Já conversei com pessoas de diferentes perfis que viajaram para Berlim. Pessoas jovens e mais velhas, casais em lua-de-mel, pais com filhos, solteiros convictos, gente namorando… e a cidade tem potencial para agradar a todos. Mas o fato é que, tirando talvez aqueles que estejam com crianças pequenas, todos querem experimentar pelo menos uma das famosas baladas de Berlim. Neste texto, tentarei falar um pouco sobre as principais. Não conheci todas (não que eu não tenha tentado…), mas tenho uma ideia a respeito por conta do que li e da impressão de amigos que foram. É sempre bom lembrar também que minha última visita à cidade foi em 2009, então as coisas podem estar um pouco diferentes. De todo modo, acho que as principais noites da cidade não mudaram.
Antes de começar, aqui vai um alerta: em Berlim, há leões-de-chácara nas entradas das principais boates, que podem barrar quem vai entrar ou não. Eu sei, também acho isso um saco e, a princípio, não combina nada com a fama libertária e democrática de Berlim. O lance é que aqui, mais do que gente bem vestida, talvez o que eles queiram dentro de uma balada seja o contrário: gente com cabeça aberta e uma vibe moderna. Não dá, claro, para generalizar: cada balada tem sua orientação, e, para falar a verdade, acho que as regras são bem fluidas, dependem muito do (bom) humor de quem está na porta. Em todo caso, aqui vão algumas impressões:
a) saiba onde está pisando. Em Berlim há noites bem direcionadas, algumas voltadas até para fetiches específicos (!!!) e isso, claro, repercute na seleção da porta. Não dá para querer entrar num lugar desses se você não está no mesmo “padrão”. Além disso, não custa nada dar uma fuçada no site das boates, pesquisar umas fotos na internet, para saber mais ou menos em que direção vai o público de cada lugar. Sei que às vezes a curiosidade antropológica fala mais alto, mas se você odeia tecno, isto provavelmente vai estar estampado na sua cara quando você estiver tentando entrar naquela boate em que esse tipo de música toca. A pesquisa prévia ajuda também porque, às vezes, eles perguntam se a pessoa sabe quem vai tocar no lugar. Se for um DJ mais conhecido e você não souber disso, vai voltar pra casa com certeza.
b) evite grupos grandes, evite ir sozinho: já entrei na Berghain algumas vezes sozinho, mas fui barrado uma vez na Watergate quando estava desacompanhado. De qualquer forma, senti que eles não gostam daqueles grupos muito grandes, principalmente os que falam outra língua. Já vi um grupo inteiro de italianos, que conversavam animadamente durante a espera, ser barrado. Preconceito? Também acho, mas não fui eu quem inventou isso. Assim, se você está num grupo com várias pessoas, tente dividi-lo em pequenos subgrupos, entrando separadamente na fila. Não tem problema conversar em português na fila (sempre fiz isso), mas de forma discreta, sem gritaria.
c) capriche no “look moderno”: não precisa ir vestido como a Lady Gaga, mas sapato e camisa social em Berlim é quase certeza de ser barrado no baile. Para as meninas, vestidos e sapatos muito formais também. Jeans e tênis surrados são muito mais garantidos. E você ainda estará bem mais confortável para curtir a balada até de manhã.
O chato é esperar na fila um bom tempo e, na hora “h”, ser barrado. A sensação de perda de tempo é inevitával. Vá preparado para isso. Mas não fique muito chateado. Sabe o que eu percebi? Que gente que é barrado num dia volta em outro e entra (conheci gente nessa situação). Aliás, uma vez na Berghain, vi um cara quue estava logo na minha frente ser barrado e, mais tarde, ele entrou de alguma forma, pois estava lá dentro (não sei se voltou para fila depois e acabou passando). Feitos tais alertas sobre a entrada, vamos aos locais em si:
1) Berghain: o nome do lugar é um mistura de Kreuzberg com Friedrichshain, os dois bairros vizinhos über cool de Berlim. Quando estive da primeira vez na cidade, em 2007, era “o lugar” para se conhecer. Em 2009, aliás, ganhou o 1.° lugar na revista DJ Mag como o melhor club do mundo. Outros lugares apareceram depois, e muita gente apostou que a Berghain ia perder seu posto. Mas o fato é que ela continua funcionando firme e forte, e as filas gigantescas não parecem ter diminuído. Isto, é claro, tornou a Berghain praticamente uma atração turística e, segundo apurei com amigos que ainda moram lá, o lugar talvez tenha ficado “turístico demais”. Mas acho que ainda vale a experiência de ir lá pelo menos uma noite para conhecer.

Pista principal da Berghain. Imagem obtida em http://mastersofmedia.hum.uva.nl/2011/06/29/berghain-adventures-in-techno/
O lugar é uma antiga usina de energia (por isso não se assuste com a fachada) e por dentro mantém esse ar meio industrial, com um pé direito bem alto na maior parte. Num lugar desses, a música não poderia deixar de ser tecno, ou um eletrônico mais pesado, podendo haver variações, dependendo do dia da semana. No sábado, que é a noite principal, o público é bastante gay, mas sempre é bem misturado — principalmente no bar que fica no segundo andar, chamado de Panorama, onde, aliás, a música costuma ser menos pesada. De qualquer forma, depois de alguns shots de Jäggermeister, você vai achar a experiência superinteressante. Para rebater, beba algumas Africolas, uma versão-tubaína alemã do famoso refrigerante.
Tenho que advertir que não são permitidas fotos no interior da Berghain. Eles inclusive pedem que você deixe câmeras na chapelaria na entrada, podendo retirá-las quando for embora (se você se lembrar). A ideia seria que as pessoas se sentissem livres para fazer o que quisessem lá dentro, sem medo de serem fotografadas. O fato é que com o advento dos smartphones, ficou mais difícil controlar as fotos, mas eu não arriscaria ser expulso do lugar só para ter uma lembrança da balada.
A Berghain fica atrás da estação Ostbahnhof, é só pegar o S-Bahn, descer lá e ir seguindo o fluxo. Se estiver com medo de se perder, vá de táxi, os taxistas normalmente sabem onde fica.

Watergate. Imagem obtida em http://berlin.unlike.net/locations/171-Watergate
2) Watergate: tentei ir à Watergate pouco depois de chegar em Berlim, quando passei três meses na cidade, mas fui barrado na porta. Eu até sabia o DJ que estava tocando no dia (era o Sven Väth), mas acho que o leão de chácara não gostou do fato de eu estar sozinho e não ter entendido o alemão grunhido dele logo de cara. Depois, até pensei em tentar de novo, levando algum amigo, mas fiquei com receio de dar com os burros n’água novamente.

Watergate. Imagem obtida em http://www.e-concierge.de/ blog/2009/05/30/clubmotoren-watergate/#.T3edp3jRXoA
Mas as fotos internas do lugar, com o teto de luzes multicoloridas, chamam muito a atenção. E na mesma seleção de 2009 da revista DJ Mag, em que a Berghain ficou em 1.° lugar, a Watergate abocanhou o 8.° lugar, o que, para uma seleção mundial, não é pouca coisa. A boate fica numa região agitada de Kreuzberg, próxima à estação do metrô Schlesisches Tor (do U1), e tem uma vista para o Rio Spree e para a ponte Oberbaumbrücke que é um dos seus atrativos. A Watergate sempre recebe DJs estrelados (como o próprio Sven Väth ou a Ellen Alien, que tocou também durante o período em que eu estava morando lá); por isso, é sempre bom dar uma olhadinha na programação, para o caso de te perguntarem na porta.

Weekend. Imagem obtida em http://www.shift.jp.org/ en/archives/2008/11/berlin_night_club.html
3) Weekend: fica nos “fundos” da Alexanderplatz, no topo de um prédio que tem o logo da Sharp em uma das fachadas. É a boate indicada no guia da Wallpaper de Berlim (ou pelo menos na última edição que eu baixei). Funciona de quinta a domingo, mas me parece que os dias mais animados são… a quinta e o domingo, sendo que neste último a noite é gay (chamada de GMF). A música, de qualquer forma, é invariavelmente eletrônica, com ênfase no house — embora, ultimante, pelo que apurei, a ênfase no eletrônico tenha se perdido um pouco. Entre na fila que costuma se formar na porta e, depois de pagar o ingresso, há um elevador que te leva para uma das duas pistas de dança: uma fica no 12.° andar, a outra no 15.°. Dependendo do dia (e do movimento), só uma delas abre. A vista do 12.° é melhor, por causa dos janelões que rodeiam boa parte da pista. O deslocamento entre os dois andares é só por elevador (um saco, mas faz parte da vibe do local).

Vista do terraço da Weekend. Imagem obtida em http://www.fuse.be/fuse/?p=5131
Se você for mais para o final da primavera ou no verão e o tempo estiver bom, poderá ainda conhecer o terraço, acessível por uma escada a partir do 15.° andar. As vistas são ótimas e, se estiver ventando muito, há distribuição de cobertores para você se proteger enquanto fica jogado em algum dos sofás, conversando e bebendo.
Além dessas, conheci outras, como o Club der Visionäre, bem low profile, que fica na beira de um canal do rio Spree, em Treptow, e é visitado de dia ou em after hours. Também fui ao lendário KitKatClub, a respeito do qual quero falar um pouco.
O KitKatClub já existe há alguns anos; surgiu depois da reunificação e tentou reviver um pouco do clima cabaret-decadence que havia em Berlim antes da guerra. Já passou por vários lugares e está agora em Kreuzberg, num local perto da estação Heinrich-Heine-Straße do U-Bahn. Quando fui da primeira vez a Berlim, era um destino certo para um after hours depois da noite de sábado, mas perdeu muito do público quando a Berghain passou a funcionar domingo adentro non stop. Atualmente, sobrevive como clube de fetiche e, por isso, a entrada é bastante controlada, mas eles costumam relaxar um pouco se você chegar no domingo de manhã para o after hours.
Minha opinião? Bem, digamos que foi uma experiência antropológica. Por ser uma boate dedicada a fetiches, há pessoas vestidas de tudo quanto é jeito, e isso nem é o que mais chama a atenção: algumas delas ficam nuas e outras chegam a fazer sexo em alguns lugares. Tentei fazer cara de paisagem o tempo todo, mas no final até achei a experiência interessante, considerando que estava em Berlim. Em todo caso, como bons alemães, seu espaço é respeitado e ninguém te assedia se você não quiser — até porque você será, provavelmente, a pessoa mais “normal” do lugar. Se você gosta da proposta ou quiser uma experiência dessas para contar para os amigos quando voltar, vá fundo.
A Trésor abriu há menos tempo e todo mundo achou que desbancaria a Berghain, mas isso não aconteceu. Fica perto de onde está o KitKatClub, em Kreuzberg. Nunca fui, mas é uma opção a mais em Berlim, e lá acontecem algumas festas temáticas. Em todo caso, parece que a Berghain, a Watergate e a Weekend seguem como a tríade de baladas mais interessantes de Berlim.




























































