de Confúcio e vai. Por sorte, o trânsito é tão caótico que não permite velocidades altas e acidentes mais feios. Aliás, prepare-se para ouvir muita buzina. O tempo inteiro.

Frase em vietnamita no mausoléu de Ho Chi Minh

Frase em vietnamita no mausoléu de Ho Chi Minh

O Vietnã já usou caracteres do alfabeto chinês, mas há pouco mais de cem anos foi adotada uma versão, desenvolvida no século XVII por um missionário jesuíta, com caracteres do alfabeto latino, como você pode ver na foto acima; são usados alguns sinais gráficos diferentes para indicar a pronúncia, já que o vietnamita é uma língua tonal. O curioso é que todas as palavras são, a princípio, monossilábicas, mas da combinação delas surgem ideias diferentes. De todo modo, nos locais turísticos, o inglês é largamente usado e compreendido; não tivemos grandes problemas com comunicação — bem, nos táxis a comunicação era apontando o nome ou o lugar no mapa. Em todo caso, um sin djao (oi) e um cam on (obrigado) eram sempre recebidos com sorrisos.

O estilo sóbrio do mausoléu de Ho Chi Minh

O estilo sóbrio do mausoléu de Ho Chi Minh

Passando propriamente às atrações turísticas, um dos lugares mais visitados da cidade é, sem dúvida, o mausoléu do Ho Chi Minh. Embora concorde que parece bizarro ver alguém embalsamado há tanto tempo (ele morreu em 1969!), eu gostei. O prédio em si já é imponente, num estilo bastante sóbrio, típico dos tempos soviéticos, quase um templo grego. Apesar das filas que se formam, não é demorado para entrar, já que não é permitido ficar parado lá dentro olhando o corpo do (pequenino) herói vietnamita. Também não é permitido fotografar, rir ou conversar lá dentro; fui cochichar uma coisa quando já estávamos do lado de fora da sala, descendo as escadas para sair, e fui repreendido. Guarde suas impressões para comentar do lado de fora. É um local de bastante simbologia e respeito para os vietnamitas, então vista-se apropriadamente.

Há algumas outras restrições a respeito do mausoléu. A primeira é que as visitas só acontecem pela manhã, até as 11h. Portanto, programe a visita como o primeiro passeio do dia, logo cedo. Além disso, o corpo, uma vez por ano, é levado até a Rússia para a manutenção do embalsamamento. De acordo com o Lonely Planet, isso dura em torno de dois meses, mas não explicam quando isso acontece (acho que varia de ano para ano), o que pode ser bem decepcionante: tio Ho pode não estar lá quando você for. Tentei pesquisar a respeito e não descobri nada. O sítio oficial deles, com a maioria das informações em vietnamita, não ajuda muito. Diz o Lonely Planet, ainda, que você não pode entrar com câmeras e celulares. Há, de fato, um balcão no final da fila para você deixar objetos e pegar na saída. Contudo, entramos normalmente com nossos celulares e câmeras dentro do bolso, sem qualquer objeção. Basta que você não faça qualquer menção de que vai usá-los e tirar alguma foto lá dentro. Se você estiver de mochila ou com alguma bolsa maior, porém, acho que vão pedir para você deixar no guarda-volumes.

Troca da guarda no mausoléu de Ho Chi Minh

Troca da guarda no mausoléu de Ho Chi Minh

Na saída do mausoléu, ainda pegamos a troca da guarda, que rende boas fotos (ali não tem problema nenhum fotografar). Acho que ela acontece mais para o final do período de visitação.

Palácio presidencial

Palácio Presidencial

Considerando-se que você visitou o mausoléu logo cedo, aproveite o resto da manhã para conhecer os jardins que ficam ao redor. A entrada é à direita da praça onde fica o mausoléu (chamada Ba Dinh). O primeiro prédio que você vai ver, logo à direita, bem amarelo, é o Palácio Presidencial. Na realidade, é um prédio da época colonial, onde ficava o Governador-Geral da Indochina. É usado para recepções oficiais e não é aberto ao público, mas é possível observá-lo de fora.

Lago ao redor do Jardim Botânico

Lago no Jardim Botânico

Em seguida, chega-se a uma área bastante arborizada, conhecida como jardim botânico, ao redor de um agradável lago. A área é pontuada com algumas construções, bem mais simples que o Palácio Presidencial, onde, dizem, Ho Chi Minh viveu durante algum tempo. Há alguns carros que ele usou durante sua vida (Peugeots antigos), um quarto com imagens do Marx e do Lênin, e uma casa em palafita imitando o estilo de casas tradicionais rurais do Vietnã, que teria sido preservada da forma como Ho a deixou.

Escritório usado pelo Ho Chi Minh. Note as fotos do Marx e do Lênin na parede

Escritório usado pelo Ho Chi Minh. Note as fotos do Marx e do Lênin na parede

Casa em estilo palafita usada por Ho Chi Minh

Casa em estilo palafita usada por Ho Chi Minh

Pagode de um pilar

Pagode de Um Pilar

Também na área do mausoléu podem ser visitadas outros dois pontos turísticos. O primeiro é o Pagode de Um Pilar, um antigo templo construído originalmente no século XI… com apenas um pilar, de 1,25m de diâmetro. Mas o que você vai ver é uma reconstrução, já que os franceses fizeram o favor de destruir o original antes de abandonar o Vietnã, após perder a guerra pela independência.

Fachada do Museu Ho Chi Minh

Fachada do Museu do Ho Chi Minh

O segundo é o Museu do Ho Chi Minh, dedicado à história do líder. O museu ocupa um prédio modernoso, com o tradicional desenho da foice e do martelo na fachada da entrada. O museu fecha para o almoço, então se você não tiver visitado o mausoléu e o restante do complexo cedo, não vai conseguir entrar. Mas, sinceramente, se não der, não acho que vai perder muita coisa. Há uma estátua bem grande do tio Ho logo na entrada, bastante disputada para fotos. A exposição do museu é até bem moderna, mas não achei das mais empolgantes. Talvez com um guia contextualizando alguns objetos expostos fique mais interessante. Aliás, há museus dedicados ao Ho Chi Minh em várias cidades do Vietnã; visitamos o de Saigon também e eu tampouco fiquei impressionado. Gosto muito de história, mas talvez seja algo que chame mais a atenção dos locais.

Prato no restaurante KOTO. Note as folhas de massa de arroz do lado

Prato no restaurante KOTO. As folhas de massa de arroz para fazer os rolinhos estão de lado na bandeja

Saímos de lá morrendo de fome, mas rumamos, de táxi, para o Templo da Literatura. Antes de entrar, aproveitamos para almoçar no agradável KOTO, bem ao lado. É um projeto que oferece treinamento profissional na área de gastronomia a jovens em situação precária, o que já vale a visita. A comida estava boa; o único problema é que eu pedi um prato que envolvia fazer meus próprios rolinhos, o que se mostrou um desastre. As folhas de massa de arroz vinham separadas do “recheio”, e as primeiras tentativas ficaram grandes, disformes e desmanchavam fácil. No final, foi até divertido. Para acompanhar, uma das cervejas locais: a Bière Larue. O Vietnã tem várias marcas locais de cerveja, e muitas não fazem feio.

Portão de entrada do Templo da Literatura

Portão de entrada do Templo da Literatura

Almoço terminado, visitamos o Templo da Literatura, que é uma das atrações mais bacanas de Hanoi. O lugar é uma antiga universidade, onde estudantes de todo país iam aprender os princípios do Confucionismo, literatura e poesia. O legal é que o lugar preserva a arquitetura tradicional do país, com lindos jardins e o tradicional laguinho, aqui em formato quadrado. Ao redor dele, pedras apoiadas por esculturas de tartarugas trazem os nomes e feitos dos principais aprendizes do lugar. No fundo, um templo abriga uma estátua de Confúcio, normalmente ladeada por oferendas e pelos onipresentes incensos.

Pedras com nomes dos alunos mais renomados do Templo da Literatura

Pedras com nomes dos alunos mais renomados do Templo da Literatura

Laguinho no Templo da Literatura

Laguinho no Templo da Literatura

Ópera de Hanói

Ópera de Hanói

De lá, rumamos, também de táxi, para a Ópera de Hanoi, um lindo prédio dá época francesa, recentemente restaurado. Infelizmente não entramos, e nem sei se isso é possível, mas você pode tentar ver se haverá algum espetáculo lá para conhecer o prédio por dentro (consulte aqui). Também presenciamos noivos e convidados de um casamento tirando fotos na frente, o que parece ser bastante comum. Nas proximidades da ópera, ficam dois museus: o Museu Nacional de História do Vietnã e o Museu da Revolução Vietnamita, bem próximos um do outro. Só visitamos o primeiro e, embora fique num lindo prédio colonial e tenha algumas peças interessantes, não me chamou muito a atenção. Não é um museu grande, de qualquer forma, de modo que, se você decidir visitá-lo, não gastará muito tempo.

Torre Thap Rua no Lago Hoan Kiem

Torre Thap Rua no Lago Hoan Kiem

Terminamos o dia com um passeio pelo lago Hoan Kiem, bem no coração da cidade e ao sul do bairro antigo. O lago em si não é muito grande e nem é dos mais pitorescos, mas é bastante emblemático para os vietnamitas, já que envolve uma lenda antiga do país. Um antigo rei, um dia, encontrou uma tartaruga dourada no lago, que levou para as profundezas a espada mítica que ele usou na guerra para expulsar os chineses do país. Além disso, os vietnamitas modernos adoram usar os arredores do parque para praticar esportes, seja corrida ou o tradicional tai chi, ou simplesmente para passear. A propósito, uma tartaruga gigante ainda habita o lago, a última das muitas que já viveram ali. Ela tem até nome: Cu Rua.

Ponte de madeira para o Templo Ngoc Son

Ponte de madeira para o Templo Ngoc Son

No lago há duas ilhas. Uma, minúscula, abriga uma torre bastante arruinada, apropriadamente chamada de Thap Rua (Torre da Tartaruga), um dos símbolos da cidade. A outra, maior, é onde fica o templo Ngoc Son, um dos mais visitados da cidade. Uma linda ponte vermelha de madeira, ladeada por bandeiras coloridas, liga a margem à ilha do templo. É um passeio bastante agradável, apesar do movimento grande de locais e turistas, já que o templo é cercado pelo lago e tem muitas árvores, inclusive algumas de uma laranja minúscula, muito frequente em templos do Vietnã. Dentro, os tradicionais templos em estilo pagode, estátuas de heróis locais e muito incenso. Também é possível ver uma tartaruga gigante empalhada que já viveu no lago.

Templo Ngoc Son

Templo Ngoc Son

(O relato sobre Hanói continua aqui).

Siem Reap e os templos de Angkor (4.ª parte) — Banteay Srei, Pre Rup e dicas da cidade

Banteay Srei

Banteay Srei

Como contei no texto anterior, a parte final do passeio em Angkor Thom foi sofrida por causa do calor e do cansaço. Poderíamos ter voltado lá à tarde com mais calma, mas preferimos conhecer outro templo: Banteay Srei. Trata-se de um sítio localizado a cerca de 32 km de Siem Reap, mas o deslocamento toma quase uma hora de carro. Ou seja: não deu para enrolar muito depois do almoço, nem programamos nada para fazer na mesma tarde.

Riqueza de detalhes em Banteay Srei

Riqueza de detalhes em Banteay Srei

Foram vários os motivos que me fizeram querer conhecer Banteay Srei e me aventurar a esta distância da parte mais central das ruínas. Em primeiro lugar, apesar de pequeno, tem entalhes com muitos detalhes, de modo que é considerado um dos mais refinados exemplos da arte do Império Khmer. Mesmo comparados com os murais da parede externa do Angkor Wat, os entalhes de Banteay Srei impressionam pela riqueza de elementos. Além disso, ele foi todo construído com uma pedra de tonalidade rosada, bastante diferente dos outros templos que havíamos visitado. Finalmente, foi o primeiro grande projeto de restauração na região assumido pela École Françance d’Extrême-Orient (EFEO), que eu mencionei no texto anterior quando falei do Baphuon. Ali também foi usada a técnica na anastilose.

Outra particularidade do templo de Banteay Srei é que ele não foi encomendado por um rei, mas por um nobre da corte. Ele foi dedicado inicialmente a Shiva, uma das deidades da tríade hindu. Banteay Srei é um nome moderno e, de acordo com o que pesquisei, significa “Cidadela das Mulheres”. O nome pode ter vários significados: desde a riqueza de detalhes, atribuídos às mãos delicadas de uma mulher, o tom rosado da pedra usada, ou ainda as várias figuras femininas presentes nas paredes, identificadas como figuras míticas chamadas de devatas. Todos esses detalhes e a recomendação de uma amiga brasileira que havia visitado o templo atiçaram minha curiosidade.

Detalhe de uma naga esculpida em Banteay Srei

Detalhe de uma naga esculpida em Banteay Srei

O templo é bem pequeno — o maior gasto de tempo que você terá se for visitá-lo é com o deslocamento mesmo. Ainda assim, é de encher os olhos: o tom da pedra e a riqueza dos entalhes impressionam, de fato. Depois de passar por uma calçada similar a dos outros templos, chega-se a um pórtico. Essa parte é aberta, mas a parte mais interna, onde ficava o templo propriamente dito, é fechada por uma corda. Mesmo assim não se fica a uma distância muito grande, e é possível apreciar a riqueza dos entalhes.

Banteay Srei

Banteay Srei

Talvez por ter sido um dos primeiros templos restaurados, Banteay Srei conta com uma estrutura razoável na entrada, antes de se chegar ao sítio arqueológico propriamente dito. Há um estacionamento, algumas galerias onde é possível comprar comidas, bebidas e lembrancinhas, além de informações sobre a restauração do templo. É uma estrutura melhor do que a que existe na entrada dos templos principais de que eu falei nos outros textos, mas talvez isso se justifique pela distância em relação a Siem Reap. Em todo caso, o ingresso está incluído no bilhete geral que permite acesso aos outros templos de Angkor. É bom lembrar também, como eu mencionei no primeiro texto, que os motoristas costumam cobrar um adicional para te levar em Banteay Srei.

Pre Rup

Ao sairmos de lá, a tarde já se encaminhava para o fim, e perguntamos ao motorista se ele poderia nos levar em algum lugar para vermos o pôr-do-sol. Ele sugeriu o templo Pre Rup, uma das dicas do Lonely Planet também, que fica no caminho de Siem Reap para Banteay Srei. Chegamos sem muitas expectativas, pois já havíamos visitado os principais templos da região, mas até que o lugar nos surpreendeu. Pre Rup segue o formato de pirâmide de outros templos, mas não há regras nem direcionamentos sobre onde subir: você escolhe a escada que lhe parecer melhor. E é de cima que se pode ver o sol se pondo. As torres da parte superior também foram construídas, supostamente, para parecerem botões de flor de lótus, mas as achei diferentes das outras torres de Angkor, num formato quase maia.

Esperando o pôr do sol em Pre Rup

Esperando o pôr do sol em Pre Rup

Aos poucos, as pessoas foram chegando ao local e subindo até o topo do templo para apreciar o pôr-do-sol. A visão ao redor é basicamente de selva; mas a visão do sol se pondo é sem obstáculos. As árvores e as pedras do templo, banhadas pela luz intensa do sol, iam ganhando cores diferentes. Cansados, não quisemos esperar até o final, mas o que vimos foi suficiente para nos deixar maravilhados.

Banteay Srei

Pre Rup

No dia seguinte, não queríamos nos aventurar em outras ruínas, já que nosso voo para Hanoi saía à noite e, fazendo o check out do hotel ao meio-dia, não teríamos como tomar um banho para tirar o suor e a poeira que nos acompanharam nas visitas dos dias anteriores. Bem, você pode perguntar no hotel onde você estiver se isso é possível, mas o fato é que estávamos cansados e resolvemos ficar pela cidade mesmo.

A cidade de Siem Reap, é claro, vive muito do turismo e cresceu com o aumento das visitas aos templos de Angkor (tem menos de 200 mil habitantes), mas é só você se afastar um pouco da área mais turística para ver escolas, hospitais, gente trabalhando, enfim, a vida de uma cidade como outra qualquer. O fato é que a quantidade de turistas aumentou a oferta de bons restaurantes e de diversão noturna. Você pode passar uma semana lá comendo em restaurantes bacaninhas que não fariam vergonha numa cidade grande. Por isso, como expliquei no primeiro texto, acho interessante arranjar um hotel na cidade, o mais próximo possível do buxixo, para facilitar sua vida à noite. As estrelas da viagem, é claro, são os templos, mas isso não significa que você não possa gastar um pouco de tempo na cidade em si.

Buxixo ao redor da Pub St

Buxixo ao redor da Pub St

E onde é o buxixo? Bem, a gringolândia se concentra basicamente num triângulo formado pelas ruas Sivatha e Pithnou, até o mercado e o rio Siem Reap. Não é uma área muito grande, mas é bem possível que você acabe por lá toda noite. Você pode escolher um café para um lanche rápido, ou comida francesa, italiana, indiana, japonesa… e khmer, claro. A quantidade de opções é grande. A principal rua que corta esse “triângulo” é a Pub St, mas essa é também a mais bagaceira, onde ficam os bares tocando música alta e gente tentando levar os turistas para dentro ou oferecendo ladies para os marmanjos (bem, isso é Ásia também). Acima e abaixo da Pub St, porém, ficam duas ruelas só para pedestres (ou que deveriam ser) chamadas de “The Lane” e “The Alley”, onde se concentram boa parte dos restaurantes, algumas lojinhas e bares menos barulhentos. A região concentra também, claro, um monte de gente fazendo aquelas massagens expressas: com 2 dólares você ganha 15 minutos. Pode não ser a melhor massagem da sua vida, mas sempre ajuda depois de um dia visitando ruínas.

Pois bem, feito esse parênteses sobre Siem Reap, depois do café da manhã, resolvemos conhecer o Museu Nacional Angkor, que fica mais ao norte dessa área que eu mencionei acima. Dá para caminhar, mas preferimos gastar 2 dólares num tuk-tuk. O acervo do museu é razoável é há explicações sobre os elementos do hinduismo, do budismo e da cultura khmer; há, inclusive, explicações sobre a linga, um símbolo fálico de fertilidade do hinduísmo que você vê em alguns templos, com alguns exemplares no museu. Dá para gastar um par de horas ali dentro; não é permitido tirar fotografias do acervo.

Royal Gardens e o Grand Hotel d'Angkor ao fundo

Royal Gardens e o Grand Hotel d’Angkor ao fundo

Ao lado do museu fica uma praça agradável e florida chamada de Royal Gardens, para onde está voltada uma das grandes damas da hotelaria da cidade, um exemplar da época da Indochina francesa: o Grand Hôtel d’Angkor. De lá fomos à pé até nosso local de almoço: o FCC Angkor. FCC é uma sigla em inglês para Foreign Correspondents’ Club (ou seja, Clube dos Correspondentes Estrangeiros), mas, de acordo com o Lonely Planet, este lugar nunca foi um ponto de encontro para jornalistas estrangeiros. As críticas do TripAdvisor (estão no link que eu coloquei no nome do restaurante) dizem que o lugar já foi melhor, que a comida não é lá essas coisas. De fato, há restaurantes melhores em Siem Reap, mas não achei a comida ruim. E, mesmo sem nunca ter sido, de fato, um FCC, a arquitetura em estilo colonial, o salão voltado para um gramado de frente para o rio, enfiim, tudo isso tornou nosso almoço muito agradável. Se você estiver na região ou tiver visitado o museu, como nós, recomendo bastante. O único problema é que o salão é aberto e, assim, não há ar condicionado: só ventiladores mesmo.

Restaurante FCC Angkor

Restaurante FCC Angkor

Depois do almoço, resolvemos voltar para a região da gringolândia, que já ficava próxima ao nosso hotel. Demos uma volta na área, que à tarde fica inacreditavelmente vazia — a maioria dos turistas está nas ruínas, né –, olhamos umas lojinhas, compramos lembrancinhas, visitamos o mercado antigo (Psar Chaar), que fica entre o rio e essa área triangular. É pequeno, com algumas bugigangas para turistas, mas tem também uma parte que vende comida — e eu adoro ver o que os mercados vendem de comida em outros países. Ainda deu tempo de fazer uma massagem nos pés cansados em um spa qualquer da Sivatha St antes de voltarmos para o hotel para pegar nossas coisas e ir para o aeroporto. Se você estiver com mais tempo, convém procurar um lugar legal para massagens em Siem Reap. Claro que a massagem de rua dá para o gasto e custa baratinho, mas é bom lembrar que aquela região da Ásia é um dos pontos tradicionais de massagem do mundo. No nosso caso, tínhamos feito tantas na Tailândia, e estávamos com o tempo tão corrido, que nem nos preocupamos muito com isso. Ao lado do FCC Angkor, onde há algumas lojinhas (uma com fotografias lindas da região), vimos um spa bem bonito.

Banca de frutas no Psar Chaar

Banca de frutas no Psar Chaar

Interior do The Sun

Interior do The Sun

Além do FCC Angkor e de dois almoços no hotel, experimentamos outros dois restaurantes. O primeiro foi o The Sun, bem numa das esquinas na Pub St. Na verdade, fomos parar lá depois de tentarmos comer no recomendadíssimo Aha e não conseguirmos. Para falar a verdade, achei bastante má vontade do pessoal do Aha. Claro, chegamos com o restaurante cheio, mas não nos deram nem a possibilidade de espera, e nem era tão tarde assim, umas 21h no máximo. E, sendo duas pessoas, não acho que seria tão difícil nos acomodar lá. Mais tarde, depois de comer, passamos na frente e havia gente comendo ainda e várias mesas vazias. Em todo caso, é um lugar bastante recomendado, então se você quiser tentar ir, depois pode deixar suas impressões aqui. Mas o fato é que o The Sun cumpriu bem seu papel de segunda opção. Não foi a refeição mais memorável da viagem, mas o ambiente é agradável, a comida estava boa e os preços são razoáveis. E, pelo que eu percebi, eles atendem até mais tarde, então pode ser uma boa se você sair para comer mais tarde e estiver com dificuldade de achar um lugar.

Bar do Sugar Palm

Bar do Sugar Palm

O outro restaurante em que fomos é uma das estrelas de Siem Reap, o Sugar Palm, da chef Khetana Dunnet, que já recebeu até o Gordon Ramsay por lá. Já prevendo uma dificuldade semelhante ao do Aha, chegamos cedo, um pouco antes das 20h, e percebi que o lugar realmente enche logo. Mas dá para fazer reserva também. Não fica no buxixo em torno da Pub St, fica numa rua tranquila mais ao norte, mas dá para ir facilmente à pé até lá. Fica no segundo andar do que parece uma casa normal, e eu gostei bastante — só o calor típico da região atrapalhou um pouco, já que o lugar só conta com ventiladores para refrescar. Decoração estilo Indochina, comida gostosa, preços bons, enfim, uma ótima experiência.

Entradinha (satay) no Sugar Palm

Entradinha (satay) no Sugar Palm

Vale destacar que em todos esses lugares nenhum prato vai te custar mais de 10 dólares.

Interior do Miss Wong

Interior do Miss Wong

Também gostaria de indicar um bar, o Miss Wong, no finalzinho da The Lane. A decoração, estilo Indochina francesa dos anos 40, com bastante vermelho, leques e lanternas, é bem legal. Os drinks são bem feitos e o ambiente mais intimista não assusta como os bares turistão com música alta da Pub St.

Siem Reap e os templos de Angkor (3.ª parte) — Ta Prohm e Angkor Thom

Ta Prohm

Ta Prohm

No segundo dia, seguindo a dica do hotel, iniciamos a visita pelo Ta Prohm. Se você, preguiçoso/a como eu, não quis acordar cedo para ver o sol nascendo no Angkor Wat, ganhou algumas horas de descanso; porém, é melhor não enrolar muito. Primeiro porque, quanto antes você chegar, maior a probabilidade de pegar as ruínas mais vazias de turistas. Segundo porque, como expliquei no primeiro texto, conforme o dia avança, o calor vai aumentando. Ou seja: se você enrolar muito não vai conseguir ver muita coisa até o calor apertar e vai querer voltar para a cidade para almoçar. Vishnu ajuda quem cedo madruga.

Ta Prohm

Ta Prohm

Ta Prohm é bastante conhecido por ter aparecido no filme Tomb Raider, com a Angelina Jolie. Aliás, constatamos que uma cena do filme, em que as pequenas folhinhas das árvores caem como chuva fina, é real — e, de fato, é mágico vê-la ao vivo. O grande barato desse lugar é que nele pode-se ter uma ideia de como vários dos templos foram encontrados durande sua “redescoberta” por exploradores europeus: os galhos e raízes das árvores se enfiam no meio das pedras, das janelas e das portas do templo sem a menor cerimônia, a natureza e o poder da selva retomando seu espaço quando um lugar deixa de ser usado. Mas, pelo que eu li, não é bem assim: obviamente, algum trabalho de restauro foi feito no local (quando visitamos havia inclusive algumas máquinas por lá) para “limpá-lo” para visitas e garantir a segurança dos turistas. Ainda assim, várias árvores e ruínas foram deixadas de propósito, causando um poderoso efeito de abandono em quem visita o lugar.

Algumas intervenções foram feitas no Ta Prohm para garantir que a estrutura não ruísse

Algumas intervenções foram feitas no Ta Prohm para que a estrutura não ruísse

Outro fator diferenciador é que o Ta Prohm era um templo budista. Foi construído num período tardio do Império Khmer, quando o mítico rei Jayavarman VII introduziu o budismo numa sociedade onde até então vigorava o hinduísmo de forma predominante.

Entalhes na pedra em Ta Prohm

Entalhes na pedra em Ta Prohm

Segundo nosso hotel, se chegássemos cedo, pegaríamos o Ta Prohm mais vazio. Não sei se enrolamos muito ou se demos azar mesmo, mas chegamos quase que concomitantemente a uma grande excursão de chineses. A sorte é que, assim como eles chegam rápido, costumam ir embora rápido; é só enrolar um pouco que você perde eles de vista. Também não é um templo muito grande, de modo que é possível visitá-lo em pouco tempo. As principais árvores entranhadas nas paredes ganharam “apelidos”: logo que você entra tem a Crocodile Tree, depois a “Tomb Raider” Tree, mas o legal é ir simplesmente andando pelo lugar sem se preocupar em ver pontos específicos. Certamente você vai topar com imagens que valerão muitas fotos.

Mais uma das árvores fantásticas de Ta Prohm

Mais uma árvore fantástica em Ta Prohm

Depois de visitar o Ta Prohm, no meio da manhã, rumamos para o complexo conhecido com Angkor Thom. Na verdade, o Angkor Thom era uma cidadela, com cerca de 10 km² de área, cercada de muralhas e por um fosso, assim como o Angkor Wat. Por isso, há vários templos e ruínas espalhadas por ali, o que torna a visita mais demorada e difícil. Em todo caso, carros podem circular por algumas vias dentro do local; assim, você sempre pode se socorrer do seu motorista se estiver cansado e a próxima ruína parecer distante.

Victoria Gate,

Victoria Gate, entrada leste para Angkor Thom

Vindo do Ta Prohm, entramos no Angkor Thom pelo lindo portão leste, conhecido como Victoria Gate. Além das torres no já conhecido formato de botão de flor de lótus, ele é ladeado por outra representação do episódio mitológico conhecido em inglês como Churning of the Ocean of Milk, relatado no texto anterior.

A entrada de Bayon

A entrada de Bayon

Dentro da cidadela, o templo mais visitado e mais fotografado (e que fica no exato centro do Angkor Thom) é, sem dúvida, Bayon. São 54 torres, cada uma com quatro faces esculpidas com rostos gigantes levemente sorridentes (como são 4 por torre, são ao todo 216 “carrancas”). As faces são oficialmente representações do bodisatva Avalokiteshvara; porém, dizem que foram esculpidas à semelhança do rei Jayavarman VII. Bodisatvas são criaturas que, no budismo, já evoluíram e poderiam alcançar o nirvana; porém, fazem votos de não fazê-lo enquanto puderem ajudar outros seres a evoluírem também. Avalokiteshvara é o bodisatva que representa a suprema compaixão de todos os Budas.

Avalokiteshvara (ou seria Jayavarman VII?) te observa

Avalokiteshvara (ou seria Jayavarman VII?) te observa

Torres para todos os lados em Bayon

Torres para todos os lados em Bayon

Bayon é um dos lugares mais impressionantes que já visitei na vida. Por todo lugar quer você olha, se vê cercado por aquelas faces enigmáticas. Algumas ficam mais altas, outras mais baixas, mas você visita o templo andando no meio delas, por corredores e escadas labirínticos, de modo que é impossível fugir daqueles olhares. A quantidade de gente, a essa hora, já era grande, e o calor também; mas nada diminuiu a impressão surreal que o lugar produz. Embora seja um sítio cercado de mitos, é fácil entender o poder que aqueles rostos gigantes deviam causar nas pessoas que por ali passavam durante o Império Khmer — um potente símbolo de dominação do rei. Além do passeio no meio das torres, as paredes inferiores também são decoradas por murais em baixo-relevo, como no Angkor Wat. Aqui, o tema principal são as batalhas contra o reino Champa, que ocupava um pedaço do que hoje é o Vietnã e que tanto derrotou como foi derrotado pelo Império Khmer (o rei Jayavarman VII foi um dos que derrotou os Champa).

Estátua de Buda no caminho para Baphuon

Estátua de Buda no caminho para Baphuon

Quando saímos de Bayon, o calor já estava forte. Mesmo assim, perseveramos para conhecer um pouco mais das ruínas de Angkor Thom. Seguindo rumo ao norte, passando por uma grande estátua de Buda (moderna), chegamos a um templo estilo pirâmide conhecido como Baphuon. Depois de atravessar uma longa calçada ladeada por espelhos d’água, chega-se à pirâmide em si. É possível subir na parte superior, mas tenho dúvidas se o esforço empreendido àquela hora, com bastante calor, valeu à pena: achei as vistas apenas razoáveis.

Entrada de Baphuon

Entrada de Baphuon

De todo modo, Baphuon foi um dos principais templos a ser restaurados pela École Française d’Extrême-Orient (EFEO), instalada no Camboja ainda durante o período da colonização francesa, usando a técnica da anastilose — basicamente reconstruir um sítio histórico com o material encontrado no próprio local, após cuidadosa análise do que foi a estrutura original. Parece que em Baphuon o estado de ruína estava bem avançado, tornando o trabalho de juntar as peças do “quebra-cabeça” mais difícil. Durante os anos do Khmer Vermelho, a EFEO encerrou suas atividades no Camboja, que só foram retomadas na década de 90.

Vista do alto de Baphuon

Vista do alto de Baphuon

Ainda conseguimos passar pela ruína que fica ao lado do Baphuon, uma construção também em forma de pirâmide conhecida como Phimeanakas, mas em estado bem menos glorioso — o que é uma pena, já que essa área abrigava o Palácio Real. De lá voltamos à via principal, passando pelo Terraço dos Elefantes, cujo nome foi dado por causa de suas pilastras no formato do animal. Infelizmente, não conseguimos visitar mais nada, pois já era quase meio-dia, o calor estava insuportável e estávamos extenuados. Saímos rumo a Siem Reap pelo portão sul, também muito bonito. A tarde reservamos para visitar outro templo, de que falarei no próximo texto.

Phimeanakas

Phimeanakas

Terraço dos Elefantes

Terraço dos Elefantes

A combinação do Ta Prohm com o Angkor Thom em uma manhã se mostrou cansativa. O Angkor Thom, por ser na verdade um conjunto de estruturas muito grande e espalhado por uma área considerável, exige um pouco mais de tempo — a não ser que você queira visitar só Bayon mesmo. Na minha opinião, é recomendável gastar lá um período inteiro, de preferência uma manhã, começando cedo; se você tiver mais dias, pode até deixar um dia inteiro só para ele, ainda que faça uma pausa no meio do dia para almoçar na cidade. De todo modo, o Ta Prohm é um templo em que não se gasta muito tempo, pode ser encaixado em uma visita a algum outro lugar. Não sei se seria possível combiná-lo com uma visita ao Banteay Srei, o templo que conhecemos à tarde, que fica bem distante da região de Angkor. Em todo caso, é uma visita imperdível que você não deve deixar de fazer.

Siem Reap e os templos de Angkor (2.ª parte) — Angkor Wat

Angkor Wat

Angkor Wat

No primeiro texto sobre Siem Reap e os templos ao redor, falei um pouco sobre o Camboja e por que achei interessante visitar esse destino. Também dei algumas dicas genéricas sobre a duração do passeio, a visita aos templos e a hospedagem.

Nesse segundo texto, vou começar a relatar como organizamos o tempo em que estivemos no Camboja e, ao mesmo tempo, falar dos templos em si, do que gostei e do que não gostei. Antes, porém, uma explicação: tinha mais ou menos em mente o que queria visitar no período que passamos lá — como relatei no texto anterior, as três principais atrações são o Angkor Wat, o Angkor Thom e o Ta Prohm. Esses eram para mim os lugares imperdíveis. Claro que, se fosse possível, queria conhecer alguns outros lugares: acabamos visitando também os templos de Banteay Srei e Pre Rup. Mas não fiz uma programação prévia fixa sobre o que fazer em cada dia. Ouvi algumas pessoas que já haviam visitado o local, conversei no hotel a respeito assim que cheguei, e montei mais ou menos o roteiro na hora. Ter uma ideia do que se quer visitar é importante, mas é bom também sentir nosso ritimo quando se está de fato no local e há tantas atrações ao redor.

Turistas no Angkor Wat

Turistas no Angkor Wat

Feito este alerta, vamos à viagem. Nosso voo saiu de Bangkok cedinho, de modo que chegamos em Siem Reap no meio da manhã. Com os procedimentos para obtenção de visto e de imigração, conseguimos chegar no hotel pouco antes do almoço. Nosso hotel ofereceu o transfer do aeroporto de graça (o transfer da saída até o aeroporto, porém, nos custou 10 dólares). Fizemos o check in e resolvemos almoçar no hotel mesmo. Na chegada, entretanto, já perguntei a respeito de um motorista (como expliquei no texto anterior), combinei o preço e recebi dicas sobre a organização das visitas aos templos.

A indicação, que estava de acordo com a sugestão de uma amiga brasileira, é de que visitássemos naquela tarde o Angkor Wat. Este é o mais icônico dos templos da região, é o que aparece em toda matéria turística a respeito do Camboja e está inclusive na bandeira do país. O guia do Lonely Planet diz que ele é muito procurado para se ver o nascer do sol. Para isso, recomenda-se sair do hotel no máximo às 5h30 para conseguir ver o sol subir por sobre as torres pontudas. Ainda segundo o guia, depois que sol nasce, muita gente volta para os hotéis para tomar o café-da-manhã e o templo fica bem vazio de turistas — o que pode ser uma boa para explorá-lo.

Minha amiga, contudo, me explicou ter ficado com preguiça de fazer esse programa e que visitou o Angkor Wat no final do dia, tendo achado o volume de turistas razoável. Pesamos o cansaço acumulado nas semanas anteriores da nossa viagem (a programação em Bangkok tinha sido intensa) e resolvemos seguir a dica da amiga e do nosso hotel. Não me arrependi. É claro que deve ser mágico ver o nascer do sol naquele lugar, mas ouvi relatos – e o próprio Lonely Planet confirma isso – de que o templo fica muito cheio de gente, já que esse virou meio que um programa obrigatório para quem visita a região. Devo dizer que à tarde o volume de turistas não estava exatamente baixo (serei franco, tinha muita gente), mas, assim que o dia se encaminhava para o fim, ele foi esvaziando, e no final dividíamos o templo com poucas pessoas. Também nem adianta procurar, você não vai ver o pôr do sol ali. Mas consegumos vê-lo no dia seguinte, em Pre Rup — e, convenhamos, ficar se estressando demais para achar um lugar ideal para ver o nascer e o pôr do sol todo dia deixa qualquer um de mal humor.

Portão oeste do Angkor Wat. À direita, uma das "bibliotecas"

Portão oeste do Angkor Wat. À direita, uma das “bibliotecas”

Chegamos, como a maioria dos turistas, pelo portão oeste, mas devo dizer que é possível também entrar pelo lado leste — que, pelas fotos que eu vi na internet, é bem interessante (veja foto abaixo). Aliás, peça para o motorista dar uma volta ao redor do templo para ver qual enquadramento trará melhores fotos, pois consegui algumas boas fotos das torres à distância.

Portão leste do Angkor Wat (fonte Ian Waton/Getty Images)

Portão leste do Angkor Wat (fonte: Ian Waton/Getty Images)

Um dos corrimões da entrada com a forma da serpente mítica Naga

Um dos corrimões da entrada com a forma da serpente mítica Naga

Antes de entrar no templo em si, você vai atravessar, por uma calçada, o fosso com água que circunda o templo. O tamanho do fosso impressiona: são 190 metros de largura. Ali também você já verá um dos elementos presentes em quase todos os templos de Angkor: os corrimões são representações da naga, a serpente mítica da religião hindu, com sete cabeças represetando o arco-íris – a ligação entre a terra e o céu. Por isso, convém evitar tocar os corrimões: são verdadeiras esculturas.

Estátua de Vishnu no portão de entrada

Estátua de Vishnu no portão de entrada

Depois de cruzar o fosso, em um dos portões de entrada, à direita, há uma gigantesca estátua de Vishnu (um dos deuses da tríade hindu), com 3,25 metros de altura. Transpondo essa primeira muralha, chega-se a uma outra longa calçada que leva até o templo principal. Há dois prédios, um de cada lado da calçada, chamados de “bibliotecas”, e, em seguida, dois reservatórios de água. A partir do reservatório da esquerda, aliás, você consegue boas fotos das torres. Depois de subir uma escada, você estará no templo propriamente dito.

O cabo-de-guerra entre deuses e demônios para obter o elixir da imortalidade

O cabo-de-guerra entre deuses e demônios para obter o elixir da imortalidade

Há três níveis, sendo que o primeiro é dominado por murais em baixo-relevo de quase 1 quilômetro de extensão. Dá para imaginar o trabalho hercúleo que foi esculpir todos aqueles desenhos em pedra. Vale muito à pena separar um tempo para seguir os murais e apreciar sua riqueza de detalhes. Não vou explicar aqui o que significa cada um deles, até porque não tenho conhecimento suficiente para isso, e meu relato seria uma mera tradução do guia que comprei. Mas destaco o mural que fica na parede oposta à da entrada (ou a que fica voltada para o lado leste), seguindo os murais pela direita.  É uma representação de um famoso episódio da mitologia hindu, conhecido em inglês como Churning of the Ocean of Milk (algo como “agitação do oceano de leite”, churning é também o processo de bater o leite para fazer manteiga). De um lado, os demônios seguram a cabeça de uma serpente; do outro, os deuses seguram seu rabo. Da agitação resultante do “cabo de guerra”, foi extraído o elixir da imortalidade. De acordo com a mitologia, os deuses venceram essa batalha.

Essas apsaras do Angkor Wat lembram paquitas

Essas apsaras do Angkor Wat lembram paquitas

Depois de observar esses murais externos, entramos no segundo nível do templo. Cada canto, assim como no terceiro nível, era dominado por uma torre em formato de botão de flor de lótus, embora as torres do segundo nível estejam parcialmente destruídas. Ali dentro, é possível ver, esculpidas nas paredes, várias apsaras, representações femininas dançantes de ninfas celestes. Também se vêem alguns “reservatórios” com escadas, hoje em dia vazios, mas que, cheios de água, serviam de “piscinas” para banhos sagrados de purificação.

Reservatórios de água, agora vazios, que eram usados para abluções

Reservatórios de água, agora vazios, que eram usados para abluções

Torre central do Angkor Wat

Torre central do Angkor Wat

A subida ao terceiro nível é íngrime e cheia de gente (no nosso caso, cheia de turistas chineses). Preste atenção, pois há um horário limite para subir antes do fechamento dos templos, às 17h30. Se você chegar ao Angkor Wat já mais para o final da tarde, melhor ir logo até lá e tentar ver o resto depois. Há uma razão para os degraus serem tão íngrimes: as pessoas deviam se prostrar perante seus deuses. De todo modo, o esforço vale à pena: as vistas das florestas ao redor são lindas, e é possível ver de perto a torre central, que se ergue a 55 metros do nível do solo, uma representação do Monte Neru, sagrado para os hindus, pois é considerado o centro do universo.

Monge caminhando por entre as ruínas

Monge caminhando por entre as ruínas

Macaco andando tranquilamente pelo templo

Macaco andando tranquilamente pelo templo

Tínhamos programado ver o pôr do sol em outro lugar, mas acabamos gastando tanto tempo nos maravilhando com os murais da parede externa que preferimos passar o restinho da tarde absorvendo mais a energia daquele lugar incrível, àquela hora já com pouca gente. Monges com suas túnicas laranja circulavam pelo local e indicavam que, agora, o budismo é a religião principal do país. Macacos também passeavam livremente pelo templo, lembrando que, até pouco tempo atrás, eram eles os donos do lugar. Voltei para o hotel cansado, mas com a certeza de que havia conhecido um lugar mágico, único no mundo, do qual vou me lembrar para o resto da vida.

Siem Reap e os templos de Angkor (1.ª parte) — dicas gerais

As várias faces de Bayon

As várias faces de Bayon

Visitar os templos de Angkor no Camboja, levantados pelo antigo Império Khmer, é uma experiência e tanto. Sou suspeito para afirmar isso porque gosto muito de lugares históricos e de conhecer o que o passado da humanidade já produziu, mas acho que mesmo o turista mais avesso a ruínas não pode deixar de se espantar com a grandiosidade do que foi erguido ali.

A história recente do Camboja é muito triste. Os anos vividos sob o regime do Khmer Vermelho, ainda que não tenham sido muitos, deixaram sua marca. A Anistia Internacional estima que quase um milhão e meio de pessoas morreram, seja executada mesmo, seja em razão das remoções forçadas para o campo, que causaram fome e doenças. Assim, visitar os templos não deixa de ser uma forma de prestar reverência ao passado glorioso desse povo e que é motivo de muito orgulho para eles. E nos faz pensar: como é possível que um país que já produziu obras tão grandiosas seja um dos mais pobres da atualidade?

Todos querem visitar o Angkor Wat!

Todos querem visitar o Angkor Wat!

De todo modo, é fantástico que possamos na atualidade visitar esses templos. O país, apesar das dificuldades, tenta se reerguer, e parece haver um esforço para receber os turistas. Há pobreza, claro, mas nada que choque olhos brasileiros. As crianças vendendo suvenires nas entradas dos templos são uma das faces dessa pobreza visíveis ao turista, mas também não é algo que vá estragar o encanto do passeio. A propósito, desde que a Angelina Jolie adotou uma criança lá (a atriz gravou partes do filme Tomb Raider em algumas das ruínas), parece ter se tornado parte da programação de alguns turistas visitar orfanatos no Camboja. Gente, pelo amor de Deus, orfanato não é lugar de fazer turismo. Se você não tem intenção de adotar uma criança cambojana, evite esse mico.

Propaganda numa revista local pede para que turistas não visitem orfanatos

Propaganda numa revista local pede para que turistas não visitem orfanatos

Não visitamos a capital do país, Phnom Penh, onde é possível inclusive visitar uma antiga prisão do Khmer Vermelho, transformada em museu. Como a viagem incluiu também Tailândia e Vietnã, preferimos nos concentrar na região das ruínas próximas a Siem Reap. Foram dois dias e duas noites — cuja divisão eu vou explicar na medida em que eu falar dos templos que visitamos. Eu achei suficiente este período, especialmente para conhecer as três principais atrações da região: o Angkor Wat, o Angkor Thom e o Ta Prohm. Mas é possível passar mais tempo por lá: são dezenas de templos, alguns mais distantes, e se você ficar mais alguns dias, pode visitá-los sem pressa. Tenha em mente que costuma fazer calor e o clima é úmido; por isso fica cansativo fazer muitas coisas no mesmo dia.

As misteriosas ruínas de Ta Prohm

As misteriosas ruínas de Ta Prohm

Aliás, antes de começar a falar das atrações em si, aqui vão algumas dicas que eu achei úteis para facilitar a estadia e a visita aos templos:

1) A entrada no país por Siem Reap é simples e é possível obter o visto na chegada. Não se esqueça de levar uma foto 3×4; mais informações neste outro texto. Há voos internacionais de vários lugares para lá: chegamos a partir de Bangkok e partimos de lá para Hanoi, no Vietnã. Mas pelo que eu pesquisei há voos também de Hong Kong e de Cingapura.

Preços do aluguel de bicicletas no nosso hotel

Preços do aluguel de bicicletas no nosso hotel

2) No hotel, veja se é possível conseguir um carro para conhecer os templos. Há várias formas de visitá-los. À pé, só se você for maratonista, pois eles ficam a uma certa distância da cidade de Siem Reap. Vimos algumas pessoas com bicicletas, e é possível também combinar um tuk-tuk para passar o dia. Mas, se você não estiver sozinho, recomendo vivamente arranjar um carro. O ar condicionado é providencial quando você está passando mal de calor. Nosso motorista, muito simpático, ainda providenciava umas garrafas d’água para quando voltávamos das ruínas. Além disso, se você quiser fazer uma pausa no meio do dia, voltar para a cidade para almoçar ou mesmo para o hotel para descansar um pouco, o carro à sua disposição facilitará muito as coisas. No nosso caso, a diária do carro custou 35 dólares, salvo no dia em que visitamos um templo mais distante, o Banteay Srei, em que pagamos 50 dólares. Para duas pessoas, achei razoável.

Piscina no nosso hotel, providencial para matar o calor!

Piscina no nosso hotel, providencial para matar o calor!

3) Como afirmei acima, uma pausa no meio do dia, quando o calor apertar, pode ser providencial. Se você puder gastar um pouco mais e arranjar um hotel com piscina, um mergulho depois de uma manhã ou de um dia cheio de caminhadas sob o sol será uma recompensa e tanto. Nós ficamos no Mulberry Boutique Hotel, que recomendo vivamente. O atendimento foi atencioso, a comida era boa, e o melhor de tudo, para alguém que não gosta muito de gastar com hotel, como eu: 168 dólares por duas diárias, para duas pessoas, café da manhã incluído. Esse hotel é pequeno, mas nos atendeu bem; há alguns maiores, com mais estrutura (estilo resort), na via NH6, chamada de Airport Road, porque leva até o aeroporto. O problema é que eles ficam meio distantes do centrinho de Siem Reap, enquanto do nosso hotel era possível sair à noite à pé para comer. De todo modo, pode-se pagar um tuk-tuk para te levar, e eles vão cobrar 1 ou 2 dólares por pessoa.

Pegando um tuk-tuk em Siem Reap

Pegando um tuk-tuk em Siem Reap

4) Tudo é muito barato por lá, como deu para ver pelo preço do hotel. Não havia prato que custasse mais de 10 dólares, e isso em restaurantes bacaninhas. O Camboja não tinha moeda durante o período do Khmer Vermelho; hoje em dia, o dólar é aceito em todo lugar turístico, e você só vai ver o riel, a moeda local, se o troco tiver partes de menos de 1 dólar. Aproveite para caprichar nas gorjetas quando gostar do serviço.

Uma nota de 1000 riels vale menos que 1 dólar...

Uma nota de 1000 riels vale menos que 1 dólar…

5) A coisa mais cara da viagem talvez seja o ingresso para os templos. É possível comprar um ingresso válido para um dia apenas (20 dólares), para três dias (40 dólares) e para uma semana (60 dólares). Mas se você for pensar no custo de manter tudo aquilo… Compramos o passe para três dias, mas só usamos dois: é que sempre havia a possibilidade de não conseguirmos ver tudo nos dois primeiros dias e termos que visitar algum lugar no dia da nossa saída, pois nosso voo era só à noite. Há uma espécie de controle na entrada da região dos templos; no primeiro dia de visitas, o motorista parou lá para adquirirmos o bilhete, que é pessoal e intransferível, já que vem com sua foto, tirada na hora. Nos outros dias, era necessário apresentar esse bilhete nesse mesmo ponto: ou seja, nem pense em esquecê-lo no hotel. O horário de funcionamento dos templos é de 5h30 até 17h30.

Ruínas de Pre Rup

Ruínas de Pre Rup

6) Com um pouco de leitura antecipada, é possível ter uma ideia boa dos templos antes de visitá-los. Por isso, dispensamos um guia, que é um gasto a mais. Mas é claro que pode ser interessante ter uma contextualização direto no local. Sítios como o TripAdvisor hoje em dia contém categorias onde é possível ler recomendações sobre guias também. Outra possibilidade é procurar no hotel onde você ficar, mas fica difícil saber de antemão se o conhecimento do guia que eles te indicarem valerá o gasto. Como não usei esse serviço, não tenho ninguém para indicar.

7) A língua do país é o khmer, com um alfabeto bem bonitinho que veio do sânscrito. Apesar disso, o uso do inglês não foi problemático nos locais turísticos; não percebi um uso amplo do francês, apesar de o Camboja já ter feito parte da Indochina francesa. Mesmo assim, aprendi algumas palavras no idioma local, como sua s’dei (oi) e oh kohn (obrigado). Eles pareciam ficar muito satisfeitos com o esforço de falar algumas palavrinhas na língua deles e ficavam ainda mais simpáticos.