Lisboa: onde ficar

Linda Lisboa! Igreja de São Vicente de Fora ao fundo

Com o aumento dos voos da TAP para o Brasil — que, salvo engano, voa atualmente para São Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Natal, Fortaleza, Campinas e Porto Alegre — os brasileiros estão conhecendo cada vez mais Lisboa, uma cidade que antes era deixada de fora de muitos roteiros pela Europa. Foi por causa de um voo desses que, em 2008, eu conheci a capital portuguesa, e já voltei até lá duas vezes depois, sempre fazendo uma paradinha antes de voltar para o Brasil.

Viva a Sardinha! Viva Lisboa!

Fala-se muito na rixa entre brasileiros e portugueses, mas eu nunca tive problemas por lá. Certo, talvez o bom tratamento que eu tenha recebido é aplicado só aos turistas, não aos imigrantes. Mas o fato é que, talvez, hoje em dia, existam mais portugueses procurando oportunidades no Brasil que o contrário. De qualquer forma, acho a cidade linda, lembra muito nossas cidades coloniais, só que mais cuidada. As ladeiras infinitas explicam muito porque os portugueses resolverem construir cidades como Olinda, Rio de Janeiro, Ouro Preto, Salvador, dentre outras.

Se você ainda não conhece, recomendo muito a visita. Para tentar ajudar na escolha de um lugar para ficar, tentei dividir a cidade em algumas regiões (não necessariamente equivalentes aos bairros).

Estação do Rossio, em estilo neomanuelino

1) Baixa, Chiado e Rossio: são os lugares ideais para ficar se você não conhece a cidade. É bem central e ali estão algumas atrações, principalmente as mais históricas. Há estações de metrô e de bonde que facilitam o acesso às outras áreas com atrações turísticas. No caso do Rossio, fica lá a estação de trem que leva, por exemplo, à pitoresca cidade de Sintra, um dos passeios mais procurados para quem visita Portugal.

Praça Luís de Camões, Chiado

Já a área do Chiado é mais comercial, com várias lojas de marcas internacionais na Rua Garrett e arredores, além do mini shopping Armazéns do Chiado. Ali, portanto, as diárias devem ser um pouco mais caras. A Baixa é o bairro reconstruído pelo Marquês de Pombal após o terremoto de 1755, por isso o estilo clássico bem uniforme. É bastante movimentada durante o dia — embora vários lugares tenham cara de pega-turista –, mas tenho a impressão de que à noite deve ficar meio morto.

Praça do Comércio, Baixa

Em todo caso, os três bairros são bem compactos e ficam um ao lado do outro, de modo que é fácil se deslocar entre eles à pé — esse é o motivo de colocá-los juntos aqui.

Grafite no Bairro Alto

2) Bairro Alto: fiquei aqui uma vez e, embora tenha gostado muito da hospedagem em si — na verdade, uma espécie de apartamento, bem confortável — devo dizer que a área é bastante boêmia e por isso à noite pode ficar bem barulhenta. Gosto muito do Bairro Alto, das suas ladeiras de paralelepípedos onde os locais e os turistas ficam bebendo aquelas caipirinhas que mais parecem baldes, pela rua mesmo, conversando e olhando o movimento. Além disso, é uma das melhores regiões para comer, com várias opções de restaurantes concentrados numa pequena área. Ainda assim, só recomendo ficar lá se você quiser aproveitar a vibe boêmia do bairro e não se incomodar com a muvuca que se forma quase todos os dias à noite.

Vitrine no Bairro Alto

Em todo caso, o Bairro Alto também fica bem ao lado das áreas indicadas no item anterior, de modo que você pode ficar nelas e aproveitar o BA à noite. O difícil é subir as ladeironas que dão acesso a ele todos os dias. Se for possível, fique no Chiado, próximo à Praça Luís de Camões, de onde o acesso ao Bairro Alto não é tão penoso.

Parque Eduardo VII

3) Região da Avenida da Liberdade, Rato e Marquês de Pombal: a Avenida da Liberdade é uma via larga e arborizada que sai do Rossio rumo à Praça Marquês de Pombal. Há vários hotéis na própria avenida e nas ruas próximas a ela, alguns de grandes redes (como o Ibis Liberdade, o NH Liberdade, o Sofitel), o que torna a região muito procurada por turistas. Há uma linha de metrô que corre na avenida, facilitando o deslocamento.

Praça dos Restauradores, início da Avenida da Liberdade

Minha opinião: quanto mais perto do Rossio, melhor, pois você ficará mais próximo das atrações e da estação de trem, caso queira ir para Sintra. A Avenida da Liberdade, em si, é uma rua que vai subindo a partir do Rossio, o que significa que, para sair de lá, é bem fácil (é só descer), mas, na hora da volta, você certamente vai querer ir de metrô, nem que seja para se deslocar apenas duas estações. A região próxima à praça Marquês de Pombal é agradável, fica por lá o lindo Parque Eduardo VII, mas acho ela um pouco distante das atrações turísticas e dos lugares mais procurados para comer.

Já o Rato fica entre a Avenida Liberdade, o Bairro Alto e a praça Marquês de Pombal. Há vários hotéis nessa região, e por não ficar muito longe da Avenida Liberdade, o coloquei aqui. Há também uma outra estação de metrô dentro do bairro (cujo nome é, aliás, Rato), o que facilita, da mesma forma, o transporte para outras áreas.

Oceanário de Lisboa

4) Parque das Nações: a área mais “moderna” de Lisboa, é ideal se a sua parada na capital for apenas para dormir uma noite. Foi recuperada para a Expo 98, que aconteceu em Lisboa, e conta com algumas atrações: um oceanário bem interessante, um museu de ciências (ótimo para a garotada), um teleférico às margens do Rio Tejo (meio sem graça) e um shopping (Vasco da Gama). É a estação final da Linha Vermelha do metrô (ou seja, fica distante do centro), chamada Oriente, porque ali fica a estação de trem com o mesmo nome, também super nova e modernosa, criada pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava.

Gare do Oriente, do Santiago Calatrava

A região do Parque das Nações, embora certamente mereça uma visita durante sua estadia em Lisboa, não tem exatamente a cara da cidade. Como dito, é uma região com ares mais modernos e, portanto, só recomendo a hospedagem aqui pelo rápido acesso ao aeroporto ou se você vier para algum congresso no centro de convenções da região. Em todo caso, por ter estação de metrô, há a possibilidade de deslocamento para a região central da cidade.

Bonde 28 e Catedral da Sé, Alfama

5) Alfama e Castelo: é a área mais pitoresca da cidade, aquela que reúne os maiores estereótipos que povoam a nossa mente a respeito de Lisboa: azulejos nas fachadas, casinhas com mulheres na janela e roupas dependuradas pelo lado de fora, ladeiras etc. Há atrações por ali, como o Castelo de São Jorge, a Catedral da Sé e vários miradouros, aqueles balcões com vistas de tirar o fôlego da cidade, tão característicos de Lisboa. Também reúne boas opções de restaurantes (embora em menor número que no Bairro Alto), mas não me parece ser uma região com muitas opções de hospedagem.

Vista do Miradouro da Graça

Difícil é lidar com as ladeiras íngremes do bairro todo dia. De qualquer forma, o mítico bonde 28 contorna o bairro e passa em vários pontos turísticos, facilitando a vida de quem fica por ali.

Mosteiro dos Jerônimos e Praça do Império, vistos a partir do Padrão dos Descobrimentos

6) Belém: ir a Lisboa e não visitar Belém é praticamente um acinte. Belém respira história: era dali que partiam os navegadores portugueses (Vasco da Gama inclusive), e a Torre de Belém está ali para lembrar esse passado, pois servia para guardar a entrada de Lisboa. Também em Belém fica o Mosteiro dos Jerônimos, onde estão enterrados os luminares portugueses Vasco da Gama, Luís de Camões e Fernando Pessoa. Sem falar no Padrão dos Descobrimentos, nos famosos pastéis de Belém e no moderno Centro Cultural de Belém, de arte contemporânea, para dar um refresco em tanta história.

Torre de Belém

Dito tudo isso, não acredito que seja uma boa ficar por lá. O bairro fica a uns seis quilômetros do Rossio e, portanto, você vai ter que depender do bonde, do ônibus ou do táxi para ir ao centro. Há algumas opções de restaurante na região, mas elas não se comparam com as de outras áreas.

Berlim – Museumsinsel

Uma das salas da Alte Nationalgalerie

Como já disse aqui, Berlim, por ter ficado dividida tanto tempo, tem várias atrações culturais duplicadas — como no caso das óperas. Com os museus não é diferente. Há duas grandes áreas de museus, a Museumsinsel, que ficava do lado oriental, e o Kulturforum, no antigo lado ocidental. E o mais interessante é que ambas as áreas são na verdade um grupo de vários museus — o que mostra como a oferta cultural em Berlim é farta.

A Museumsinsel fica, literalmente, numa ilha do rio Spree — daí o nome “ilha dos museus” (a propósito, a pronúncia do nome do rio é sprê-ê mesmo, não spri, como se fosse inglês). Os museus, todavia, não ocupam a ilha inteira, apenas a parte mais ao norte, acima da Schlossbrücke, aquela toda decorada com estátuas (ver mapa acima). Ali estão cinco museus, cada um com seu próprio prédio: Bodemuseum, Altes Museum, Alte Nationalgalerie, Pergamon Museum e o Neues Museum. É interessante ver que o S-Bahn (um dos metrôs de Berlim) passa no meio da Museumsinsel, entre o Pergamon e o Bodemuseum.

Enquanto o Kulturforum é mais moderno, os prédios da Museumsinsel seguem o estilo clássico, já que foram construídos ainda na época da monarquia prussiana, quando as realezas europeias começaram a achar chique abrir suas coleções privadas para o povão.

Fachada do Pergamon em 2007...

... e em 2009, com a fachada toda coberta de tapumes.

Os prédios têm passado por um árduo processo de restauração, de modo que você pode ver um monte de tapumes cercando algum deles. Fica feio nas fotos, mas é por um bom motivo. O Pergamon, por exemplo, estava bem diferente da primeira vez em que eu fui, em 2007, e quando voltei em 2009 (compare as fotos acima). Da mesma forma, quando morei lá, em 2009, o Neues Museum estava completamente fechado para reforma e, por isso, não o conheci (as informações que eu trouxer aqui foram retiradas de guias e da internet). O mesmo pode acontecer com algum outro quando você for, mas lembre-se: tudo pela cultura.

Altar reconstruído de Pergamon

O mais interessante, na minha opinião, é o Pergamon. Há o altar reconstruído da cidade grega de Pergamon (hoje localizada na Turquia) que é impressionante e que dá nome ao museu. Claro, a gente sempre fica com aquela sensação de que tudo aquilo foi roubado de um país mais pobre — como quando vê as múmias do Louvre ou os frisos do Parthenon no British Museum. De qualquer forma, nem tudo é tão preto no branco. A região onde ficava a cidade na Turquia volta e meia é atingida por terremotos, de modo que o que os exploradores alemães encontraram foi um monte de ruínas e pedras caídas. O altar em questão foi todo reconstruído, peça por peça, com alguns pedaços faltando e outros substituídos por reconstituições. Seria possível vê-lo hoje, dessa forma, sem essa intervenção? Além disso, o altar foi levado para a Alemanha no começo do século XX, quando esses dilemas antropológicos não existiam. Hoje em dia, penso eu, seria mais interessante ajudar na reconstrução in loco.

Portão de Ishtar, da Babilônia, no Pergamon

Além do altar, há também um mercado romano reconstruído, as portas gigantescas do Portão de Ishtar, vindas da Babilônia, com  as tradicionais esculturas de leões alados, algumas coisas de arte muçulmana e muitas esculturas da antiguidade — quase tudo de cair o queixo. Tenho predileção por arte moderna e contemporânea, mas tenho que admitir que o Pergamon me surpreendeu muito e, por isso, recomendo vivamente uma visita a ele.

Alte Nationalgalerie e os guindastes

A Alte Nationalgalerie tem algumas coisas interessantes de arte alemã, como obras de Max Liebermann e Caspar David Friedrich, que vão até o final do século XIX, começo do século XX. É interessante para quem quiser conhecer a história da pintura alemã. Diria que foi o meu segundo museu preferido da Museumsinsel, mas, se você quiser muito ver pinturas e não puder visitar ambos, recomendo concentrar seus esforços na Gemäldegalerie, no Kulturforum.

O rio Spree contornando o Bodemuseum

O Bodemuseum, que fica na ponta mais ao norte da ilha, é um museu de esculturas, todas bem tradicionais. Há algumas obras de artistas conhecidos, como Donatello, e peças de arte sacra que me impressionaram bastante. No local também funciona um museu de arte bizantina. Se é do seu gosto, visite, mas não está entre os museus que mais me chamaram a atenção em Berlim. O prédio, de qualquer forma, já foi restaurado, então dificilmente você o encontrará fechado.

Esculturas no Bodemuseum

Altes Museum com o Lustgarten em frente

A partir da Schlossbrücke, há um grande gramado em frente à Catedral de Berlim, cujo nome oficial é Lustgarten. Do outro lado do gramado o eminente prédio que se vê é o Altes Museum. Tem uma coleção menor, com muitos objetos da Grécia e de Roma, como vasos com ilustrações, jóias etc. Quando morei lá, em 2009, tinha algumas coisas do Egito, entre elas a principal atração do museu: uma cabeça da Nerfetiti. O Neues Museum, contudo, foi reformado e reaberto para abrigar um museu egípcio, de modo que, hoje em dia, a Nerfetiti está por lá. O Altes Museum abriga também peças etruscas, enquanto o Neues Museum, além de objetos egípcios, exibe artefatos da idade da pedra, do bronze e do ferro.

Cabeça de Nefertiti, antigamente no Altes Museum, hoje no Neues Museum

Fachada do Neues Museum em 2009, quase pronto para a reabertura

Para finalizar, três dicas que valem para todos esses museus: em primeiro lugar, os guias de áudio estão incluídos no preço; por isso, vale à pena pegar um, nem que seja para ouvir informações a respeito só de algumas obras, que são bem interessantes. Tem em vários idiomas, inclusive em inglês e espanhol (quando eu fui não havia em português). Outra dica é que os museus ficam fechados às segundas; nas quintas, porém, ficam abertos até mais tarde, até às 22h e, a partir das 18h, passam a ser gratuitos. Assim, dá para visitar e ter uma ideia de todos eles e voltar no outro dia, com mais calma, no museu de que você mais gostou.

Lindo mural bizantino reconstituído no Bodemuseum

A terceira dica é que há um tícket que dá acesso a todos esses museus, mas ele é válido apenas para o mesmo dia. Como os museus são bem extensos, certamente será cansativo uma visita a todos eles, mas acho que até dois é possível visitar, no mesmo dia, sem grande sacrifício. E o preço do ingresso único é menor que o valor da entrada de dois desses museus.

Comidas e bebidas do Marrocos

Banca de frutas secas em Marrakesh

Já falei um pouco a respeito da comida no Marrocos no primeiro texto que eu escrevi sobre o país, tendo considerado este um dos motivos para você visitá-lo. Neste texto, pretendo esmiuçar um pouco mais sobre as delícias que você encontra naquele país.

Café da manhã no riad em Fez. No primeiro plano estão os msemmen

Comecemos do começo. Nos cafés-da-manhã que tomamos no Marrocos, sempre havia dois tipos de “pães”: uma panqueca bem fina, de formato retangular, parecida com nossa massa de crepe, mas um pouco mais quebradiça, chamada de msemmen, e uma panqueca mais grossa, de massa esponjosa semelhante a favos, chamada de beghrir. Havia, também, pães um pouco mais parecidos com o que a gente come aqui; destaco, porém, que o pão mais consumido no Marrocos (o batbout), que você vê aos montes nos souqs,  é semelhante ao que a gente chama de pão sírio, redondo e chato, mas um pouco mais grosso que a nossa versão, com mais massa.

As panquecas esponjosas são o beghrir. Ao lado, a sopa de semolina

Para acompanhar, sempre um pouco de queijo cottage bem fresco, manteiga e geléias. Para beber, café e suco de laranja. No hotel em Casablanca, mais ocidental, havia opções mais semelhantes ao “café-da-manhã continental”, com outros tipos de queijos e presuntos, mas nos riads não vi frios ou embutidos no café-da-manhã.  Em Fez também nos foi servida uma sopinha de semolina, meio sem graça, mas quentinha.

Pão e azeitonas no lindo Terrasse des Épices, em Marrakesh

Em qualquer refeição, mesmo no café-da-manhã, é sempre trazida uma pequena porção de azeitonas, normalmente em diferentes versões: verdes, negras, algumas mais picantes etc. Mesmo nos restaurantes, é oferecida como cortesia, não é cobrada. No almoço e no jantar, de início, além das onipresentes e tradicionais azeitonas, também costuma ser servido o pão batbout. Esse pão é também importante acompanhamento dos tajines.

Pão batbout e assortiment de salades marrocaines

Mas, se o objetivo é começar o almoço e o jantar com uma entrada um pouco mais saudável, recomendo as saladinhas marroquinas, identificadas nos cardápios em francês como “assortiment de salades marrocaines“. Você vai receber vários pratinhos ou tijelas com diferentes porções de vegetais e frutas em variadas apresentações. Depende muito do restaurante — em alguns apareceram quatro tijelinhas, mas eu cheguei a contar doze em uma refeição. Se você é vegatariano ou não quer comer muito, apenas uma porção dessas saladas será suficiente, pode acreditar. Além de tudo, elas são uma delícia. Tudo bem, não posso dizer que todas as versões são exatamente light, pois muitas das preparações vêm carregadas no azeite. Ainda assim, você encontrará abobrinha, berinjela, tomate, beterraba, pimentão, cenoura, pepino, enfim, uma grande variedade de vegetais que certamente são mais saudáveis que muita coisa que a gente come por aí.

Tajine de frango com azeitonas e limão cristalizado no Tangia, Marrakesh

Depois das saladas de entrada, o tradicional marroquino dos menus são os couscous e os tajines. Couscous é aquela massa fininha que a gente já encontra por aqui em alguns restaurantes, mas quando você vê nos cardápios como prato principal normalmente ele vem acompanhado de alguma carne, ou de vegetais na versão vegetariana. Os tajines são cozidos de carne e vegetais e podem ser acompanhados do pão batbout ou de… couscous! Então, qual a diferença? Confesso que achei meio confuso, mas aqui vai a minha percepção a respeito: os tajines vêm sempre numa panela típica de barro que se chama tajine também; aliás, eles são cozidos nesses potes. No geral, os tajines que eu pedia vinham acompanhados de pão, em alungs poucos lugares era oferecido o couscous de acompanhamento. Já quando pedíamos couscous, às vezes ele vinha acompanhado da carne em um mesmo prato, sem estarem misturados; em outras, vinha aquela montanha de couscous com a carne por cima ou em uma panelinha para você ir jogando aos poucos sobre a massa. Entendeu? Nem eu!

Couscous com carne e cenouras por cima no Tangia, Marrakesh

O fato é que, tanto nos tajines quanto nos couscous as opções de carne eram cordeiro, carne bovina e frango. Porco, nem pensar, é proibido no Islamismo. Devo advertir que, às vezes, a carne vinha picadinha, mas muitas vezes vinha com osso e tudo. Se você é fresco nesse ponto é melhor perguntar antes. Os cozidos sempre acompanham algum vegetal, como cenoura, abobrinha, pimentão e/ou alguma fruta seca: damascos, figos, ameixas, tâmaras…

Bastilla de frango

Passemos agora a outra especialidade da culinária marroquina: a bastilla (ou pastilla, vi escrito das duas formas). Esse prato pode vir como entrada, como prato principal ou até como sobremesa. Como? Digamos que a bastilla está um passo adiante do conceito agridoce. É uma massa folheada, parecendo uma mini torta, em geral recheada com alguma carne. A tradicional vem com carne de pombo, mas não gostamos muito da que comemos. Em outro lugar comemos com frango (foto acima), e achamos mais gostosa. De qualquer modo, a bastilla vem salpicada, por cima, com açúcar refinado e canela. A oposição entre os sabores salgado e doce é bem estranha ao nosso paladar, talvez não agrade a todos. De qualquer forma, vi algumas versões de sobremesa, em que elas são recheadas com castanhas e outras coisas mais harmoniosas em relação ao açúcar que vem por cima. Recomendo provar, é diferente mas não achei ruim.

Hambúrguer de camelo no Café Clock, em Fez

Encerrando a lista de “especialidades marroquinas”, no Café Clock, em Fez, experimentei um hambúrguer de camelo. Não vi grande diferença em relação ao hamburguer de carne bovina, a carne só é um pouco mais firme. Em todo caso, não me pareceu um prato disponível em qualquer lugar; ao contrário, só me lembro de ter visto nesse restaurante em Fez — onde, aliás, é um dos pratos mais pedidos.

Laranjas com açúcar e canela

As sobremesas são em geral massas finas recheadas com algum tipo de amêndoa ou castanha e umidecidas com água de laranjeira. Vêm em diferentes formatos e são uma delícia! Na medina de Fez, também comi um briouat, que é uma dessas massas em formato triangular, recheado com arroz, mas também adocicado. Mesmo tendo comprado na rua, achei muito bom! Além dessas opções, é muito comum ter como sobremesa laranjas descacadas e partidas em rodelas, salpicadas com canela e açúcar refinado. Simples e gostoso.

Toda refeição marroquina termina, em geral, com um chá de hortelã (thé à la menthe). Como já falei em outro texto, ele vem em geral numa chaleira metálica bem adornada e é despejado em copinhos de vidro, alguns cobertos com outro material para não queimar os dedos. O chá é normalmente derramado bem alto, talvez para esfriar um pouco. O chá é também oferecido como boas vindas nos riads. É uma “cerimônia” que vale à pena experimentar, ainda que você não seja muito fã de chá, já que os recipientes costumam ser lindos e o chá de hortelã, supostamente, ajuda na digestão. Achei, no geral, que os chás vinham muito doces para o meu gosto; se você também não gostar, peça para vir sem açúcar ou com um pouco menos.

Cerveja Casablanca, mas a foto foi tirada em Marrakesh

E as bebidas, digamos, mais fortes? Bem, se você está precisando fazer uma rehab, o Marrocos é um excelente destino. Pelos preceitos do Islamismo é proibido o consumo de bebidas alcoólicas e, apartemente, um lugar não pode servir álcool se estiver no campo de visão de uma mesquita. Obviamente essa regra não é seguida a ferro e fogo e vários restaurantes servem algum tipo de bebida, desde que o consumo não se dê de frente para a rua. Alguns restaurantes, contudo, não têm essa licença, e você vai ter que se contentar com refrigerantes, água ou suco. Onde são servidas bebidas alcoólicas, há algumas cervejas marroquinas; a mais comum é a Casablanca, que eu achei boa (foto acima).

Vinho marroquino S de Siroua

O vinho marroquino foi uma das surpresas da viagem, nos agradou muito. Experimentamos dois rótulos: o Médaillon, mais conhecido (que tem em quase todos os cardápios), e o S de Siroua, feito com a uva syrah. Se você é fã da bebida, não deixe de experimentar, pois não é comum ver vinhos marroquinos disponíveis em outros lugares (no Brasil, então, acho que não existe).

Pôr do sol no terraço do Kosybar, Marrakesh

Outras bebidas alcoólicas diferentes da cerveja e do vinho são vendidas em pouquíssimos lugares. Alguns bares, como o Kosybar, em Marrakech, vendem alguns drinks (aliás recomendo muito esse lugar para um trago ao entardecer, pois a vista do terraço é linda), mas devo advertir que muitos bares no Marrocos são lugares quase restritos para homens – ou, em alguns casos, para homens e meninas com a profissão mais antiga do mundo. Pergunte sempre a algum local ou no hotel se o lugar é tranquilo, antes de ir.

Como ir do Brasil ao Marrocos e se deslocar dentro do país

Vista aérea chegando em Marrakech

Ao contrário do que fazia parecer a novela O Clone, não há voos diretos entre o Brasil e o Marrocos. Assim, a melhor forma de chegar ao país é fazer conexão em alguma cidade da Europa.

Eu escolhi ir pela TAP, com conexão em Lisboa. Antes de prosseguir, quero fazer um parênteses. Ao contrário de muita gente, valorizo bastante os voos da TAP para o Brasil. Em primeiro lugar porque gosto muito de Lisboa e adoro fazer uma paradinha lá. Além disso, morando em Brasília, acho muito civilizado voltar de uma viagem longa dessas e chegar diretamente onde eu moro, sem ter que passar, por exemplo, pelo caos de Guarulhos. Tenho amigos que já passaram por problemas, mas, para mim, à exceção de uma mala extraviada que apareceu dois dias depois, nunca tive maiores perrengues, até o episódio da volta do Marrocos.

Os voos entre Lisboa e o Marrocos são operados tanto pela TAP como pela Royal Air Maroc (RAM), a companhia aérea do país. Na ida fomos de TAP mesmo, até Marrakech, enquanto na volta optamos por comprar um voo da RAM, já que teríamos que sair de Fez, fazendo uma conexão em Casablanca antes de voltar para Lisboa.

Na ida, foi tudo tranquilo, a conexão em Lisboa foi um pouco longa, mas o voo para Marrakech saiu na hora e foi tranquilo. Quando já estávamos no Marrocos, no meio da viagem, recebi um e-mail da minha agente de viagens dizendo que o voo da RAM Casablanca-Lisboa havia sido cancelado e que havíamos sido realocados num voo no dia seguinte. Embora o trecho Fez-Casablanca tivesse sido mantido, não havia nenhuma menção a uma acomodação em Casablanca oferecida pela companhia. Por sorte, minha amiga tinha créditos do Skype e conseguimos ligar para o Brasil para falar com a agente. Mesmo assim, só conseguimos remarcar voos em dias diferentes. Assim, cada um de nós passou por um tipo de problema.

No caso da minha amiga, a conexão em Casablanca era curta e, como o voo de Fez até lá atrasou, ela acabou perdendo o avião para Lisboa. A TAP não tem balcão próprio no aeroporto de Casablanca — eles só montam os guichês na hora do check in. Assim, ela ficou sem saber se haveria outro voo da TAP no mesmo dia. Como na RAM eles disseram que não poderiam fazer nada, ela acabou comprando outro voo deles que saía no mesmo dia. Ainda está pensando se vale à pena entrar na Justiça para cobrar por essa passagem “extra” e pelos danos morais. Houve ainda outros problemas: como ela perdeu a conexão, teve que praticamente caçar a mala dela no aeroporto de Casablanca; ninguém sabia dizer onde ela estava. Por sorte, um funcionário do aeroporto a ajudou e ela encontrou a mala. Além disso, fizeram a imigração dela em Fez (ou seja, carimbaram a saída dela do país já naquela cidade), de modo que, para voltar para a área de check in das companhias no aerporto de Casablanca, teve que passar por uma via crúcis na imigração — que acabou “anulando” o carimbo de saída de Fez.

No meu caso, o novo voo Casablanca-Lisboa em que fui colocado era no mesmo dia do anterior da RAM que havia sido cancelado, só que bem mais tarde. Resultado: passei umas 10 horas no aeroporto. Como alguns dias antes já havia conhecido Casablanca, fiquei com preguiça de voltar à cidade (que fica bem distante do aeroporto) para fazer turismo durante essa longa conexão; tampouco achei um guarda-volumes para deixar minhas coisas. Por isso, preferi ficar no aeroporto mesmo. Só que, quando já estava aguardando no portão de embarque, novo cancelamento: o avião da TAP que faria o voo estava com problemas técnicos e eles não conseguiram consertar. Tive que dormir mais uma noite em Casablanca e só embarquei no dia seguinte, por volta das 14h30.

O que eu e minha companheira de viagem aprendemos depois desses problemas:

1) ir para o Marrocos fazendo escala em Lisboa talvez não seja a melhor opção. Durante minha longa espera no aerpoorto de Casablanca, vi que há vários voos via Paris e via Madri e, assim, caso haja cancelamento do seu voo, deve ser mais fácil remarcá-lo. Numa pesquisa rápida no site da TAP, vi que, para Marrakech, não há voos às terças, quartas e sábados. Para Casablanca os voos parecem ser, na maior parte do tempo, diários; porém, ao menos na pesquisa que eu fiz, há apenas um voo por dia, e os horários variam muito de um dia para outro (o que dificulta ainda mais a remarcação);

Jatinho da Portugalia. Imagem obtida pelo Google

2) os voos da TAP de/para o Marrocos são operados, na verdade, pela Portugalia. Quem já viajou nela sabe que os aviões são menores e mais antigos. Pelo menos eram jatinhos, e não o bimotor que peguei uma vez para ir para Bilbao. De qualquer forma, o risco de o avião ter problemas de manutenção e não poder levantar voo (como aconteceu comigo) parece-me maior, pois, no caso dos aviões da Boeing ou da Airbus, deve haver mais técnicos capacitados para o conserto;

3) tendo em vista o cancelamento do voo no meio da viagem e a pouca colaboração oferecida, não acho que viajar com a RAM seja uma boa ideia. É bom frisar que a RAM não faz parte da Star Alliance ou de outro desses programas maiores de milhagem. Há uma parceria com a TAP apenas para bagagem e emissão de bilhetes; ainda assim, quando saímos de Fez, por exemplo, eles não emitiram o cartão de embarque até Lisboa, apenas até Casablanca, embora a bagagem tenha sido etiquetada até Portugal. O cartão de embarque Casablanca-Lisboa eu tive que pegar durante a conexão;

4) a TAP não possui balcão próprio no aeroporto de Casablanca (nem no de Marrakech). Os problemas são resolvidos por uma empresa terceirizada, que, claro, tira o corpo fora de qualquer responsabilidade (foi o que aconteceu no meu caso, no segundo cancelamento). Por isso acho, mais uma vez, interessantes os voos via Madri e Paris, já que Iberia e Air France possuem balcões no aeroporto de Casablanca — assim, fica bem mais fácil remarcar um voo caso sua conexão atrase, como no caso da minha amiga;

5) se você vai fazer conexão interna antes de pegar o voo para fora do Marrocos, não deixe, em hipótese alguma, carimbarem seu passaporte com a saída na primeira cidade em que você embarcar. Alertado pela minha amiga, disse em Fez que ia até Casablanca e ficaria ainda um tempo lá antes de sair do país e, assim, evitei o carimbo. O negócio é bagunçado mesmo, pois o voo que eu peguei até Casablanca não sairia do país depois, era um voo interno, mas, ainda assim, você tem que passar pela fila da imigração e se explicar.

A propósito, na mesma hora em que eu estava embarcando em Fez para Casablanca, havia um voo da Air France indo direto para Paris — talvez seja esse o motivo de me obrigarem a passar pela imigração, já que não há uma divisão dentro do aeroporto de Fez para voos internos e internacionais. Por isso, se o final da sua viagem for lá, pode ser uma boa procurar um voo via Paris na ida também.

Estação de trem de Rabat

Assim, embora exista a possibilidade de se deslocar internamente por avião, recomendo fazer essas viagens de trem. Fizemos os deslocamentos entre Marrakech e Casablanca e desta cidade para Fez de trem, e não tenho nenhuma reclamação. Também fizemos viagens bate-e-volta de trem (caso de Rabat e Meknès) e foi tudo tranquilo: é até possível comprar bilhetes ida e volta (aller-retour). Tirando a chatice dos rapazes que te abordam no trem para Fez (leia a respeito aqui), não tenho do que reclamar a respeito dessas viagens. Os trens que pegamos eram novos e foram sempre bastante pontuais: numa viagem bate-e-volta, perdemos um trem porque chegamos cinco minutos atrasados na estação. Além disso, os trens chegam às principais cidades do pais: Marrakech, Casablanca, Fez, Tanger, Rabat e Meknès são todas servidas pelos trilhos. Acho que dos destinos mais turísticos, só Essaouira, Tetouan e Chefchaouen não têm estações de trem e, por isso, devem ser visitadas de ônibus.

Estação de trem de Fez

Pelo Lonely Planet, li que a grande diferença entre a primeira e a segunda classe é que as cabines da primeira acomodam até seis pessoas, enquanto na segunda até oito — ou seja, uma bobeira. Até porque em alguns trens mesmo a segunda classe oferece assentos convencionais (com poltronas individuais) e não em cabines. Eu viajei sempre de segunda classe e não tive grandes aborrecimentos. Pode ser que no trem para Fez os “malas” não cheguem aos trens da primeira classe, não sei ao certo, mas algo me faz suspeitar de que eles devem ficar ainda mais gananciosos com os gringos da primeira classe.

Plataforma da estação de trem de Rabat

O site da companhia marroquina de trens (Office National des Chemins de Fer) permite a consulta dos horários de trens disponíveis, mas, infelizmente, não é possível comprar os bilhetes por lá. No geral, não achei difícil comprar in loco, nas estações, mas é sempre bom comprar com um ou dois dias de antecedência. No riad de Marrakech, eles mesmos providenciaram os bilhetes para nós, cobrando apenas pelo motorista que foi até a estação buscá-los. No caso das viagens bate-e-volta, compramos na hora sem problema algum.

Finalmente, tenho que destacar que as estações de Fez, de Marrakech e de Rabat foram reformadas e estão lindas, o que torna as viagens de trem muito mais agradáveis…

Riads, dars, zellij e outros elementos de arquitetura do Marrocos

Túmulos saadianos em Marrakech

Quando listei os doze motivos para se conhecer o Marrocos, disse que um deles era se hospedar em um riad em Fez ou em Marrakech.

Riad é o nome genérico que se dá às antigas casas tradicionais, localizadas dentro das medinas, convertidas em hotéis (ou outras formas de acomodação). Tecnicamente, contudo, um riad é uma casa construída ao redor de um jardim com árvores e uma fonte no meio. Já um dar tem apenas um pátio interno. De qualquer forma, ambos têm essa área interna, em geral aberta, às vezes coberta para proteger da chuva, mas mantendo a iluminação natural. Os quartos normalmente ficam ao redor desse pátio ou jardim.

Pátio interno do Riad Salam Fès

Quando você for procurar acomodação, vai ver ambas as palavras usadas (riad e dar), mas nem sempre o que você vai encontrar reflete as definições acima mencionadas. Minhas acomodações em Fez e em Marrakech tinham o nome de riads, mas ambas tinham apenas pátios internos — embora, no caso de Fez, houvesse também uma fonte, o que talvez justificasse a denominação. Em ambos os casos, havia uma cobertura deslizante, que podia ser afastada ou puxada conforme as condições climáticas. Nem preciso dizer que esses pátios (ou jardins) são áreas agradabilíssimas, ótimas para tomar o café da manhã, dar uma relaxada depois de bater perna ou ler um pouco.

Os riads ou dars podem tanto funcionar como um hotel tradicional como nós conhecemos, como uma casa para alugar (quem viaja em família ou com muitas pessoas pode alugá-los inteiros), guesthouses, bed-and-breakfasts e até albergues. Tudo depende do lugar, então é sempre bom verificar.

Pátio central do fundouq Nejjarine

Da mesma forma, você certamente cruzará com vários fundouqs nas medinas do Marrocos. Assim como os dars, são construções com pátios internos, mas aqui o foco era comercial. As caravanas vindas de diferentes pontos da África paravam nesses lugares, onde ficavam baseadas para vender seus produtos nos souqs. A parte de baixo geralmente era ocupada por oficinas de artesãos, enquanto os andares superiores tinham quartos usados pelos membros das caravanas, numa espécie de pensão medieval. A maioria hoje em dia está bem maltratada, servindo de oficinas ou simplesmente de depósito de quinquilharias. Talvez o fundouq em melhor estado seja o Nejjarine, em Fez, já que hoje em dia ele abriga um museu dedicado ao trabalho em madeira; vale muito à pena visitá-lo para ter uma ideia de como seria um fundouq em seus tempos de glória.

Muralha e entrada do kasbah de Rabat

Kasbahs são fortificações construídas para proteger os interesses comerciais de outrora, bem como as famílias dos dirigentes locais. O kasbah de Marrakech ainda abriga o Palácio Real e, por isso, é fechado ao público; já no lindo kasbah de Rabat é possível caminhar pelas ruelas em meio às casas brancas e azuis.

Zellij em uma fonte de Rabat

Zellij na mesquita Hassan II, em Casablanca

Dentro dos riads e dos dars, mas também em madrassas, museus, fontes, restaurantes e outras construções, você certamente verá outros elementos típicos da arquitetura árabe. Os zellij, por exemplo, são os famosos e onipresentes mosaicos coloridos de cerâmica. Seriam o equivalente às nossas pastilhas, mas, em geral, você vai ver que eles são aplicados de forma bem mais trabalhosa, praticamente peça por peça, até porque muitas têm formas geométricas diferentes ou reproduzem escritos sagrados do Alcorão. A princípio, quanto mais juntinhas estiverem, maior a qualidade do serviço.

Combinação de zellij e gesso, alguns com escritos, na medersa Ali ben Youssef

As paredes da Medersa Ali ben Youssef parecem feitas de renda... mas é gesso

Da mesma forma, você certamente verá largos painéis feitos em gesso (ou estuque, para ser mais técnico), trabalhados manualmente com padrões geométricos ou então também com escritos sagrados. Alguns são tão delicados que parecem renda. Para coroar o desbunde arquitetônico, observe os trabalhos em madeira que são usados em portas, frisos e nos tetos, alguns também delicadamente esculpidos. Preste atenção nos muqarnas (também chamados de mocárabes ou almocárabes em espanhol), um trabalho em madeira ou gesso feito em pequenos nichos que lembram colméias ou estalactites.

Nessa foto tirada na medersa Bou Inania, em Meknès, é possível ver muqarnas feitas em gesso

Lindo teto em madeira no Palácio Bahia, Marrakech

Ainda falando de madeira, você também verá nas construções os muxarabis, tradicionais da arquitetura árabe. São janelas feitas com treliças de madeira que permitem ver de dentro para fora, mas não o contrário, além de facilitar a ventilação. São talvez os avós dos cobogós, tão presentes na arquitetura modernista de Brasília.

Muxarabis na medersa Bou Inania, em Meknès

Outra palavra usada na arquitetura marroquina é o tadelakt. É uma espécie de reboco de gesso que recebe uma aplicação de sabão natural (em geral sabão negro ou de oliva) que lhe confere uma grande capacidade de resistência à água. Por isso é bastante usada em banheiros e hammans no Marrocos. O polimento e a aplicação de cores dão uma aparência parecida ao nosso cimento queimado.

Paredes cobertas de tadelakt e zellij na mesquita Hassan II, em Casablanca

Todos esses elementos arquitetônicos são feitos por mestres artesãos conhecidos como maâlems, e seu conhecimento tem sido novamente valorizado com a recuperação de riads e outras construções no país, permitindo que a técnica seja repassada a novas gerações.