Réveillon em Trancoso

Sol nascendo na praia, Tostex

Foi-se o tempo em que Trancoso era uma praia longínqua no sul da Bahia visitada basicamente por hippies e gente alternativa, e a Elba Ramalho andava nua em pêlo pela praia. Não vou nem mencionar os séculos em que o local passou sendo uma pacata vila de pescadores. Hoje, helicópteros cruzam os céus trazendo e levando gente ao aeroporto de Porto Seguro, carregando em seu interior paulistanos endinheirados; restaurantes de vários sabores e origens (e contas salgadas) pipocam aqui e ali; lojinhas vendendo marcas como Osklen, Maria Bonita e Richard’s podem ser visitadas no Quadrado; e festas animadas pela música eletrônica e regadas com vodca importada acontecem na praia ou em clubes exclusivos.

Se você é daqueles que gosta do circuito jet-set, seus olhos provavelmente brilharam com a descrição do parágrafo anterior. Se você quer apenas descansar e curtir sombra e água fresca, provavelmente já riscou Trancoso do seu caderninho. Calma, há Trancoso para todos, basta saber onde e quando ir.

Minha única experiência em Trancoso foi em um réveillon (certo, eu dei uma passadinha lá quando viajei com a turma da escola no final do 2.° grau, mas isso não conta), por isso, é a respeito dessa época que eu vou escrever. De qualquer forma, pelo que eu ouvi falar, na semana do réveillon, os preços vão às alturas, as pousadas esgotam rápido, a vila e as praias ficam cheias. Se você não quiser nada disso, recomendo escolher outra época. A dona da pousada onde ficamos, uma argentina, me disse que no primeiro semestre, depois do verão, chove muito, mas, a partir do segundo semestre, à exceção dos turistas estrangeiros, que sempre aparecem, a cidade fica bem mais tranquila. Talvez viajar no final de novembro, começo de dezembro, seja uma boa escolha para quem quer mais sossego sem perder completamente a vibe do lugar, uma vez que o verão já estará batendo na porta, mas a maioria das pessoas ainda não terá começado a viajar. Acredito que entre o réveillon e o carnaval as coisas não sejam tão diferentes da descrição que eu fiz no primeiro parágrafo; de todo modo, como costuma acontecer em várias outras cidades de praia, pode ser que na semana seguinte depois do ano novo você já encontre opções mais em conta.

Para chegar em Trancoso, vem a primeira dificuldade. A vila não fica muito distante de Porto Seguro, onde há um aeroporto que recebe voos da TAM e da GOL, além de outros fretados. De lá, peguei um táxi até a estação das balsas, de onde cruza-se o Rio Buranhém até Arraial d’Ajuda. A estação não fica muito longe do aeroporto, de modo que a corrida não fica cara. A balsa também é baratinha, custava, quando eu fui, R$ 1,00 por pessoa. Ela também atravessa carros, mas nesse caso paga-se um pouco mais. De qualquer modo, na volta de Arraial d’Ajuda, a travessia de pessoas não é cobrada. Essa balsa funciona dia e noite, mas no verão ela é mais frequente.

Lembrando-me de que, quando fui com meus colegas de escola, a travessia também era feita pela balsa, fiquei pensando porque diabos não constroem logo uma ponte sobre o rio. Bem, a resposta parece ser um pouco complexa. Além do custo da obra, claro, acho que há pouca vontade de fazê-lo. Senti que há um certo temor de que Trancoso transforme-se em uma outra Porto Seguro — que, de fato, perdeu muito encanto com o turismo em massa — caso o acesso seja facilitado. Sinceramente, não acredito que o turismo em massa desqualifique um destino automaticamente — Paris e Nova Iorque estão aí, recebendo toneladas de turistas todo ano –, mas a preparação e a forma que ele tem para receber os turistas. Tudo isso parece-me, assim, um papo bem elitista; como ressaltei acima, quem pode vai de helicóptero até Trancoso e nem tem que pensar em travessias de balsa. Mas não há como negar-se que Trancoso não tem estrutura para receber muita gente, e assim vai mantendo-se a forma atual.

Feita a travessia de balsa, chega-se, como eu disse, a Arraial d’Ajuda, uma outra vila que também já foi bem alternativa mas hoje está bastante movimentada. Bem em frente as balsas, há vários ônibus que te levam até Trancoso, deixando você perto do Quadrado. Esses ônibus “fretados” pegam o caminho de terra, que é mais curto, mas é uma estrada de terra, enfim, cheia de solavancos. Há ônibus de linha que vão por uma estrada asfaltada — peguei um deles na volta –, mas o caminho é bem mais longo, uma volta danada. Escolha o que estiver mais fácil no momento, o importante é chegar. Sempre se pode, de qualquer forma, pegar um táxi até lá — aliás, já no aeroporto de Porto Seguro, é possível combinar transfers com taxistas, a preços bem salgados, diga-se de passagem. Ele cruza a balsa com você, faz o caminho até Trancoso e te deixa em frente à sua pousada, caso seja possível nela chegar de carro. Se a preguiça bater e dinheiro não for problema, é uma opção.

A vila fica em cima de uma falésia, de forma que praia e cidade ficam bem separados. Daí vem a primeira dúvida: ficar na praia ou na vila? Depende dos seus objetivos. Se você quiser curtir a cidade à noite, ir a um restaurante legal ou até mesmo a uma balada, é bem provável que venha uma preguiça de subir, à noite, a sinuosa estradinha de terra que conecta praia e cidade. Nesse caso, opte por ficar na vila. Se você quer só curtir praia e ficar numa pousada que tenha opção de comida à noite, ficar perto da praia será a escolha mais adequada. Há motoboys que te levam da vila para a praia e vice-versa, os quais se concentram próximo ao Quadrado. Em todo caso, convém verificar com sua pousada, caso ela fique perto da praia, se eles oferecem opção de transporte até a cidade à noite.

Quadrado com sua igrejinha

A vila em si foi construída em torno do famoso Quadrado, na verdade um grande descampado cercado de casinhas coloridas com uma igreja branquinha no fundo, já na beirada da falésia. Apesar de parecer bem básico (e é), o Quadrado tem seu charme. Os moradores foram expulsos das casas — provavelmente pela especulação imobiliária –, que foram reformadas e viraram lojinhas, restaurantes e até pousadas. Tudo bastante colorido. Ali e em algumas ruas ao redor carro não circula. Um dia, passeando pelo Quadrado à noite, havia umas cangas e almofadas espalhadas pelo chão, em volta de uma roda de samba. Foi um dos melhores programas da minha viagem, e não custou nada; portanto, compensa sempre dar uma volta lá à noite para ver se tem algo acontecendo. Da mesma forma, se você não conseguir encontrar (ou não quiser) nenhuma festa para passar o réveillon, é para lá que você tem que ir — fica bem cheio e há uma queima de fogos para comemorar a virada.

Aliás, o que fazer na virada é um capítulo à parte. Quando eu fui, na passagem de 2008 para 2009, havia uma grande festa sendo divulgada e que seria realizada numa pousada perto de Trancoso. Celebridades e endinheirados eram aguardados. O ingresso era vendido numa boate perto do Quadrado e custava uns R$ 300, com direito apenas ao ingresso no local. Apesar do preço, concordamos em pagar, já que não havia muitas outras opções. Numa noite em que estávamos na tal boate, fomos até a bilheteria para comprar a entrada. Para nossa surpresa, só era possível comprar se tivéssemos recebido um convite pessoal de um dos promotores da festa. E quem são eles? Ninguém dizia. Parece que quem já estava na cidade alguns dias antes recebeu o tal convite nas praias e nas festas com certa facilidade, mas depois que chegamos só conhecendo alguém mesmo. Depois de algumas tentativas e de saco cheio daquela segregação toda, preferimos deixar para lá e passamos o réveillon lá no Quadrado mesmo. Foi animado e bem mais barato, mas não há música e, depois de uma hora, praticamente todo mundo já se dispersou.

Praia dos Nativos, em frente ao Tostex

Nas praias há, claro, vários bares, e algumas pousadas, um pouco mais distantes, também colocam algumas cadeiras na praia para os hóspedes. O bar mais famoso é o Tostex, que fica bem abaixo da vila, na Praia dos Nativos, embora para se chegar até lá tenha que se descer pela tal estrada de terra que faz um zigue-zague até chegar na praia. O Tostex oferece mesas, cadeiras, espreguiçadeiras e almofadas sem cobrar por isso, mas tem que consumir (nos dias mais cheios há uma consumação mínima). O público é de gente bonita, jovem e paulistana, e a música é basicamente eletrônica. Apesar dos preços caros e da vibe um pouco Ibiza demais para o meu gosto, a música é legal e o lugar é, no geral, bem animado. As caipirinhas são ótimas: as minhas preferidas foram a de tangerina e pimenta rosa e a de carambola com manjeiricão, mas essas criações devem mudar de vez em quando.

Porta do banheiro feminino, Tostex

A maior parte dos restaurantes fica, de fato, no Quadrado ou nas proximidades. Não experimentei muitos, mas recomendo vivamente o Capim Santo (quem também tem uma pousada no local e conta com outra unidade em São Paulo). A comida é boa (embora, como quase tudo lá, cara) e o lugar é bem bonito, com atendimento bom. O Masala, na rua que dá acesso ao Quadrado, tem uma culinária estilo sudeste asiático e serve um pad thai bem gostoso. Nas opções mais em conta, recomendo o Portinha, bem no começo do Quadrado, um self service que na hora do almoço fica bem cheio e oferece opções variadas de comida, e a Créperie du Blé Noir, praticamente um quiosque numa pequena galeria no caminho para o Quadrado, que além dos crepes em si (bons) serve um bolo de chocolate que é uma coisa!

Para sair à noite, como eu já comentei, a maioria das opções ficam no Quadrado ou próximas a ele. No Pára-Raio, bem na entrada do Quadrado, a programação era basicamente de música eletrônica, mas não sei se ainda é uma boa opção. De qualquer maneira, várias festas aconteciam em outros lugares, entre eles o próprio Tostex citado acima, onde, durante o dia, o pessoal distribui os flyers com a programação noturna da cidade. Além disso, a Elba Ramalho tem uma casa na cidade e faz shows quase semanalmente na época do verão. Quando fui, eles aconteciam no São Brás, também no caminho que leva ao Quadrado, mas é só perguntar na pousada ou para quem trabalha lá que eles sabem onde ela estará se apresentando. Mesmo para quem não gosta muito do estilo dela, o show é bem animado e o público bem eclético, com locais se misturando a turistas brasileiros e gringos, querendo aprender a dançar forró.