Quem tem medo da Itália?

Um dos cartões postais clássicos de Roma: Fontana di Trevi

Considero que eu demorei um pouco para conhecer a Itália, o que aconteceu apenas no ano passado (a foto de Veneza do cabeçalho do blog não é minha, OK?). Tudo bem, não tem muito tempo que eu comecei a viajar para valer, mas é que esse destino costuma estar no topo da lista da maioria das pessoas, e todo mundo que já foi pelo menos uma vez à Europa deu uma passadinha por lá.

Confesso que tinha um certo receio em visitar a Itália. Os motivos são basicamente três: 1) encontrar hordas de turistas em todos os lugares com filas quilométricas para os principais museus e atrações; 2) a fama de ser um país caro; 3) a (má) fama de grosseria dos italianos. Acontece que eu me surpreendi muito positivamente, e acabei vendo que muitas dessas ideias são estereótipos, ou então são problemas que podem ser contornados de maneira simples. Vamos analisar cada um dos motivos separadamente.

1) É verdade que a Itália é invadida por hordas de turistas todos os anos, e em praticamente todas as épocas do ano. A primeira coisa a se pensar é: bem, mas você também é turista, então você faz parte dessa horda, não? Por que você teria mais direito a ver as maravilhas da Itália que os demais mortais? Tudo bem, essa arrogância nunca existiu dentro de você, mas ainda assim você morre de preguiça de filas e de lugares tumultuados, só que adoraria ver as ruínas romanas e as obras-primas da Renascença? Há algumas soluções para isso.

Em primeiro lugar, os principais museus da Itália já permitem a compra antecipada dos ingressos pela internet. Fiz isso no Museu do Vaticano, em Roma, no Uffizzi e na Galleria dell’Accademia, em Florença, e acho que valeu muito à pena. No caso dos museus em Florença, basta imprimir o e-mail que eles enviam com o número da reserva; no Museu do Vaticano eles mandam um documento com código de barra, que também deve ser impresso. É impressionante, você não tem que esperar quase nada — e as filas na entrada desses museus estavam bem compridas.

No caso do Vaticano, valeu também pelo horário: a reserva indicava entrada às 8h da manhã. Pode parecer madrugada quando se está de férias, mas essa é outra dica valiosa também para quem quer fugir das hordas: Deus ajuda quem cedo madruga. O Museu do Vaticano só abre para a fila “normal” às 9h, então você aproveita o museu, por quase uma hora, com baixíssimo movimento. Tudo bem que, quando chegamos à Capela Sistina, o negócio já estava fervilhando, e eu fiquei um pouco incomodado. Mas é preciso também um pouco de paciência para conhecer algumas obras-primas da humanidade. E o museu é fabuloso, não se resume à Capela Sistina.

O Museu do Vaticano praticamente vazio quando entramos

Para o Coliseu também é possível a compra antecipada pela internet, embora eu não a tenha utilizado. Há que se considerar também que marcar muitos compromissos “engessa” um pouco a viagem, você fica sem muita flexibilidade para mudar a programação. Mas as filas do Coliseu estavam grandes, então eu acho que pode valer à pena fazer a reserva para lá também. É possível que vários outros museus também ofereçam essa possibilidade, vale à pena pesquisar antes.

2) Fui esperando gastar uma pequena fortuna na Itália, mas no final me surpreendi. Certo, considerando a conversão para o euro, não é um país barato, e os hotéis estavam entre os mais caros da viagem que eu fiz no ano passado — mas tenho que destacar que eu escolhi hotéis simples, mas muito bem localizados. De qualquer forma, as diárias também não estavam estratosféricas, ainda mais se eu for comparar com o que eu paguei em Nova Iorque da última vez — lá sim, hospedagem anda bem cara.

Mangia che ti fa bene!

Para comer, basta seguir algumas das dicas que eu dei no texto que escrevi a respeito. Observei também que pratos de massas costumam ter uma relação custo-benefício bem melhor que pratos com carne — e, já que você está na Itália, nada melhor que comer massas, não é mesmo? A dieta fica para depois. No quesito transporte, tampouco achei as tarifas exageradamente caras, mesmo para os táxis (que são o que costuma fazer a diferença). Nas cidades que eu visitei –  Roma, Florença e Veneza — andar a pé é quase uma obrigação, pois as cidades são lindas. Com isso você economiza ainda mais. O que realmente sai caro são os vários bilhetes de museus e atrações que você vai pagar durante sua estadia. Não fiz muitas compras por lá, então não tenho como avaliar se os preços são convidativos.

3) Antes de ir à Itália, eu estudei italiano por uns três anos, de modo que conseguia me comunicar bem com os locais. Isso, na minha opinião, fez uma diferença significativa. O atendimento se mostrava mais simpático e algumas pessoas até comentavam entusiasmadas o fato de eu estar falando na língua deles. Mas eu não estudei italiano apenas porque queria viajar para Itália, estudei porque gosto de aprender outras línguas. Também não acho que todo mundo tenha essa obrigação para ser bem atendido. Ainda assim, penso que não custa nada aprender algumas palavrinhas básicas, um buongiorno, um grazie, um scusa. Acho que, basicamente, todo mundo gosta de ver o esforço do outro de aprender alguma coisa da sua língua.

Isso não significa que os ogros não existam, claro. Eles existem e certamente vão aparecer uma hora! A questão é que eles existem em todo lugar do mundo, e não vi motivos para achar que sua concentração na Itália seja maior. De qualquer forma, se o ogro for alguém do comércio, faça como eu: saia e vá embora, aquela pessoa não merece seu dinheiro! No mais, provavelmente você terá uma história engraçada para contar depois.

Ainda assim, no geral, achei as pessoas bem abertas ao inglês. Não tem jeito, turismo traz dinheiro, e se a maioria das pessoas fala em inglês, eles têm que começar a usá-lo. No hotel em Roma, uma das atendentes até ficava me perguntando como se falava determinadas coisas em português, dizendo que havia muitos brasileiros visitando a cidade e ela queria aprender um pouco do nosso idioma. Em Florença, o dono do hotel era casado com uma brasileira e nos ofereceu duas garrafas de vinho na saída. Acho que essas pequenas coisas me fizeram minimizar os episódios de grosseria, mas não sei dizer se tive sorte ou se esse é um movimento natural pelo qual as pessoas que trabalham com turismo na Itália estão passando.

Em resumo, deixe seus preconceitos de lado e visite a Itália. Você será mais um na multidão de turistas, mas é melhor ir logo e garantir a visita antes que Veneza afunde ou que os monumentos de Roma caiam de velhos.

O Rio e seus problemas

Pão de Açúcar visto do MAM

O Rio é uma das cidades mais impressionantes que eu conheço. A mistura de cidade grande com uma natureza ainda muito presente em morros, florestas e praias sempre me deixa de queixo caído. Nesse ponto, acho que a única cidade que eu conheci que tem uma mistura semelhante é Sydney, na Austrália.

Ainda assim, muita gente torce o nariz para o Rio. Certo, há a violência tão presente nos noticiários, e ela realmente existe, não é uma invenção. De qualquer forma, sempre há um certo exagero. Eu já fui várias vezes ao Rio e nunca tive problemas com violência; por outro lado, conheço várias pessoas que já foram assaltadas ou pelo menos presenciaram um roubo.

A questão principal parece ser tomar cuidado. Toda cidade grande tem um certo grau de violência. Tenho um amigo que, certa vez, foi assaltado em Paris quando sacava dinheiro, bem próximo à Notre Dame, um dos pontos turísticos mais visitados da capital francesa. Outra amiga ficou muito tempo com uma péssima impressão de Paris porque, na primeira vez em que visitou a cidade, presenciou um homem sendo espancado em plena rua. E ninguém precisa deixar de apreciar o lando lindo da Cidade Luz por causa desses eventos.

Tentarei abordar alguns cuidados que considero básicos no Rio e que, acredito, podem ser adotados sem prejudicar a experiência da cidade.

1) Turista, é claro, sempre atrai mais atenção. Tem gente que não tem como escapar, está na cara que é turista (esse fator em geral tem a ver com a ausência quase completa de melanina na pele). Ainda assim, é bom evitar andar na rua com a câmera no pescoço, jóias chamativas e relógios caros.

O problema, na minha opinião, é ostentá-los. Eu sempre vou à praia com minha câmera digital, meu Ipod, telefone celular, mas coloco tudo dentro de uma mochila. E nada de deixar as coisas ao léu na praia enquanto você dá um mergulho. Se você está sozinho, evite levar coisas de valor. Tem gente que pede para alguém do lado dar uma olhadinha, mas eu acho arriscado.

Da mesma forma, se você sair à noite e for de carro ou táxi, não tem problema: pode usar seus adereços. O principal problema é ostentá-los na rua.

2) Favela é um lugar de moradia de muita gente digna, mas não consigo entendê-la como ponto turístico. Eu sei que alguns hotéis e agências oferecem uma tal de “favela tour” na Rocinha e em outras “comunidades”, mas isso é incompreensível para mim: parece uma visita ao zoológico, mas ao invés de ver animais você vai ver “gente pobre”. Se eu morasse lá e fosse trabalhador e honesto, ia me sentir muito incomodado com isso. Enfim, evite ir à favela, seja pelas razões sociológicas aqui citadas, seja porque a visita, ainda mais desacompanhada, pode ser bem perigosa.

A não ser que você seja a Danuza Leão e tiver sido convidada para um “queijos e vinhos” na casa do Antônio Pitanga e da Benedita da Silva no morro do Chapéu Mangueira (li sobre o episódio na autobiografia dela). Em outras circunstâncias, evite.

3) Táxi é um capítulo à parte no Rio. Na minha opinião, eles já melhoraram bastante em relação a alguns anos atrás e estão mais profissionais. Antigamente era muito mais comum pegar um táxi que ficava dando voltas ou queria cobrar um preço “combinado”, sem taxímetro.

Dizem que chamar táxi na rua no Rio é fria. Eu ainda pego de vez em quando e nunca tive problemas mais sérios, mas confesso que já tive alguns dissabores, como motorista que corria demais, que tentou me vender drogas, dentre outros pequenos incômodos. Conheço gente, entretanto, que entrou em um táxi roubado e acabou indo parar no subúrbio, depenado dos pés à cabeça.

Em todo caso, para evitar problemas, hoje tenho um telefone de um disk-táxi no meu celular: é (21) 2178-4000 ou 2501-3026 (não, eu não recebi nenhum dinheiro pelo merchandising). Há vários outros: basta perguntar num ponto de táxi ou pedir o cartão de um táxi cujo motorista tenha sido educado e profissional. Quando está difícil pegar um táxi ou eu acho o local estranho, é lá que eu ligo para pedir socorro. Além disso, tendo um número de uma cooperativa você sempre tem para onde ligar para reclamar no caso de alguém ter lhe passado a perna (ou tentado).

Na minha opinião, um dos principais problemas de táxi no Rio é querer cobrar um preço fixo e não usar o taxímetro. Isso já mudou bastante, mas ainda é relativamente comum, principalmente nos aeroportos e em datas específicas, como no Réveillon. A minha dica é: não aceite. Há sempre taxistas dispostos a ligar o taxímetro. Se não houver, apele para o número aí de cima.

Se bem que no Réveillon pode ser realmente difícil achar um táxi de madrugada que queira trabalhar com o taxímetro. Nesse caso, programe-se para voltar a pé, com um amigo, ou então esteja disposto a negociar um preço com o motorista.

Outro problema são aqueles taxistas que dão voltas ou fazem caminhos mais longos. Aí, se você não conhece o Rio, fica difícil resolver, mas, na minha opinião, isso é um problema que ocorre em (quase) todos os lugares do mundo. Meu truque é sempre perguntar no hotel ou para alguém da cidade qual o melhor caminho até meu destino ou quanto custaria, em média, uma corrida até lá.

Os mapas disponíveis nos smartphones de hoje em dia também contribuíram para diminuir o problema. Ainda assim, nem sempre o mapa que seu telefone mostra é necessariamente o melhor caminho (faça uns testes na sua cidade para você ver). Há várias questões envolvidas, como horários de tráfego mais intenso em algumas regiões, locais por onde se deve evitar passar em determinados horários, enfim, coisas que só quem mora sabe. De qualquer forma, deixar claro para o motorista que você está acompanhando o caminho pelo mapa do celular já coíbe bastante essa prática.

Em suma, táxi no Rio é bem barato, e se você for dividir com outra(s) pessoa(s), vale mais à pena ainda. Aproveite essa vantagem e, com as cautelas listadas acima, tenha um pouco mais de conforto nos seus deslocamentos.

4) A Zona Sul, de uma forma geral, é uma área bem tranquila; dá para andar a pé até à noite. Sei que há alguns anos ouvíamos falar muito dos “arrastões” nas praias, mas acho que hoje em dia isso não tem acontecido (ao menos eu nunca vi um). Mesmo com algumas favelas espalhadas pela região (Pavão Pavãozinho, Vidigal etc), a presença maciça de turistas motivou um policiamento mais presente e, assim, inibiu ações mais violentas. Mesmo assim, como relatei acima, táxi é barato e pode ser uma boa à noite.

Em outras áreas da cidade, convém checar. Não conheço muito da Barra da Tijuca, mas acho que é um bairro também relativamente seguro. Santa Tereza está na moda e tem alguns hotéis charmosos, mas, recentemente, fui a um restaurante lá à noite e observei que, em volta do bairro, há algumas favelas. O Centro tem prédios lindos e atrações culturais, mas eu só recomendo de dia e durante a semana. Uma vez inventei de ir lá no domingo e só havia gente mal-encarada nas ruas. Se você não puder ir nesses horários, opte por um táxi, com um destino certo (um museu, uma igreja, por exemplo).

Há outros problemas, claro, mas acho que com bom senso todo mundo consegue evitá-los. Também não quero falar só de coisas ruins a respeito do Rio; outros textos sobre a cidade abordarão outras coisas boas de lá.

Viajar barato sem morrer de fome

A primeira parte sobre viagens baratas você pode ler aqui; também publiquei dois textos sobre albergues aqui e aqui.

Outro ponto que costuma pesar no orçamento de viagem é a alimentação. Eu, pessoalmente, prefiro economizar um pouco mais no alojamento (ficando em albergues ou hoteis baratos, por exemplo) e gastar um pouco mais para experimentar a gastronomia local. Mas isso é uma opção de cada um. Tentei resumir aqui algumas dicas para baratear essa parte da viagem.

1) Normalmente, os almoços nos restaurantes costumam ser mais baratos que os jantares. Muita gente, por exemplo, elege uma refeição principal no dia para gastar e nas outras come uma bobeirinha. Nesse ponto, a melhor pedida costuma ser o almoço. Assim, se você quer conhecer aquele restaurante lindo (e car0) que saiu em todas as revistas e sites especializados, convém olhar o menu de almoço deles: é bem provável que seja mais barato que a opção noturna.

2) Alguns lugares costumam oferecer menus fixos, com entrada e prato principal, ou entrada, prato principal e sobremesa. Esses menus fixos costumam ser opções mais em conta, ainda que você decida pedir só um prato à la carte e dispensar a entrada e a sobremesa. Isso porque esse menu fixo funciona como uma espécie de menu do dia e, assim, é muito mais fácil (e barato) para a cozinha prepará-lo. Normalmente esses menus estão disponíveis no almoço (mais um motivo para você escolher essa refeição do dia), mas já vi restaurantes que o ofereciam também à noite. Na França, procure pelas formules, que é como eles chamam esses menus fixos.

3) Água mineral costuma ser uma fortuna em restaurantes, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Nesses lugares, é perfeitamente normal (e saudável) pedir água da torneira. Peça “tap water” nos Estados Unidos, ou “une carafe d’eau”, na França. Eles vão trazer um copo ou uma jarra com a água da torneira. O gosto costuma ser parecido com nossa água do filtro aqui no Brasil.

4) Ainda no capítulo bebidas, elas costumam ser bem caras em restaurantes e bares mundo afora. Na Europa e na Argentina, contudo, pedir vinho pode ser uma boa: há vinhos incrivelmente bons por preços módicos (se você for num supermercado então, quase vai cair para trás quando lembrar quanto você paga num Periquita por aqui). Na Espanha eu bebia quase sempre o “vinho da casa” e dificilmente vinha uma porcaria. Aproveite para conhecer especialidades locais, como a uva Kefrankos húngara e os txacolis do País Basco.

5) Se o tempo estiver bom e a cidade onde você estiver for farta em parques e gramados, uma ótima pedida é passar num supermercado ou numa padaria e comprar pão, queijo, algum embutido, talvez uma pasta, e ir comer na rua. Escolha um parque agradável, uma promenade em frente ao mar ou a um lago e recorde dos tempos do colégio quando você fazia piquenique. É divertido e econômico.

6) Se o hotel ou albergue em que você estiver hospedado oferecer café-da-manhã incluído no preço da diária, convém aproveitar. Mas se ele é cobrado à parte, é bem provável que haja algum café nas redondezas onde é possível tomar um café, um suco de laranja e comer um pão sem gastar muito. E você ainda se sente um local, já que em muitos países as pessoas não tomam café-da-manhã em casa. Já os buffets de hotéis costumam ser caros e nem sempre bem servidos. Aos domingos, vários lugares assimilaram o brunch, um café-da-manhã reforçado que pode ir até tarde (em Berlim é possível tomar um brunch até umas quatro da tarde). Assim você mata duas refeições em uma.

Essas são as principais dicas de que me recordo. Claro que cada lugar têm suas espeficidades, seus locais para comer barato. Se for o caso, abordo o assunto quando estiver falando de um lugar específico.