Recife e Olinda – Parte 1

Recife é a segunda cidade mais populosa do Nordeste, atrás de Salvador — embora a região metropolitana da capital pernambucana, com os municípios que se conglomeram ao seu redor, seja maior que a da capital baiana. Apesar disso — ou talvez por causa disso — a cidade não costuma ser incluída entre os destinos mais procurados pelos turistas que vão ao Nordeste. Pode ser que as pessoas, no geral, quando vão para a praia, queiram descanso e tranquilidade, e não o caos de uma cidade grande. De todo modo, Salvador é bastante visitada por turistas, enquanto Recife acaba sendo meio relegada. Há, claro, o problema da violência, tão presente nas cidades grandes brasileiras, e bastante mencionado quando se fala de Recife. Só que Salvador também padece desses problemas (minha irmã, por exemplo, já foi assaltada na frente do hotel em Salvador); o Rio, da mesma forma, é bastante lembrado pela violência, e as pessoas continuam visitando ambas — o que é bom, porque, de fato, são cidades lindas. Tentarei aqui explicar porque acho que Recife e sua irmã/vizinha Olinda devam ser visitados também.

Esclareço, desde já, que nunca visitei essas cidades durante o Carnaval, período em que, acredito, a situação deva ser bem diferente (leia-se uma muvuca). De qualquer forma, várias das atrações estão lá, sempre, e podem ser visitadas em qualquer época.

Vista de Olinda do Alto da Sé, com Recife ao fundo

Como se sabe, Olinda foi estabelecida primeiro, pelos portugueses. Quem já foi a Portugal, entende perfeitamente porque os colonizadores construíram Olinda numa área tão irregular, cheia de morros. Hoje, são as ladeiras de Olinda que fazem a fama da cidade e ficam repletas no Carnaval. Subir aquelas ruas íngremes realmente dá uma canseira, mas as vistas valem à pena. Se você vier de táxi de Recife, como eu fui nas duas vezes em que visitei a cidade, peça para o motorista parar logo no Alto da Sé. Chegando no ponto mais alto da cidade, você já economiza perna e sola de sapato e, para baixo, como diz o ditado, todo santo ajuda. Assim que o táxi terminar de subir a inclinada Ladeira da Misericórdia (você vai pedir muita misericórdia se subi-la a pé), pode parar. Lá já é a área conhecida como Alto da Sé. Há uma pequena igreja, chamada Igreja da Misericórdia, que nem sempre fica aberta (parece que ela está, atualmente, em reforma), mas a grande atração ali são as vistas da cidade antiga (Olinda tem uma parte nova, cheia de prédios altos também) e do mar lá embaixo. Você provavelmente já será abordado por pessoas se oferecendo como guia; se ão quiser o serviço, agradeça e simplesmente ignore, porque eles já vão começar, provavelmente, a contar a história de Olinda (todos recitam o mesmo texto). Se você aceitar o guia, combine o preço antes, porque depois ele vai querer te cobrar caro.

Antigo observatório do Alto da Sé

Igreja da Sé

Ao fundo do Largo da Misericórdia, você logo verá a Igreja e o Convento da Conceição, que é bem bonita por fora (não cheguei a visitá-la por dentro). A rua que segue à direita é a Rua Bispo Coutinho. Ali há algumas lojinhas de artesanato (meio caras), um antigo observatório, recentemente restaurado, e várias tendas vendendo quitutes locais — a tapioca de lá é famosa (e gigantesca). Ao final da rua, antes da descida, fica a Igreja da Sé propriamente dita. O interior é um pouco decepcionante, fruto de incêndios e reformas, mas é possível ainda ver lindos azulejos portugueses. As vistas da lateral da igreja, com os prédios de Recife ao fundo, são de tirar o fôlego.

Interior da Igreja do Mosteiro de São Bento

Há várias outras igrejas espalhadas, mas eu só visitei outra: a do Mosteiro de São Bento, na parte mais baixa da cidade antiga. Por fora a vista já é bem bonita, com vários coqueiros ladeando a fachada de estilo barroco. O interior é todo dourado (não sei dizer se é ouro de verdade) e enche os olhos. É possível assistir a uma missa com cantos gregorianos lá.

Casinhas coloridas numa ladeira de Olinda

Considero que o melhor de Olinda é sair andando pelas ladeiras e vendo as casinhas coloridas. A ladeira da Rua do Amparo é uma das principais para admirar a arquitetura colonial, além de ser cheia de restaurantes (é lá que fica o Oficina do Sabor, um dos mais famosos). Ali, também, fica o Museu de Arte Contemporânea de Olinda (oficialmente na Rua 13 de Maio, mas que é uma continuação da Rua do Amparo). Algumas ruelas, claro, são feias e dão um pouco de medo de entrar, mas se você se ater aos locais mais turísticos, não vai ter problemas.

Fachada do Museu de Arte Contemporânea de Olinda

Vista de Olinda

No geral, Olinda, com o perdão do trocadilho infame e já bem gasto, é realmente linda. As casas encrustradas nos morros, com aqueles telhados típicos da arquitetura colonial, mescladas com uma vegetação farta, é uma paisagem que deixa todo mundo boquiaberto. Há restaurantes aclamados e pousadas charmosas e, se você quiser só descansar (ou quiser ficar perto do Carnaval, nesse período), pode ser uma boa hospedar-se em Olinda. Das duas vezes em que eu fui, contudo, fiquei em Recife. Acho mais central em relação às atrações em geral, além de ter mais opções para sair à noite.

Cuidado com o tubarão! Aviso na praia de Boa Viagem

A área mais famosa de Recife para quem é de fora é o bairro de Boa Viagem, mas quem vai em busca de praia vai ficar um pouco decepcionado — certamente não é a praia mais bonita que você terá visto. Além disso, os avisos de “cuidado, tubarões” assustam bastante. A parte da praia mais badalada é em frente ao Ed. Acaiaca, um prédio de estilo moderno que lembra os de Brasília. De qualquer modo, como me confidenciou um amigo que é de lá, os locais preferem morar na Zona Norte, em bairros como Espinheiro, Graças e Aflitos. É longe da praia, mas nesses lugares há uma boa concentração de bares e restaurantes (segundo ele, os melhores restaurantes de Recife estão por lá), além de prédios bons, o que é motivo de sobra para fincar residência. Portanto, se você, de fato, busca praia, é melhor sair de Recife/Olinda — como fazem, aliás, os locais — e ir rumo a Porto de Galinhas — há várias praias no caminho.

Colorido na Rua Bom Jesus

Ainda assim, Recife tem atrações de outra espécie. O centro histórico, que fica numa ilha de frente para o mar, tem algumas construções colonais já recuperadas (e outras ainda nesse processo). A rua mais arrumadinha da região é a Rua Bom Jesus, onde fica a Sinagoga Kahal Zur Israel, considerada a mais antiga das Américas. Os judeus se estabeleceram ali na época dos holandeses — aliás, Recife se desenvolveu na época holandesa, pois, como disse acima, os portugueses instalaram-se inicialmente em Olinda — e, com a retomada da cidade por Portugal, fugiram com os holandeses para a colônia de Nova Amsterdã, que depois virou Nova Iorque. Hoje, a sinagoga é um centro judaico, e pode ser visitada.

Fachada da Sinagoga Kahal Zur Israel