Depois do texto anterior, em que eu expliquei porque uma viagem ao Marrocos é imperdível, tenho que falar dos problemas que você pode encontrar e como (tentar) contorná-los. Separei os temas por tópicos principais.
1) Segurança: exatamente quando eu estava no Marrocos aconteceu o último incidente (conhecido) — um homem-bomba se explodiu no Café Argana, em plena Praça Djemaa el Fna (sim, aquela que eu considerei no texto anterior um dos pontos altos da viagem), matando quatorze pessoas e ferindo um monte. Felizmente eu tinha saído de Marrakech um dia antes. É um problema que não tem muito como enfrentar; talvez, no máximo, evitar locais muito turísticos. Porém, quando você está fazendo turismo, é possível de fato fazer isso sem pular grande parte das atrações locais? Passei pela Djemaa umas cinco vezes durante minha estadia em Marrakech e, embora eu não tenha ido ao Café Argana (que é listado no guia do Lonely Planet), fui em um próximo a ele.
De qualquer forma, o Marrocos, dentre outros países muçulmanos, parece ser um dos mais tranquilos. Antes desse “incidente”, houve uma explosão num cybercafé de Casablanca em 2007 — que ficava num subúrbio e, portanto, não houve turistas mortos. Antes disso, morreram turistas em várias explosões deflagradas em 16 de maio de 2003, também em Casablanca, no que foi o pior atentado terrorista do país. Como dá para ver, a frequência não é tão alta assim; o problema é não saber quando será a próxima bomba.
Mesmo assim, com exceção dessa questão terrorista, o país pareceu-me seguro no geral. A impressão que se tem é que crimes violentos são algo muito grave para eles, mas claro que, nas grandes cidades, furtos sempre podem ocorrer, e o que vale em Nova Iorque, São Paulo ou Roma vale no Marrocos também: atenção.
2) Mulheres: no geral, não percebi grandes assédios às mulheres nas ruas, salvo um assobio assanhado, coisa que qualquer mulher brasileira que já passou na frente de uma obra deve ter vivenciado. Mesmo assim, não recomendo que mulheres viajem sozinhas, mesmo em grupos. Até vimos umas gringas sozinhas por lá, mas achei que o assédio a elas era um pouco maior. Na verdade, não recomendo nem a um homem que viaje sozinho para o Marrocos: o assédio é sempre maior para quem está só. Mulheres acompanhadas aparentemente não sofrem assédio de homens. Alguns cafés nas cidades marroquinas trazem uma visão que chega a ser engraçada: só homens sentados, nenhuma mulher no meio. Obivamente, esses lugares não são apropriados para moçoilas.
Ao contrário do estereótipo, a mulher marroquinha pareceu-me bem liberada. Vimos até motoristas de ônibus mulheres. Poucas usam roupas que só deixam os olhos de fora; em geral são mulheres mais velhas. No geral, elas usam um pano para cobrir os cabelos, mas um número razoável usava os cabelos soltos mesmo. Não preciso dizer que as vestimentas devem ser “recatadas”, evitando o uso de saias e shorts curtos, blusas decotadas etc. Aliás, até para homens acho que expor muita pele pode causar estranheza nos locais.
3) Perder-se na medina: como expliquei no texto anterior, considero a atividade de caminhar pelas medinas marroquinas um dos pontos altos da viagem. Mas as ruas são, de fato, labirínticas e sinuosas. Não me perdi para valer em momento algum; às vezes a gente dava umas voltas, mas no final encontrava o que estava procurando. Considero-me, porém, uma pessoa bem orientada, de modo que para pessoas com senso de orientação menos aguçado, isso pode tornar-se um problema real.
Se você tem preguiça de ficar procurando as coisas e tem medo de se perder, contrate logo um guia. De preferência no hotel onde você esteja, o que provavelmente evitará surpresas desagradáveis: o preço será combinado antes e você tem para quem reclamar caso aconteça algo de errado. Se você fizer isso no primeiro dia, de repente consegue se aventurar nos outros sozinho. Ainda assim, tendo contratado um guia antes ou não, atenha-se às ruas principais (algumas ruelas das medinas podem parecer bem lúgubres), carregue sempre um cartão do hotel onde você está e preste bastante atenção. Uma boa dica é, cada vez que você dobrar uma esquina ou fizer uma bifurcação, guardar algum detalhe para se lembrar na volta: uma placa, um comércio diferente, uma planta etc.

O portão Bab Bou Jeloud em Fez, um dos lugares onde vários falsos guias costumam abordar os turistas
4) Falsos guias e pessoas que te abordam nas ruas: infelizmente, é uma situação corriqueira, principalmente dentro das medinas, em pontos mais turísticos. Basta você parar um pouco para olhar o nome de uma rua, procurar num mapa, e já aparece alguém se oferendo para te levar — muitas vezes para onde você nem quer ir. Esse problema pode ser evitado com a contratação de um guia, já mencionada no item anterior: com ele dificilmente os “malas” vão te abordar e, se o fizerem, seu guia saberá se livrar deles.
Algumas pessoas vão te abordar dizendo que querem ser “seus amigos”. Considero que conhecer pessoas locais é uma ótima experiência de viagem, mas não se engane: no geral, eles querem te levar em alguma loja ou restaurante onde ganham comissão, ou querem te levar em pontos turísticos em troca de dinheiro, No geral, eu me livrava dessas pessoas com um “la, shukran” (não, obrigado, em árabe), ou então com a frase “je suis pas perdu!” (não estou perdido, em francês). No geral eles não insistiam muito, embora alguns ficassem “emburradinhos” com a negativa.
O único lugar em que eu realmente senti um pouco de receio foi num trem de Meknès para Fez. Na verdade, o trem para Fez é conhecido pelos rapazes que abordam gringos e turistas em geral, e eu já havia lido a respeito no Lonely Planet. Falam que são estudantes univeristários ou jovens professores voltando para a cidade, e no final querem te levar para algum hotel, vão dizer que o que você reservou é uma espelunca, ou, pior, um puteiro. Quando fomos de Casablanca até lá, um tentou nos abordar, mas quando eu disse que já havíamos reservado um riad e que havia uma pessoa nos esperando na estação, o cara logo desistiu.
Acontece que eu fiz uma viagem bate-e-volta de Fez até Meknès (de trem dura mais ou menos uma hora) e, nesse passeio, eu estava sozinho. A ida foi tranquila, mas, na volta, um cara me viu com o guia do Lonely Planet (aliás, um grande chamariz para eles, pois gringo adora esse guia) e puxou assunto. Inicialmente fui simpático, embora tenha evitado dar muito papo, mas esse foi insistente, não desistia fácil — e, como estava sozinho, dei o azar de ter um banco vago do meu lado no trem. Comecei a ficar assustado quando ele me perguntou se era verdade que no Brasil eles sequestravam pessoas e se eu já havia sido sequestrado. Fingi tranquilidade, esperei um pouco e disse que ia ao banheiro. Procurei sair do vagão onde estava e fiquei um tempo no banheiro. Nesse outro vagão, havia aquelas cabines coletivas. Escolhi uma quase cheia, em que havia dois senhores mais velhos e três meninas marroquinas e fiquei por lá até o final da viagem.
Uma tática muito usada pelos falsos guias (e também por vendedores, a respeito dos quais falarei no próximo item), é dizer que a atração que você procura está fechada e que não adianta ir até lá, por isso seria melhor ir aonde eles querem te levar — ou, no caso dos vendedores, continuar comprando. Desconfie sempre e prefira verificar a informação você mesmo, pois muitas vezes é apenas mais uma mentirinha.
5) Vendedores na medina: como relatei no texto anterior, a barganha faz parte da cultura local e é até divertida. O problema é que, em alguns lugares, depois que você entra, o vendedor pode ser muito insistente e fica difícil sair de mãos abanando. Se você não está nem um pouco interessado em comprar alguma coisa, é melhor nem entrar. Se não gostou de nada, saia rapidinho para não dar tempo de o vendedor ficar insistindo. Há lojas, claro, com preços fixos, e nessas ninguém enche muito seu saco — até barganhar deixa de ser necessário.
No geral, não tive problemas com isso, mas se você tem preguiça dessas situações, o melhor é deixar para comprar no free shop do aeroporto, correndo o risco de perder uma das experiências mais típicas e divertidas do Marrocos.
A medina de Marrakech, na minha opinião, foi a que tinha vendedores mais insistentes. Alguns praticamente nos catavam nas ruas. A de Fez é um pouco mais tranquila, mas também tem sua quota de vendedores-chiclete. Por isso, para não se estressar muito, prefira as medinas de cidades menores ou menos turísticas, como Meknès e Rabat. Aliás, eu achei a medina dessa última a mais tranquila de todas: em algumas lojas a gente tinha que praticamente pedir para alguém nos atender. E ninguém insistia muito para comprar.
6) Língua: a língua oficial do Marrocos é o árabe, embora existam diferenças entre o que se chama de árabe marroquino (Darija) e o chamado Modern Standard Arabic (MSA), ensinado nas escolas dos mais variados países árabes. O francês, obviamente, tem largo uso, herança da época do protetorado francês. Em lugares turísticos como hotéis e restaurantes, entretanto, percebi que quase todo mundo falava inglês. Mesmo os vendedores da medina, no geral, sabem se virar em inglês. Pessoas mais simples, porém, não sabem usar nem mesmo o francês — tive problemas com alguns taxistas, por exemplo.
7) Táxis: talvez tenha sido meu grande aborrecimento da viagem. Claro, taxista picareta tem em todo lugar, e eu até peguei taxistas simpáticos por lá, que demonstraram curiosidade pelo Brasil e me falaram sobre o país deles. O problema é que muitos não querem ligar o taxímetro e, quando você quer combinar o preço, querem te cobrar bem mais caro do que o normal. Aqui vale as mesmas dicas de qualquer país: procure se informar antes quanto custa uma corrida até o lugar onde você quer ir. Sempre que entrar num táxi que tiver taxímetro, peça para ligá-lo; se ele não quiser, desça ou pergunte logo quanto ele vai te cobrar para deixar você no destino final. Os táxis que eu achei mais picaretas foram os de Casablanca, o que é compreensível, já que esta é a maior cidade do país.
No geral, os táxis são bem velhos, não dá muito para escolher. Outra coisa que assusta um pouco é que eles param no meio do caminho para pegar outras pessoas, caso elas estejam indo na mesma direção que você. Mas quanto a isso não tive problemas: é um costume local, e eles só pegam gente que esteja indo mais ou menos no mesmo caminho que eles.
Para chegar e sair das cidades, principalmente se você vai ficar na medina, recomendo combinar antes um transfer com o hotel que você reservou. Fiz isso em Marrakech e Fez. Os preços não são abusivos, você não corre o risco de se perder no primeiro contato que vai ter com a medina e não precisa se preocupar em achar um meio de transporte quando chega na cidade. Além disso, no caso de Fez, como eu relatei acima, pode ser uma boa maneira de se livrar dos marmanjos do trem.
8 ) Clima: quando fui, em maio (primavera para eles), o clima estava ótimo. Não pegamos muita chuva, de dia as temperaturas estavam razoáveis, na casa dos vinte e pouco graus; já à noite fazia até frio, com temperaturas abaixo de 15 graus: em Fez chegamos a pegar uns 8 graus à noite. Com base nessas temperaturas, cheguei à conclusão de que viajar no inverno para lá pode ser bem frio; vá preparado. Além disso, dizem que o verão costuma ser indecente de tanto calor. Por isso, meia estação é o mais recomendável.






























