Tel Aviv é a cidade mais “moderna” de Israel. De fato, a cidade tem pouco mais de cem anos, tendo sido criada no meio das dunas por colonos judeus que migraram de Jafa (Yafo em hebraico), um pouco ao sul de Tel Aviv, uma cidade predominantemente árabe que nem sempre acolheu de boa vontade os novos migrantes judeus que começaram a chegar no século XIX.
A cidade tem uma vibe meio Rio de Janeiro — mas não a beleza. Erico Verissimo, em seu livro Israel em abril, diz que Tel Aviv lembrou-lhe Copacabana (bem, ele visitou Israel em 1966). De qualquer forma, não há aquelas montanhas recortando a paisagem, nem aquela vista exuberante tão característica do Rio.
É preciso lembrar que Tel Aviv foi construída no meio das dunas, e suas construções, em tons amarelados e pardos, não ajudam muito a colorir a paisagem. Essa cor, aliás, é a dominante em boa parte de Israel, o que dá um certo ar gasto a tudo, ainda que muitas das construções sejam relativamente recentes — pareceu-me feio inicialmente, mas com o tempo me acostumei e percebi até um certo charme naquele monocromismo. Embora em 100 anos de vida já dê para notar uma certa “arquitetura histórica”, muitos prédios têm um jeitão meio artificial, uma coisa moderna meio agressiva.
A vibe carioca fica por conta da praia, e a população de Tel Aviv parece aproveitá-la tanto quanto a do Rio. A rua Ben Yehuda, que corre no sentido norte-sul em boa parte da área central, lembra um pouco a Visconde de Pirajá, pois fica uns três quarteirões da praia e é a principal via de comércio e de transporte nesta parte da cidade.
Vários hotéis ficam na Ben Yehuda, e por ali você também vai encontrar muitos restaurantes legais, galerias de arte, cafés. O único problema é que a rua é bem comprida e as coisas não ficam concentradas em um determinado ponto, espalhando-se ao longo da rua. Isso pode dificultar um pouco se você quiser escolher um restaurante ao acaso, mas é bem provável que você encontre algo interessante em qualquer ponto dela. Na dúvida tente o trecho mais ao sul, a partir da rua Gordon.
Indo em direção ao sul, a Ben Yehuda vira Allenby (nome do general inglês que expulsou os turcos da Palestina), que faz uma curva afastando-se da praia. Logo após essa confluência, à direita, há um tradicional mercado de comida, numa área conhecida como bairro iemenita. À noite, essa área fica um pouco estranha, com uns clubes “suspeitos”; ainda assim, eu andei por lá sem problemas.
Seguindo pela Allenby, você chegará em outra área interessante da cidade. A confluência das ruas Allenby, King George e Sheinken é conhecida como praça Rei David, ou Kikar Magen David (em hebraico) e é um cruzamento bem movimentado. Ainda à direita, na rua Nahalat Binyamin, há uma feirinha de artesanato aos sábados, bem interessante.
A rua Sheinken é bem animada com cafés, restaurantes e lojas vendendo roupas locais, óculos, produtos de beleza etc. A vibe é ótima e a frequência jovem e bonita. Nela fica um restaurante legal, Orna and Ella, no número 33, onde comi uma excelente refeição. Já a rua King George é mais bagaceira, com lojas mais no estilo popular (seria a 25 de Março local?) Na área próxima ao parque Gan Meir, contudo, eu vi alguns bares bem cheios com um pessoal interessante (era uma quinta-feira à noite).
A área ao norte da cidade, conhecida como Old Port (Namal), atualmente concentra restaurantes, boates e bares. À noite fica bem movimentado. Você a reconhecerá por causa de uma chaminé de uma antiga usina de energia que ficava por ali.
As praias de Tel Aviv são separadas por aquelas “muralhas” de pedra construídas, formando baías artificiais sem muitas ondas. Cada uma tem seu público e sua clientela, vale à pena dar uma caminhada e ver o que te chama mais a atenção. O que eu percebi é que ao sul, próximo a Jafa, há mais árabes (inclusive mulheres vestidas dos pés à cabeça na praia); já a praia mais ao norte, antes da área do Old Port, reúne judeus ortodoxos (inclusive parece que há dias só para homens e outros só para mulheres). A enorme área entre ambas abriga gente “normal”, que você veria na praia por aqui. A moda praia deles, aliás, é bem parecida com a brasileira, inclusive muitas pessoas usando biquinis e sungas (exceção aos extremos acima citados, claro).
Como disse acima, a arquitetura de Tel Aviv é bem eclética, com alguns prédios “modernos” de gosto duvidoso. A cidade, todavia, tem alguns exemplos de arquitetura no estilo art-déco, já que imigrantes oriundos da Alemanha levaram ideias da Bauhaus para lá. Segundo meu guia, muitos estão em estado deplorável, mas há prédios desse estilo já restaurados. Vi alguns exemplos na área da rua Nahalat Binyamin, ali perto da praça Rei David.
Ao sul de Tel Aviv fica a antiga cidade de Jafa, mencionada até na Bíblia. Foi um dos portos usados no reinado do Rei Salomão e uma das principais entradas da nova leva de imigrantes judeus que iniciou-se no século XIX. O interessante é que Tel Aviv, a cidade fundada por imigrantes que não queriam mais ficar em Jafa por um motivo ou por outro, acabou agigantando-se em relação à vizinha que ali estava desde a Antiguidade, e hoje pode-se dizer que Jafa vive à sombra de Tel Aviv.
De fato, Jafa é praticamente um subúrbio de Tel Aviv, e você consegue chegar até lá à pé vindo de Tel Aviv. Basta ir seguindo pela praia. Após passar pelo Dolphinarium — um antigo centro de lazer, onde uma bomba explodiu em 2001 matando muitos jovens –, pela linda (e recém-restaurada) mesquita Hassan Bek, construída ainda no tempo do Império Otomano, e pelo agradável Parque Charles Chlore (apesar das poucas árvores), você já estará praticamente em Jafa. Olhando ao sul, você verá a silhueta da cidade. Mesmo sendo um passeio agradável, preferi voltar de táxi, porque é uma caminhada razoável e você ainda tem que pensar que vai bater um pouco de perna em Jafa.
Jafa não está saindo ilesa de estar à sombra tão próxima e imponente de Tel Aviv. Muitos moradores de Tel Aviv têm se mudado para lá em busca de algo mais “autêntico” no estilo do Oriente Médio. Por um lado isso significou uma injeção de dinheiro na economia local, e muito da parte antiga da cidade foi renovada por causa disso. Por outro lado, alguns temem que isso signifique uma descaracterização dessa cidade antiquíssima, enquanto outros dizem que os novos moradores inflacionam os preços e acabam por empurrar a população árabe mais pobre para fora. Você já ouviu essa história provavelmente em vários outros lugares por aí.
É um passeio de meio-dia, e o principal é andar pelas ruinhas tipicamente árabes. O passeio de frente ao mar está sendo renovado (pelo menos quando eu fui) para juntar-se à promenade que começa ainda em Tel Aviv, criando um grande calçadão. Em seguida a cidade acocora-se em uma colina, onde misturam-se construções árabes, cristãs (como o Monastério de São Pedro) e judaicas. Aliás, nos Jardins HaPisgah que ficam lá em cima, vi um pedaço de um casamento judaico típico. Na parte mais baixa, vindo de Tel Aviv, há uma mesquita e uma torre de relógio em estilo inglês.

