Quatro restaurantes, um café e um bar em Marrakesh

Para encerrar a parte Marrakesh por agora, aqui vai a lista de restaurantes que experimentamos e aprovamos na cidade. Lembrando sempre que a viagem ocorreu em maio de 2011, então verifiquem sempre se o local ainda está aberto. Não custa nada também dar uma olhadinha nas resenhas do Tripadvisor, pois o que é bom hoje pode decair amanhã.

Tangia

1) Tangia (14 Derb Jedid, Mellah): numa galeria próxima à Place des Ferblantiers, fica na parte sul da medina e é de comida marroquina. O lugar é bem bonito e a comida estava muito boa. As saladinhas marroquinas (de que falei aqui) estavam uma delícia, e os pratos principais também agradaram. Há um show de dança dispensável, mas nada que tenha atrapalhado a experiência. Só foi necessário reservar: tentamos ir num dia e não havia vagas, então reservamos já para o dia seguinte.

Terrasse des Épices

2) Terrasse des Épices: foi meu preferido em Marrakesh. Fica na região de Mouassine, na parte norte da medina, não muito longe da região da mesquita Ali ben Youssef. O restaurante, que é lindo, tem atendimento atencioso e fica em um terraço em cima de um souq — as mesas normalmente ficam em áreas cobertas, não se preocupe com o sol. Além do básico marroquino, havia algumas opções mais “ocidentais”, que podem servir caso você queira uma pausa de tajines e couscous. A frequência, porém, é bem gringa.

La Sultana

3) La Sultana: também na parte sul da medina, próximo à entrada para os Túmulos Saadianos, fica dentro de um riad com o mesmo nome. O lugar é muito charmoso, com as mesas ao redor do lindo pátio (peço perdão pela foto escura, mas foi o que eu consegui, já que a iluminação é bem reduzida). Não é barato, mas a comida estava muito boa — só não gostamos muito da bastilla de pombo, que pedimos de entrada, mas acho que o problema foi mais de gosto pessoal mesmo do que do preparo do prato em si. Também serve vinhos marroquinos e conseguimos sentar sem reservar.

Cerveja Casablanca no Beyrouth

4) Beyrouth (9 Rue Loubnan, Guéliz): como disse no texto sobre  a Nouvelle Ville, quando fomos visitar o Jardin Majorelle, tentamos ir no Al Fassia (55 Blvd Mohammed Zerktouni, 1. andar), mas ele estava fechado. Esse Beyrouth, de comida libanesa, também estava indicado no guia e era próximo, então fomos para lá. O lugar não tem nada demais, mas a comida estava boa, então pode ser uma opção se você estiver nas redondezas. E serve cerveja marroquina.

5) Café 16 (18 Place du 16 Novembre, Guéliz): também em Guéliz, é um café e confeitaria, mas vi que tinha opções de comidas rápidas para o almoço. Fomos lá para comer um doce e tomar um café depois de almoçar no Beyrouth, e achei as opções bem atraentes. O lugar é moderninho e atrai um público jovem local.

Pôr-do-sol visto do Kosybar

6) Kosybar (47 Place des Ferblantiers): também na parte sul da medina, na agradável Place des Ferblantiers. Só fomos lá para tomar uma bebidinha antes de irmos jantar no Tangia, mas há opções para comer também — inclusive de comida japonesa. A vista do terraço é linda, principalmente ao pôr-do-sol, mas nessa hora fica disputado, então chegue um pouco antes para garantir o lugar

Marrakesh – Nouvelle Ville e Palmeraie

Jardin Majorelle

Com tantas atrações para se ver na medina de Marrakesh (que eu listei em dois textos anteriores aqui e aqui) — e, acreditem, há várias outras que eu não tive tempo de visitar, vale a pesquisa –, talvez pareça desinteressante visitar a Nouvelle Ville da cidade.

Guéliz, Ville Nouvelle

Como o nome indica, a Nouvelle Ville (“Cidade Nova”) foi construída pelos franceses durante o período em que o país foi seu protetorado, fora dos limites da medina. Os franceses queriam uma cidade mais moderna e com as amenidades que tinham “em casa”. Assim, a cidade aqui lembra as cidades ocidentais a que estamos acostumados; ao contrário da medina, tem-se avenidas largas, ruas arborizadas (e retas), trânsito de carros, prédios mais altos etc. Talvez essa descrição só tenha contribuído para tirar o seu desejo de conhecer esta parte da cidade — afinal, quem vai ao Marrocos quer ver o que o país tem de diferente. Mas, acredite, a Nouvelle Ville de Marrakesh tem algumas atrações que merecem algumas horas de visita.

Nesse sentido, Marrakesh talvez seja única mesmo. Em Casablanca, por exemplo, a cidade “moderna” suplantou em muito a medina, de modo que hoje em dia é essa a cidade (caótica, diga-se de passagem) que se visita. A medina de Casablanca é minúscula e sem grandes atrativos para os turistas. Já em Fez ocorre o inverso: a cidade nova dos franceses é constituída de áreas basicamente residenciais e sem atrações turísticas, e a visita normalmente limita-se à área da medina. Marrakesh, porém, oferece atrações em ambos os lados, e, na minha opinião, não se deve deixar passar a oportunidade de conhecer uma cidade diferente da medina.

Jardim Ménara com a Cordilheira do Atlas ao fundo

O que se chama de Nouvelle Ville são, claro, vários bairros, mas para fins turísticos, as visitas costumam limitar-se a dois: Hivernage e Guéliz. Hivernage é o bairro “da moda” entre os locais, com hotéis e boates brotando aqui e ali. A propósito, não saí à noite por lá, mas as três boates da área que eu achei mais interessantes, de acordo com a resenha do guia do Lonely Planet, são Le Théâtro, Le Paradise (localizada no hotel Mansour Eddahbi) e Actor’s. Em Hivernage também fica uma das atrações de Marrakesh que eu senti muito não ter tido tempo de conhecer: O Jardim Ménara. As fotos que eu vi parecem bem bonitas, já que o jardim tem uma visão das montanhas da Cordilheira do Atlas, como pode ser visto na foto acima, que eu peguei na internet nesse sítio.

Já Guéliz é mais “tradicional” (se é que isso é possível numa área conhecida como Nouvelle Ville). Dada a época de sua construção, reunia muitas construções art déco, mas pouco se vê desse passado hoje em dia. Tem muitos restaurantes, cafés e lojas interessantes, principalmente a área da Place du 16 Novembre e o “triângulo” a noroeste dela, formado pelo Boulevard el-Mansour Eddahbi, a Rue de la Liberté, a Rue Tariq ibn Ziad e o Boulevard Mohammed Zerktouni (veja mapa acima). Tentamos muito ir ao restaurante Al Fassia (55 Boulevard Mohammed Zerktouni, 1.° andar), recomendado pelo Lonely Planet, mas estava fechado. De qualquer forma, visitamos o Café 16, na Place du 16 Novembre, que tem umas sobremesas lindas e algumas opções rápidas de comida.

Place du 16 Novembre. O Café 16 é o de toldo verde

Museu de Arte Islâmica, no meio do Jardin Majorelle, pintado de azul e amarelo

Mas o principal motivo para se visitar Guéliz é o Jardin Majorelle. O local pertenceu ao pintor Jacques Majorelle — daí seu nome — mas foi comprada em 1980 pelo Yves Saint Laurent e seu parceiro Pierre Bergé. Apesar da quantidade de turistas, o lugar ainda consegue ser um oásis no caos urbano da Nouvelle Ville. Há um museu no local, o Museu de Arte Islâmica, com a coleção pessoal do Saint Laurent, mas estava fechado quando eu visitei o jardim. O prédio que o abriga e algumas outras estruturas estão pintados de um azul bem vivo, que deixa tudo mais bonito (existe até um tom de azul com o nome Majorelle), além de alguns detalhes em amarelo.

Lindos bougainvilles no Jardin Majorelle

De qualquer forma, independentemente da visita ao museu, o passeio pela vegetação exuberante do local  já vale o ingresso — as fotos que eu coloquei aqui não me deixam mentir. Há também um café no local (não experimentei) e uma lojinha com preços meio salgados, mas alguns dos objetos são lindos! Comprei alguns sabonetes de óleo de argan (chamado de argan oil em inglês, ou huile d’argane em francês) e uns chaveiros bem bonitos para trazer de lembrança, bem ao estilo marroquinho, com vários fios coloridos trançados.

Fonte no Jardin Majorelle

Já a área do Palmeraie fica um pouco mais distante da medina e do centro da Ville Nouvelle. Como eu já expliquei no primeiro texto sobre Marrakesh, há muitos hotéis estilo resort abrindo por lá, mas só recomendo ficar ali se você já tiver passado uns dias na medina ou se o seu objetivo seja apenas descansar.

Camelos esperando os turistas no Palmeraie

Nós pegamos um táxi um dia que nos levou para fazer um passeio de camelo. Há vários trechos sem ocupação ainda onde pessoas ficam esperando com os camelos especialmente para os turistas que querem pagar um mico, é só pedir para o taxista te levar em um deles. Combinei apenas uns 15 minutos em cima do camelo, mas há alguns hotéis que organizam passeios de algumas horas. Dependendo do caminho, pode ser um passeio bonito (no meio das palmeiras ou das dunas do deserto, por exemplo), mas é bom lembrar que o camelo chacoalha muito, e eu fiquei com a impressão de que se tivesse passado muito tempo em cima dele teria ficado enjoado. Melhor testar antes em um desses “camelos-pra-turista-ver” para saber se você aguenta o passeio maior.

Marrakesh – Explorando a Medina (Parte 2)

Souqs ao norte da praça Djemaa el-Fna

(Este texto é uma continução desse outro.)

A área imediatamente ao norte da praça Djemma el-Fna reúne vários souqs e é interessante flanar por eles e ver o movimento — e, se você tiver paciência, comprar alguma coisa. Como eu já expliquei neste texto, a medina de Marrakesh era a que tinha, na minha opinião, vendedores mais insistentes. Indo sempre rumo ao norte, você chegará na principal atração dessa região:  a área da mesquita e da medersa Ali ben Youssef.

Telhados verdades da mesquita Ali ben-Youssef

Medersa Ali ben-Youssef

A mesquita, claro, é vedada para não-muçulmanos, mas, ainda assim, é possível apreciar seus telhados verdes, cor sagrada para os muçulmanos. A medersa (ou madrassa), de todo modo, é aberta ao público e é imperdível. Ali estão todos os elementos da arquitetura marroquina de que eu falei neste texto, e é impossível não ficar de queixo caído com os detalhes em gesso e em madeira que mais parecem renda. Não deixe de subir as escadas para ver a parte superior do prédio, onde os estudantes viviam (as madrassas são escolas do Alcorão); alguns quartos são bem apertados, outros voltados para pequenos pátios com estruturas em madeira. No andar superior também estão dois ambientes com recriações do que seria o quarto de um estudante da cidade e de outro da área rural.

Pátio interno na medersa Ali ben-Youssef

Pátio interno no Museu de Marrakesh

Ao lado da mesquita fica também o Museu de Marrakesh. É um museu privado, localizado num antigo palácio do século XIX e que reúne a coleção de Omar Benjelloun, colecionador e mecenas marroquino. O palácio foi restaurado e é de cair o queixo. O acervo não me chamou muito a atenção, mas, como vocês podem ver pelas fotos, a visita vale só pelo local em si. Há um café da parte externa, logo na entrada, com alguns sanduíches frios, chá de hortelã, tudo bem básico.

Museu de Marrakesh

Koubba Ba’adiyn

Também na Praça da mesquita ben Youssef fica a Koubba Ba’adyin, uma das únicas construções do período almorávida a sobreviver após a dominação dos Almóadas, que destruíram basicamente tudo o que os antecessores construíram. Trata-se de um antigo santuário (significado de koubba), sem muitos atrativos, mas a visita é rápida e é interessante ver a diferença em relação às demais construções em volta. O ingresso pode ser adquirido junto com o da medersa Ali ben Youssef.

Terrasse des épices

Ainda na parte norte da mesquita, recomendo uma visita ao souq Cherifia, um souq fechado (e surpreendentemente bem organizado), em cujo terraço fica o restaurante Terrasse des Épices. Esse restaurante é um oásis no meio da medina, com atendimento atencioso e boa comida.

Palácio Bahia

A parte ao sul da medina, onde fiquei, tem algumas atrações também. Ali fica o Palácio Real de Marrakesh (fechado para visitas), mas é possível visitar o Palácio Bahia, também construído no século XIX, onde alguns convidados do rei ainda se hospedam. Obviamente você não verá esses aposentos, mas a visitação permite ver alguns pátios internos, típicos da arquitetura árabe, além de recintos com lindas decorações de zellij, de madeira e de gesso esculpidos.

Palácio Bahia

Semelhantes elementos podem ser vistos nos Túmulos Saadianos, também na parte sul da medina. Os túmulos foram construídos no século XVI pelo sultão Ahmed al-Mansur para abrigar sua família. A parte coberta — vista apenas por duas pequenas entradas –, conhecida como Câmara dos Três Nichos, destinava-se aos príncipes, enquanto na parte externa eram colocadas as mulheres, conselheiros judeus e parentes mais distantes. A exceção é a grande construção central, construída pelo sultão para o mausoléu de sua mãe.

Túmulos Saadianos – mausoléu

Túmulos Saadianos

Os túmulos foram fechados algumas décadas depois da morte de Ahmed al-Mansur pelo sultão alauíta Moulay Ismail, que não queria muito contato com seus antecessores. Assim, eles ficaram escondidos durante alguns séculos, até serem redescobertos em 1917.

Rua Riad Zitoun el-Jedid

As duas principais vias da parte sul da medina são as “ruas” Riad Zitoun el-Jedid e Riad Zitoun el-Qedim, que ligam a praça Djemaa el-Fna aos palácios. Ambas são basicamente comerciais, com boas opções para comprar alguma lembrancinha. Andar por ali é uma experiência divertida, mas quase caótica: as lojas invadem as ruas, o número de pedestres (turistas e locais) é altíssimo e as motocicletas (na verdade, mobiletes), forçam a passagem no meio da multidão. Aliás, as mobiletes são bem características da medina de Marrakesh — não as vi, por exemplo, na medida de Fez. Os motoristas costumam buzinar, mas todo cuidado é pouco nas estreitas ruas da medina.

Mar de mobiletes na medina, na Praça Ben Youssef

Gatinho descansando na frente de uma porta na medina

Outra coisa que me chamou a atenção na medina de Marrakesh foi a quantidade de gatos! Quase não vi cachorros vira-latas, mas gatos havia aos montes!

Place des Ferblantiers vista do Kosybar

Para encerrar o tour pela medina, a agradável Place des Ferblantiers, com palmeiras e bancos, pode ser uma boa pedida para um fim de tarde. A praça é cercada de lojas, e do terraço do Kosybar pode-se apreciar o lindo pôr-do-sol que deixa a “Cidade Rosa” ainda mais rosada.

Marrakesh – Explorando a Medina (Parte 1)

Marrakesh, a "Cidade Rosa"

Marrakesh (ou Marrakech, ou ainda Marraquexe, como escrevem os portugueses) talvez seja o principal destino turístico do Marrocos e, de fato, é imperdível. É conhecida como “Cidade Rosa”, já que boa parte de seus prédios são pintados com um tom de rosa-queimado bem característico. É certo que a cidade apresenta os problemas “típicos” de um lugar superexposto ao turismo, como o assédio dos vendedores e dos falsos guias e preços mais caros, mas ainda assim todos os elementos da cultura marroquina (ou seja, tudo aquilo que nos vem à cabeça quando pensamos no Marrocos) estão ali.

Vista aérea da região onde fica Marrakesh

A “grande Marrakesh” pode ser dividida em três áreas principais: a Medina, coração da cidade antiga e o lugar com mais atrações turísticas; a Nouvelle Ville, área mais nova construída pelos franceses durante o período do protetorado, com um jeito de cidade mais parecido com o que estamos acostumados; e o Palmaraie, que já foi uma grande plantação de palmeiras e tamareiras, e que hoje vem sendo ocupada por resorts, hotéis de luxo, clubes de golfe e similares.

Comecemos pela parte mais antiga, a medina. Na minha cabeça, eu dividi a medina em três partes: a central, a norte e a sul. A central é a Praça Djemaa el-Fna, de que eu já falei em outro texto. Por ser o “coração da medina”, você certamente passará várias vezes por ela, e a mistura de gente nela é interessantíssima de se ver.

Frutas secas e suco de laranja na Djemaa el-Fna

A praça é um pouco diferente do padrão a que estamos acostumados, já que a área é bem irregular, cheia de pontas. Mesmo assim, dada as dimensões e o amontoado de gente, é impossível passar por ela sem saber que você está lá. Ao redor, vários cafés e bancas vendendo frutas secas, suco de laranja e muita bugiganga. O fato de ser uma praça não significa que carros não passem por ela de vez em quando: tome cuidado.

Encantadores de serpente na praça

Durante o dia, a parte central é dominada por encantadores de serpente, mulheres fazendo pintura de henna e outras atividades “pega-turista”. De qualquer forma, é impossível não querer fazer umas fotografias. Nem adianta querer tirar a foto escondido: logo vem alguém pedir dinheiro. De início, achei chato, mas depois pensei que essas atividades são o ganha-pão daquelas pessoas e ninguém vai morrer se der alguns dirhams para eles. 10 Dh deve bastar, mas se você der um pouco mais pode tirar várias fotos sossegado, escolhendo bem os ângulos e ninguém mais vai te perturbar.

Barraquinhas de comida na praça à noite

À noite, várias barracas tomam a praça para oferecer comida a turistas e a locais. Aliás, é impressionante ver como há gente local passeando por ali, o que tira um pouco o ar “turistão” da praça. Não comi nenhum dia lá, pois Marrakesh tem uma oferta excelente de restaurantes, mas parece-me que o forte é uma espécie de churrasquinho: ou seja, nada muito diferente da nossa comida de rua.

Além das barracas de comida, à noite há músicos da etnia Gnawa tocando instrumentos de percussão num ritmo que lembra muito os da áfrica negra, o teatro de rua, conhecido como halqa (ininteligível para nós), e travestis fazendo dança do ventre (pois é, algo surpreendente num país predominantemente muçulmano). Para fotografar e acompanhar tudo isso, claro, você será convidado a contribuir com alguns dirhams.

Vista da praça a partir do café Les Terrasses de l'Alhambra

Recentemente (em maio de 2011), uma bomba explodiu no Café Argana, um dos vários que oferecem uma vista de camarote da praça. Não estive lá, mas em outro próximo, chamado Les Terrasses de L’Alhambra, e acho que é tudo muito parecido (ambos são indicados no Lonely Planet, mas há vários outros). As vistas da praça são ótimas, de fato, mas, considerando essa bomba recente, ficaria com receio de me sentar por muito tempo em um deles.

Mesquita e minarete da Koutoubia

Próximo à praça, a oeste, fica o complexo da Mesquita Koutoubia, infelizmente fechada para não-muçulmanos. Os jardins, contudo, são abertos ao público, e ali é possível ver excavações da mesquita original, da época Almorávida, demolida porque não estava corretamente alinhada com Meca. O minarete da mesquita é bem bonito e foi um protótipo para a torre La Giralda, em Sevilha.

Comidas e bebidas do Marrocos

Banca de frutas secas em Marrakesh

Já falei um pouco a respeito da comida no Marrocos no primeiro texto que eu escrevi sobre o país, tendo considerado este um dos motivos para você visitá-lo. Neste texto, pretendo esmiuçar um pouco mais sobre as delícias que você encontra naquele país.

Café da manhã no riad em Fez. No primeiro plano estão os msemmen

Comecemos do começo. Nos cafés-da-manhã que tomamos no Marrocos, sempre havia dois tipos de “pães”: uma panqueca bem fina, de formato retangular, parecida com nossa massa de crepe, mas um pouco mais quebradiça, chamada de msemmen, e uma panqueca mais grossa, de massa esponjosa semelhante a favos, chamada de beghrir. Havia, também, pães um pouco mais parecidos com o que a gente come aqui; destaco, porém, que o pão mais consumido no Marrocos (o batbout), que você vê aos montes nos souqs,  é semelhante ao que a gente chama de pão sírio, redondo e chato, mas um pouco mais grosso que a nossa versão, com mais massa.

As panquecas esponjosas são o beghrir. Ao lado, a sopa de semolina

Para acompanhar, sempre um pouco de queijo cottage bem fresco, manteiga e geléias. Para beber, café e suco de laranja. No hotel em Casablanca, mais ocidental, havia opções mais semelhantes ao “café-da-manhã continental”, com outros tipos de queijos e presuntos, mas nos riads não vi frios ou embutidos no café-da-manhã.  Em Fez também nos foi servida uma sopinha de semolina, meio sem graça, mas quentinha.

Pão e azeitonas no lindo Terrasse des Épices, em Marrakesh

Em qualquer refeição, mesmo no café-da-manhã, é sempre trazida uma pequena porção de azeitonas, normalmente em diferentes versões: verdes, negras, algumas mais picantes etc. Mesmo nos restaurantes, é oferecida como cortesia, não é cobrada. No almoço e no jantar, de início, além das onipresentes e tradicionais azeitonas, também costuma ser servido o pão batbout. Esse pão é também importante acompanhamento dos tajines.

Pão batbout e assortiment de salades marrocaines

Mas, se o objetivo é começar o almoço e o jantar com uma entrada um pouco mais saudável, recomendo as saladinhas marroquinas, identificadas nos cardápios em francês como “assortiment de salades marrocaines“. Você vai receber vários pratinhos ou tijelas com diferentes porções de vegetais e frutas em variadas apresentações. Depende muito do restaurante — em alguns apareceram quatro tijelinhas, mas eu cheguei a contar doze em uma refeição. Se você é vegatariano ou não quer comer muito, apenas uma porção dessas saladas será suficiente, pode acreditar. Além de tudo, elas são uma delícia. Tudo bem, não posso dizer que todas as versões são exatamente light, pois muitas das preparações vêm carregadas no azeite. Ainda assim, você encontrará abobrinha, berinjela, tomate, beterraba, pimentão, cenoura, pepino, enfim, uma grande variedade de vegetais que certamente são mais saudáveis que muita coisa que a gente come por aí.

Tajine de frango com azeitonas e limão cristalizado no Tangia, Marrakesh

Depois das saladas de entrada, o tradicional marroquino dos menus são os couscous e os tajines. Couscous é aquela massa fininha que a gente já encontra por aqui em alguns restaurantes, mas quando você vê nos cardápios como prato principal normalmente ele vem acompanhado de alguma carne, ou de vegetais na versão vegetariana. Os tajines são cozidos de carne e vegetais e podem ser acompanhados do pão batbout ou de… couscous! Então, qual a diferença? Confesso que achei meio confuso, mas aqui vai a minha percepção a respeito: os tajines vêm sempre numa panela típica de barro que se chama tajine também; aliás, eles são cozidos nesses potes. No geral, os tajines que eu pedia vinham acompanhados de pão, em alungs poucos lugares era oferecido o couscous de acompanhamento. Já quando pedíamos couscous, às vezes ele vinha acompanhado da carne em um mesmo prato, sem estarem misturados; em outras, vinha aquela montanha de couscous com a carne por cima ou em uma panelinha para você ir jogando aos poucos sobre a massa. Entendeu? Nem eu!

Couscous com carne e cenouras por cima no Tangia, Marrakesh

O fato é que, tanto nos tajines quanto nos couscous as opções de carne eram cordeiro, carne bovina e frango. Porco, nem pensar, é proibido no Islamismo. Devo advertir que, às vezes, a carne vinha picadinha, mas muitas vezes vinha com osso e tudo. Se você é fresco nesse ponto é melhor perguntar antes. Os cozidos sempre acompanham algum vegetal, como cenoura, abobrinha, pimentão e/ou alguma fruta seca: damascos, figos, ameixas, tâmaras…

Bastilla de frango

Passemos agora a outra especialidade da culinária marroquina: a bastilla (ou pastilla, vi escrito das duas formas). Esse prato pode vir como entrada, como prato principal ou até como sobremesa. Como? Digamos que a bastilla está um passo adiante do conceito agridoce. É uma massa folheada, parecendo uma mini torta, em geral recheada com alguma carne. A tradicional vem com carne de pombo, mas não gostamos muito da que comemos. Em outro lugar comemos com frango (foto acima), e achamos mais gostosa. De qualquer modo, a bastilla vem salpicada, por cima, com açúcar refinado e canela. A oposição entre os sabores salgado e doce é bem estranha ao nosso paladar, talvez não agrade a todos. De qualquer forma, vi algumas versões de sobremesa, em que elas são recheadas com castanhas e outras coisas mais harmoniosas em relação ao açúcar que vem por cima. Recomendo provar, é diferente mas não achei ruim.

Hambúrguer de camelo no Café Clock, em Fez

Encerrando a lista de “especialidades marroquinas”, no Café Clock, em Fez, experimentei um hambúrguer de camelo. Não vi grande diferença em relação ao hamburguer de carne bovina, a carne só é um pouco mais firme. Em todo caso, não me pareceu um prato disponível em qualquer lugar; ao contrário, só me lembro de ter visto nesse restaurante em Fez — onde, aliás, é um dos pratos mais pedidos.

Laranjas com açúcar e canela

As sobremesas são em geral massas finas recheadas com algum tipo de amêndoa ou castanha e umidecidas com água de laranjeira. Vêm em diferentes formatos e são uma delícia! Na medina de Fez, também comi um briouat, que é uma dessas massas em formato triangular, recheado com arroz, mas também adocicado. Mesmo tendo comprado na rua, achei muito bom! Além dessas opções, é muito comum ter como sobremesa laranjas descacadas e partidas em rodelas, salpicadas com canela e açúcar refinado. Simples e gostoso.

Toda refeição marroquina termina, em geral, com um chá de hortelã (thé à la menthe). Como já falei em outro texto, ele vem em geral numa chaleira metálica bem adornada e é despejado em copinhos de vidro, alguns cobertos com outro material para não queimar os dedos. O chá é normalmente derramado bem alto, talvez para esfriar um pouco. O chá é também oferecido como boas vindas nos riads. É uma “cerimônia” que vale à pena experimentar, ainda que você não seja muito fã de chá, já que os recipientes costumam ser lindos e o chá de hortelã, supostamente, ajuda na digestão. Achei, no geral, que os chás vinham muito doces para o meu gosto; se você também não gostar, peça para vir sem açúcar ou com um pouco menos.

Cerveja Casablanca, mas a foto foi tirada em Marrakesh

E as bebidas, digamos, mais fortes? Bem, se você está precisando fazer uma rehab, o Marrocos é um excelente destino. Pelos preceitos do Islamismo é proibido o consumo de bebidas alcoólicas e, apartemente, um lugar não pode servir álcool se estiver no campo de visão de uma mesquita. Obviamente essa regra não é seguida a ferro e fogo e vários restaurantes servem algum tipo de bebida, desde que o consumo não se dê de frente para a rua. Alguns restaurantes, contudo, não têm essa licença, e você vai ter que se contentar com refrigerantes, água ou suco. Onde são servidas bebidas alcoólicas, há algumas cervejas marroquinas; a mais comum é a Casablanca, que eu achei boa (foto acima).

Vinho marroquino S de Siroua

O vinho marroquino foi uma das surpresas da viagem, nos agradou muito. Experimentamos dois rótulos: o Médaillon, mais conhecido (que tem em quase todos os cardápios), e o S de Siroua, feito com a uva syrah. Se você é fã da bebida, não deixe de experimentar, pois não é comum ver vinhos marroquinos disponíveis em outros lugares (no Brasil, então, acho que não existe).

Pôr do sol no terraço do Kosybar, Marrakesh

Outras bebidas alcoólicas diferentes da cerveja e do vinho são vendidas em pouquíssimos lugares. Alguns bares, como o Kosybar, em Marrakech, vendem alguns drinks (aliás recomendo muito esse lugar para um trago ao entardecer, pois a vista do terraço é linda), mas devo advertir que muitos bares no Marrocos são lugares quase restritos para homens – ou, em alguns casos, para homens e meninas com a profissão mais antiga do mundo. Pergunte sempre a algum local ou no hotel se o lugar é tranquilo, antes de ir.

Como ir do Brasil ao Marrocos e se deslocar dentro do país

Vista aérea chegando em Marrakech

Ao contrário do que fazia parecer a novela O Clone, não há voos diretos entre o Brasil e o Marrocos. Assim, a melhor forma de chegar ao país é fazer conexão em alguma cidade da Europa.

Eu escolhi ir pela TAP, com conexão em Lisboa. Antes de prosseguir, quero fazer um parênteses. Ao contrário de muita gente, valorizo bastante os voos da TAP para o Brasil. Em primeiro lugar porque gosto muito de Lisboa e adoro fazer uma paradinha lá. Além disso, morando em Brasília, acho muito civilizado voltar de uma viagem longa dessas e chegar diretamente onde eu moro, sem ter que passar, por exemplo, pelo caos de Guarulhos. Tenho amigos que já passaram por problemas, mas, para mim, à exceção de uma mala extraviada que apareceu dois dias depois, nunca tive maiores perrengues, até o episódio da volta do Marrocos.

Os voos entre Lisboa e o Marrocos são operados tanto pela TAP como pela Royal Air Maroc (RAM), a companhia aérea do país. Na ida fomos de TAP mesmo, até Marrakech, enquanto na volta optamos por comprar um voo da RAM, já que teríamos que sair de Fez, fazendo uma conexão em Casablanca antes de voltar para Lisboa.

Na ida, foi tudo tranquilo, a conexão em Lisboa foi um pouco longa, mas o voo para Marrakech saiu na hora e foi tranquilo. Quando já estávamos no Marrocos, no meio da viagem, recebi um e-mail da minha agente de viagens dizendo que o voo da RAM Casablanca-Lisboa havia sido cancelado e que havíamos sido realocados num voo no dia seguinte. Embora o trecho Fez-Casablanca tivesse sido mantido, não havia nenhuma menção a uma acomodação em Casablanca oferecida pela companhia. Por sorte, minha amiga tinha créditos do Skype e conseguimos ligar para o Brasil para falar com a agente. Mesmo assim, só conseguimos remarcar voos em dias diferentes. Assim, cada um de nós passou por um tipo de problema.

No caso da minha amiga, a conexão em Casablanca era curta e, como o voo de Fez até lá atrasou, ela acabou perdendo o avião para Lisboa. A TAP não tem balcão próprio no aeroporto de Casablanca — eles só montam os guichês na hora do check in. Assim, ela ficou sem saber se haveria outro voo da TAP no mesmo dia. Como na RAM eles disseram que não poderiam fazer nada, ela acabou comprando outro voo deles que saía no mesmo dia. Ainda está pensando se vale à pena entrar na Justiça para cobrar por essa passagem “extra” e pelos danos morais. Houve ainda outros problemas: como ela perdeu a conexão, teve que praticamente caçar a mala dela no aeroporto de Casablanca; ninguém sabia dizer onde ela estava. Por sorte, um funcionário do aeroporto a ajudou e ela encontrou a mala. Além disso, fizeram a imigração dela em Fez (ou seja, carimbaram a saída dela do país já naquela cidade), de modo que, para voltar para a área de check in das companhias no aerporto de Casablanca, teve que passar por uma via crúcis na imigração — que acabou “anulando” o carimbo de saída de Fez.

No meu caso, o novo voo Casablanca-Lisboa em que fui colocado era no mesmo dia do anterior da RAM que havia sido cancelado, só que bem mais tarde. Resultado: passei umas 10 horas no aeroporto. Como alguns dias antes já havia conhecido Casablanca, fiquei com preguiça de voltar à cidade (que fica bem distante do aeroporto) para fazer turismo durante essa longa conexão; tampouco achei um guarda-volumes para deixar minhas coisas. Por isso, preferi ficar no aeroporto mesmo. Só que, quando já estava aguardando no portão de embarque, novo cancelamento: o avião da TAP que faria o voo estava com problemas técnicos e eles não conseguiram consertar. Tive que dormir mais uma noite em Casablanca e só embarquei no dia seguinte, por volta das 14h30.

O que eu e minha companheira de viagem aprendemos depois desses problemas:

1) ir para o Marrocos fazendo escala em Lisboa talvez não seja a melhor opção. Durante minha longa espera no aerpoorto de Casablanca, vi que há vários voos via Paris e via Madri e, assim, caso haja cancelamento do seu voo, deve ser mais fácil remarcá-lo. Numa pesquisa rápida no site da TAP, vi que, para Marrakech, não há voos às terças, quartas e sábados. Para Casablanca os voos parecem ser, na maior parte do tempo, diários; porém, ao menos na pesquisa que eu fiz, há apenas um voo por dia, e os horários variam muito de um dia para outro (o que dificulta ainda mais a remarcação);

Jatinho da Portugalia. Imagem obtida pelo Google

2) os voos da TAP de/para o Marrocos são operados, na verdade, pela Portugalia. Quem já viajou nela sabe que os aviões são menores e mais antigos. Pelo menos eram jatinhos, e não o bimotor que peguei uma vez para ir para Bilbao. De qualquer forma, o risco de o avião ter problemas de manutenção e não poder levantar voo (como aconteceu comigo) parece-me maior, pois, no caso dos aviões da Boeing ou da Airbus, deve haver mais técnicos capacitados para o conserto;

3) tendo em vista o cancelamento do voo no meio da viagem e a pouca colaboração oferecida, não acho que viajar com a RAM seja uma boa ideia. É bom frisar que a RAM não faz parte da Star Alliance ou de outro desses programas maiores de milhagem. Há uma parceria com a TAP apenas para bagagem e emissão de bilhetes; ainda assim, quando saímos de Fez, por exemplo, eles não emitiram o cartão de embarque até Lisboa, apenas até Casablanca, embora a bagagem tenha sido etiquetada até Portugal. O cartão de embarque Casablanca-Lisboa eu tive que pegar durante a conexão;

4) a TAP não possui balcão próprio no aeroporto de Casablanca (nem no de Marrakech). Os problemas são resolvidos por uma empresa terceirizada, que, claro, tira o corpo fora de qualquer responsabilidade (foi o que aconteceu no meu caso, no segundo cancelamento). Por isso acho, mais uma vez, interessantes os voos via Madri e Paris, já que Iberia e Air France possuem balcões no aeroporto de Casablanca — assim, fica bem mais fácil remarcar um voo caso sua conexão atrase, como no caso da minha amiga;

5) se você vai fazer conexão interna antes de pegar o voo para fora do Marrocos, não deixe, em hipótese alguma, carimbarem seu passaporte com a saída na primeira cidade em que você embarcar. Alertado pela minha amiga, disse em Fez que ia até Casablanca e ficaria ainda um tempo lá antes de sair do país e, assim, evitei o carimbo. O negócio é bagunçado mesmo, pois o voo que eu peguei até Casablanca não sairia do país depois, era um voo interno, mas, ainda assim, você tem que passar pela fila da imigração e se explicar.

A propósito, na mesma hora em que eu estava embarcando em Fez para Casablanca, havia um voo da Air France indo direto para Paris — talvez seja esse o motivo de me obrigarem a passar pela imigração, já que não há uma divisão dentro do aeroporto de Fez para voos internos e internacionais. Por isso, se o final da sua viagem for lá, pode ser uma boa procurar um voo via Paris na ida também.

Estação de trem de Rabat

Assim, embora exista a possibilidade de se deslocar internamente por avião, recomendo fazer essas viagens de trem. Fizemos os deslocamentos entre Marrakech e Casablanca e desta cidade para Fez de trem, e não tenho nenhuma reclamação. Também fizemos viagens bate-e-volta de trem (caso de Rabat e Meknès) e foi tudo tranquilo: é até possível comprar bilhetes ida e volta (aller-retour). Tirando a chatice dos rapazes que te abordam no trem para Fez (leia a respeito aqui), não tenho do que reclamar a respeito dessas viagens. Os trens que pegamos eram novos e foram sempre bastante pontuais: numa viagem bate-e-volta, perdemos um trem porque chegamos cinco minutos atrasados na estação. Além disso, os trens chegam às principais cidades do pais: Marrakech, Casablanca, Fez, Tanger, Rabat e Meknès são todas servidas pelos trilhos. Acho que dos destinos mais turísticos, só Essaouira, Tetouan e Chefchaouen não têm estações de trem e, por isso, devem ser visitadas de ônibus.

Estação de trem de Fez

Pelo Lonely Planet, li que a grande diferença entre a primeira e a segunda classe é que as cabines da primeira acomodam até seis pessoas, enquanto na segunda até oito — ou seja, uma bobeira. Até porque em alguns trens mesmo a segunda classe oferece assentos convencionais (com poltronas individuais) e não em cabines. Eu viajei sempre de segunda classe e não tive grandes aborrecimentos. Pode ser que no trem para Fez os “malas” não cheguem aos trens da primeira classe, não sei ao certo, mas algo me faz suspeitar de que eles devem ficar ainda mais gananciosos com os gringos da primeira classe.

Plataforma da estação de trem de Rabat

O site da companhia marroquina de trens (Office National des Chemins de Fer) permite a consulta dos horários de trens disponíveis, mas, infelizmente, não é possível comprar os bilhetes por lá. No geral, não achei difícil comprar in loco, nas estações, mas é sempre bom comprar com um ou dois dias de antecedência. No riad de Marrakech, eles mesmos providenciaram os bilhetes para nós, cobrando apenas pelo motorista que foi até a estação buscá-los. No caso das viagens bate-e-volta, compramos na hora sem problema algum.

Finalmente, tenho que destacar que as estações de Fez, de Marrakech e de Rabat foram reformadas e estão lindas, o que torna as viagens de trem muito mais agradáveis…

Riads, dars, zellij e outros elementos de arquitetura do Marrocos

Túmulos saadianos em Marrakech

Quando listei os doze motivos para se conhecer o Marrocos, disse que um deles era se hospedar em um riad em Fez ou em Marrakech.

Riad é o nome genérico que se dá às antigas casas tradicionais, localizadas dentro das medinas, convertidas em hotéis (ou outras formas de acomodação). Tecnicamente, contudo, um riad é uma casa construída ao redor de um jardim com árvores e uma fonte no meio. Já um dar tem apenas um pátio interno. De qualquer forma, ambos têm essa área interna, em geral aberta, às vezes coberta para proteger da chuva, mas mantendo a iluminação natural. Os quartos normalmente ficam ao redor desse pátio ou jardim.

Pátio interno do Riad Salam Fès

Quando você for procurar acomodação, vai ver ambas as palavras usadas (riad e dar), mas nem sempre o que você vai encontrar reflete as definições acima mencionadas. Minhas acomodações em Fez e em Marrakech tinham o nome de riads, mas ambas tinham apenas pátios internos — embora, no caso de Fez, houvesse também uma fonte, o que talvez justificasse a denominação. Em ambos os casos, havia uma cobertura deslizante, que podia ser afastada ou puxada conforme as condições climáticas. Nem preciso dizer que esses pátios (ou jardins) são áreas agradabilíssimas, ótimas para tomar o café da manhã, dar uma relaxada depois de bater perna ou ler um pouco.

Os riads ou dars podem tanto funcionar como um hotel tradicional como nós conhecemos, como uma casa para alugar (quem viaja em família ou com muitas pessoas pode alugá-los inteiros), guesthouses, bed-and-breakfasts e até albergues. Tudo depende do lugar, então é sempre bom verificar.

Pátio central do fundouq Nejjarine

Da mesma forma, você certamente cruzará com vários fundouqs nas medinas do Marrocos. Assim como os dars, são construções com pátios internos, mas aqui o foco era comercial. As caravanas vindas de diferentes pontos da África paravam nesses lugares, onde ficavam baseadas para vender seus produtos nos souqs. A parte de baixo geralmente era ocupada por oficinas de artesãos, enquanto os andares superiores tinham quartos usados pelos membros das caravanas, numa espécie de pensão medieval. A maioria hoje em dia está bem maltratada, servindo de oficinas ou simplesmente de depósito de quinquilharias. Talvez o fundouq em melhor estado seja o Nejjarine, em Fez, já que hoje em dia ele abriga um museu dedicado ao trabalho em madeira; vale muito à pena visitá-lo para ter uma ideia de como seria um fundouq em seus tempos de glória.

Muralha e entrada do kasbah de Rabat

Kasbahs são fortificações construídas para proteger os interesses comerciais de outrora, bem como as famílias dos dirigentes locais. O kasbah de Marrakech ainda abriga o Palácio Real e, por isso, é fechado ao público; já no lindo kasbah de Rabat é possível caminhar pelas ruelas em meio às casas brancas e azuis.

Zellij em uma fonte de Rabat

Zellij na mesquita Hassan II, em Casablanca

Dentro dos riads e dos dars, mas também em madrassas, museus, fontes, restaurantes e outras construções, você certamente verá outros elementos típicos da arquitetura árabe. Os zellij, por exemplo, são os famosos e onipresentes mosaicos coloridos de cerâmica. Seriam o equivalente às nossas pastilhas, mas, em geral, você vai ver que eles são aplicados de forma bem mais trabalhosa, praticamente peça por peça, até porque muitas têm formas geométricas diferentes ou reproduzem escritos sagrados do Alcorão. A princípio, quanto mais juntinhas estiverem, maior a qualidade do serviço.

Combinação de zellij e gesso, alguns com escritos, na medersa Ali ben Youssef

As paredes da Medersa Ali ben Youssef parecem feitas de renda... mas é gesso

Da mesma forma, você certamente verá largos painéis feitos em gesso (ou estuque, para ser mais técnico), trabalhados manualmente com padrões geométricos ou então também com escritos sagrados. Alguns são tão delicados que parecem renda. Para coroar o desbunde arquitetônico, observe os trabalhos em madeira que são usados em portas, frisos e nos tetos, alguns também delicadamente esculpidos. Preste atenção nos muqarnas (também chamados de mocárabes ou almocárabes em espanhol), um trabalho em madeira ou gesso feito em pequenos nichos que lembram colméias ou estalactites.

Nessa foto tirada na medersa Bou Inania, em Meknès, é possível ver muqarnas feitas em gesso

Lindo teto em madeira no Palácio Bahia, Marrakech

Ainda falando de madeira, você também verá nas construções os muxarabis, tradicionais da arquitetura árabe. São janelas feitas com treliças de madeira que permitem ver de dentro para fora, mas não o contrário, além de facilitar a ventilação. São talvez os avós dos cobogós, tão presentes na arquitetura modernista de Brasília.

Muxarabis na medersa Bou Inania, em Meknès

Outra palavra usada na arquitetura marroquina é o tadelakt. É uma espécie de reboco de gesso que recebe uma aplicação de sabão natural (em geral sabão negro ou de oliva) que lhe confere uma grande capacidade de resistência à água. Por isso é bastante usada em banheiros e hammans no Marrocos. O polimento e a aplicação de cores dão uma aparência parecida ao nosso cimento queimado.

Paredes cobertas de tadelakt e zellij na mesquita Hassan II, em Casablanca

Todos esses elementos arquitetônicos são feitos por mestres artesãos conhecidos como maâlems, e seu conhecimento tem sido novamente valorizado com a recuperação de riads e outras construções no país, permitindo que a técnica seja repassada a novas gerações.

Marrocos – problemas que você pode enfrentar

Depois do texto anterior, em que eu expliquei porque uma viagem ao Marrocos é imperdível, tenho que falar dos problemas que você pode encontrar e como (tentar) contorná-los. Separei os temas por tópicos principais.

O Café Argana ao fundo da praça Djemaa el Fna, quando eu estive por lá...

... e depois da explosão (fonte Reuters)

1) Segurança: exatamente quando eu estava no Marrocos aconteceu o último incidente (conhecido) — um homem-bomba se explodiu no Café Argana, em plena Praça Djemaa el Fna (sim, aquela que eu considerei no texto anterior um dos pontos altos da viagem), matando quatorze pessoas e ferindo um monte. Felizmente eu tinha saído de Marrakech um dia antes. É um problema que não tem muito como enfrentar; talvez, no máximo, evitar locais muito turísticos. Porém, quando você está fazendo turismo, é possível de fato fazer isso sem pular grande parte das atrações locais? Passei pela Djemaa umas cinco vezes durante minha estadia em Marrakech e, embora eu não tenha ido ao Café Argana (que é listado no guia do Lonely Planet), fui em um próximo a ele.

De qualquer forma, o Marrocos, dentre outros países muçulmanos, parece ser um dos mais tranquilos. Antes desse “incidente”, houve uma explosão num cybercafé de Casablanca em 2007 — que ficava num subúrbio e, portanto, não houve turistas mortos. Antes disso, morreram turistas em várias explosões deflagradas em 16 de maio de 2003, também em Casablanca, no que foi o pior atentado terrorista do país. Como dá para ver, a frequência não é tão alta assim; o problema é não saber quando será a próxima bomba.

Mesmo assim, com exceção dessa questão terrorista, o país pareceu-me seguro no geral. A impressão que se tem é que crimes violentos são algo muito grave para eles, mas claro que, nas grandes cidades, furtos sempre podem ocorrer, e o que vale em Nova Iorque, São Paulo ou Roma vale no Marrocos também: atenção.

Só rapazes nesse portal na medina de Marrakech

2) Mulheres: no geral, não percebi grandes assédios às mulheres nas ruas, salvo um assobio assanhado, coisa que qualquer mulher brasileira que já passou na frente de uma obra deve ter vivenciado. Mesmo assim, não recomendo que mulheres viajem sozinhas, mesmo em grupos. Até vimos umas gringas sozinhas por lá, mas achei que o assédio a elas era um pouco maior. Na verdade, não recomendo nem a um homem que viaje sozinho para o Marrocos: o assédio é sempre maior para quem está só. Mulheres acompanhadas aparentemente não sofrem assédio de homens. Alguns cafés nas cidades marroquinas trazem uma visão que chega a ser engraçada: só homens sentados, nenhuma mulher no meio. Obivamente, esses lugares não são apropriados para moçoilas.

Ao contrário do estereótipo, a mulher marroquinha pareceu-me bem liberada. Vimos até motoristas de ônibus mulheres. Poucas usam roupas que só deixam os olhos de fora; em geral são mulheres mais velhas. No geral, elas usam um pano para cobrir os cabelos, mas um número razoável usava os cabelos soltos mesmo. Não preciso dizer que as vestimentas devem ser “recatadas”, evitando o uso de saias e shorts curtos, blusas decotadas etc. Aliás, até para homens acho que expor muita pele pode causar estranheza nos locais.

Perder-se na medina de Fez é fácil...

3) Perder-se na medina: como expliquei no texto anterior, considero a atividade de caminhar pelas medinas marroquinas um dos pontos altos da viagem. Mas as ruas são, de fato, labirínticas e sinuosas. Não me perdi para valer em momento algum; às vezes a gente dava umas voltas, mas no final encontrava o que estava procurando. Considero-me, porém, uma pessoa bem orientada, de modo que para pessoas com senso de orientação menos aguçado, isso pode tornar-se um problema real.

Se você tem preguiça de ficar procurando as coisas e tem medo de se perder, contrate logo um guia. De preferência no hotel onde você esteja, o que provavelmente evitará surpresas desagradáveis: o preço será combinado antes e você tem para quem reclamar caso aconteça algo de errado. Se você fizer isso no primeiro dia, de repente consegue se aventurar nos outros sozinho. Ainda assim, tendo contratado um guia antes ou não, atenha-se às ruas principais (algumas ruelas das medinas podem parecer bem lúgubres), carregue sempre um cartão do hotel onde você está e preste bastante atenção. Uma boa dica é, cada vez que você dobrar uma esquina ou fizer uma bifurcação, guardar algum detalhe para se lembrar na volta: uma placa, um comércio diferente, uma planta etc.

O portão Bab Bou Jeloud em Fez, um dos lugares onde vários falsos guias costumam abordar os turistas

4) Falsos guias e pessoas que te abordam nas ruas: infelizmente, é uma situação corriqueira, principalmente dentro das medinas, em pontos mais turísticos. Basta você parar um pouco para olhar o nome de uma rua, procurar num mapa, e já aparece alguém se oferendo para te levar — muitas vezes para onde você nem quer ir. Esse problema pode ser evitado com a contratação de um guia, já mencionada no item anterior: com ele dificilmente os “malas” vão te abordar e, se o fizerem, seu guia saberá se livrar deles.

Algumas pessoas vão te abordar dizendo que querem ser “seus amigos”. Considero que conhecer pessoas locais é uma ótima experiência de viagem, mas não se engane: no geral, eles querem te levar em alguma loja ou restaurante onde ganham comissão, ou querem te levar em pontos turísticos em troca de dinheiro, No geral, eu me livrava dessas pessoas com um “la, shukran” (não, obrigado, em árabe), ou então com a frase “je suis pas perdu!” (não estou perdido, em francês). No geral eles não insistiam muito, embora alguns ficassem “emburradinhos” com a negativa.

O único lugar em que eu realmente senti um pouco de receio foi num trem de Meknès para Fez. Na verdade, o trem para Fez é conhecido pelos rapazes que abordam gringos e turistas em geral, e eu já havia lido a respeito no Lonely Planet. Falam que são estudantes univeristários ou jovens professores voltando para a cidade, e no final querem te levar para algum hotel, vão dizer que o que você reservou é uma espelunca, ou, pior, um puteiro. Quando fomos de Casablanca até lá, um tentou nos abordar, mas quando eu disse que já havíamos reservado um riad e que havia uma pessoa nos esperando na estação, o cara logo desistiu.

Acontece que eu fiz uma viagem bate-e-volta de Fez até Meknès (de trem dura mais ou menos uma hora) e, nesse passeio, eu estava sozinho. A ida foi tranquila, mas, na volta, um cara me viu com o guia do Lonely Planet (aliás, um grande chamariz para eles, pois gringo adora esse guia) e puxou assunto. Inicialmente fui simpático, embora tenha evitado dar muito papo, mas esse foi insistente, não desistia fácil — e, como estava sozinho, dei o azar de ter um banco vago do meu lado no trem. Comecei a ficar assustado quando ele me perguntou se era verdade que no Brasil eles sequestravam pessoas e se eu já havia sido sequestrado. Fingi tranquilidade, esperei um pouco e disse que ia ao banheiro. Procurei sair do vagão onde estava e fiquei um tempo no banheiro. Nesse outro vagão, havia aquelas cabines coletivas. Escolhi uma quase cheia, em que havia dois senhores mais velhos e três meninas marroquinas e fiquei por lá até o final da viagem.

Uma tática muito usada pelos falsos guias (e também por vendedores, a respeito dos quais falarei no próximo item), é dizer que a atração que você procura está fechada e que não adianta ir até lá, por isso seria melhor ir aonde eles querem te levar — ou, no caso dos vendedores, continuar comprando. Desconfie sempre e prefira verificar a informação você mesmo, pois muitas vezes é apenas mais uma mentirinha.

Se eu levar a galinha e o vestido roxo ganho desconto?

5) Vendedores na medina: como relatei no texto anterior, a barganha faz parte da cultura local e é até divertida. O problema é que, em alguns lugares, depois que você entra, o vendedor pode ser muito insistente e fica difícil sair de mãos abanando. Se você não está nem um pouco interessado em comprar alguma coisa, é melhor nem entrar. Se não gostou de nada, saia rapidinho para não dar tempo de o vendedor ficar insistindo. Há lojas, claro, com preços fixos, e nessas ninguém enche muito seu saco — até barganhar deixa de ser necessário.

No geral, não tive problemas com isso, mas se você tem preguiça dessas situações, o melhor é deixar para comprar no free shop do aeroporto, correndo o risco de perder uma das experiências mais típicas e divertidas do Marrocos.

A medina de Marrakech, na minha opinião, foi a que tinha vendedores mais insistentes. Alguns praticamente nos catavam nas ruas. A de Fez é um pouco mais tranquila, mas também tem sua quota de vendedores-chiclete. Por isso, para não se estressar muito, prefira as medinas de cidades menores ou menos turísticas, como Meknès e Rabat. Aliás, eu achei a medina dessa última a mais tranquila de todas: em algumas lojas a gente tinha que praticamente pedir para alguém nos atender. E ninguém insistia muito para comprar.

Coca cola em árabe

6) Língua: a língua oficial do Marrocos é o árabe, embora existam diferenças entre o que se chama de árabe marroquino (Darija) e o chamado Modern Standard Arabic (MSA), ensinado nas escolas dos mais variados países árabes. O francês, obviamente, tem largo uso, herança da época do protetorado francês. Em lugares turísticos como hotéis e restaurantes, entretanto, percebi que quase todo mundo falava inglês. Mesmo os vendedores da medina, no geral, sabem se virar em inglês. Pessoas mais simples, porém, não sabem usar nem mesmo o francês — tive problemas com alguns taxistas, por exemplo.

Petits taxis vermelhos em Casablanca. Foto do blog oliverdang.wordpress.com

7) Táxis: talvez tenha sido meu grande aborrecimento da viagem. Claro, taxista picareta tem em todo lugar, e eu até peguei taxistas simpáticos por lá, que demonstraram curiosidade pelo Brasil e me falaram sobre o país deles. O problema é que muitos não querem ligar o taxímetro e, quando você quer combinar o preço, querem te cobrar bem mais caro do que o normal. Aqui vale as mesmas dicas de qualquer país: procure se informar antes quanto custa uma corrida até o lugar onde você quer ir. Sempre que entrar num táxi que tiver taxímetro, peça para ligá-lo; se ele não quiser, desça ou pergunte logo quanto ele vai te cobrar para deixar você no destino final. Os táxis que eu achei mais picaretas foram os de Casablanca, o que é compreensível, já que esta é a maior cidade do país.

No geral, os táxis são bem velhos, não dá muito para escolher. Outra coisa que assusta um pouco é que eles param no meio do caminho para pegar outras pessoas, caso elas estejam indo na mesma direção que você. Mas quanto a isso não tive problemas: é um costume local, e eles só pegam gente que esteja indo mais ou menos no mesmo caminho que eles.

Para chegar e sair das cidades, principalmente se você vai ficar na medina, recomendo combinar antes um transfer com o hotel que você reservou. Fiz isso em Marrakech e Fez. Os preços não são abusivos, você não corre o risco de se perder no primeiro contato que vai ter com a medina e não precisa se preocupar em achar um meio de transporte quando chega na cidade. Além disso, no caso de Fez, como eu relatei acima, pode ser uma boa maneira de se livrar dos marmanjos do trem.

A visão da chegada em Marrakech é bem árida...

... já a chegada a Fez é mais verde

8 ) Clima: quando fui, em maio (primavera para eles), o clima estava ótimo. Não pegamos muita chuva, de dia as temperaturas estavam razoáveis, na casa dos vinte e pouco graus; já à noite fazia até frio, com temperaturas abaixo de 15 graus: em Fez chegamos a pegar uns 8 graus à noite. Com base nessas temperaturas, cheguei à conclusão de que viajar no inverno para lá pode ser bem frio; vá preparado. Além disso, dizem que o verão costuma ser indecente de tanto calor. Por isso, meia estação é o mais recomendável.

Marrocos: 12 motivos para conhecer

O Marrocos sempre foi um destino que me fascinou, mas quando surgiu a oportunidade real de visitá-lo, confesso que fiquei com alguns receios. Seria um destino de fato seguro? O assédio de vendedores e de falsos guias, muitas vezes mencionado em guias e sites de viagens, seria realmente incômodo? E a comida, poderia me trazer problemas? A comunicação seria difícil? Enfim, vários questionamentos surgiram em minha cabeça sobre dificuldades que existem em qualquer viagem, mas que, em relação ao Marrocos, poderiam trazer preocupações extras. Como sou teimoso e curioso, fui mesmo assim. Claro, para alguns desses possíveis problemas preparei-me da melhor forma possível. Agora quero tentar relatar aqui no blog o que, de fato, foi um problema para mim, como isso pode ser contornado, e o que constitui, na verdade, simples lendas da medina.

Mas não queria que meu primeiro texto sobre o Marrocos fosse algo negativo, então decidi listar inicialmente os motivos imperdíveispara você ir àquele país. No próximo texto tentarei falar um pouco dos problemas que eu listei acima.

Medersa Ali ben Youssef, Marrakech

1)  Conhecer as várias medersas expalhadas no país e deliciar-se com a detalhista arquitetura árabe: medersas (ou madrassas) são escolas do Alcorão onde os meninos estudam. Muitas estão desativadas, mas foram restauradas e, hoje em dia, podem ser visitadas. A medersa Ali ben Youssef, em Marrakech, foi a mais esplendorosa que eu conheci, mas a Bou Inania, em Fez, também é muito bonita. Dentro, exemplos das mais finas técnicas decorativas típicas da arquitetura árabe, com lindos mosaicos e também trabalhos em gesso e em madeira. A respeito delas pretendo falar em outro texto.

Medina de Marrakech

2) Ser invadido pela multiplicidade de sons, cores e aromas da medina: considero que andar pelas ruas sinuosas das medinas do Marrocos foi uma das “atividades” mais interessantes na minha viagem. Só estando em uma para descrever como é, mas eu achei divertidíssimo. Talvez não seja para todo mundo, porque é bagunçado mesmo, você é abordado com certa frequência e tem que disputar espaço com burros e motocicletas. Algumas partes lembram camelôs genéricos do Brasil, com roupas, tênis e eletrônicos de origem duvidosa, mas uma boa parte das medinas é destinada a produtos do artesanato local ou para a venda de gêneros alimentícios.

Mesquita Hassan II

3) Visitar a grandiosa Mesquita Hassan II, em Casablanca: uma das maiores mesquitas do mundo árabe, a construção recente impressiona a todos e vale a parada na pouco interessante Casablanca. Mosaicos multicoloridos, lindas fontes usadas para os rituais de ablução dos fiéis e uma vista privilegiada do Atlântico compõem o cenário.

Tajine de frango com pimentões

4) Comer as especialidades locais: claro que você não precisa tomar sopa de lesma e de cabeça de cabrito (sério, isso é vendido por lá como comida de rua), mas há muita coisa saborosa na culinária marroquina e que a gente já está até acostumado. Couscous e cozidos com frutas secas (os tajines) já são bem difundidos por aqui e constituem o “feijão com arroz” da comida local, mas confesso que as saladinhas genéricas servidas de entrada e os doces à base de amêndoas e água de laranjera foram a grande surpresa nesse ponto.

Riad Salam Fès

5) Hospedar-se em um riad em Marrakech e em Fez: essas duas cidades possuem medinas gigantescas e, embora tenham bairros mais modernos construídos pelos franceses, o grande barato, ao menos para os turistas de primeira vez, é ficar na parte antiga. A melhor opção de hospedagem recebe o nome genérico de riad, que são em geral casas e palácios antigos que foram recuperados e oferecem atendimento bem personalizado (dada a quantidade reduzida de quartos), uma boa amostra da arquitetura tradicional marroquina, sem falar na hospitalidade dos funcionários. E os preços, se você fizer uma boa pesquisa, nem são tão caros.

Hora do chá: Fès et Gestes

6) Tomar chá de hortelã: OK, isso você pode fazer no Brasil, mas o ritual marroquino é o que importa. Onipresente em praticamente todas as refeições e também como bebida de boas-vindas, o chá de hortelã vem em lindas e ornamentadas chaleiras metálicas e é servido em copinhos de vidro. O chá é derramado com a chaleira bem alta, não sei bem por quê (talvez para esfriar um pouco). Peça sem ou com pouca açúcar; em geral, eles vinham adoçados demais pro meu gosto. E dizem que ainda é digestivo.

Jardin Majorelle

7) Visitar o Jardin Majorelle, em Marrakech: uma das poucas atrações da chamada Nouvelle Ville (a área nova construída pelos franceses), o jardim fica ao redor de uma residência comprada pelo Yves Saint-Laurent e seu parceiro Pierre Bergère, que a reformaram e a transforaram em ponto turístico. As cores azuis e amarelas fortes das paredes da casa, sem contar o colorido das flores do jardim e dos vasos de plantas, são marcantes, enchem os olhos e rendem excelentes fotos. A casa hoje abriga um museu.

Sandálias coloridas no souq de Fez

8 ) Comprar e pechinchar nos souqs: embora as medinas pareçam um grande mercado indistinto, há áreas mais residenciais e tranquilas. Os locais mais voltados ao comércio são conhecidos como souqs. Há muita quinquilharia e mercadorias genéricas, mas o artesanato local está bem representado, o que permite trazer boas lembrancinhas e enfeites para sua casa. Só não esqueça de pechinchar, sempre. Pode parecer meio chato, mas encare como uma brincadeira e a atividade pode, de fato, ser divertida. Diga que veio do Brasil e fale de futebol (eles adoram o esporte). Se o preço, desde o início, não te interessar, simplesmente deixe para lá e vá embora.

Portões do Palácio Real de Fez

9) Conhecer os portões do Palácio Real de Fez e o Palácio Bahia em Marrakech: praticamente todas as cidades importantes do Marrocos têm palácios reais, embora a capital do país seja Rabat — quando estive em Fez, por exemplo, o rei estava por lá. Normalmente fechados ao público, é possível ver um pouco do seu esplendor: as portas douradas do palácio em Fez são lindíssimas, talvez a atração mais fotografada da cidade; já o Palácio Bahia, em Marrakech, abre uma pequena parte de suas instalações para o turista, onde é possível ver a rica ornamentação criada pelos mestres artesãos locais.

Ruela azul e branca do kasbah de Rabat

1o) Ir a Rabat, a tranquila capital do país, e passear em sua medina menos estressante e no kasbah, a fortaleza que envolve a parte mais antiga da cidade: Rabat é, muitas vezes, ignorada pelos turistas, mas eu achei a cidade uma das boas surpresas da viagem. Bem menos caótica que Casablanca, fica a cerca de uma hora de trem da vizinha-megalópole, permitindo um passeio de um dia sem correria. A medina também é bem mais tranquila que em outras cidades, e os vendedores praticamente não te abordam. O kasbah, com suas casas brancas e azuis, é quase uma mini-Grécia no Marrocos.

Praça Djemaa el Fna à noite

11) Curtir a muvuca da praça Djemaa el-Fna, em Marrakech: uma pena que a praça tenha sido alvo recente de um homem-bomba. O local é o centro da medina de Marrakech, e por ali vê-se de tudo: homens encantadores de cobra, mulheres pintando turistas com henna vagabunda, travestis fazendo dança do ventre, barracas vendendo frutas secas e sucos de laranja. À noite enche de tendas que vendem comida feita na hora, e é frequentada tanto por turistas como por locais.

Hammam na Mesquita Hassan II, em Casablanca

12) Ir a um hammam: antigamente, as pessoas não costumavam ter banheiros em casa (uma realidade ainda nas casas mais pobres); assim, uma visita semanal ao menos ao hammam, ou banho público, virou uma tradição marroquina. Embora toda vizinhança costume ter seu banho público, a preços bem módicos, acho que você só deve ir a um deles acompanhado de um local, para não cometer nenhuma gafe e não ficar com cara de alienígena. De qualquer forma, os riads e algumas casas tipo spa oferecem a experiência por preços mais salgados, mas também com mais conforto e privacidade.