Este texto é uma continuação desse aqui.
5) Subir na Sears Tower e sentir um frio na barriga enquanto pisa em uma de suas plataformas de vidro: talvez seja o programa mais “turistão” de uma viagem a Chicago, mas quem se importa? O prédio (cujo nome oficial é Willis Tower), mesmo antes da queda das Torres Gêmeas, já ocupava o posto de mais alto dos Estados Unidos.
A torre foi planejada, claro, para servir à companhia Sears (que já teve lojas inclusive no Brasil); porém, atualmente, é ocupada por várias empresas. Tem 108 andares, mas o Skydeck, a plataforma de observação, fica no 103.° andar. As vistas da cidade e do lago são lindas, e de lá é possível ver como, além do miolo do “The Loop”, a altura dos prédios diminui consideravelmente. Aliás, de lá se vê como a cidade é espalhada.
O grande barato do passeio, contudo, é entrar em uma das “caixas de vidro” que se projetam da fachada do prédio. Instaladas recentemente (em 2009), essas estruturas permitem que o visitante “saia” do prédio e “flutue” sobre a cidade, vendo a rua Wacker Drive a seus pés, lá embaixo (são 412 metros de altura!). Confesso que fiquei meio receoso de início (tenho medo de altura), mas quando vi uma japonesa saltitando sobre a plataforma, concluí que era seguro. Depois do medo do primeiro passo, fui me acostumando com a sensação. A propósito, o andar é todo fechado, inclusive as janelas — não há uma parte externa de observação, como no Empire State Building, em Nova Iorque.

Vista da Sears Tower para o norte. O prédio preto ao fundo, com duas torres em cima, é o John Hancock Center
Outra opção para ver a cidade lá de cima, (um pouco) mais baixa, é o John Hancock Center, mais ao norte da cidade. O observatório fica no 94.° andar, mas é possível tomar um drink apreciando a vista no Signature Lounge, que fica no 96.° andar.
6) Admirar as cúpulas de vidro da antiga Biblioteca: o Chicago Cultural Center fica no centro da cidade, bem em frente à Wrigley Square do Millennium Park, e foi originalmente a Biblioteca Pública da cidade. Hoje em dia, abriga um escritório de turismo, onde é possível pegar informações sobre o prédio e sobre a cidade — a tia que nos atendeu foi simpaticíssima e teceu vários elogios ao Brasil, que ela havia conhecido há pouco tempo. Também tem exibições de arte e concertos na hora do almoço (veja a programação no escritório de turismo).
Mas o grande objetivo da visita é ver as duas cúpulas de vidro gigantescas criadas por Louis Comfort Tiffany, uma das quais é a maior do mundo. Lindamente decoradas, as cúpulas são verdadeiros vitrais e enchem os olhos e o prédio de uma luz especial.
7) Experimentar a famosa pizza de Chicago: essa famosa “iguaria” de Chicago mais parece uma torta que uma pizza. Tem uma massa alta, assada numa espécie de forma-assadeira redonda e alta. Não há muito consenso sobre o lugar que teria inventado esta receita local de pizza, mas um dos principais restaurantes apontados é a Pizzaria Uno (29 E Ohio St, na área de Near North), onde fomos. Dada a fama do lugar, chegue cedo, ou prepare-se para esperar um pouco. A decoração do lugar não tem nada de sofisticada, mas faz você se sentir dentro de um típico restaurante americano, o que torna a experiência, na minha opinião, interessante.
Nossa pizza veio com pimentões, cebola, tomate e champignons por cima e, se eu me lembro bem, não há muitas variações (embora, salvo engano, haja uma versão mais simples, com menos “adereços”). É uma delícia, mas é também uma bomba: a desculpa perfeita que você estava procurando para sair da dieta, principalmente se a pizza for acompanhada de uma das cervejas que eles servem no local. Essa pizza da foto é tamanho pequeno, mas há versões maiores; ela foi, porém, perfeitamente suficiente para encher duas pessoas. Vá por mim, só peça uma maior se você estiver com mais pessoas, ou prepare-se para deixar muita comida no prato.
Não experimentei, mas, de acordo com o guia do Lonely Planet, a cadeia Giordano’s, com vários restaurantes pela cidade, oferece opções honestas caso a espera da Uno esteja muito longa.
8) Andar pelo centro e descobrir obras de grandes nomes da arte: como eu mencionei no início da primeira parte do texto, o centro da cidade, conhecido como “The Loop”, é um verdadeiro museu a céu aberto, reunindo obras de artistas consagrados. Poucas cidades no mundo talvez ofereçam em suas ruas uma oferta tão qualificada de obras de arte — o que não deixa de dar uma certa invejinha. Não deixa de ser uma forma de democratizar o acesso à arte: afinal, ver um Picasso na esquina e não dentro de um museu certamente muda um pouco os paradigmas. Aqui vai um pequeno guia das principais obras:
a) Chicago, de Joan Miró (69 W Washington St): lembra as esculturas do Miró que estão no Museu Reina Sofia em Madri ou na Fundação dele em Barcelona, mas num tamanho bem maior.
b) Sem Título, de Pablo Picasso (50 W Washington St): pertinho da escultura do Miró, embora não tenha título, a escultura lembra um babuíno metálico gigante.
c) As Quatro Estações, de Marc Chagall (praça perto da esquina entre a Dearborn e a Monroe St): é, na verdade, um mural em forma de mosaico, bem ao estilo Chagall.
d) Flamingo, de Alexander Calder (esquina das ruas Dearborn e Adams, em frente ao Kluczynski Federal Building): o pai dos móbiles modernos deu sua contribuição à arte de Chicago com essa linda escultura abstrata vermelha, que constrasta com as linhas retas e os vidros pretos do Kluczynski Federal Building, outro prédio do Mies van der Rohe.
e) Monument with Standing Beast, de Jean Dubuffet (100 W Randolph St): uma forma branca abstrata feita de fibra de vidro, com seus contornos bem delineados, parece ter sido desenhada à mão e recortada em um papel.
9) Pegar o “El”, o famoso metrô elevado de Chicago, e ir parar em algum bairro residencial da cidade, conhecendo um outro lado dela: como disse acima, fora do miolo do The Loop, a cidade é bem diferente, com menos arranhacéus e um ar mais residencial. Ao norte há distritos como Near North, Gold Coast, Lakeview e Wrigleyville, com restaurantes, lojas e bares que podem render um bom passeio de algumas horas.
Mas o legal é pegar o metrô elevado da cidade para fazer o passeio, que faz você se sentir em um dos muitos filmes ou séries que se passam em Chicago, como “Curtindo a Vida Adoidado” ou “E.R.” (que ganhou na Globo o nome de “Plantão Médico”). O metrô elevado é algo que em qualquer outra cidade poderia ser sinônimo de degradação urbana (imagine morar perto de uma linha elevada de metrô), mas que acabou virando um dos símbolos de Chicago.
O apelido “El” (ou simplesmente “L”), aliás, vem de elevated em inglês. Apesar disso, algumas estações no centro da cidade são subterrâneas. O “El” chega até os aeroportos O’Hare e Midway e é possível comprar bilhetes múltiplos para vários dias (pretendo falar disso em outro texto).
10) Aproveitar o crescente circuito gastronômico de Chicago: para quem não quer ficar só na pizza, Chicago tem ganhado destaque dentro dos Estados Unidos como destino gastronômico e conta com vários restaurantes estrelados no Guia Michelin. O precursor parece ter sido Charlie Trotter, e seu restaurante (chamado de… Charlie Trotter’s) tem duas estrelas do guia. Ainda assim, não me animei a conhecê-lo, pois fiquei com a impressão de que é um lugar muito formal (exige-se paletó, e os cozinheiros não podem rir na cozinha!!!)
Quis muito conhecer o restaurante Avec, da chef Koren Grieveson, recomendado tanto pelo Lonely Planet como pelo guia do Wallpaper, que parece não ser muito caro, tem uma decoração interessante (parece uma caixa de madeira), com algumas mesas comunais, sem contar o menu em si (tâmaras com bacon defumado chamaram minha atenção!). Só que estava fechado! Acabei indo no Blackbird (uma estrela do Michelin), que fica ao lado e tem a ajuda do mesmo chef executivo, Paul Kahan. O que eu achei: nos deixaram esperando do lado de fora, onde fazia um pouco de frio (não havia feito reserva porque era uma terça-feira e no hotel onde estava não acharam necessário). Depois de entrarmos, o atendimento foi atencioso, a comida estava boa (mas não achei inesquecível), e o preço foi um pouco salgado. O mesmo “grupo” ainda tem outro restaurante nas redondezas: o The Publican.
Parece que a tal culinária molecular também faz sucesso lá. O Alinea, do chef Grant Achatz, já foi mencionado pela jornalista Alexandra Forbes, do blog Boa Vida. E tem mantido suas 3 estrelas do Guia Michelin. Também achei interessante o Topolobampo, de comida mexicana, um dos preferidos na cidade pelo casal Obama (uma estrela no Michelin). Também chamaram minha atenção o Hot Chocolate e o Green Zebra, para os vegetarianos.
De todo modo, o que é preciso dizer é que você vai ter que sair do Loop para comer melhor. A região a oeste do Loop (que, assim como o Meatpacking District de Nova Iorque, já foi uma área de frigoríficos), principalmente a W Randolph St, se estabeleceu como um dos destinos gastronômicos: basta ver que, das minhas dicas, o Avec, o Blackbird, o The Publican e o Hot Chocolate ficam na região. Ir para o norte – para as áreas de Near North, Gold Coast e Lakeview — também é uma boa aposta.
Então, o que você está esperando para conhecer a cidade da Oprah e do Obama? Renovada e revitalizada, a cidade tem uma vibe de que é a próxima aposta americana, de que está em ascensão. E seus simpáticos habitantes, que ainda não adquiriram aquele ar blasé dos novaiorquinos, ficam orgulhosos de mostrá-la a quem se aventura por aquelas paragens.

















































