Berlim – a área do Scheunenviertel

Lindo pátio nos Hackesche Höfe

Quando comecei a escrever esse texto, queria falar especificamente das galerias que eu conheci numa visita guiada do Goethe e que ficam na área denominada Scheunenviertel, em Berlim. Comecei a pesquisar na internet os endereços e sites das galerias e, para minha surpresa, algumas haviam se mudado para Kreuzberg. Por isso, atenção a esse fato, que pode estar virando tendência: galerias estão migrando para Kreuzberg, onde já ficava a interessante Berlinische Galerie, a respeito da qual pretendo falar em outro texto.

Pátio interno nos Hackesche Höfe

Mesmo assim, resolvi continuar com o texto para falar um pouco mais a respeito de uma das minhas regiões preferidas de Berlim. Como disse no texto que escrevi sobre os bairros de Berlim, a área conhecida como Scheunenviertel, uma subregião do Mitte, é uma das mais interessantes atualmente da cidade (por isso, claro, é uma das minhas preferidas). Lá fica o Goethe Institut, onde fiz meu curso de alemão, além de vários restaurantes legais de várias partes do mundo, como o Monsieur Vuong, de comida vietnamita, cafés excelentes para observar as pessoas na rua, como o Caras, lojas de criadores locais e outras mais internacionais (Adidas, Diesel, Muji etc), livrarias, salões de beleza, lojas de chocolate, de revistas, de chá, enfim, uma infinidade de coisas para distrair seus olhos e esvaziar seus bolsos.

Pode-se discutir sobre o que exatamente pode ser chamado de Scheunenviertel, mas eu costumo delimitá-lo com a Alexanderplatz e a Prenzlauer Allee a leste; a Torstraße e a a Rosenthaler Platz a norte; a Friedrichstraße a oeste; a Oranienburger Straße a sul/sudoeste e o Hackescher Markt ao sul. Olhe no mapa acima e você logo se localizará dentro desse polígono. Já disse no texto sobre os bairros de Berlim, mas não custa repetir: as estações de metrô que melhor servem à região são a Hackescher Markt e a Oranienburger Strasse, do S-Bahn, e a Weinmeisterstrasse e Rosa Luxemburg Platz, do U-Bahn.

Antes da queda do muro, a maior parte das galerias de arte ficavam em Charlottenburg — algumas ainda estão por lá — mas, a partir de então, a maioria migrou para a região de Scheunenviertel. Há, claro, algumas galerias pioneiras que já operavam na Alemanha Oriental, como a Eigen+Art, mas o grande boom aconteceu mesmo após a reunificação. Calcula-se que atualmente existam mais de 100 galerias na região — e a área nem é assim tão grande. Como eu relatei acima, algumas galerias mudaram-se para Kreuzberg, mas como estive em Berlim da última vez em 2009, não sei dizer se esse movimento é consistente.

Arte abstrata em uma das galerias do Scheunenviertel

Visitar galerias de arte costuma ser indicado em muitos guias como uma atividade imperdível — seja em Berlim, em Nova Iorque, em Oaxaca ou em Marrakech — mas essa costuma ser uma atividade que deixa muita gente com o pé atrás. Visitar galerias não é para quem vai comprar obras de arte — o que está excluído das atividades de, digamos, 98% dos turistas? Não necessariamente: as galerias de arte são vitrines de artistas e, se servem também aos grandes dealers de arte do mundo, podem muito bem agradar aos turistas comuns. Diga que se interessou pelo trabalho do artista e quer ver um pouco das obras para conhecê-lo um pouco melhor. Além do mais, várias galerias oferecem produtos que cabem no orçamento (e na mala) da maioria, como catálogos, livros de arte e pequenas gravuras. Afinal, se o representante da galeria ficar fazendo cara feia para você, vire as costas e vá embora: lembre-se de que há pelo menos uma centena de outras galerias para visitar.

Nossa guia explicando como seria a visita das galerias

Da mesma forma, galerias de arte são, em geral, espaços pequenos, muitas vezes meio escondidos, que até intimidam um pouco os visitantes aventureiros. Nesse sentido, fica mais difícil para quem não é local ou connaisseur pinçar as coisas boas no meio dessa grande oferta. Por isso, aproveitei um passeio guiado que o Goethe Institut ofereceu enquanto eu lá fazia meu curso. A guia era uma professora bem entendida a respeito de arte contemporânea e do acervo das principais galerias locais. Ela contava a história das galerias, qual o background dos galeristas, em que tipo de arte ou nicho cultural ela era especializada — em suma, porque valia a pena visitá-la. Também falava um pouco sobre os artistas em exposição. Assim, para facilitar um pouco o trabalho de quem vai a turismo e quer conhecer outras coisas na cidade além das galerias, listo aqui o que eu conheci na minha visita guiada.

É preciso destacar que essas informações são voláteis, e como eu fiz o passeio em 2009, algumas coisas podem estar desatualizadas. De qualquer modo, as galerias indicadas aqui são antigas e já estão estabelecidas há algum tempo, de modo que eu acho pouco provável que elas tenham fechado. Além disso, eu pesquisei na internet informações atualizadas sobre elas, que são as que eu coloquei aqui.

Muitas das galerias do Scheunenviertel começaram de forma bem independente e autônoma e, apenas depois de muitos anos de trabalho, ganharam reconhecimento. De acordo com a guia, é um movimento que tem pouco mais de quinze anos — o que é realmente muito novo. O ponto crucial foi a primeira Documenta de Kassel (uma mostra de arte que acontece a cada cinco anos na cidade alemã de Kassel) pós-reunificação, no começo da década de 90, quando vários galeristas foram até lá levar o trabalho de artistas locais novos e convidaram críticos ocidentais para conhecer suas galerias. Como eu disse acima, depois que o movimento se estabeleceu, muitos galeristas de Berlim Ocidental se mudaram ou abriram filiais nessa área; alguns poucos galeristas são oriundos de Berlim Oriental e, por isso, são vistos como pioneiros também.

Arte (poesia) nas paredes de um dos höfe

Algumas galerias na região realmente ficam meio escondidas. Muitas ficam dentro de höfe, aqueles pátios internos com jardins, tão comuns nos prédios de antigamente. Vários desses höfe tinham residências na parte da frente, voltadas para a rua e, na parte de trás, pequenas fábricas e manufaturas. Muitos foram recuperadas depois da reunificação e têm uma mistura interessante de residências particulares, escritórios, galerias e até restaurantes.

Pátio restaurado nos Hackesche Höfe

O mais famoso conjunto de pátios internos da região é o Hackesche Höfe, que já virou uma atração turística por si só (o acesso principal se dá pela Rosenthaler Straße, logo junto à praça do Hackescher Markt). Apesar deste local ter ficado “muito turístico”, o que descaracteriza um pouco a função original dos höfe, recomendo muito a visita, pois os pátios foram reformados e alguns estão realmente bem bonitos. São oito pátios interligados; dentro, um cinema, alguns restaurantes (não experimentei nenhum) e muitas lojinhas, incluindo uma que vende só artigos relativos ao Ampelmann, aquele “bonequinho” dos semáforos de pedestres de Berlim que já se tornou um dos símbolos da cidade. Dá para comprar de chaveiro a forma de gelo com o formato do Ampelmann.

Loja de brinquedos dentro dos Hackesche Höfe

Mas vamos às galerias da região que eu visitei:

1) Eigen+Art: foi chamada pela professora como a “galeria número 0″ do Scheunenviertel. São originários de Leipzig — onde ainda mantêm uma galeria — e foram um dos primeiros a se instalar no bairro.

Entrada da Galeria Eigen+Art

2) Wolfram Völcker: é uma galeria que trabalha com gravuras e desenhos. Quando fui, estava com umas gravuras do Georg Baselitz bem interessantes.

Pátio da Sammlung Hoffmann

3) Sammlung Hoffmann: é uma coleção privada que tem obras, por exemplo, do Basquiat e do Andy Warhol. A família Hoffmann recuperou um hof da região e ali instalou sua coleção. Para visitar, é necessário ligar e marcar; as visitas ocorrem sempre aos sábados.

Também visitei as galerias Alexander Ochs, Barbara Thumm, ZwingerBarbara Wien (que também edita e vende livros de arte), mas todas saíram da região (as duas primeiras estão em Kreuzberg, as duas últimas, em Schöneberg), e outras cujos nomes, infelizmente, não anotei. Nas ruas onde ficam a Eigen+Art (Auguststraße) e a Coleção Hoffmann (Sophienstraße), é certo encontrar várias outras, algumas voltas para a rua mesmo, outras dentro de höfe.

Outro ponto turístico dentro da área do Scheunenviertel é a chamada Kunsthaus Tacheles (no final da Oranienburger Straße) – se é que o local pode ser chamado de “turístico”. É um prédio abandonado que estava para ser derrubado há muito tempo e acabou sendo ocupado por artistas “sem-teto” logo após a reunificação. Ali eles estabeleceram seus ateliês, e desde então uma queda-de-braço com o governo para a manutenção do local começou.

Famosa frase na fachada lateral da Kunsthaus Tacheles

Gosto da história por trás dessa ocupação (um prédio abandonado que foi usado para fazer arte), mas não gostava do local em si. O fato é que o prédio está bem degradado e muitos dos ocupantes originais saíram de lá (havia até restaurante ali). Da última vez que visitei, os trabalhos que eu vi expostos eram de gosto duvidoso — mas quem sou eu para julgar o teor artístico do trabalho de alguém. Quando eu morei em Berlim, também havia alguns bares no local, e eu cheguei a visitar um deles, com os colegas do curso do Goethe — achei a frequência tranquila, nada muito underground. De qualquer forma, pode ser uma boa dar um pulo lá para dar uma olhada, nem que seja de fora; afinal, o prédio pode ser demolido a qualquer momento e pode ser a última oportunidade de vê-lo da forma atual, com o muro pintado com a famosa frase “How Long is Now”, já um marco na paisagem urbana de Berlim.

Havia uma pizzaria dentro da Tacheles...

Neue Synagoge

Finalmente, não deixe de dar uma passadinha na Neue Synagoge. também na Oranienburger Straße. Construída em 1866, esta sinagoga era um símbolo da presença judaica na Alemanha de então — aliás, todo o Scheunenviertel era uma área bastante ocupada por judeus antes da guerra. Durante a Noite dos Cristais, em 1938, ela não foi queimada por pouco — um chefe de polícia impediu que nazistas colocassem fogo nela, ato que é lembrando no local com uma placa. De qualquer forma, a sinagoga foi dessacralizada durante a época nazista e foi atingida por bombardeios. O local ficou meio largado na Berlim Oriental, até ser reformado na década de 90, e hoje é um centro cultural e um museu chamado de Centrum Judaicum. Mesmo que você não entre no prédio, o lindo domo dourado vale a passagem.

Cerveja no pátio do Clärchen Ballhaus

Além do Monsieur Vuong, que eu já mencionei acima, fui algumas vezes no Sophieneck, na esquina entre a Sophienstraße e a Große Hamburger Straße. É um restaurante de comida alemã aconchegante, e os preços não são exorbitantes, por isso pode ser uma boa opção para comer se você estiver na área. Também pode-se almoçar no Clärchen Ballhaus, na Auguststraße, que tem um agradável jardim com mesas, perfeito para uma refeição se o clima estiver bom, e também funciona como salão de dança à noite! Uma última dica: evite os restaurantes da Oranienburger Straße. Primeiro porque à noite enche de prostitutas por lá. Além disso, os restaurantes que ficam ali costumam ser genéricos “pega-turista”. Basta entrar um pouco na Große Hamburger Straße ou na Auguststraße para as opções ficarem mais interessantes.