Bike Rio — modo de usar

Bem, eu deveria estar escrevendo coisas para o mestrado, mas aproveitando a visita da Anna do Nós No Mundo ao Rio, e de um material com fotos que eu já tinha preparado a respeito, resolvi escrever logo este texto sobre as bicicletas para alugar. Além disso, em tempo de  Rio +20, com trânsito caótico, as bicicletas talvez sejam uma boa opção de mobilidade urbana.

As bicicletas do Bike Rio ficaram conhecidas como “laranjinhas” pois receberam o patrocínio do banco Itaú e têm essa cor. Ouvi por aí que tinha gente querendo boicotar para não ficar fazendo propaganda de banco à toa. Bem, cada um tem sua opinião a respeito, mas eu acho que o dinheiro para um programa desses tem que vir de algum lugar. Se um banco topou financiar uma parte, a publicidade parece ser uma forma razoável de compensação. Mas há outras formas de se alugar bicicleta no Rio, então cada um pode procurar o que acha mais correto.

Para turistas e moradores que não querem ter uma bicicleta (ou não podem, pois não têm onde guardar), o Bike Rio parece uma boa opção. É bom ressaltar, contudo, que a maioria das estações estão na Zona Sul do Rio (além de algumas no centro). Por isso pode parecer que ela é de fato para turista, não para os moradores usarem, por exemplo, para ir para o trabalho. Convém lembrar, porém, alguns fatos sobre o Rio: muitos deslocamentos para o trabalho são longos e, assim, inviabilizam o uso de uma bicicleta (salvo para os atletas de plantão); além disso, o clima costuma ser quente e úmido, deixando ainda mais complicado o uso da bicicleta associado a uma roupa de trabalho mais formal. Há a questão da geografia também: alguns bairros, como Santa Teresa, ficam dependurados em morros, o que torna difícil o uso da bicicleta. De qualquer forma, acho que o sistema pode servir, sim, ao carioca da Zona Sul que queira se deslocar de um bairro para outro para resolver alguma coisa. Também penso que poderia haver estações na Zona Norte e na Zona Oeste, também para “uso interno” dentro dessas áreas.

E como faz para usar o sistema? Em primeiro lugar, é necessário acessar o sítio deles (o domínio é meio bizarro: http://www.movesamba.com.br, mas também se acessa por http://www.mobilicidade.com.br/bikerio.asp). Nele você vai ter que fazer um cadastro com um número de telefone celular, que é como você acessa o sistema da rua (não se preocupe, ele aceita telefones de outros estados também, desde que você coloque o DDD). Depois disso, você vai ter que baixar o aplicativo para celular: tem para iPhone e para Android.

Feito isto, você pode adquirir dois tipos de passe: diário, por R$ 5,00 (dura 24 horas), ou mensal, por R$ 10,00 (atenção, estes preços podem mudar, confira sempre no site). Nem preciso dizer que se você for usar por mais de 2 dias, vale à pena comprar o passe mensal, ainda que você não vá ficar o mês inteiro usando. O passe mensal você pode adquirir no próprio site ou no aplicativo do telefone, o diário só no aplicativo mesmo. Para isto, você vai precisar de um cartão de crédito, claro. Esta operação de aquisição do passe, aliás, deve ser feita em casa ou no hotel, para você não precisar ficar dando bobeira com cartão de crédito na rua.

O aluguel da bicicleta em si, porém, é feito na rua mesmo. Você vai precisar encontrar uma estação que fique perto de onde você está. No sítio, na rubrica “estações”, você encontra um mapa com todas elas. É bom também já pensar num roteiro e num ponto de devolução, se não for o mesmo da retirada. Em todo caso, do celular também é possível ver onde ficam as estações. Pode acontecer, aliás, que na estação escolhida não haja nenhuma bicicleta: aí, você vai ter que procurar em outra próxima.

Antes de alugar, verifique se a bicicleta escolhida está com os pneus cheios, com o banco em bom estado, e se é possível ajustá-lo — outro dia aluguei uma cujo banco estava emperrado e não subia: não foi muito confortável andar com o banco baixo. Também é bom verificar se ela está com os freios. Ao abrir o aplicativo no celular, será pedido o telefone (com DDD) e a senha do cadastro. Feita a conexão, aparecerá o passe que você adquiriu. Clique na seta verde para prosseguir.

Placa com o nome e o número da estação

Toda estação tem um nome e um número, e é este que você tem que informar em seguida. Informado o número da estação, aparecerão as bicicletas disponíveis em laranja (as posições indisponíveis aparecem em cinza). Basta você clicar na bicicleta escolhida e aguardar a liberação. A luz verde ao lado da bicicleta vai acender e você vai ouvir o barulho do destravamento. Voilà: a bicicleta é sua por uma hora. Lembre-se de que este é um sistema criado para mobilidade urbana, ou seja: com passe diário ou mensal, você pode ficar com uma bicicleta, ininterruptamente, por até uma hora. Depois disso, tem que devolver em alguma estação e aguardar mais quinze minutos para alugar uma nova. Caso você passe de uma hora com a bike, será cobrado R$ 5,00 por hora extra.

Aplicativo com o número da estação e a bicicleta a ser escolhida

Problemas verificados:

1) Conexão com a internet: se o 3G do seu celular não funciona direito (como o da minha querida operadora), tenha paciência, pois você precisará dele na rua na hora de alugar a bicicleta. Ou não: você pode fazê-lo também por telefone (atualmente pelos números (21) 4063-3111 ou (21) 3005-4316). É bom lembrar, porém, que na rua sempre faz barulho, o que dificulta um pouco ouvir a ligação.

2) Ouvi uma lenda urbana que diz que algumas pessoas foram vítimas de furto/roubo de seus celulares quando tentavam fazer o empréstimo. Eu, porém, vejo gente com o celular na mão fazendo isso o tempo todo, e nunca presenciei nada parecido. Todo cuidado, porém, é pouco: fique sempre alerta enquanto faz a operação de empréstimo.

3) Bicicletas com a corrente solta, com bancos que não ajustam etc: como disse acima, convém verificar o estado da bike antes de alugá-la, pois depois que você retirá-la da estação, vai ter que esperar quinze minutos para tentar um novo empréstimo.

4) Bicicletas-fantasma: a bicicleta está lá, na sua frente, mas ela não aparece no sistema. Aconteceu conosco na estação da rua José Linhares, no Leblon: a estação estava completinha, com todas as bicicletas, mas nenhuma aparecia no sistema. Mesmo após ligar, a atendente confirmou que nenhuma delas aparecia como disponível. Neste caso, nem adianta reclamar: eles não vão mandar alguém de imediato para resolver seu problema. Melhor procurar outra estação.

5) O sistema não reconhece a devolução: este também aconteceu comigo, e é o que ainda tem me preocupado. Devolvemos as bicicletas antes de completada uma hora, e quando tentamos fazer um novo empréstimo, 15 minutos depois, meu cadastro apontava que eu ainda estava com a bicicleta anterior em uso. A bicicleta estava lá, na minha frente, bem presa à estação, mas além de não aparecer como disponível, não constava que havia sido devolvida (isto aconteceu comigo, mas não com a bicicleta do meu amigo). Imediatamente liguei para o telefone (21) 4063-3999 (o número está nas placas das estações) e informei sobre o ocorrido. Parece que acontece com certa frequência, porque a atendente não duvidou do que eu disse. Em todo caso, alguns dias depois, ainda consta um débito de R$ 200,00 no meu cadastro, como se eu tivesse ficado com a bicicleta o dia inteiro e não a tivesse devolvido após as 22h, horário limite do sistema. Disseram-me para não me preocupar, que isto não virá cobrado no meu cartão, e que a verificação do problema demora um pouco. Vamos ver o que acontece.

Em todo caso, a dica é sempre verificar, na devolução, se a luz verde ao lado da bicicleta piscou. Este é o sinal de que o sistema reconheceu a bicicleta devolvida. Se não piscar e você não conseguir puxar a bicicleta de volta, melhor ligar logo e comunicar o ocorrido.

Ou seja: é um sistema com algumas falhas, mas que atende perfeitamente locais e turistas (os brasileiros, pelo menos). E qualquer dificuldade inicial vale à pena com imagens como estas, que eu tirei durante um passeio na Lagoa.

Pista de ciclismo e corrida na Lagoa

Lagoa vista de um deck localizado na região do Jardim Botânico

Atualização em 07.12.2012: estive recentemente no Rio e o sistema do Bike Rio já dá sinais de que está sobrecarregado. Num sábado, era impossível alugar uma bicicleta: as estações estavam quase sem nenhuma bicicleta e, naquelas em que hahia alguma, já tinha um monte de gente em volta tentando alugar. Acho que se for num dia de semana, é mais fácil de alugar; ou então programe-se para sair cedo de casa. É uma pena, o sistema é bem legal, espero que eles resolvam isso aumentando o número de bicicletas!

Réveillon na Praia do Rosa

Praia do Rosa vista de cima

Ano passado relatei minha experiência de réveillon em Trancoso. Esse ano pretendo falar sobre o réveillon que passei na Praia do Rosa, em Santa Catarina, na virada de 2010 para 2011.

Igreja antiga em Garopaba

A Praia da Rosa fica oficialmente no município de Imbituba, no caminho para Garopaba, ao sul da Ilha de Santa Catarina (a “parte turística” da capital Florianópolis). A cidade de Garopaba sempre foi bastante associada ao surf, já que foi lá que surgiu a marca Mormaii — embora, como mostra a foto acima, a cidade seja bem antiga. A Praia do Rosa, também bastante procurada por surfistas, fica alguns quilômetros distante do centro de Garopaba e conta com uma estrutura própria.

É verdade que falar em “estrutura” talvez seja um exagero, já que boa parte das ruas não tem qualquer tipo de pavimentação e a vila tem um ar bem rústico. Mas acho que isso faz parte do charme procurado por quem vai para lá, e não significa que o lugar não tenha nada a oferecer a quem procure algo mais confortável ou requintado. Comi em excelentes restaurantes — há opções de comida tailandesa, japonesa e italiana, por exemplo. Além disso, há pousadas charmosas (e caras), com toda a infraestrutura de um hotel bem equipado.

Canto esquerdo da Praia do Rosa (Rosa Norte)

De qualquer forma, em comparação com o destino de que eu falei ano passado (Trancoso), acho que a Praia do Rosa (ou simplesmente Rosa) é menos jet-set e os preços ainda são bem mais em conta. Embora num volume largamente inferior que a capital Florianópolis, o número de pessoas lá na época do réveillon era considerável, de modo que quem quer agito e badalação também não vai se decepcionar.

Mas vamos do começo. Como faz para chegar lá? Pode-se ir de ônibus a partir da rodoviária de Florianópolis, com destino a Garopaba, mas ele não para na Praia do Rosa. É possível parar na SC-434 (veja mapa acima), no caminho para Garopaba, mas de lá até o “centro” da Praia do Rosa em si há ainda uma distância considerável. Algumas pessoas do nosso grupo conversaram com o dono da nossa pousada e ele gentilmente se ofereceu para buscá-las nesse local; é possível que você consiga combinar alguma coisa semelhante no lugar em que for ficar.

Eu preferi alugar um carro em Florianópolis e ir dirigindo até lá. O caminho é pela perigosa BR-101 (veja mapa acima), que percorre toda a Região Sul, mas o trecho de Floripa até lá é bem tranquilo e está quase todo duplicado. Na ida gastamos menos de 1 hora, mas a volta foi mais complicada, pois pegamos muita gente voltando para casa nas estradas, e os trechos não-duplicados acabaram engarrafando. Por isso, se tiver voo marcado em Florianópolis na volta, programe-se para sair com bastante antecedência do Rosa.

Praia do Rosa

A praia em si é linda, como é possível ver pelas fotos que eu coloquei aqui, mas também é bem perigosa. Passamos pela desagradável experiência de ver uma mulher morrer afogada a poucos metros de onde estávamos. Há salva-vidas pela praia, mas nem sempre é possível socorrer quem está afogando a tempo; além do mais, eles tinham poucos equipamentos médicos e o socorro tem que vir de helicóptero. Por isso, todo cuidado é pouco: não nade nas áreas indicadas como perigosas e não se arrisque muito até uma parte mais funda. A água, é claro, é fria como em Florianópolis, mas com sol não fez muita diferença.

Morros cercando a Praia do Rosa

O grande desafio é que, assim como em Trancoso, há um grande desnível entre a praia e a vila. Não chega a ser como o paredão de Trancoso, mas a área ao redor é basicamente de morros, de modo que boa parte das pousadas fica dependurada nessa região. Há algumas poucas pousadas mais próximas da praia, mas a maioria fica numa parte mais alta mesmo. A vila fica numa área mais plana, mas também mais alta que a praia. Se você tiver carro, pode descer até perto da praia, numa rua que segue a partir da vila, mas nos dias de maior movimento fica difícil estacionar. O melhor é fazer mesmo como a maior parte das pessoas, e descer por alguma das trilhas existentes ou pela rua que parte da vila.

Deck do meio da praia

Você provavelmente chegará na praia a partir do meio dela, onde há um deck recém-construído, com algumas lojas e locais para comer, e uma pequena lagoa. Nessa parte não há muita gente; as pessoas se concentram principalmente nos “cantos”. Olhando para a praia, o “canto esquerdo” (Rosa Norte) é o mais “descolado”, reunindo o pessoal mais jovem, mas tem uma estrutura ruim, com alguns poucos quiosques vendendo o básico e com poucas cadeiras para alugar. Já o “canto direito” (Canto Sul) tem alguns bares mais estabelecidos — como o Parador Swell — e reúne mais famílias.

Tenda do réveillon Virada Mágica no hotel Fazenda do Rosa

No dia do réveillon propriamente dito, havia algumas festas anunciadas, mas parece que todo mundo foi mesmo para a festa do hotel Fazenda do Rosa, bem perto da praia. A festa chama-se “Virada Mágica”. Preferimos ver os fogos da pousada onde estávamos, onde os proprietários ofereceram aos hóspedes algumas comidinhas e espumante. Além disso, a vista lá de cima dos fogos e da praia é espetacular… Depois descemos para a praia, que estava bem cheia — muita gente da própria festa acabou saindo e indo para lá, já que era possível ouvir a música da praia também.

Experimentamos alguns lugares lá para comer e gostamos da maioria. Há algumas opções na própria vila, enquanto outras ficam em pousadas. Vou listar aqui o que eu conheci (e gostei) e algumas outras dicas que recebemos:

Prato do Tigre Asiático

1) Tigre Asiático: na Rua Calçada (a rua mais movimentada da vila), tem um ambiente bem bonito, com decoração no estilo tailandês. Os pratos não são tão apimentados e estavam bem feitos. É bem badalado e costuma ter espera.

2) Sapore di Pasta: fica dentro da pousada Morada dos Bougainvilles, no Caminho do Rei. O lugar é bem charmoso e uma boa pedida para um jantar romântico. O spaghetti negro com lascas de salmão e molho de laranja estava uma delícia! O forte do cardápio, como dá para ver pelo nome, são as massas.

3) Refúgio do Pescador: dentro da pousada Hospedaria das Brisas, também no Caminho do Rei, o forte aqui são os peixes e frutos do mar. Não gostei muito do atum que eu pedi — passado demais para o meu gosto — mas os outros pratos da mesa estavam bem feitos.

4) Dragon Sushi: fica na entrada da vila do Rosa, próximo ao posto policial. Nesse não fomos, mas recebemos muitas recomendações na pousada em que ficamos.

5) Pizzaria Margherita: próxima ao centrinho, na esquina entre a estrada que leva à praia e o Caminho do Rei. As pizzas são ótimas, só não gostamos do vinho branco quente! Comemos lá no dia 31 de dezembro, então pode ser uma boa pedida se você está procurando um lugar para comer antes do réveillon.

6) Lola: também na Rua Calçada, no centro, é uma mistura de bar e restaurante. Os pratos estavam bons, o problema foi a demora: o atendimento deixou a desejar. Quase sempre tem música ao vivo.

Já no quesito diversão noturna, o lugar mais animado era o bar Beleza Pura, na Estrada da Praia, perto da esquina com a Rua Calçada. Se você chegar cedo nem vai precisar pagar para entrar. Achamos as bandas que tocavam música ao vivo mais ou menos, mas também tem DJ tocando. Outro lugar que costumava encher era o Pico da Tribo, que fica um pouco escondido na parte de dentro da vila — melhor pedir indicações de como chegar. Costuma encher tarde e o cardápio musical é variado, depende do dia. Há ainda o Mar del Rosa, com programação mais voltada para a música eletrônica.

Para encerrar, uma boa fonte para ficar por dentro da Praia do Rosa e ver o que está rolando é o Guia do Rei.

Recife e OIinda – Parte 2

Mar de prédios em Boa Viagem

Leia a primeira parte desse texto aqui.

Esculturas de Brennand em frente ao Marco Zero. A maior é a Coluna de Cristal

Ainda no centro histórico, na confluência das Avenidas Rio Branco e  Marquês de Olinda fica o chamado Marco Zero de Recife, uma área que abriga eventos e uma parte do carnaval de rua da cidade. De lá avistam-se várias esculturas do famoso artista pernambucano Francisco Brennand, entre elas a ”Coluna de Cristal”, com 32 metros de altura, com uma forma bastante fálica.

O pátio principal da oficina de Francisco Brennand, com o Templo Central no centro

Aliás, para quem gosta das esculturas do Brennand, é imperdível visitar sua oficina. Fica um pouco afastado do centro de Recife, numa área conhecida como Várzea, perto do campus da Universidade Federal do Pernambuco. O ideal é pedir para alguém te levar, um taxista ou algum guia indicado pelo hotel (eu fui com o amigo recifense). O lugar é um verdadeiro parque de esculturas, meio surreal, quase extraterrestre, mas a oficina continua funcionando, produzindo cerâmicas e obras de arte (que são caríssimas, diga-se de passagem). O lugar também abriga um restaurante agradável e de boa comida. Contudo, tenho que avisar que a oficina fica fechada aos sábados, domingos e feriados. Uma pena.

"Os Comediantes", Oficina Brennand

Outro membro do clã, Ricardo Brennand, também criou sua área cultural, um instituto que leva seu nome e fica num museu-castelo. Esse eu não visitei, então não tenho como opinar a respeito. De qualquer forma, embora pareça estranho um castelo meio “medieval” em Recife, as fotos do lugar enchem os olhos, e, dizem, o acervo tem obras interessantes e de renome. Certamente vou querer conhecer na minha próxima visita.

Vista noturna de Recife do alto do Paço do Alfândega

Voltando ao centro histórico, próximo ao Marco Zero, fica o shopping Paço da Alfândega. As lojas do shopping já foram mais interessantes, mas, de qualquer forma, vale olhar sua fachada, já que a construção é antiga (ali já funcionou um convento e um prédio da alfândega) e foi toda renovada. É lá também que fica a Livraria Cultura de Recife. Do shopping também se tem uma linda vista da foz do Rio e de algumas pontes do Recife Antigo, como a Ponte Maurício de Nassau.

Rua da Aurora

Cruzando a ponte e saindo da ilha onde fica o fica o Marco Zero, fica a linda Praça da República, cercada por prédios antigos como o Teatro Santa Izabel e o Palácio da Justiça. De lá já se observa, do outro lado do canal, a Rua da Aurora, com suas casinhas coloridas restauradas.

Para comer, conheci e recomendo:

Beijupirá

Prato de polvo no Beijupirá

1) Beijupirá, em Olinda: a primeira casa com esse nome fica em Porto de Galinhas, e há outras filiais em Maceió e Fernando de Noronha. O restaurante de Olinda, aparentemente, segue a mesma fórmula: a grande atração são os peixes e frutos do mar, mas há opções com outras carnes no cardápio também. O ambiente é aconchegante, um pouco clean, e explora a vegetação e os telhados do casario em volta. Não é baratinho, mas a comida é muito boa: meu picadinho de polvo estava ótimo. O único problema foi não terem conseguido chamar um táxi para nos levar de volta a Recife. Pegamos um na rua mesmo.

Oficina do Sabor

2) Oficina do Sabor, em Olinda: esse é o restaurante mais famoso e turístico de Olinda, embora haja controvérsias sobre a qualidade da comida. Quando comi lá, achei meu prato bom, embora nada excepcional, considerando que os preços também não são baratinhos. As vistas do restaurante são, de fato, lindas, e as caipirinhas valem a visita: a de siriguela estava uma delícia.

3) Ponte Nova, em Recife: localizado na Zona Norte da cidade, no bairro das Graças. O ambiente é elegante mas nada muito exagerado, quase com um ar de bistrô. A comida é contemporânea, misturando pratos de inspiração francesa e ingredientes locais. Vale à pena pesquisar outros restaurantes na área, que é bem movimentada e, certamente, tem outras opções interessantes.

4) Creperia Anjo Solto, em Recife: no bairro do Pina, no meio do caminho entre o centro e Boa Viagem, fica no final de uma galeria chamada Joana D’Arc. Como o público é mais jovem, oferece uma boa relação custo-benefício. Os crepes têm sabores variados e são bem gostosos. Preciso comentar que as caipirinhas também estavam ótimas! Ali também é um bom lugar para tentar saber qual é a boa da noite.

5) O restaurante da Oficina Brennand, já mencionado acima, tem pratos interessantes, com releituras de pratos locais e preços razoáveis. Uma boa pedida se você for visitar o local, já que a oficina fica meio distante da cidade.

Em suma, há motivos de sobra para conhecer Recife e Olinda. Pode não ser o paraíso nordestino das praias, mas rende um bom passeio para um feriadão ou uma parada de alguns dias antes de você ir para Porto de Galinhas ou outra praia da região. Sem falar que os recifenses são, no geral, animados e bastante acolhedores com os visitantes de fora.

Recife e Olinda – Parte 1

Recife é a segunda cidade mais populosa do Nordeste, atrás de Salvador — embora a região metropolitana da capital pernambucana, com os municípios que se conglomeram ao seu redor, seja maior que a da capital baiana. Apesar disso — ou talvez por causa disso — a cidade não costuma ser incluída entre os destinos mais procurados pelos turistas que vão ao Nordeste. Pode ser que as pessoas, no geral, quando vão para a praia, queiram descanso e tranquilidade, e não o caos de uma cidade grande. De todo modo, Salvador é bastante visitada por turistas, enquanto Recife acaba sendo meio relegada. Há, claro, o problema da violência, tão presente nas cidades grandes brasileiras, e bastante mencionado quando se fala de Recife. Só que Salvador também padece desses problemas (minha irmã, por exemplo, já foi assaltada na frente do hotel em Salvador); o Rio, da mesma forma, é bastante lembrado pela violência, e as pessoas continuam visitando ambas — o que é bom, porque, de fato, são cidades lindas. Tentarei aqui explicar porque acho que Recife e sua irmã/vizinha Olinda devam ser visitados também.

Esclareço, desde já, que nunca visitei essas cidades durante o Carnaval, período em que, acredito, a situação deva ser bem diferente (leia-se uma muvuca). De qualquer forma, várias das atrações estão lá, sempre, e podem ser visitadas em qualquer época.

Vista de Olinda do Alto da Sé, com Recife ao fundo

Como se sabe, Olinda foi estabelecida primeiro, pelos portugueses. Quem já foi a Portugal, entende perfeitamente porque os colonizadores construíram Olinda numa área tão irregular, cheia de morros. Hoje, são as ladeiras de Olinda que fazem a fama da cidade e ficam repletas no Carnaval. Subir aquelas ruas íngremes realmente dá uma canseira, mas as vistas valem à pena. Se você vier de táxi de Recife, como eu fui nas duas vezes em que visitei a cidade, peça para o motorista parar logo no Alto da Sé. Chegando no ponto mais alto da cidade, você já economiza perna e sola de sapato e, para baixo, como diz o ditado, todo santo ajuda. Assim que o táxi terminar de subir a inclinada Ladeira da Misericórdia (você vai pedir muita misericórdia se subi-la a pé), pode parar. Lá já é a área conhecida como Alto da Sé. Há uma pequena igreja, chamada Igreja da Misericórdia, que nem sempre fica aberta (parece que ela está, atualmente, em reforma), mas a grande atração ali são as vistas da cidade antiga (Olinda tem uma parte nova, cheia de prédios altos também) e do mar lá embaixo. Você provavelmente já será abordado por pessoas se oferecendo como guia; se ão quiser o serviço, agradeça e simplesmente ignore, porque eles já vão começar, provavelmente, a contar a história de Olinda (todos recitam o mesmo texto). Se você aceitar o guia, combine o preço antes, porque depois ele vai querer te cobrar caro.

Antigo observatório do Alto da Sé

Igreja da Sé

Ao fundo do Largo da Misericórdia, você logo verá a Igreja e o Convento da Conceição, que é bem bonita por fora (não cheguei a visitá-la por dentro). A rua que segue à direita é a Rua Bispo Coutinho. Ali há algumas lojinhas de artesanato (meio caras), um antigo observatório, recentemente restaurado, e várias tendas vendendo quitutes locais — a tapioca de lá é famosa (e gigantesca). Ao final da rua, antes da descida, fica a Igreja da Sé propriamente dita. O interior é um pouco decepcionante, fruto de incêndios e reformas, mas é possível ainda ver lindos azulejos portugueses. As vistas da lateral da igreja, com os prédios de Recife ao fundo, são de tirar o fôlego.

Interior da Igreja do Mosteiro de São Bento

Há várias outras igrejas espalhadas, mas eu só visitei outra: a do Mosteiro de São Bento, na parte mais baixa da cidade antiga. Por fora a vista já é bem bonita, com vários coqueiros ladeando a fachada de estilo barroco. O interior é todo dourado (não sei dizer se é ouro de verdade) e enche os olhos. É possível assistir a uma missa com cantos gregorianos lá.

Casinhas coloridas numa ladeira de Olinda

Considero que o melhor de Olinda é sair andando pelas ladeiras e vendo as casinhas coloridas. A ladeira da Rua do Amparo é uma das principais para admirar a arquitetura colonial, além de ser cheia de restaurantes (é lá que fica o Oficina do Sabor, um dos mais famosos). Ali, também, fica o Museu de Arte Contemporânea de Olinda (oficialmente na Rua 13 de Maio, mas que é uma continuação da Rua do Amparo). Algumas ruelas, claro, são feias e dão um pouco de medo de entrar, mas se você se ater aos locais mais turísticos, não vai ter problemas.

Fachada do Museu de Arte Contemporânea de Olinda

Vista de Olinda

No geral, Olinda, com o perdão do trocadilho infame e já bem gasto, é realmente linda. As casas encrustradas nos morros, com aqueles telhados típicos da arquitetura colonial, mescladas com uma vegetação farta, é uma paisagem que deixa todo mundo boquiaberto. Há restaurantes aclamados e pousadas charmosas e, se você quiser só descansar (ou quiser ficar perto do Carnaval, nesse período), pode ser uma boa hospedar-se em Olinda. Das duas vezes em que eu fui, contudo, fiquei em Recife. Acho mais central em relação às atrações em geral, além de ter mais opções para sair à noite.

Cuidado com o tubarão! Aviso na praia de Boa Viagem

A área mais famosa de Recife para quem é de fora é o bairro de Boa Viagem, mas quem vai em busca de praia vai ficar um pouco decepcionado — certamente não é a praia mais bonita que você terá visto. Além disso, os avisos de “cuidado, tubarões” assustam bastante. A parte da praia mais badalada é em frente ao Ed. Acaiaca, um prédio de estilo moderno que lembra os de Brasília. De qualquer modo, como me confidenciou um amigo que é de lá, os locais preferem morar na Zona Norte, em bairros como Espinheiro, Graças e Aflitos. É longe da praia, mas nesses lugares há uma boa concentração de bares e restaurantes (segundo ele, os melhores restaurantes de Recife estão por lá), além de prédios bons, o que é motivo de sobra para fincar residência. Portanto, se você, de fato, busca praia, é melhor sair de Recife/Olinda — como fazem, aliás, os locais — e ir rumo a Porto de Galinhas — há várias praias no caminho.

Colorido na Rua Bom Jesus

Ainda assim, Recife tem atrações de outra espécie. O centro histórico, que fica numa ilha de frente para o mar, tem algumas construções colonais já recuperadas (e outras ainda nesse processo). A rua mais arrumadinha da região é a Rua Bom Jesus, onde fica a Sinagoga Kahal Zur Israel, considerada a mais antiga das Américas. Os judeus se estabeleceram ali na época dos holandeses — aliás, Recife se desenvolveu na época holandesa, pois, como disse acima, os portugueses instalaram-se inicialmente em Olinda — e, com a retomada da cidade por Portugal, fugiram com os holandeses para a colônia de Nova Amsterdã, que depois virou Nova Iorque. Hoje, a sinagoga é um centro judaico, e pode ser visitada.

Fachada da Sinagoga Kahal Zur Israel

O Rio e seus problemas

Pão de Açúcar visto do MAM

O Rio é uma das cidades mais impressionantes que eu conheço. A mistura de cidade grande com uma natureza ainda muito presente em morros, florestas e praias sempre me deixa de queixo caído. Nesse ponto, acho que a única cidade que eu conheci que tem uma mistura semelhante é Sydney, na Austrália.

Ainda assim, muita gente torce o nariz para o Rio. Certo, há a violência tão presente nos noticiários, e ela realmente existe, não é uma invenção. De qualquer forma, sempre há um certo exagero. Eu já fui várias vezes ao Rio e nunca tive problemas com violência; por outro lado, conheço várias pessoas que já foram assaltadas ou pelo menos presenciaram um roubo.

A questão principal parece ser tomar cuidado. Toda cidade grande tem um certo grau de violência. Tenho um amigo que, certa vez, foi assaltado em Paris quando sacava dinheiro, bem próximo à Notre Dame, um dos pontos turísticos mais visitados da capital francesa. Outra amiga ficou muito tempo com uma péssima impressão de Paris porque, na primeira vez em que visitou a cidade, presenciou um homem sendo espancado em plena rua. E ninguém precisa deixar de apreciar o lando lindo da Cidade Luz por causa desses eventos.

Tentarei abordar alguns cuidados que considero básicos no Rio e que, acredito, podem ser adotados sem prejudicar a experiência da cidade.

1) Turista, é claro, sempre atrai mais atenção. Tem gente que não tem como escapar, está na cara que é turista (esse fator em geral tem a ver com a ausência quase completa de melanina na pele). Ainda assim, é bom evitar andar na rua com a câmera no pescoço, jóias chamativas e relógios caros.

O problema, na minha opinião, é ostentá-los. Eu sempre vou à praia com minha câmera digital, meu Ipod, telefone celular, mas coloco tudo dentro de uma mochila. E nada de deixar as coisas ao léu na praia enquanto você dá um mergulho. Se você está sozinho, evite levar coisas de valor. Tem gente que pede para alguém do lado dar uma olhadinha, mas eu acho arriscado.

Da mesma forma, se você sair à noite e for de carro ou táxi, não tem problema: pode usar seus adereços. O principal problema é ostentá-los na rua.

2) Favela é um lugar de moradia de muita gente digna, mas não consigo entendê-la como ponto turístico. Eu sei que alguns hotéis e agências oferecem uma tal de “favela tour” na Rocinha e em outras “comunidades”, mas isso é incompreensível para mim: parece uma visita ao zoológico, mas ao invés de ver animais você vai ver “gente pobre”. Se eu morasse lá e fosse trabalhador e honesto, ia me sentir muito incomodado com isso. Enfim, evite ir à favela, seja pelas razões sociológicas aqui citadas, seja porque a visita, ainda mais desacompanhada, pode ser bem perigosa.

A não ser que você seja a Danuza Leão e tiver sido convidada para um “queijos e vinhos” na casa do Antônio Pitanga e da Benedita da Silva no morro do Chapéu Mangueira (li sobre o episódio na autobiografia dela). Em outras circunstâncias, evite.

3) Táxi é um capítulo à parte no Rio. Na minha opinião, eles já melhoraram bastante em relação a alguns anos atrás e estão mais profissionais. Antigamente era muito mais comum pegar um táxi que ficava dando voltas ou queria cobrar um preço “combinado”, sem taxímetro.

Dizem que chamar táxi na rua no Rio é fria. Eu ainda pego de vez em quando e nunca tive problemas mais sérios, mas confesso que já tive alguns dissabores, como motorista que corria demais, que tentou me vender drogas, dentre outros pequenos incômodos. Conheço gente, entretanto, que entrou em um táxi roubado e acabou indo parar no subúrbio, depenado dos pés à cabeça.

Em todo caso, para evitar problemas, hoje tenho um telefone de um disk-táxi no meu celular: é (21) 2178-4000 ou 2501-3026 (não, eu não recebi nenhum dinheiro pelo merchandising). Há vários outros: basta perguntar num ponto de táxi ou pedir o cartão de um táxi cujo motorista tenha sido educado e profissional. Quando está difícil pegar um táxi ou eu acho o local estranho, é lá que eu ligo para pedir socorro. Além disso, tendo um número de uma cooperativa você sempre tem para onde ligar para reclamar no caso de alguém ter lhe passado a perna (ou tentado).

Na minha opinião, um dos principais problemas de táxi no Rio é querer cobrar um preço fixo e não usar o taxímetro. Isso já mudou bastante, mas ainda é relativamente comum, principalmente nos aeroportos e em datas específicas, como no Réveillon. A minha dica é: não aceite. Há sempre taxistas dispostos a ligar o taxímetro. Se não houver, apele para o número aí de cima.

Se bem que no Réveillon pode ser realmente difícil achar um táxi de madrugada que queira trabalhar com o taxímetro. Nesse caso, programe-se para voltar a pé, com um amigo, ou então esteja disposto a negociar um preço com o motorista.

Outro problema são aqueles taxistas que dão voltas ou fazem caminhos mais longos. Aí, se você não conhece o Rio, fica difícil resolver, mas, na minha opinião, isso é um problema que ocorre em (quase) todos os lugares do mundo. Meu truque é sempre perguntar no hotel ou para alguém da cidade qual o melhor caminho até meu destino ou quanto custaria, em média, uma corrida até lá.

Os mapas disponíveis nos smartphones de hoje em dia também contribuíram para diminuir o problema. Ainda assim, nem sempre o mapa que seu telefone mostra é necessariamente o melhor caminho (faça uns testes na sua cidade para você ver). Há várias questões envolvidas, como horários de tráfego mais intenso em algumas regiões, locais por onde se deve evitar passar em determinados horários, enfim, coisas que só quem mora sabe. De qualquer forma, deixar claro para o motorista que você está acompanhando o caminho pelo mapa do celular já coíbe bastante essa prática.

Em suma, táxi no Rio é bem barato, e se você for dividir com outra(s) pessoa(s), vale mais à pena ainda. Aproveite essa vantagem e, com as cautelas listadas acima, tenha um pouco mais de conforto nos seus deslocamentos.

4) A Zona Sul, de uma forma geral, é uma área bem tranquila; dá para andar a pé até à noite. Sei que há alguns anos ouvíamos falar muito dos “arrastões” nas praias, mas acho que hoje em dia isso não tem acontecido (ao menos eu nunca vi um). Mesmo com algumas favelas espalhadas pela região (Pavão Pavãozinho, Vidigal etc), a presença maciça de turistas motivou um policiamento mais presente e, assim, inibiu ações mais violentas. Mesmo assim, como relatei acima, táxi é barato e pode ser uma boa à noite.

Em outras áreas da cidade, convém checar. Não conheço muito da Barra da Tijuca, mas acho que é um bairro também relativamente seguro. Santa Tereza está na moda e tem alguns hotéis charmosos, mas, recentemente, fui a um restaurante lá à noite e observei que, em volta do bairro, há algumas favelas. O Centro tem prédios lindos e atrações culturais, mas eu só recomendo de dia e durante a semana. Uma vez inventei de ir lá no domingo e só havia gente mal-encarada nas ruas. Se você não puder ir nesses horários, opte por um táxi, com um destino certo (um museu, uma igreja, por exemplo).

Há outros problemas, claro, mas acho que com bom senso todo mundo consegue evitá-los. Também não quero falar só de coisas ruins a respeito do Rio; outros textos sobre a cidade abordarão outras coisas boas de lá.

Réveillon em Trancoso

Sol nascendo na praia, Tostex

Foi-se o tempo em que Trancoso era uma praia longínqua no sul da Bahia visitada basicamente por hippies e gente alternativa, e a Elba Ramalho andava nua em pêlo pela praia. Não vou nem mencionar os séculos em que o local passou sendo uma pacata vila de pescadores. Hoje, helicópteros cruzam os céus trazendo e levando gente ao aeroporto de Porto Seguro, carregando em seu interior paulistanos endinheirados; restaurantes de vários sabores e origens (e contas salgadas) pipocam aqui e ali; lojinhas vendendo marcas como Osklen, Maria Bonita e Richard’s podem ser visitadas no Quadrado; e festas animadas pela música eletrônica e regadas com vodca importada acontecem na praia ou em clubes exclusivos.

Se você é daqueles que gosta do circuito jet-set, seus olhos provavelmente brilharam com a descrição do parágrafo anterior. Se você quer apenas descansar e curtir sombra e água fresca, provavelmente já riscou Trancoso do seu caderninho. Calma, há Trancoso para todos, basta saber onde e quando ir.

Minha única experiência em Trancoso foi em um réveillon (certo, eu dei uma passadinha lá quando viajei com a turma da escola no final do 2.° grau, mas isso não conta), por isso, é a respeito dessa época que eu vou escrever. De qualquer forma, pelo que eu ouvi falar, na semana do réveillon, os preços vão às alturas, as pousadas esgotam rápido, a vila e as praias ficam cheias. Se você não quiser nada disso, recomendo escolher outra época. A dona da pousada onde ficamos, uma argentina, me disse que no primeiro semestre, depois do verão, chove muito, mas, a partir do segundo semestre, à exceção dos turistas estrangeiros, que sempre aparecem, a cidade fica bem mais tranquila. Talvez viajar no final de novembro, começo de dezembro, seja uma boa escolha para quem quer mais sossego sem perder completamente a vibe do lugar, uma vez que o verão já estará batendo na porta, mas a maioria das pessoas ainda não terá começado a viajar. Acredito que entre o réveillon e o carnaval as coisas não sejam tão diferentes da descrição que eu fiz no primeiro parágrafo; de todo modo, como costuma acontecer em várias outras cidades de praia, pode ser que na semana seguinte depois do ano novo você já encontre opções mais em conta.

Para chegar em Trancoso, vem a primeira dificuldade. A vila não fica muito distante de Porto Seguro, onde há um aeroporto que recebe voos da TAM e da GOL, além de outros fretados. De lá, peguei um táxi até a estação das balsas, de onde cruza-se o Rio Buranhém até Arraial d’Ajuda. A estação não fica muito longe do aeroporto, de modo que a corrida não fica cara. A balsa também é baratinha, custava, quando eu fui, R$ 1,00 por pessoa. Ela também atravessa carros, mas nesse caso paga-se um pouco mais. De qualquer modo, na volta de Arraial d’Ajuda, a travessia de pessoas não é cobrada. Essa balsa funciona dia e noite, mas no verão ela é mais frequente.

Lembrando-me de que, quando fui com meus colegas de escola, a travessia também era feita pela balsa, fiquei pensando porque diabos não constroem logo uma ponte sobre o rio. Bem, a resposta parece ser um pouco complexa. Além do custo da obra, claro, acho que há pouca vontade de fazê-lo. Senti que há um certo temor de que Trancoso transforme-se em uma outra Porto Seguro — que, de fato, perdeu muito encanto com o turismo em massa — caso o acesso seja facilitado. Sinceramente, não acredito que o turismo em massa desqualifique um destino automaticamente — Paris e Nova Iorque estão aí, recebendo toneladas de turistas todo ano –, mas a preparação e a forma que ele tem para receber os turistas. Tudo isso parece-me, assim, um papo bem elitista; como ressaltei acima, quem pode vai de helicóptero até Trancoso e nem tem que pensar em travessias de balsa. Mas não há como negar-se que Trancoso não tem estrutura para receber muita gente, e assim vai mantendo-se a forma atual.

Feita a travessia de balsa, chega-se, como eu disse, a Arraial d’Ajuda, uma outra vila que também já foi bem alternativa mas hoje está bastante movimentada. Bem em frente as balsas, há vários ônibus que te levam até Trancoso, deixando você perto do Quadrado. Esses ônibus “fretados” pegam o caminho de terra, que é mais curto, mas é uma estrada de terra, enfim, cheia de solavancos. Há ônibus de linha que vão por uma estrada asfaltada — peguei um deles na volta –, mas o caminho é bem mais longo, uma volta danada. Escolha o que estiver mais fácil no momento, o importante é chegar. Sempre se pode, de qualquer forma, pegar um táxi até lá — aliás, já no aeroporto de Porto Seguro, é possível combinar transfers com taxistas, a preços bem salgados, diga-se de passagem. Ele cruza a balsa com você, faz o caminho até Trancoso e te deixa em frente à sua pousada, caso seja possível nela chegar de carro. Se a preguiça bater e dinheiro não for problema, é uma opção.

A vila fica em cima de uma falésia, de forma que praia e cidade ficam bem separados. Daí vem a primeira dúvida: ficar na praia ou na vila? Depende dos seus objetivos. Se você quiser curtir a cidade à noite, ir a um restaurante legal ou até mesmo a uma balada, é bem provável que venha uma preguiça de subir, à noite, a sinuosa estradinha de terra que conecta praia e cidade. Nesse caso, opte por ficar na vila. Se você quer só curtir praia e ficar numa pousada que tenha opção de comida à noite, ficar perto da praia será a escolha mais adequada. Há motoboys que te levam da vila para a praia e vice-versa, os quais se concentram próximo ao Quadrado. Em todo caso, convém verificar com sua pousada, caso ela fique perto da praia, se eles oferecem opção de transporte até a cidade à noite.

Quadrado com sua igrejinha

A vila em si foi construída em torno do famoso Quadrado, na verdade um grande descampado cercado de casinhas coloridas com uma igreja branquinha no fundo, já na beirada da falésia. Apesar de parecer bem básico (e é), o Quadrado tem seu charme. Os moradores foram expulsos das casas — provavelmente pela especulação imobiliária –, que foram reformadas e viraram lojinhas, restaurantes e até pousadas. Tudo bastante colorido. Ali e em algumas ruas ao redor carro não circula. Um dia, passeando pelo Quadrado à noite, havia umas cangas e almofadas espalhadas pelo chão, em volta de uma roda de samba. Foi um dos melhores programas da minha viagem, e não custou nada; portanto, compensa sempre dar uma volta lá à noite para ver se tem algo acontecendo. Da mesma forma, se você não conseguir encontrar (ou não quiser) nenhuma festa para passar o réveillon, é para lá que você tem que ir — fica bem cheio e há uma queima de fogos para comemorar a virada.

Aliás, o que fazer na virada é um capítulo à parte. Quando eu fui, na passagem de 2008 para 2009, havia uma grande festa sendo divulgada e que seria realizada numa pousada perto de Trancoso. Celebridades e endinheirados eram aguardados. O ingresso era vendido numa boate perto do Quadrado e custava uns R$ 300, com direito apenas ao ingresso no local. Apesar do preço, concordamos em pagar, já que não havia muitas outras opções. Numa noite em que estávamos na tal boate, fomos até a bilheteria para comprar a entrada. Para nossa surpresa, só era possível comprar se tivéssemos recebido um convite pessoal de um dos promotores da festa. E quem são eles? Ninguém dizia. Parece que quem já estava na cidade alguns dias antes recebeu o tal convite nas praias e nas festas com certa facilidade, mas depois que chegamos só conhecendo alguém mesmo. Depois de algumas tentativas e de saco cheio daquela segregação toda, preferimos deixar para lá e passamos o réveillon lá no Quadrado mesmo. Foi animado e bem mais barato, mas não há música e, depois de uma hora, praticamente todo mundo já se dispersou.

Praia dos Nativos, em frente ao Tostex

Nas praias há, claro, vários bares, e algumas pousadas, um pouco mais distantes, também colocam algumas cadeiras na praia para os hóspedes. O bar mais famoso é o Tostex, que fica bem abaixo da vila, na Praia dos Nativos, embora para se chegar até lá tenha que se descer pela tal estrada de terra que faz um zigue-zague até chegar na praia. O Tostex oferece mesas, cadeiras, espreguiçadeiras e almofadas sem cobrar por isso, mas tem que consumir (nos dias mais cheios há uma consumação mínima). O público é de gente bonita, jovem e paulistana, e a música é basicamente eletrônica. Apesar dos preços caros e da vibe um pouco Ibiza demais para o meu gosto, a música é legal e o lugar é, no geral, bem animado. As caipirinhas são ótimas: as minhas preferidas foram a de tangerina e pimenta rosa e a de carambola com manjeiricão, mas essas criações devem mudar de vez em quando.

Porta do banheiro feminino, Tostex

A maior parte dos restaurantes fica, de fato, no Quadrado ou nas proximidades. Não experimentei muitos, mas recomendo vivamente o Capim Santo (quem também tem uma pousada no local e conta com outra unidade em São Paulo). A comida é boa (embora, como quase tudo lá, cara) e o lugar é bem bonito, com atendimento bom. O Masala, na rua que dá acesso ao Quadrado, tem uma culinária estilo sudeste asiático e serve um pad thai bem gostoso. Nas opções mais em conta, recomendo o Portinha, bem no começo do Quadrado, um self service que na hora do almoço fica bem cheio e oferece opções variadas de comida, e a Créperie du Blé Noir, praticamente um quiosque numa pequena galeria no caminho para o Quadrado, que além dos crepes em si (bons) serve um bolo de chocolate que é uma coisa!

Para sair à noite, como eu já comentei, a maioria das opções ficam no Quadrado ou próximas a ele. No Pára-Raio, bem na entrada do Quadrado, a programação era basicamente de música eletrônica, mas não sei se ainda é uma boa opção. De qualquer maneira, várias festas aconteciam em outros lugares, entre eles o próprio Tostex citado acima, onde, durante o dia, o pessoal distribui os flyers com a programação noturna da cidade. Além disso, a Elba Ramalho tem uma casa na cidade e faz shows quase semanalmente na época do verão. Quando fui, eles aconteciam no São Brás, também no caminho que leva ao Quadrado, mas é só perguntar na pousada ou para quem trabalha lá que eles sabem onde ela estará se apresentando. Mesmo para quem não gosta muito do estilo dela, o show é bem animado e o público bem eclético, com locais se misturando a turistas brasileiros e gringos, querendo aprender a dançar forró.