Baladas de Berlim

Já conversei com pessoas de diferentes perfis que viajaram para Berlim. Pessoas jovens e mais velhas, casais em lua-de-mel, pais com filhos, solteiros convictos, gente namorando… e a cidade tem potencial para agradar a todos. Mas o fato é que, tirando talvez aqueles que estejam com crianças pequenas, todos querem experimentar pelo menos uma das famosas baladas de Berlim. Neste texto, tentarei falar um pouco sobre as principais. Não conheci todas (não que eu não tenha tentado…), mas tenho uma ideia a respeito por conta do que li e da impressão de amigos que foram. É sempre bom lembrar também que minha última visita à cidade foi em 2009, então as coisas podem estar um pouco diferentes. De todo modo, acho que as principais noites da cidade não mudaram.

Antes de começar, aqui vai um alerta: em Berlim, há leões-de-chácara nas entradas das principais boates, que podem barrar quem vai entrar ou não. Eu sei, também acho isso um saco e, a princípio, não combina nada com a fama libertária e democrática de Berlim. O lance é que aqui, mais do que gente bem vestida, talvez o que eles queiram dentro de uma balada seja o contrário: gente com cabeça aberta e uma vibe moderna. Não dá, claro, para generalizar: cada balada tem sua orientação, e, para falar a verdade, acho que as regras são bem fluidas, dependem muito do (bom) humor de quem está na porta. Em todo caso, aqui vão algumas impressões:

a) saiba onde está pisando. Em Berlim há noites bem direcionadas, algumas voltadas até para fetiches específicos (!!!) e isso, claro, repercute na seleção da porta. Não dá para querer entrar num lugar desses se você não está no mesmo “padrão”. Além disso, não custa nada dar uma fuçada no site das boates, pesquisar umas fotos na internet, para saber mais ou menos em que direção vai o público de cada lugar. Sei que às vezes a curiosidade antropológica fala mais alto, mas se você odeia tecno, isto provavelmente vai estar estampado na sua cara quando você estiver tentando entrar naquela boate em que esse tipo de música toca. A pesquisa prévia ajuda também porque, às vezes, eles perguntam se a pessoa sabe quem vai tocar no lugar. Se for um DJ mais conhecido e você não souber disso, vai voltar pra casa com certeza.

b) evite grupos grandes, evite ir sozinho: já entrei na Berghain algumas vezes sozinho, mas fui barrado uma vez na Watergate quando estava desacompanhado. De qualquer forma, senti que eles não gostam daqueles grupos muito grandes, principalmente os que falam outra língua. Já vi um grupo inteiro de italianos, que conversavam animadamente durante a espera, ser barrado. Preconceito? Também acho, mas não fui eu quem inventou isso. Assim, se você está num grupo com várias pessoas, tente dividi-lo em pequenos subgrupos, entrando separadamente na fila. Não tem problema conversar em português na fila (sempre fiz isso), mas de forma discreta, sem gritaria.

c) capriche no “look moderno”: não precisa ir vestido como a Lady Gaga, mas sapato e camisa social em Berlim é quase certeza de ser barrado no baile. Para as meninas, vestidos e sapatos muito formais também. Jeans e tênis surrados são muito mais garantidos. E você ainda estará bem mais confortável para curtir a balada até de manhã.

O chato é esperar na fila um bom tempo e, na hora “h”, ser barrado. A sensação de perda de tempo é inevitával. Vá preparado para isso. Mas não fique muito chateado. Sabe o que eu percebi? Que gente que é barrado num dia volta em outro e entra (conheci gente nessa situação). Aliás, uma vez na Berghain, vi um cara quue estava logo na minha frente ser barrado e, mais tarde, ele entrou de alguma forma, pois estava lá dentro (não sei se voltou para fila depois e acabou passando). Feitos tais alertas sobre a entrada, vamos aos locais em si:

Entrada da Berghain. Imagem obtida em http://example magazine.com/features/post/762/Berghain-Berlin

1) Berghain: o nome do lugar é um mistura de Kreuzberg com Friedrichshain, os dois bairros vizinhos über cool de Berlim. Quando estive da primeira vez na cidade, em 2007, era “o lugar” para se conhecer. Em 2009, aliás, ganhou o 1.° lugar na revista DJ Mag como o melhor club do mundo. Outros lugares apareceram depois, e muita gente apostou que a Berghain ia perder seu posto. Mas o fato é que ela continua funcionando firme e forte, e as filas gigantescas não parecem ter diminuído. Isto, é claro, tornou a Berghain praticamente uma atração turística e, segundo apurei com amigos que ainda moram lá, o lugar talvez tenha ficado “turístico demais”. Mas acho que ainda vale a experiência de ir lá pelo menos uma noite para conhecer.

O lugar é uma antiga usina de energia (por isso não se assuste com a fachada) e por dentro mantém esse ar meio industrial, com um pé direito bem alto na maior parte. Num lugar desses, a música não poderia deixar de ser tecno, ou um eletrônico mais pesado, podendo haver variações, dependendo do dia da semana. No sábado, que é a noite principal, o público é bastante gay, mas sempre é bem misturado — principalmente no bar que fica no segundo andar, chamado de Panorama, onde, aliás, a música costuma ser menos pesada. De qualquer forma, depois de alguns shots de Jäggermeister, você vai achar a experiência superinteressante. Para rebater, beba algumas Africolas, uma versão-tubaína alemã do famoso refrigerante.

Tenho que advertir que não são permitidas fotos no interior da Berghain. Eles inclusive pedem que você deixe câmeras na chapelaria na entrada, podendo retirá-las quando for embora (se você se lembrar). A ideia seria que as pessoas se sentissem livres para fazer o que quisessem lá dentro, sem medo de serem fotografadas. O fato é que com o advento dos smartphones, ficou mais difícil controlar as fotos, mas eu não arriscaria ser expulso do lugar só para ter uma lembrança da balada.

A Berghain fica atrás da estação Ostbahnhof, é só pegar o S-Bahn, descer lá e ir seguindo o fluxo. Se estiver com medo de se perder, vá de táxi, os taxistas normalmente sabem onde fica.

2) Watergate: tentei ir à Watergate pouco depois de chegar em Berlim, quando passei três meses na cidade, mas fui barrado na porta. Eu até sabia o DJ que estava tocando no dia (era o Sven Väth), mas acho que o leão de chácara não gostou do fato de eu estar sozinho e não ter entendido o alemão grunhido dele logo de cara. Depois, até pensei em tentar de novo, levando algum amigo, mas fiquei com receio de dar com os burros n’água novamente.

Watergate. Imagem obtida em http://www.e-concierge.de/ blog/2009/05/30/clubmotoren-watergate/#.T3edp3jRXoA

Mas as fotos internas do lugar, com o teto de luzes multicoloridas, chamam muito a atenção. E na mesma seleção de 2009 da revista DJ Mag, em que a Berghain ficou em 1.° lugar, a Watergate abocanhou o 8.° lugar, o que, para uma seleção mundial, não é pouca coisa. A boate fica numa região agitada de Kreuzberg, próxima à estação do metrô Schlesisches Tor (do U1), e tem uma vista para o Rio Spree e para a ponte Oberbaumbrücke que é um dos seus atrativos.  A Watergate sempre recebe DJs estrelados (como o próprio Sven Väth ou a Ellen Alien, que tocou também durante o período em que eu estava morando lá); por isso, é sempre bom dar uma olhadinha na programação, para o caso de te perguntarem na porta.

Weekend. Imagem obtida em http://www.shift.jp.org/ en/archives/2008/11/berlin_night_club.html

3) Weekend: fica nos “fundos” da Alexanderplatz, no topo de um prédio que tem o logo da Sharp em uma das fachadas. É a boate indicada no guia da Wallpaper de Berlim (ou pelo menos na última edição que eu baixei). Funciona de quinta a domingo, mas me parece que os dias mais animados são… a quinta e o domingo, sendo que neste último a noite é gay (chamada de GMF). A música, de qualquer forma, é invariavelmente eletrônica, com ênfase no house — embora, ultimante, pelo que apurei, a ênfase no eletrônico tenha se perdido um pouco. Entre na fila que costuma se formar na porta e, depois de pagar o ingresso, há um elevador que te leva para uma das duas pistas de dança: uma fica no 12.° andar, a outra no 15.°. Dependendo do dia (e do movimento), só uma delas abre. A vista do 12.° é melhor, por causa dos janelões que rodeiam boa parte da pista. O deslocamento entre os dois andares é só por elevador (um saco, mas faz parte da vibe do local).

Vista do terraço da Weekend. Imagem obtida em http://www.fuse.be/fuse/?p=5131

Se você for mais para o final da primavera ou no verão e o tempo estiver bom, poderá ainda conhecer o terraço, acessível por uma escada a partir do 15.° andar. As vistas são ótimas e, se estiver ventando muito, há distribuição de cobertores para você se proteger enquanto fica jogado em algum dos sofás, conversando e bebendo.

Além dessas, conheci outras, como o Club der Visionäre, bem low profile, que fica na beira de um canal do rio Spree, em Treptow, e é visitado de dia ou em after hours. Também fui ao lendário KitKatClub, a respeito do qual quero falar um pouco.

O KitKatClub já existe há alguns anos; surgiu depois da reunificação e tentou reviver um pouco do clima cabaret-decadence que havia em Berlim antes da guerra. Já passou por vários lugares e está agora em Kreuzberg, num local perto da estação Heinrich-Heine-Straße do U-Bahn. Quando fui da primeira vez a Berlim, era um destino certo para um after hours depois da noite de sábado, mas perdeu muito do público quando a Berghain passou a funcionar domingo adentro non stop. Atualmente, sobrevive como clube de fetiche e, por isso, a entrada é bastante controlada, mas eles costumam relaxar um pouco se você chegar no domingo de manhã para o after hours.

Minha opinião? Bem, digamos que foi uma experiência antropológica. Por ser uma boate dedicada a fetiches, há pessoas vestidas de tudo quanto é jeito, e isso nem é o que mais chama a atenção: algumas delas ficam nuas e outras chegam a fazer sexo em alguns lugares. Tentei fazer cara de paisagem o tempo todo, mas no final até achei a experiência interessante, considerando que estava em Berlim. Em todo caso, como bons alemães, seu espaço é respeitado e ninguém te assedia se você não quiser — até porque você será, provavelmente, a pessoa mais “normal” do lugar. Se você gosta da proposta ou quiser uma experiência dessas para contar para os amigos quando voltar, vá fundo.

A Trésor abriu há menos tempo e todo mundo achou que desbancaria a Berghain, mas isso não aconteceu. Fica perto de onde está o KitKatClub, em Kreuzberg. Nunca fui, mas é uma opção a mais em Berlim, e lá acontecem algumas festas temáticas. Em todo caso, parece que a Berghain, a Watergate e a Weekend seguem como a tríade de baladas mais interessantes de Berlim.

Sistema de transportes de Berlim

Na parte de baixo da foto, a principal linha do S-Bahn de Berlim, que corta a cidade ao meio (por onde passam o S3, o S5, o S7 e o S9)

É claro que bater perna pela cidade é sempre a melhor forma de conhecê-la; e, no caso de Berlim, eu já indiquei um roteiro à pé que cobre algumas das principais atrações da cidade (primeira parte aqui, segunda aqui). Mas Berlim tem atrações espalhadas e, nesse caso, ir à pé pode não ser uma opção (tudo depende de onde você estiver hospedado, claro).

Táxis de Berlim (fonte http://www.morgenpost.de)

Os táxis de Berlim não estão entre os mais caros da Europa, e eu nunca tive problemas com os taxistas de lá, desses que a gente costuma ter em quase todos os lugares (como não querer ligar o taxímetro, ficar dando voltas, suspeita de adulteração do taxímetro etc). OK, uma vez, saindo de uma boate à noite, o taxista se recusou a me levar em casa: só que a corrida era realmente curta e a fila de táxis na porta estava bem grande, então eu até entendi a recusa.

De qualquer maneira, o transporte público de Berlim é bem amplo, chega a muitos lugares e usá-lo não é muito complicado. O metrô funciona 24 horas nos finais de semana, o que é bem útil aos baladeiros de plantão. Durante o período que passei na cidade, usava o metrô com bastante frequência, inclusive à noite, e nunca tive problemas. Também usei algumas vezes o ônibus e o sistema de bondes (tram): esses meios de transporte, contudo, exigem um pouco mais de pesquisa e de orientação na cidade; se for necessário usá-los, melhor se informar antes no hotel.

Mapa do metrô de Berlim com as linhas do U-Bahn e do S-Bahn

Quanto ao metrô (que é o mais usado pelos turistas), há dois sistemas, o que pode tornar as coisas um pouco confusas: o S-Bahn e o U-Bahn; ambos, entretanto, são perfeitamente integrados e você pode nem perceber a diferença. E qual seria a diferença entre eles? Bem, em tese, o U-Bahn seria subterrâneo, enquanto o S-Bahn correria na superfície, mas isso não é 100% verdadeiro: às vezes o U-Bahn sobe para a superfície (algumas partes da U2, por exemplo), e em alguns trechos o S-Bahn é subterrâneo (como na S1). Eu diria que o sistema S-Bahn vai mais longe, chegando aos subúrbios mais distantes e mesmo a cidades do entorno — você pode usá-lo, por exemplo, para ir visitar os palácios prussianos em Potsdam. Já o U-Bahn circula na área mais central de Berlim. Esses dois sistemas são em geral indicados com as letras “U” ou “S” seguidas do número da linha: U1, S7 etc. De qualquer forma, como você pode ver no mapa, as linhas também são indicadas por cores.

Metrô passando por cima da Oberbaumbrücke, ligando Friedrichshain a Kreuzberg

A propósito, o sistema é dividido em três zonas: A, B e C, sendo a primeira mais central e a última mais externa. Os bilhetes são vendidos com três combinações possíveis de zonas: AB, BC ou ABC. O bilhete AB atende perfeitamente as necessidades dos turistas: você só vai precisar comprar um válido para a zona C se for para o aeroporto Schönefeld (ou, a partir, de junho deste ano, para o novo aeroporto Berlin-Brandenburg) ou se for visitar Potsdam, como eu mencionei acima.

O sistema é baseado todo na responsabilidade do usuário. Assim, não há catracas nas estações; entretanto, fiscais aparecem de surpresa às vezes durante o trajeto e você tem que mostrar um bilhete válido para eles. Não consegui descobrir o valor atual da multa se você for pego sem um bilhete válido (andar sem um é chamado em alemão de Schwarzfahren), mas ela é bem salgada. Sem contar o constrangimento dos locais te olhando com cara de reprovação. Durante meus três meses em Berlim, peguei uns três controles apenas; se você gosta de correr riscos e viver perigosamente, vá fundo.

Bem, mas se não há catracas nas estações, como eles sabem se o seu bilhete é válido ou não? Em primeiro lugar, comprar e validar o bilhete são coisas diferentes feitas em máquinas diferentes, OK? Depois de comprar, você tem que validar o bilhete em umas maquininhas amarelas ou vermelhas que ficam na entrada da estação ou da plataforma (você introduz o bilhete no buraco e ele vai carimbar a hora e a estação onde você o validou). A partir daí, ele é válido por 2 horas — considerando-se o bilhete padrão, válido para uma viagem apenas. Nesse período, você pode fazer quantas baldeações forem necessárias, e inclusive mudar o meio de transporte: sair do metrô e ir para um bonde ou um ônibus, por exemplo (nesses casos, basta mostrar o bilhete válido para o condutor). Atenção: não são aceitas nessas duas horas viagens de volta (aquela que você faz voltando para a estação onde o bilhete foi validado). Ainda que você tenha ficado no seu destino menos de duas horas, é necessário adquirir um novo bilhete para voltar. De qualquer maneira, fica a dica: deixe para validar o bilhete quando o metrô estiver entrando na estação, assim você ganha tempo para usá-lo durante as duas horas de validade.

Maquininha para validar o bilhete. Imagem obtida do blog http://heinbloed-cruiseguides.blogspot.com/

Há bilhetes diários (válidos até as 3h da manhã do dia seguinte àquele em que você o validou), semanais (válidos por 7 dias), mensais e anuais: tudo depende de quantos dias você vai ficar na cidade e se vai usar o sistema de transporte todos os dias. Faça as contas para ver se vale à pena: divida o valor desses tickets múltiplos pelo valor de um bilhete unitário, e veja quantas vezes você terá que viajar para compensar o investimento. Por exemplo: atualmente, o bilhete semanal custa € 27,20 (para a zona AB), enquanto o bilhete único está saindo a € 2,30 para a mesma zona. Assim, você teria que fazer pelo menos 12 viagens nesse período para compensar o preço. Para saber todas as tarifas em valores atualizados na época da sua viagem, consulte o site da Berliner Verkehrsbetriebe, a companhia que controla o sistema de transporte da cidade (o link que eu coloquei aqui leva direto à parte das tarifas, em inglês).

No caso dos bilhetes múltipos, o prazo de duração começa a contar quando você o valida inicialmente. Não é necessário validá-lo toda vez que você for andar de metrô: basta mantê-lo na carteira ou na bolsa para mostrá-lo caso o fiscal apareça. Se você for andar de ônibus ou de bonde, mostre-o ao condutor.

Bilhetes do metrô para viagens curtas (Kurzstrecke)

Para viagens curtas, use o bilhete Kurzstrecke (short trip, em inglês), válido se a viagem for de até 3 estações de metrô ou 6 paradas de ônibus ou bonde.

Todas as estações têm terminais de autoatendimento para compra dos bilhetes, nos quais é possível escolher o inglês, facilitando a vida dos turistas. Em caso de dúvidas, as principais estações contam com guichês com funcionários que podem orientá-lo. Nunca usei esses guichês, então não posso dizer se o atendimento é atencioso ou se eles falam inglês.

Mapa do Tram (bondes)

Os dois mapas que eu coloquei aqui no texto mostram as rotas do metrô (sistemas U-Bahn e S-Bahn) e dos bondes (Tram) — se você não conseguir orientar-se por eles, pode baixar os arquivos em formato pdf do sítio da Berliner Verkehrsbetriebe para seu computador ou tablet (mapa do metrô aqui; mapa dos bondes aqui). Para o turista, acho que só vale à pena usar o ônibus em duas situações. Em primeiro lugar, há duas linhas para o aeroporto Tegel (TXL) que saem de lá e vão até a Alexanderplatz (linha JetExpressBus TXL) e à estação Zoologischer Garten (linha ExpressBus X9). A partir desses locais, é tranqulilo integrar-se ao sistema de metrô. A viagem até a Alexanderplatz dura entre 28 e 40 minutos, de acordo com o site da BVG.

 A propósito, Berlim conta atualmente com dois aeroportos: o Tegel e o Schönefeld (SXF). Já teve três: até um tempo atrás, ainda funcionava o aeroporto Tempelhof — coisas de uma cidade que passou anos divida em duas. De todo modo, está previsto para 3 de junho de 2012 o início da operação do aeroporto Berlin-Brandenburg (BER) — na verdade uma extensão do que hoje é o Schönefeld. Com o início das operações do novo aeroporto, está prevista a desativação do Tegel, o que torna sem efeito as dicas que eu dei acima a respeito dele. Em todo caso, até esta data, é uma boa opção usar o ônibus para ir até lá (verifique antes se a data de inauguração foi postergada). Para o Schönefeld — e também para o novo Berlin-Brandenburg, basta pegar a linha S9 do metrô, lembrando que é necessário adquirir um bilhete válido para a zona C.

A segunda situação em que vale à pena (e muito) usar ônibus são as linhas 100/200, de que já falei aqui. São linhas regulares (não são linhas especiais para turistas) que saem da Alexanderplatz e chegam à estação Zoologischer Garten, passando por caminhos diferentes. Elas interessam porque passam por vários pontos turísticos: a 100 passa pela Unter den Linden, pelo Parlamento, pela Haus der Kulturen der Welt, pelo Schloss Belevue, pela Siegesäule, dentre outros lugares. A segunda serve à Potsdamer Platz, à Filarmônica e ao Kulturforum. Se você tiver um bilhete múltiplo, pode subir e descer várias vezes, fazendo boa parte do roteiro turístico da cidade sem se cansar. E o melhor: do ônibus, você ainda vê a cidade.

Para encerrar, os cartões Berlin CityTourCard e Berlin WelcomeCard, além de oferecerem descontos em atrações turísticas, também permitem o uso do sistema de transporte público, ilimitadamente, por 48 horas, 72 horas ou 5 dias.

Berlim – a área do Scheunenviertel

Lindo pátio nos Hackesche Höfe

Quando comecei a escrever esse texto, queria falar especificamente das galerias que eu conheci numa visita guiada do Goethe e que ficam na área denominada Scheunenviertel, em Berlim. Comecei a pesquisar na internet os endereços e sites das galerias e, para minha surpresa, algumas haviam se mudado para Kreuzberg. Por isso, atenção a esse fato, que pode estar virando tendência: galerias estão migrando para Kreuzberg, onde já ficava a interessante Berlinische Galerie, a respeito da qual pretendo falar em outro texto.

Pátio interno nos Hackesche Höfe

Mesmo assim, resolvi continuar com o texto para falar um pouco mais a respeito de uma das minhas regiões preferidas de Berlim. Como disse no texto que escrevi sobre os bairros de Berlim, a área conhecida como Scheunenviertel, uma subregião do Mitte, é uma das mais interessantes atualmente da cidade (por isso, claro, é uma das minhas preferidas). Lá fica o Goethe Institut, onde fiz meu curso de alemão, além de vários restaurantes legais de várias partes do mundo, como o Monsieur Vuong, de comida vietnamita, cafés excelentes para observar as pessoas na rua, como o Caras, lojas de criadores locais e outras mais internacionais (Adidas, Diesel, Muji etc), livrarias, salões de beleza, lojas de chocolate, de revistas, de chá, enfim, uma infinidade de coisas para distrair seus olhos e esvaziar seus bolsos.

Pode-se discutir sobre o que exatamente pode ser chamado de Scheunenviertel, mas eu costumo delimitá-lo com a Alexanderplatz e a Prenzlauer Allee a leste; a Torstraße e a a Rosenthaler Platz a norte; a Friedrichstraße a oeste; a Oranienburger Straße a sul/sudoeste e o Hackescher Markt ao sul. Olhe no mapa acima e você logo se localizará dentro desse polígono. Já disse no texto sobre os bairros de Berlim, mas não custa repetir: as estações de metrô que melhor servem à região são a Hackescher Markt e a Oranienburger Strasse, do S-Bahn, e a Weinmeisterstrasse e Rosa Luxemburg Platz, do U-Bahn.

Antes da queda do muro, a maior parte das galerias de arte ficavam em Charlottenburg — algumas ainda estão por lá — mas, a partir de então, a maioria migrou para a região de Scheunenviertel. Há, claro, algumas galerias pioneiras que já operavam na Alemanha Oriental, como a Eigen+Art, mas o grande boom aconteceu mesmo após a reunificação. Calcula-se que atualmente existam mais de 100 galerias na região — e a área nem é assim tão grande. Como eu relatei acima, algumas galerias mudaram-se para Kreuzberg, mas como estive em Berlim da última vez em 2009, não sei dizer se esse movimento é consistente.

Arte abstrata em uma das galerias do Scheunenviertel

Visitar galerias de arte costuma ser indicado em muitos guias como uma atividade imperdível — seja em Berlim, em Nova Iorque, em Oaxaca ou em Marrakech — mas essa costuma ser uma atividade que deixa muita gente com o pé atrás. Visitar galerias não é para quem vai comprar obras de arte — o que está excluído das atividades de, digamos, 98% dos turistas? Não necessariamente: as galerias de arte são vitrines de artistas e, se servem também aos grandes dealers de arte do mundo, podem muito bem agradar aos turistas comuns. Diga que se interessou pelo trabalho do artista e quer ver um pouco das obras para conhecê-lo um pouco melhor. Além do mais, várias galerias oferecem produtos que cabem no orçamento (e na mala) da maioria, como catálogos, livros de arte e pequenas gravuras. Afinal, se o representante da galeria ficar fazendo cara feia para você, vire as costas e vá embora: lembre-se de que há pelo menos uma centena de outras galerias para visitar.

Nossa guia explicando como seria a visita das galerias

Da mesma forma, galerias de arte são, em geral, espaços pequenos, muitas vezes meio escondidos, que até intimidam um pouco os visitantes aventureiros. Nesse sentido, fica mais difícil para quem não é local ou connaisseur pinçar as coisas boas no meio dessa grande oferta. Por isso, aproveitei um passeio guiado que o Goethe Institut ofereceu enquanto eu lá fazia meu curso. A guia era uma professora bem entendida a respeito de arte contemporânea e do acervo das principais galerias locais. Ela contava a história das galerias, qual o background dos galeristas, em que tipo de arte ou nicho cultural ela era especializada — em suma, porque valia a pena visitá-la. Também falava um pouco sobre os artistas em exposição. Assim, para facilitar um pouco o trabalho de quem vai a turismo e quer conhecer outras coisas na cidade além das galerias, listo aqui o que eu conheci na minha visita guiada.

É preciso destacar que essas informações são voláteis, e como eu fiz o passeio em 2009, algumas coisas podem estar desatualizadas. De qualquer modo, as galerias indicadas aqui são antigas e já estão estabelecidas há algum tempo, de modo que eu acho pouco provável que elas tenham fechado. Além disso, eu pesquisei na internet informações atualizadas sobre elas, que são as que eu coloquei aqui.

Muitas das galerias do Scheunenviertel começaram de forma bem independente e autônoma e, apenas depois de muitos anos de trabalho, ganharam reconhecimento. De acordo com a guia, é um movimento que tem pouco mais de quinze anos — o que é realmente muito novo. O ponto crucial foi a primeira Documenta de Kassel (uma mostra de arte que acontece a cada cinco anos na cidade alemã de Kassel) pós-reunificação, no começo da década de 90, quando vários galeristas foram até lá levar o trabalho de artistas locais novos e convidaram críticos ocidentais para conhecer suas galerias. Como eu disse acima, depois que o movimento se estabeleceu, muitos galeristas de Berlim Ocidental se mudaram ou abriram filiais nessa área; alguns poucos galeristas são oriundos de Berlim Oriental e, por isso, são vistos como pioneiros também.

Arte (poesia) nas paredes de um dos höfe

Algumas galerias na região realmente ficam meio escondidas. Muitas ficam dentro de höfe, aqueles pátios internos com jardins, tão comuns nos prédios de antigamente. Vários desses höfe tinham residências na parte da frente, voltadas para a rua e, na parte de trás, pequenas fábricas e manufaturas. Muitos foram recuperadas depois da reunificação e têm uma mistura interessante de residências particulares, escritórios, galerias e até restaurantes.

Pátio restaurado nos Hackesche Höfe

O mais famoso conjunto de pátios internos da região é o Hackesche Höfe, que já virou uma atração turística por si só (o acesso principal se dá pela Rosenthaler Straße, logo junto à praça do Hackescher Markt). Apesar deste local ter ficado “muito turístico”, o que descaracteriza um pouco a função original dos höfe, recomendo muito a visita, pois os pátios foram reformados e alguns estão realmente bem bonitos. São oito pátios interligados; dentro, um cinema, alguns restaurantes (não experimentei nenhum) e muitas lojinhas, incluindo uma que vende só artigos relativos ao Ampelmann, aquele “bonequinho” dos semáforos de pedestres de Berlim que já se tornou um dos símbolos da cidade. Dá para comprar de chaveiro a forma de gelo com o formato do Ampelmann.

Loja de brinquedos dentro dos Hackesche Höfe

Mas vamos às galerias da região que eu visitei:

1) Eigen+Art: foi chamada pela professora como a “galeria número 0″ do Scheunenviertel. São originários de Leipzig — onde ainda mantêm uma galeria — e foram um dos primeiros a se instalar no bairro.

Entrada da Galeria Eigen+Art

2) Wolfram Völcker: é uma galeria que trabalha com gravuras e desenhos. Quando fui, estava com umas gravuras do Georg Baselitz bem interessantes.

Pátio da Sammlung Hoffmann

3) Sammlung Hoffmann: é uma coleção privada que tem obras, por exemplo, do Basquiat e do Andy Warhol. A família Hoffmann recuperou um hof da região e ali instalou sua coleção. Para visitar, é necessário ligar e marcar; as visitas ocorrem sempre aos sábados.

Também visitei as galerias Alexander Ochs, Barbara Thumm, ZwingerBarbara Wien (que também edita e vende livros de arte), mas todas saíram da região (as duas primeiras estão em Kreuzberg, as duas últimas, em Schöneberg), e outras cujos nomes, infelizmente, não anotei. Nas ruas onde ficam a Eigen+Art (Auguststraße) e a Coleção Hoffmann (Sophienstraße), é certo encontrar várias outras, algumas voltas para a rua mesmo, outras dentro de höfe.

Outro ponto turístico dentro da área do Scheunenviertel é a chamada Kunsthaus Tacheles (no final da Oranienburger Straße) – se é que o local pode ser chamado de “turístico”. É um prédio abandonado que estava para ser derrubado há muito tempo e acabou sendo ocupado por artistas “sem-teto” logo após a reunificação. Ali eles estabeleceram seus ateliês, e desde então uma queda-de-braço com o governo para a manutenção do local começou.

Famosa frase na fachada lateral da Kunsthaus Tacheles

Gosto da história por trás dessa ocupação (um prédio abandonado que foi usado para fazer arte), mas não gostava do local em si. O fato é que o prédio está bem degradado e muitos dos ocupantes originais saíram de lá (havia até restaurante ali). Da última vez que visitei, os trabalhos que eu vi expostos eram de gosto duvidoso — mas quem sou eu para julgar o teor artístico do trabalho de alguém. Quando eu morei em Berlim, também havia alguns bares no local, e eu cheguei a visitar um deles, com os colegas do curso do Goethe — achei a frequência tranquila, nada muito underground. De qualquer forma, pode ser uma boa dar um pulo lá para dar uma olhada, nem que seja de fora; afinal, o prédio pode ser demolido a qualquer momento e pode ser a última oportunidade de vê-lo da forma atual, com o muro pintado com a famosa frase “How Long is Now”, já um marco na paisagem urbana de Berlim.

Havia uma pizzaria dentro da Tacheles...

Neue Synagoge

Finalmente, não deixe de dar uma passadinha na Neue Synagoge. também na Oranienburger Straße. Construída em 1866, esta sinagoga era um símbolo da presença judaica na Alemanha de então — aliás, todo o Scheunenviertel era uma área bastante ocupada por judeus antes da guerra. Durante a Noite dos Cristais, em 1938, ela não foi queimada por pouco — um chefe de polícia impediu que nazistas colocassem fogo nela, ato que é lembrando no local com uma placa. De qualquer forma, a sinagoga foi dessacralizada durante a época nazista e foi atingida por bombardeios. O local ficou meio largado na Berlim Oriental, até ser reformado na década de 90, e hoje é um centro cultural e um museu chamado de Centrum Judaicum. Mesmo que você não entre no prédio, o lindo domo dourado vale a passagem.

Cerveja no pátio do Clärchen Ballhaus

Além do Monsieur Vuong, que eu já mencionei acima, fui algumas vezes no Sophieneck, na esquina entre a Sophienstraße e a Große Hamburger Straße. É um restaurante de comida alemã aconchegante, e os preços não são exorbitantes, por isso pode ser uma boa opção para comer se você estiver na área. Também pode-se almoçar no Clärchen Ballhaus, na Auguststraße, que tem um agradável jardim com mesas, perfeito para uma refeição se o clima estiver bom, e também funciona como salão de dança à noite! Uma última dica: evite os restaurantes da Oranienburger Straße. Primeiro porque à noite enche de prostitutas por lá. Além disso, os restaurantes que ficam ali costumam ser genéricos “pega-turista”. Basta entrar um pouco na Große Hamburger Straße ou na Auguststraße para as opções ficarem mais interessantes.

Berlim – Museumsinsel

Uma das salas da Alte Nationalgalerie

Como já disse aqui, Berlim, por ter ficado dividida tanto tempo, tem várias atrações culturais duplicadas — como no caso das óperas. Com os museus não é diferente. Há duas grandes áreas de museus, a Museumsinsel, que ficava do lado oriental, e o Kulturforum, no antigo lado ocidental. E o mais interessante é que ambas as áreas são na verdade um grupo de vários museus — o que mostra como a oferta cultural em Berlim é farta.

A Museumsinsel fica, literalmente, numa ilha do rio Spree — daí o nome “ilha dos museus” (a propósito, a pronúncia do nome do rio é sprê-ê mesmo, não spri, como se fosse inglês). Os museus, todavia, não ocupam a ilha inteira, apenas a parte mais ao norte, acima da Schlossbrücke, aquela toda decorada com estátuas (ver mapa acima). Ali estão cinco museus, cada um com seu próprio prédio: Bodemuseum, Altes Museum, Alte Nationalgalerie, Pergamon Museum e o Neues Museum. É interessante ver que o S-Bahn (um dos metrôs de Berlim) passa no meio da Museumsinsel, entre o Pergamon e o Bodemuseum.

Enquanto o Kulturforum é mais moderno, os prédios da Museumsinsel seguem o estilo clássico, já que foram construídos ainda na época da monarquia prussiana, quando as realezas europeias começaram a achar chique abrir suas coleções privadas para o povão.

Fachada do Pergamon em 2007...

... e em 2009, com a fachada toda coberta de tapumes.

Os prédios têm passado por um árduo processo de restauração, de modo que você pode ver um monte de tapumes cercando algum deles. Fica feio nas fotos, mas é por um bom motivo. O Pergamon, por exemplo, estava bem diferente da primeira vez em que eu fui, em 2007, e quando voltei em 2009 (compare as fotos acima). Da mesma forma, quando morei lá, em 2009, o Neues Museum estava completamente fechado para reforma e, por isso, não o conheci (as informações que eu trouxer aqui foram retiradas de guias e da internet). O mesmo pode acontecer com algum outro quando você for, mas lembre-se: tudo pela cultura.

Altar reconstruído de Pergamon

O mais interessante, na minha opinião, é o Pergamon. Há o altar reconstruído da cidade grega de Pergamon (hoje localizada na Turquia) que é impressionante e que dá nome ao museu. Claro, a gente sempre fica com aquela sensação de que tudo aquilo foi roubado de um país mais pobre — como quando vê as múmias do Louvre ou os frisos do Parthenon no British Museum. De qualquer forma, nem tudo é tão preto no branco. A região onde ficava a cidade na Turquia volta e meia é atingida por terremotos, de modo que o que os exploradores alemães encontraram foi um monte de ruínas e pedras caídas. O altar em questão foi todo reconstruído, peça por peça, com alguns pedaços faltando e outros substituídos por reconstituições. Seria possível vê-lo hoje, dessa forma, sem essa intervenção? Além disso, o altar foi levado para a Alemanha no começo do século XX, quando esses dilemas antropológicos não existiam. Hoje em dia, penso eu, seria mais interessante ajudar na reconstrução in loco.

Portão de Ishtar, da Babilônia, no Pergamon

Além do altar, há também um mercado romano reconstruído, as portas gigantescas do Portão de Ishtar, vindas da Babilônia, com  as tradicionais esculturas de leões alados, algumas coisas de arte muçulmana e muitas esculturas da antiguidade — quase tudo de cair o queixo. Tenho predileção por arte moderna e contemporânea, mas tenho que admitir que o Pergamon me surpreendeu muito e, por isso, recomendo vivamente uma visita a ele.

Alte Nationalgalerie e os guindastes

A Alte Nationalgalerie tem algumas coisas interessantes de arte alemã, como obras de Max Liebermann e Caspar David Friedrich, que vão até o final do século XIX, começo do século XX. É interessante para quem quiser conhecer a história da pintura alemã. Diria que foi o meu segundo museu preferido da Museumsinsel, mas, se você quiser muito ver pinturas e não puder visitar ambos, recomendo concentrar seus esforços na Gemäldegalerie, no Kulturforum.

O rio Spree contornando o Bodemuseum

O Bodemuseum, que fica na ponta mais ao norte da ilha, é um museu de esculturas, todas bem tradicionais. Há algumas obras de artistas conhecidos, como Donatello, e peças de arte sacra que me impressionaram bastante. No local também funciona um museu de arte bizantina. Se é do seu gosto, visite, mas não está entre os museus que mais me chamaram a atenção em Berlim. O prédio, de qualquer forma, já foi restaurado, então dificilmente você o encontrará fechado.

Esculturas no Bodemuseum

Altes Museum com o Lustgarten em frente

A partir da Schlossbrücke, há um grande gramado em frente à Catedral de Berlim, cujo nome oficial é Lustgarten. Do outro lado do gramado o eminente prédio que se vê é o Altes Museum. Tem uma coleção menor, com muitos objetos da Grécia e de Roma, como vasos com ilustrações, jóias etc. Quando morei lá, em 2009, tinha algumas coisas do Egito, entre elas a principal atração do museu: uma cabeça da Nerfetiti. O Neues Museum, contudo, foi reformado e reaberto para abrigar um museu egípcio, de modo que, hoje em dia, a Nerfetiti está por lá. O Altes Museum abriga também peças etruscas, enquanto o Neues Museum, além de objetos egípcios, exibe artefatos da idade da pedra, do bronze e do ferro.

Cabeça de Nefertiti, antigamente no Altes Museum, hoje no Neues Museum

Fachada do Neues Museum em 2009, quase pronto para a reabertura

Para finalizar, três dicas que valem para todos esses museus: em primeiro lugar, os guias de áudio estão incluídos no preço; por isso, vale à pena pegar um, nem que seja para ouvir informações a respeito só de algumas obras, que são bem interessantes. Tem em vários idiomas, inclusive em inglês e espanhol (quando eu fui não havia em português). Outra dica é que os museus ficam fechados às segundas; nas quintas, porém, ficam abertos até mais tarde, até às 22h e, a partir das 18h, passam a ser gratuitos. Assim, dá para visitar e ter uma ideia de todos eles e voltar no outro dia, com mais calma, no museu de que você mais gostou.

Lindo mural bizantino reconstituído no Bodemuseum

A terceira dica é que há um tícket que dá acesso a todos esses museus, mas ele é válido apenas para o mesmo dia. Como os museus são bem extensos, certamente será cansativo uma visita a todos eles, mas acho que até dois é possível visitar, no mesmo dia, sem grande sacrifício. E o preço do ingresso único é menor que o valor da entrada de dois desses museus.

Um passeio a pé por Berlim – Parte 2

Gendarmenmarkt, com a Konzerthaus à esquerda e a Französicher Dom à direita

(Leia a primeira parte deste texto aqui).

Depois da Ópera, da Bebelplatz e da Universidade, a Unter den Linden vira uma sucessão de lojas meio sem graça, principalmente de carros, mas se você seguir reto logo chegará ao Portão de Brandemburgo. Um desvio interessante seria na Charlotenstraße, à esquerda, para dar uma olhada na Gendarmenmarkt, uma praça com duas igrejas gigantescas praticamente iguais, uma em frente à outra (a Französicher Dom, feita por refugiados franceses, e a Deutscher Dom). No meio, completando o trio arquitetônico, fica um prédio clássico que atualmente abriga a Konzerthaus, outra opção de música clássica na cidade, além de uma estátua do poeta Friedrich Schiller. Ao redor da Gendarmenmarkt há alguns cafés; a praça é, atualmente, junto com a Friedrichstraße (a rua seguinte à Charlottenstraße), um dos centros de lojas de luxo de Berlim.

Portão de Brandemburgo

Voltando à Unter den Linden logo se chega ao Portão de Brandemburgo, talvez o principal cartão postal da cidade. A praça onde ele fica chama-se Pariser Platz e lá, fica, de fato, a embaixada francesa, além da americana (a inglesa e a russa também ficam por ali, um pouco antes na Unter den Linden). A praça vive cheia de turistas, mas a vista do Portão e dos arredores é realmente arrebatadora.

Siegessäule

Cruzando o Portão, se vê o Tiergarten, o parque mais famoso e central de Berlim. Todavia, não era minha área preferida da cidade, porque o parque tem um jeitão de bosque, com umas áreas meio fechadas e trilhas suspeitas. Mas a avenida que o corta (Straße des 17. Juni), a rua que começa logo depois do Portão, vai até a Siegessäule, ou Estátua da Vitória, outro famoso símbolo de Berlim (aparece no filme “Asas do Desejo”, do Wim Wenders). Do Portão você certamente já a verá; porém, se quiser ir até lá andando, prepare-se para uma boa caminhada, equivalente a outra Unter den Linden completa ou até mais um pouco.

Memorial do Holocautsto

Filarmônica de Berlim

Se você não quiser ir até a Siegessäule ou conhecer o Tiergarten, há outras duas opções, dependendo do seu fôlego. Pode-se descer à esquerda do Portão de Brandemburgo, e logo se vê o recém-inaugurado Memorial do Holocausto, um labirinto de colunas de diferentes tamanhos. Se você continuar descendo, logo chegará, à esqueda, à Potsdamer Platz e, à direita, ao Kulturforum, um outro grupo de museus da cidade. No meio fica um prédio moderno todo irregular, de cor amarela bem “cheguei”: a Filarmônica de Berlim, um dos melhores espaços para música clássica do mundo (sem falar na qualidade da própria Filarmônica em si).

Girafa de Lego na Potsdamer Platz

A tal Potsdamer Platz era um dos pontos mais movimentados da Berlim de antes da guerra, com hotéis, cabarés, uma super estação de trem… Porém, o muro passava bem ali, o que significa que, durante a divisão da cidade, a praça virou terra de ninguém. Depois da reunificação, tentaram recuperar um pouco do movimento antigo. Há, de fato, uma estação do S-Bahn nova, bem bonita, mas o resto é uma sucessão de prédios modernos espelhados, como o tal Sony Center — já deu para ver que eu não gosto muito de lá. É, de qualquer forma, um ponto turístico bastante visitado, o que fez com que parte da muvuca antiga tenha voltado.

Prédio do Parlamento

Essa opção que eu descrevi no parágrafo anterior, descendo-se à esquerda do Portão de Brandemburgo, é a que exige um pouco mais de fôlego. Se o seu já estiver baixo, vire à direita e vá até a praça onde ficam o Parlamento e os novos prédios do governo. O parlamento é o famoso prédio do Reichstag (atualmente a Câmara dos Deputados deles chama-se Bundestag), reaberto algum tempo após a reunificação com aquela cúpula de vidro por cima. É uma visita bem interessante; o único problema são as filas gigantescas que se formam. Chegue cedo ou vá preparado para esperar um pouco. Logo atrás, margeando o Rio Spree, ficam os novos prédios da Chancelaria, que abrigam basicamente o gabinete de governo da Alemanha. Ganhou a apelido carinhoso de “máquina de lavar”, por causa das janelas gigantescas em forma redonda. Lá no fundo, do outro lado do rio, é possível ver a nova estação central de trem de Berlim (Hauptbahnhof), também inaugurada recentemente.

Cúpula do Parlamento

Esse passeio, sem que você visite qualquer museu, lhe tomará mais ou menos meio dia. Obviamente que se você parar pode demorar mais. De qualquer maneira, há uma outra opção, barata e menos cansativa. Berlim tem dois ônibus de linha (sem ser de turismo) que passam por todos esses lugares de que falei, e por alguns outros. São os ônibus n.º 100 e 200. Ambos saem da Alexanderplatz e vão até a estação Zoologischer Garten, mas por caminhos diferentes. E se você tiver um bilhete múltiplo, válido para o dia inteiro ou mesmo para vários dias, pode descer e voltar quando quiser.

Casa das Culturas do Mundo

O ônibus 200 é o menos interessante. Vai pela Leipziger Straße, uma rua ao sul da Unter den Linden sem muitos atrativos, mas é o que passa pela Potsdamerplatz, pela Filarmônica e pelo Kulturforum. O ônibus 100, mais interessante, passa por toda a Unter den Linden, contorna o Portão de Brandemburgo, segue até o Parlamento, depois passa pela Haus der Kulturen der Welt, ou Casa das Culturas do Mundo, um prédio moderno bem interessante que hoje abriga espetáculos e eventos temporários, e ganhou o apelido de ostra grávida, por causa da cúpula redonda (já deu para ver que os locais adoram dar apelidos engraçadinhos aos prédios).

Arquivo Bauhaus

Dali passa pelo Schloss Belevue, o palácio onde mora o Presidente alemão, passa pela Siegessäule, depois pelo Diplomatviertel, uma área que abriga várias embaixadas. As mais interessantes são as embaixadas mexicana e as nórdicas, que se uniram num prédio moderno comum (dizem que há um restaurante bom para almoçar lá). Logo ali também fica o Bauhaus Archive, museu da famosa escola de arquitetura e design alemão. Eu o visitei, mas só recomendo para aficcionados pelo assunto. Depois disso o ônibus passa por umas áreas mais residenciais até chegar a Charlottenburg, onde fica a estação Zoologischer Garten.

Um passeio a pé por Berlim – Parte 1

Tentarei relatar aqui um passeio a pé por Berlim que passa pelos principais pontos turísticos. É uma sugestão para quem gosta de caminhar e não aprecia muito os city tours. Fiz ele com alguns amigos que me visitaram quando eu morei lá e não achei muito cansativo, mas tudo depende do seu pique e de fatores climáticos — quando está muito quente ou muito frio, por exemplo, pode ser desagradável passar tanto tempo caminhando na rua.

Neptunbrunnen e Marienkirche na Alexanderplatz

O passeio começa na Alexanderplatz, no coração do que era a Berlim Oriental. A praça é meio bagunçada, mas há algumas coisas interessantes. A famosa torre de TV, por exemplo, onipresente no céu de Berlim com sua bola metálica, construída pelos dirigentes da Alemanha Oriental para mostrar sua engenharia ao mundo. Pode-se pegar um elevador para ir até um mirante na bola, mas se você não conhece a cidade, talvez as vistas lá de cima não sejam tão interessantes. Em cima do mirante, de qualquer forma, há um restaurante — dizem que é meio ruim, mas eu nunca comi lá. A grande atração do local é a rotação: ele gira completamente em pouco mais de meia hora.

Rotes Rathaus

Em frente à torre há uma praça agradável, com fontes, mas que à noite fica tomada por punks e emos. A fonte mais famosa é a Neptunbrunnen, com uma estátua do Netuno. Logo ao lado, está uma das igrejas mais antigas de Berlim — a Marienkirche (foto acima). Em frente, do outro lado da praça, fica a famosa Prefeitura Vermelha, ou Rotes Rathaus, que, apesar do nome, é bem mais antiga que a época comunista (o vermelho do nome deve-se à cor dos tijolos). Mais ao sul, indo rumo à Unter den Linden, vê-se uma curiosa estátua do Karl Marx e do Friedrich Engels; essas sim são resquício da época comunista, mas funcionam super bem para fotos.

As crianças adoram brincar com os titios Marx e Engels

Fugindo um pouco do meu roteiro, pode-se sair da Alexanderplatz e, ao lado da Rotes Rathaus, visitar uma área conhecida como Nikolaiviertel, uma tentativa de recriar uma Berlim medieval. O lugar é bonitinho, mas não se engane: foi construída na década de 80 pelos dirigentes da Alemanha Oriental para comemorar os 750 anos da cidade — o que, obviamente, torna as lojinhas e restaurantes de lá verdadeiras ”armadilhas para turistas”.

Schlossbrücke, com a Berliner Dom e a Torre de TV ao fundo

Da estátua dos pais do comunismo até a Museuminsel é um pulo. Pretendo falar um pouco dos museus de lá (e de outros) em outro texto. Além dos museus, de qualquer forma, ali fica a Berliner Dom, a Catedral de Berlim (paga-se para entrar), e um agradável gramado em frente onde as pessoas, em dias bonitos, ficam sentadas. A ponte ao lado é chamada de Schlossbrücke (Ponte do Castelo) e tem várias estátuas lindas. A ponte leva esse nome porque em seu outro lado (oposto à Museuminsel) ficava o principal palácio da monarquia prussiana – mas o que você vai ver é um grande descampado, conhecido como Schlossplatz. Dizem que o palácio sofreu alguns danos na Segunda Guerra Mundial, mas era perfeitamente passível de restauração; entretanto, o governo da Alemanha Oriental preferiu demolir tudo e construir o Palast der Republik, que funcionou como Parlamento da parte Oriental. Parece que esse novo prédio era tão medonho que eles preferiram demolir outra vez após a reunificação. Há um projeto em curso, agora, para reconstruir o palácio prussiano, mas só a parte externa, ficando o  interior reservado para exposições e atividades culturais. Até lá, a área vai ficar feia do jeito que está.

Zeughaus, Museu da História Alemã

A rua que segue a partir da Schlossbrücke já é a Unter den Linden, uma espécie de Champs-Elysées de Berlim, mas um pouco menos glamurosa. A parte final, que se segue à Schlossbrücke é, sim, grandiosa, cheia de palácios. O primeiro que você vai ver, à direita, de cor rosa, é a Zeughaus, onde antigamente funcionava um arsenal — hoje abriga o Museu da História Alemã. Se você, como eu, gosta de história, vai se esbaldar com o acervo, cheio de documentos e objetos históricos. O museu, contudo, é bem extenso: eu não consegui ver tudo, parei lá pelo século XVIII, e depois acabei não voltando. De qualquer forma, ele abre às segundas-feiras — dia em que os museus normalmente estão fechados –, então pode ser uma opção se você estiver em Berlim nesse dia.

Staatsoper

Do outro lado da rua, os primeiros prédios que você vai ver são da Ópera, ou Staatsoper (há outras duas óperas em Berlim, coisas de cidade dividida). Assisti a um ballet ali, e há sempre exibição de óperas famosas. Vale à pena se você tiver tempo: o interior do prédio é lindo e esse é um programa típico de Berlim: poucas cidades têm uma oferta de música clássica tão generosa. A propósito, as outras duas óperas de Berlim são a Komische Oper (Ópera Cômica, na Unter den Linden mesmo, mais adiante), e a Deutsche Oper, a ópera da antiga Berlim Ocidental, que fica em Charlottenburg. Tendo sido construída na época da cidade dividida, é um prédio mais moderno, mas bem interessante também — vi La Traviatta lá e adorei. É possível comprar ingresos no mesmo dia do espetáculo: basta chegar mais ou menos uma hora antes e procurar a Abendkasse, ou bilheteria noturna. Havendo ingressos sobrando, eles serão vendidos; entretanto, costuma formar fila para comprá-los.

Escultura da Käthe Kollwitz dentro da Neue Wache

Seguindo na Unter den Linden, à direita, há uma pequena construção em estilo clássico, chamada Neue Wache. Atualmente, abriga apenas uma escultura da artista alemã Käthe Kollwitz chamada “Mãe com seu filho morto”, mas ela é tão tocante que vale à pena entrar, não se paga nada. O lugar em si foi transformado em “memorial para as vítimas da guerra e da tirania”. Logo adiante fica a Humboldt Universität, a universidade mais antiga da cidade. Do outro lado da rua, há uma praça entre a ópera e um prédio da Universidade, chamada Bebelplatz (na verdade, é uma praça pavimentada, sem árvores). Nessa praça, os nazistas queimaram livros pela primeira vez. Não deixe de procurar uma instalação no meio da praça lembrando o triste incidente: ela é vista através de um vidro no chão, e consiste de várias estantes vazias.

Bebelplatz

Os bairros de Berlim

Marx e Engels observam a famosa torre de TV na Alexanderplatz

Estou devendo textos sobre Berlim desde que eu comecei esse blog — a desculpa para criá-lo foi escrever várias vezes e-mails longuíssimos com dicas de lá para amigos. Claro que não dá para resumir tudo num texto, então vou começar falando sobre os bairros da cidade, o que tem para se ver em cada um deles etc.

1) Mitte: quando me perguntam onde ficar em Berlim, eu sempre respondo: “no Mitte, claro”. Acontece que o Mitte é uma área bem grande e diversificada de Berlim, motivo pelo qual fica difícil categorizá-lo como um bairro único. Traduzindo literalmente, Mitte significa “meio”, ou seja, é a área que ocupa o meio da cidade, o centro, e é por isso que é uma área interessante de se ficar. Lá ficam, por exemplo, a Alexanderplatz com a famosa torre de TV (Fernsehturm), a Unter den Linden (a Champs-Elysées de Berlim) com o Portão de Brandemburgo em uma de suas pontas, as duas principais áreas de museus da cidade (a Museuminsel e a Kulturforum), a Staatsoper e a Komische Oper, duas das casas de óperas de Berlim, a famosa Filarmônica, a reconstruída Potsdamer Platz, a charmosa (e exclusiva) praça do Gendarmenmarkt, o prédio do Parlamento… enfim, uma infinidade de atrações. Como você deve gastar lá boa parte de sua estadia na cidade, é um destino certo para se hospedar.

Há lindos pátios internos nas galerias dos Hackesche Höfe, no Scheunenviertel

A área toda é bem coberta pelo metrô e por ônibus, por isso eu acho que em qualquer lugar onde você se hospedar, será uma boa localização. Mas se eu fosse escolher uma área específica dentro do Mitte, ficaria no que eles chamam de Scheunenviertel (traduzindo literalmente, distrito dos celeiros). É uma área que passou por uma grande revitalização pós-queda do Muro, atraindo inúmeras galerias de arte, restaurantes, bares, lojas… um passeio pelas galerias do Scheunenviertel é, hoje em dia, praticamente obrigatório numa visita em Berlim. As estações que melhor servem ao Scheunenviertel são a Hackescher Markt e a Oranienburger Strasse, do S-Bahn, e a Weinmeisterstrasse e Rosa Luxemburg Platz, do U-Bahn.

Castelo de Charlottemburg

2) Chalottemburg: Charlottemburg era o bairro central de Berlim Ocidental, onde estava o buxixo e luxo da cidade, quando ela ainda era dividida. Depois da queda do Muro, o bairro perdeu um pouco do luxo para a Gendarmenmarkt no Mitte, mas ainda é possível encontrar todas as principais grifes na Kurfürstendamm (Ku’damm, para os íntimos). Também ficou famoso pela estação do metrô do zoológico (Zoologischer Garten Bahnhof), retratada no livro/filme da Christianne F. como ponto de uso de drogas. Não se preocupe, a estação hoje é bem limpa, mas ainda é, de fato, uma das principais da cidade.

Gedächtniskirche

Ainda reúne galerias de arte, embora muitas tenham migrado para o Scheunenviertel. Entre as atrações principais, estão a Gedächtniskirche, uma igreja parcialmente destruída na Segunda Guerra, que foi mantida do jeito que ficou (ao lado construíram uma nova, modernosa, mas meio feia), o próprio zoológico e o castelo que dá nome ao bairro, o único da monarquia prussiana que restou na cidade. Embora formalmente esteja no bairro de Schöneberg, a famosa loja de departamentos KaDeWe fica bem pertinho de Charlottemburg, dá para ir à pé da estação Zoologischer Garten.

Festa de rua no Primeiro de Maio em Kreuzberg

3) Kreuzberg: boa parte do que hoje é Kreuzberg ficava em Berlim Ocidental, mas não era muito valorizada, pois estava bem rente ao Muro. A região, assim, foi invadida por imigrantes, principalmente turcos, que hoje dão o colorido do bairro. Esse passado “marginal” também se manifesta hoje em dia em protestos de rua que acontecem por lá (embora em três meses eu não tenha visto nenhum) e em uma população bem politizada.

Kreuzberg vem sofrendo, de qualquer forma, um processo de renovação bem acelerado; importantes museus da cidade, por exemplo, ficam por lá: o imperdível Jüdisches Museum e a modernosa Berlinische Galerie. É lá também que fica o über-turístico (e algo decepcionante) Checkpoint Charlie, um dos pontos de controle entre Berlim Ocidental e Oriental que virou atração após a queda do Muro. As áreas da Oranienstrasse e Schelisches Tor são bem agitadas à noite, e há restaurantes de diferentes partes do mundo no bairro.

East Side Gallery, Friedrichshain

4) Friedrichshain: do outro lado do rio Spree (e do Muro) em relação a Kreuzberg, Friedrichshain era bem central em Berlim Oriental. Aposta-se que Friedrichshain é a nova fronteira do cool em Berlim, mas a área é grande e bem diversa — começa a leste da Alexanderplatz, onde há ainda um certo buxixo, e espalha-se nessa direção, com áreas bem residenciais desinteressantes para o turista. A Karl-Marx-Allee, avenida que começa na Alexanderplatz e corta o bairro ao meio, era uma das principais do lado oriental da cidade, onde aconteciam paradas e desfiles militares. Há alguns bares e restaurantes pipocando nesta avenida, mas tudo muito esparso; o que se vê ainda é basicamente é uma coleção de blocos residenciais típicos da “arquitetura socialista” da cidade (quem é de Brasília vai se identificar bastante por lá).

Em Friedrichshain, contudo, fica o pedaço remanescente do Muro mais visitado na cidade (há alguns outros pela cidade): a chamada East Side Gallery, com painéis pintados por diferentes artistas. Recentemente iniciaram uma renovação desses paineis, que andavam pichados e bem largados. Também no bairro fica uma das boates mais famosas de Berlim, a Berghain (o nome é uma mistura de Kreuzberg com Friedrichshain). Finalmente, a área ao redor da Simon-Dach-Strasse e da Boxhagener Platz, antigo reduto de punks, fica bem animada à noite, com alguns restaurantes muito bons e vários bares que se instalaram na região.

KaDeWe

5) Schöneberg: esse bairro ficava em Berlim Ocidental, o que significa que é uma área residencial bem assentada já há bastante tempo. Na verdade, Schöneberg não poderia ser mais diverso: durante o dia, é um tranquilo bairro residencial com velhinhos fazendo compras e mães/pais passeando com os filhos. À noite, um pedaço do bairro transforma-se num dos points gays mais antigos de Berlim, com vários bares e algumas boates funcionando na área ao redor da Motzstrasse.

Como eu mencionei acima quando falava de Charlottemburg, a loja de departamentos KaDeWe, considerada a segunda maior da Europa (perde apenas para a Harrod’s, em Londres), fica em Schöneberg, e, além de alimentar os espíritos consumistas, é uma atração também (o piso de comidas e bebidas é interessantíssimo). Há também a prefeitura no sul do bairro (Rathaus Schöneberg), que funcionou como a sede do governo de Berlim Ocidental. Tirando isso, o bairro não tem grandes atrações turísticas, mas é bem conectado ao metrô (principalmente a estação Nollendorfplatz), de modo que você pode ficar hospedado lá e visitar o resto da cidade facilmente.

6) Prenzlauer Berg: esse agradável bairro que ficava em Berlim Oriental também tem passado por um processo de renovação intenso, mas ainda é basicamente residencial. A área em torno da Kastanienallee reúne algumas lojas de marcas descoladas locais, além de restaurantes e muitos bares. O mercado de pulgas do Mauerpark (onde fica um outro pedaço do Muro) também é famoso. A Kulturbrauerei, uma antiga cervejaria transformada em pólo cultural, também é um passeio interessante: há cinemas, teatro, sala de concertos, galerias.

O grande problema de Prenzlauer Berg é o deslocamento: há uma única linha de metrô que atravessa o bairro pela Schönhauser Allee (a linha vermelha U2), e uma linha de bonde que sobe pela Prenzlauer Allee. No resto do bairro, o jeito é caminhar ou chamar um táxi.

Você também pode ouvir falar de Wilmersdorf, Neukölln, Moabit, Köpenick, Grunewald, além de bairros com estranhos nomes terminados em “W” (como Pankow, Treptow etc). Alguns são até relativamente centrais (como Moabit) e têm algumas atrações (como o castelo barroco em Köpenick), mas os bairros sobre os quais eu falei acima são, de fato, os de maior interesse para o turista.

Berlin, Berlim

A room with a view: Holzmarktstraße 75

Como relatei no primeito post, passei três meses em 2009 em Berlim, estudando alemão. Na realidade, foi minha segunda vez na cidade; em 2007, fiz uma viagem de um mês que incluiu Suíça, Alemanha e Holanda. Na Alemanha, conheci várias cidades: Munique, Freiburg, Heildeberg, Colônia, Hamburgo, Lübeck, Dresden e, por último, Berlim. Várias dessas cidades valem muito à pena a visita, mas eu realmente apaixonei-me por Berlim.

Como já tinha estudado um pouco de alemão no Brasil, mas ele estava um pouco capenga, resolvi aproveitar uma licença e ir estudar alemão in loco. Claro que a cidade de escolha foi Berlim. E fiquei ainda mais apaixonado pela cidade.

Berlim não é tão bonita como Dresden ou Munique. Tem “cantos bonitos”, como eu costumo dizer, mas a cidade, como um todo, ainda é bastante bagunçada: herança do longo período em que ficou dividida. E, até hoje, vinte anos após a reunificação, Berlim ainda é um canteiro de obras, com lugares sendo restaurados e prédios novos sendo construídos onde antes ficavam ruínas ou passava o muro. E isso só acrescenta ao caos.

Em Berlim, contudo, a história é muito viva, principalmente em relação ao período do nazismo, da Segunda Guerra Mundial, e da divisão pelo muro. Em alguns lugares, como no Museu Judaico ou na Topografia do Terror, senti calafrios. Acredito ser muita energia do passado concentrada.

Mas Berlim, antes das guerras, era uma das principais cidades europeias. Nem sempre foi assim. Para padrões alemães, a história de Berlim é relativamente recente, e a cidade era uma vilazinha até o século XVIII. Ela só começou a ganhar importância quando a Prússia, império do qual era capital, começou a surgir como potência. No final do século XIX e começo do século XX, contudo, já era uma das principais cidades da Europa, com cerca de 2 milhões de habitantes.

Assim, Berlim também tem heranças dessa época de abundância. Museus, momumentos e alguns palácios refletem a época de ouro da Prússia. Cabarés, bares e boates tentam recriar o clima “decadência-liberou-geral” do período após a Primeira Guerra.

Por ter sido uma cidade dividida por mais de vinte anos, há muita coisa em duplicidade, o que só aumenta as opções para os turistas. Havia casas de ópera no lado ocidental e oriental, e ambos disputaram tesouros artísticos de fazer cair o queixo após a divisão, com museus de nível internacional dos dois lados. Após a unificação, os equipamentos culturais ficaram disponíveis para todos. As casas de óperam disputam público com programação para todos os gostos. Os museus estão passando por uma reformulação do acervo, para que ele seja unificado e redividido, com uma coerência maior nas coleções de cada museu — com enfoque, por exemplo, em arte egípicia, grega, moderna ou mesmo em esculturas.

Há também dois aeroportos que servem a cidade, embora ambos tenham um jeito meio improvisado — culpa, mais uma vez, da divisão, que transformou Frankfurt e Munique nos principais hubs aeroportuários da Alemanha. Nunca usei o Schönefeld, mas o Tegel parece um pouco uma rodoviária.

Aos poucos, pretendo falar um pouco sobre os bairros e atrações de Berlim. Fica difícil condensar tudo num texto — da última vez em que escrevi um e-mail para um amigo que me pediu dicas da cidade, deu umas sete páginas. O que importa é que cada vez mais gente tem ido conhecer Berlim — que já é a terceira cidade mais visitada da Europa — e a impressão geral, ao menos o que eu tenho ouvido, é muito boa. Vá, e vá logo, pois a impressão que se tem é que a cidade está em seu ápice.