Passei a maior parte da minha viagem em Israel em Haifa, uma cidade portuária no norte do país, já que lá aconteceu o workshop que foi o motivo da minha viagem. Embora a cidade já existisse desde a Antiguidade, ela só começou a ganhar importância no século XIX, com as imigrações zionistas. Na época romana, o porto principal era Cesareia, ao sul de Haifa, hoje ruínas que podem ser visitadas em um passeio. Nos séculos seguintes, a cidade de Akko, ao norte, era o porto mais importante da região. Muitos imigrantes judeus do século XIX chegaram por Haifa e, com o governo britânico após a queda do Império Otomano, Haifa virou o porto preferido da Palestina.
Haifa não é um destino muito procurado para quem visita Israel. Realmente, não é a cidade mais agitada para se conhecer por lá; mesmo assim, depois de alguns dias ali eu passei a gostar da cidade. O instituto onde fizemos o workshop ficava na parte alta da cidade, no Monte Carmelo, numa agradável área residencial, por onde eu até fiz uma corrida um dia (apesar das ladeiras). O Carmel Centre, uma área com cafés, restaurantes e um pequeno comércio, também ficava bem pertinho e permitia umas escapadas algumas noites.
A cidade iniciou-se na parte baixa e foi crescendo para o alto do Monte Carmelo. As áreas mais altas são consideradas mais nobres, seja porque são mais frescas (à noite o vento pedia um casaco, de fato), seja pelas vistas que oferece.
Haifa também é famosa por conta de uma religião não muito conhecida no Brasil, chamada Baha’i. É uma religião nova, criada no século XIX na antiga Pérsia (atual Irã). Após ser proibida por aquelas bandas, o fundador acabou numa colônia penal na vizinha cidade de Akko. A religião incorpora ensinamentos de várias outras (cristianismo, judaísmo, budismo) e diz que ninguém nasce baha’i; é uma escolha feita por cada um. Posteriormente, foi construído um memorial em sua homenagem em Haifa. Os Jardins Baha’i são, de fato, uma das principais atrações da cidade, com terraços dependurados numa parte do Monte Carmelo. Os jardins recebem um cuidado permanente e diário, o que contribui para sua beleza quase artificial. As visitas, contudo, são limitadas, com um tour saindo ao meio-dia; chegue um pouco antes.
Haifa também é conhecida como a cidade onde o profeta Elias teria se escondido quando perseguido. Há uma gruta lá que é chamada precisamente de “Gruta de Elias”. Pode ser visitada, juntamente com o Monastério Carmelita Stella Maris; ficam numa das faces do Monte Carmelo.
Sinceramente, achei a praia em Haifa mais bonita que em Tel Aviv, mas não sei se elas ficam tão agitadas como as da capital, pois não tive oportunidade de visitá-las num fim de semana. São uma boa opção, de qualquer forma, caso você passe um shabbat por lá.
Há uma área de comércio bem movimentada chamada Hadar, ao redor da Rua Nordau. Para falar a verdade, achei meio bagaceira, sem muitas opções legais de compras, e o lugar é praticamente uma Mini-Rússia, com gente falando russo em quase todas as lojas.
À noite, além da área do Carmel Centre, há a Colônia Alemã, principalmente a Avenida Ben-Gurion. O local foi, de fato, ocupada por imigrantes alemães, que, após a 2.ª Guerra, foram expulsos dali. As construções, já restauradas, realmente têm um jeitão bem alemão; várias delas abrigam bares e restaurantes que ficam movimentados à noite. Além disso, a avenida Ben-Gurion termina bem na extremidade de baixo dos Jardins Baha’i, o que torna a vista bem bonita.
Se Tel Aviv tem seu “subúrbio árabe” em Jafa, Haifa tem Akko (ou Acre, dependendo do idioma); a diferença é que nesse último caso não são tão próximas assim: ou seja, não dá para ir andando até lá. Por outro lado, achei a vibe árabe de Akko mais “autêntica” que a de Jafa. A mesquita Al-Jazzar, com sua cúpula verde, é bem bonita; lembrou-me muito algumas das que eu tinha visto em Istambul. Há um mercado (souq) típico árabe, com temperos, comidas e balangandãs em geral.
Também vale a pena dar uma espiada no Khan al-Umdan, um pátio de colunas que recebia caravanas de camelo para comércio. Atrás, como em Jafa, há uma torre com relógio em estilo inglês. Há também túneis que foram recentemente descobertos e abrigavam os Cavaleiros Templários, que passaram por ali durante as Cruzadas. Achei meio sem graça, mas me disseram que o guia de áudio (que eu não peguei, obviamente) vale à pena. O ideal é andar um pouco pela parte antiga, que fica rodeada por muros de pedra, num estilo bem como daqueles estereótipos que imaginamos quando pensamos em cidades do Oriente Médio.
Haifa e Akko são conectadas por trem a Tel Aviv — aliás, uma boa parte do caminho é bem bonito, margeando o Mar Mediterrâneo. De qualquer forma, há as infames vans sherut ligando essas cidades (Tel Aviv – Haifa, Haifa – Akko), o que torna possível fazer o passeio num dia.

