Como ir do Brasil ao Marrocos e se deslocar dentro do país

Vista aérea chegando em Marrakech

Ao contrário do que fazia parecer a novela O Clone, não há voos diretos entre o Brasil e o Marrocos. Assim, a melhor forma de chegar ao país é fazer conexão em alguma cidade da Europa.

Eu escolhi ir pela TAP, com conexão em Lisboa. Antes de prosseguir, quero fazer um parênteses. Ao contrário de muita gente, valorizo bastante os voos da TAP para o Brasil. Em primeiro lugar porque gosto muito de Lisboa e adoro fazer uma paradinha lá. Além disso, morando em Brasília, acho muito civilizado voltar de uma viagem longa dessas e chegar diretamente onde eu moro, sem ter que passar, por exemplo, pelo caos de Guarulhos. Tenho amigos que já passaram por problemas, mas, para mim, à exceção de uma mala extraviada que apareceu dois dias depois, nunca tive maiores perrengues, até o episódio da volta do Marrocos.

Os voos entre Lisboa e o Marrocos são operados tanto pela TAP como pela Royal Air Maroc (RAM), a companhia aérea do país. Na ida fomos de TAP mesmo, até Marrakech, enquanto na volta optamos por comprar um voo da RAM, já que teríamos que sair de Fez, fazendo uma conexão em Casablanca antes de voltar para Lisboa.

Na ida, foi tudo tranquilo, a conexão em Lisboa foi um pouco longa, mas o voo para Marrakech saiu na hora e foi tranquilo. Quando já estávamos no Marrocos, no meio da viagem, recebi um e-mail da minha agente de viagens dizendo que o voo da RAM Casablanca-Lisboa havia sido cancelado e que havíamos sido realocados num voo no dia seguinte. Embora o trecho Fez-Casablanca tivesse sido mantido, não havia nenhuma menção a uma acomodação em Casablanca oferecida pela companhia. Por sorte, minha amiga tinha créditos do Skype e conseguimos ligar para o Brasil para falar com a agente. Mesmo assim, só conseguimos remarcar voos em dias diferentes. Assim, cada um de nós passou por um tipo de problema.

No caso da minha amiga, a conexão em Casablanca era curta e, como o voo de Fez até lá atrasou, ela acabou perdendo o avião para Lisboa. A TAP não tem balcão próprio no aeroporto de Casablanca — eles só montam os guichês na hora do check in. Assim, ela ficou sem saber se haveria outro voo da TAP no mesmo dia. Como na RAM eles disseram que não poderiam fazer nada, ela acabou comprando outro voo deles que saía no mesmo dia. Ainda está pensando se vale à pena entrar na Justiça para cobrar por essa passagem “extra” e pelos danos morais. Houve ainda outros problemas: como ela perdeu a conexão, teve que praticamente caçar a mala dela no aeroporto de Casablanca; ninguém sabia dizer onde ela estava. Por sorte, um funcionário do aeroporto a ajudou e ela encontrou a mala. Além disso, fizeram a imigração dela em Fez (ou seja, carimbaram a saída dela do país já naquela cidade), de modo que, para voltar para a área de check in das companhias no aerporto de Casablanca, teve que passar por uma via crúcis na imigração — que acabou “anulando” o carimbo de saída de Fez.

No meu caso, o novo voo Casablanca-Lisboa em que fui colocado era no mesmo dia do anterior da RAM que havia sido cancelado, só que bem mais tarde. Resultado: passei umas 10 horas no aeroporto. Como alguns dias antes já havia conhecido Casablanca, fiquei com preguiça de voltar à cidade (que fica bem distante do aeroporto) para fazer turismo durante essa longa conexão; tampouco achei um guarda-volumes para deixar minhas coisas. Por isso, preferi ficar no aeroporto mesmo. Só que, quando já estava aguardando no portão de embarque, novo cancelamento: o avião da TAP que faria o voo estava com problemas técnicos e eles não conseguiram consertar. Tive que dormir mais uma noite em Casablanca e só embarquei no dia seguinte, por volta das 14h30.

O que eu e minha companheira de viagem aprendemos depois desses problemas:

1) ir para o Marrocos fazendo escala em Lisboa talvez não seja a melhor opção. Durante minha longa espera no aerpoorto de Casablanca, vi que há vários voos via Paris e via Madri e, assim, caso haja cancelamento do seu voo, deve ser mais fácil remarcá-lo. Numa pesquisa rápida no site da TAP, vi que, para Marrakech, não há voos às terças, quartas e sábados. Para Casablanca os voos parecem ser, na maior parte do tempo, diários; porém, ao menos na pesquisa que eu fiz, há apenas um voo por dia, e os horários variam muito de um dia para outro (o que dificulta ainda mais a remarcação);

Jatinho da Portugalia. Imagem obtida pelo Google

2) os voos da TAP de/para o Marrocos são operados, na verdade, pela Portugalia. Quem já viajou nela sabe que os aviões são menores e mais antigos. Pelo menos eram jatinhos, e não o bimotor que peguei uma vez para ir para Bilbao. De qualquer forma, o risco de o avião ter problemas de manutenção e não poder levantar voo (como aconteceu comigo) parece-me maior, pois, no caso dos aviões da Boeing ou da Airbus, deve haver mais técnicos capacitados para o conserto;

3) tendo em vista o cancelamento do voo no meio da viagem e a pouca colaboração oferecida, não acho que viajar com a RAM seja uma boa ideia. É bom frisar que a RAM não faz parte da Star Alliance ou de outro desses programas maiores de milhagem. Há uma parceria com a TAP apenas para bagagem e emissão de bilhetes; ainda assim, quando saímos de Fez, por exemplo, eles não emitiram o cartão de embarque até Lisboa, apenas até Casablanca, embora a bagagem tenha sido etiquetada até Portugal. O cartão de embarque Casablanca-Lisboa eu tive que pegar durante a conexão;

4) a TAP não possui balcão próprio no aeroporto de Casablanca (nem no de Marrakech). Os problemas são resolvidos por uma empresa terceirizada, que, claro, tira o corpo fora de qualquer responsabilidade (foi o que aconteceu no meu caso, no segundo cancelamento). Por isso acho, mais uma vez, interessantes os voos via Madri e Paris, já que Iberia e Air France possuem balcões no aeroporto de Casablanca — assim, fica bem mais fácil remarcar um voo caso sua conexão atrase, como no caso da minha amiga;

5) se você vai fazer conexão interna antes de pegar o voo para fora do Marrocos, não deixe, em hipótese alguma, carimbarem seu passaporte com a saída na primeira cidade em que você embarcar. Alertado pela minha amiga, disse em Fez que ia até Casablanca e ficaria ainda um tempo lá antes de sair do país e, assim, evitei o carimbo. O negócio é bagunçado mesmo, pois o voo que eu peguei até Casablanca não sairia do país depois, era um voo interno, mas, ainda assim, você tem que passar pela fila da imigração e se explicar.

A propósito, na mesma hora em que eu estava embarcando em Fez para Casablanca, havia um voo da Air France indo direto para Paris — talvez seja esse o motivo de me obrigarem a passar pela imigração, já que não há uma divisão dentro do aeroporto de Fez para voos internos e internacionais. Por isso, se o final da sua viagem for lá, pode ser uma boa procurar um voo via Paris na ida também.

Estação de trem de Rabat

Assim, embora exista a possibilidade de se deslocar internamente por avião, recomendo fazer essas viagens de trem. Fizemos os deslocamentos entre Marrakech e Casablanca e desta cidade para Fez de trem, e não tenho nenhuma reclamação. Também fizemos viagens bate-e-volta de trem (caso de Rabat e Meknès) e foi tudo tranquilo: é até possível comprar bilhetes ida e volta (aller-retour). Tirando a chatice dos rapazes que te abordam no trem para Fez (leia a respeito aqui), não tenho do que reclamar a respeito dessas viagens. Os trens que pegamos eram novos e foram sempre bastante pontuais: numa viagem bate-e-volta, perdemos um trem porque chegamos cinco minutos atrasados na estação. Além disso, os trens chegam às principais cidades do pais: Marrakech, Casablanca, Fez, Tanger, Rabat e Meknès são todas servidas pelos trilhos. Acho que dos destinos mais turísticos, só Essaouira, Tetouan e Chefchaouen não têm estações de trem e, por isso, devem ser visitadas de ônibus.

Estação de trem de Fez

Pelo Lonely Planet, li que a grande diferença entre a primeira e a segunda classe é que as cabines da primeira acomodam até seis pessoas, enquanto na segunda até oito — ou seja, uma bobeira. Até porque em alguns trens mesmo a segunda classe oferece assentos convencionais (com poltronas individuais) e não em cabines. Eu viajei sempre de segunda classe e não tive grandes aborrecimentos. Pode ser que no trem para Fez os “malas” não cheguem aos trens da primeira classe, não sei ao certo, mas algo me faz suspeitar de que eles devem ficar ainda mais gananciosos com os gringos da primeira classe.

Plataforma da estação de trem de Rabat

O site da companhia marroquina de trens (Office National des Chemins de Fer) permite a consulta dos horários de trens disponíveis, mas, infelizmente, não é possível comprar os bilhetes por lá. No geral, não achei difícil comprar in loco, nas estações, mas é sempre bom comprar com um ou dois dias de antecedência. No riad de Marrakech, eles mesmos providenciaram os bilhetes para nós, cobrando apenas pelo motorista que foi até a estação buscá-los. No caso das viagens bate-e-volta, compramos na hora sem problema algum.

Finalmente, tenho que destacar que as estações de Fez, de Marrakech e de Rabat foram reformadas e estão lindas, o que torna as viagens de trem muito mais agradáveis…

Viajando até Israel

Talvez uma das primeiras dificuldades para conhecer Israel seja a viagem até lá. Desde maio de 2009, há um voo direto entre São Paulo e Tel Aviv operado pela companhia nacional israelense, chamada El Al (que significa “aos céus”). As outras opções para quem sai do Brasil passam, em geral, pela Europa (Frankfurt, Milão, etc). Quando viajei, cheguei a procurar voos com conexão na Europa, mas o tempo de permanência em solo europeu, que chegava em alguns casos a sete horas, me desencorajou. Além disso, os preços dos voos da El Al saíam mais barato. Claro, isso pode mudar se você programar com antecedência. Ainda assim, tirando alguns percalços, acho que o voo direto vale mais à pena.

Se você mora em São Paulo, a comodidade de sair e chegar no lugar onde você vive é imbatível. Se você mora em outra cidade do Brasil, mesmo com o caos que o aeroporto de Garulhos se tornou, você deve considerar que a única conexão que você vai fazer será em território brasileiro, o que já facilita bastante as coisas. Quem já fez conexão nos grandes aeroportos europeus sabe do que eu estou falando.

O fato é que a El Al tem procedimentos de segurança chatíssimos, o que pode desanimar alguns. Mas, mesmo se você optar por um voo saindo de uma cidade europeia, de outra companhia, é bem possível que você passe por procedimentos de segurança semelhantes, já que isso é uma exigência do governo israelense para o pouso de aeronaves no aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv. Além disso, se você já passou pelos procedimentos de segurança da El Al no lugar onde embarcou, é mais provável que a imigração na chegada seja tranquila, pois eles sabem que você já passou por uma avaliação rigorosa antes mesmo de entrar no avião.

A vantagem de sair de São Paulo, nesse ponto, aparece mais uma vez. Os agentes que vão conversar com você, em geral, são brasileiros e falam português (bem, se você fala hebraico, já ganha vários pontos). Isso significa também que eles vão compreender mais facilmente o que você faz, o motivo da viagem etc. A pessoa que conversou comigo, por exemplo, era um advogado paulista que, por ser judeu, também trabalhava nessa triagem. Quando expliquei o objetivo do workshop para o qual estava indo, ele entendeu imediatamente e as perguntas foram rápidas e de praxe: você mesmo fez sua mala? Você está levando alguma coisa para alguém? Essas coisas.

Passada essa primeira entrevista, você faz o check-in. Acabou? Não. Antes de entrar no avião, já no salão de embarque, eles chamam seu nome para revistar a bagagem de mão. É chato, eu sei, mas é compreensível para um voo que vai cheio de judeus e é um alvo voador ambulante. A verificação tampouco costuma demorar, e em nenhum momento os funcionários que a faziam foram rudes. Sendo brasileiros, eles sabem que aquilo é esdrúxulo para nós e tentam fazê-lo da forma mais tranquila possível.

Infelizmente, uma das coisas mais chatas é a duração do voo. Na ida dura cerca de quatorze horas, na volta quinze. A impressão que eu tenho é que o voo poderia ser mais rápido, se ele cruzasse a África pelo meio. Acontece que eles não podem sobrevoar alguns países africanos por razões de segurança (como a Líbia) e, por isso, têm que contornar o continente africano e aproximar-se de Israel pelo Mediterrâneo. Uma volta e tanto.

O voo em si é um caos divertido. Imagine aqueles judeus ultraortodoxos viajando com todos os trajes “típicos” e, no meio do voo, indo até o fundo da aeronave para fazer suas orações. Além disso, antes de iniciar o serviço de bordo, os comissários tentam distribuir corretamente as diferentes refeições kosher solicitadas anteriormente (você também pode fazê-lo).

De outro lado, imagine que os pilotos da El Al têm formação militar em Israel e, por isso, o voo será certamente um dos mais seguros que você já fez.

Ao pousar,  você chegará no aeroporto Ben Gurion, nos arredores de Tel Aviv, o principal aeroporto de Israel  — há outros, menores, que fazem só voos regionais. De qualquer modo, Israel é um país minúsculo e, portanto, qualquer viagem de trem ou de carro dificilmente tomará mais que algumas horas.

Como eu disse, a imigração na chegada deve ser tranquila, se você fez um voo da El Al. Ainda assim, leve os documentos de praxe de qualquer viagem internacional, como comprovantes de hospedagem e da viagem de retorno, seguro-saúde, etc. Os brasileiros não precisam tirar visto antes da viagem.

Diz-se que o carimbo de entrada e de saída no seu passaporte pode trazer alguns problemas, o que muitos chamam de “estigma do carimbo israelense”. Na verdade, esse problema existe se você pretende visitar alguns países árabes com o mesmo documento que usou para ir para Israel. Supostamente, se nesses países eles virem o sinal israelense em seu passaporte, podem barrar sua entrada.

Atualmente, alguns países árabes mantêm relações “amigáveis” com Israel e, assim, não deve ser um problema a presença do carimbo israelense. Os vizinhos Jordânia e Egito estão entre eles, e é comum, por exemplo, as pessoas comprarem pacotes para conhecer Petra, na Jordânia, ou o Monte Sinai, no Egito enquanto estão em Israel (eles são vendidos lá mesmo, inclusive). Essas coisas, entretanto, sempre mudam, e é bom verificar antes de ir. A Turquia, por exemplo, que não tinha problemas com isso, parece estar com as relações meio estremecidas com Israel, depois do episódio da flotilha. Já na Síria e no Líbano, outros vizinhos de Israel, o carimbo costuma ser um problema. Iraque, Irã e Arábia Saudita são outros exemplos óbvios.

Consta que se você pedir, em Israel, eles podem carimbar sua entrada e saída num pedaço de papel à parte, evitando o problema. Isso costuma funcionar, mas há relatos de que o agente de imigração pode não aceitar e barrar sua entrada em Israel caso você não queira ter seu passaporte carimbado. Outros sugerem que você visite primeiro os países onde o estigma vale, deixando Israel por último. Por algum motivo, todavia, eu acho que as autoridades de fronteira israelenses vão fazer uma série de perguntas se você tiver passado antes pela Síria ou pelo Líbano.

O que eu fiz? Deixei carimbarem meu passaporte. Como fui a trabalho, não pretendia visitar outros países na região (embora, repito mais uma vez, pudesse ter ido até Petra tranquilamente). Além disso, meu passaporte ia perder a validade em um ano de qualquer maneira e, portanto, eu sempre poderia tirar outro em uma eventual viagem ao mundo árabe. Já o carimbo israelense, vou guardar de recordação, claro.

Para encerrar esse já longo texto, menciona-se muito que é mais difícil sair de Israel do que entrar. Vários amigos meus tiveram algumas dificuldades na saída e, por isso, me alertaram a respeito. Acontece que no workshop que eu frequentei, eles nos deram uma carta, em hebraico, para apresentar às autoridades no aeroporto, informando, basicamente, que éramos convidados do governo de Israel, que havíamos frequentado o workshop sem problemas etc. Toda vez que alguém me abordava — e, acredite, várias pessoas vão te abordar até seu embarque — eu mostrava o papel. Acho que isso facilitou bastante as coisas para mim. Ainda assim, eles passaram minha mala no raio-X (como todas) e quase a abriram para revista, mas depois de algumas perguntas, me liberaram.

As sugestões óbvias: evite levar coisas para outras pessoas, faça você mesmo sua mala, não coloque coisas “proibidas” dentro dela. Chegue cedo ao aeroporto para passar por todos os procedimentos sem ficar de olho no relógio (além disso, o free shop do Ben Gurion vale uma olhada, nem que seja para comprar um pote de humus fresco para trazer). Responda às perguntas normalmente, sem sarcasmo nem ironia (eu sei, às vezes dá vontade de dar uma resposta atravessada, mas não custa nada paciência nessas horas). E faça sua melhor cara de bom menino/boa menina.

Atualização em 17.12.2012: desde novembro de 2011 a El Al já não faz voos mais diretos para o Brasil. Havia lido a respeito mas não tinha me lembrado de atualizar este texto. Por isso, as opções mais prováveis hoje em dia para ir a Israel do Brasil devem ser em voos via Europa.