Recife e Olinda – Parte 1

Recife é a segunda cidade mais populosa do Nordeste, atrás de Salvador — embora a região metropolitana da capital pernambucana, com os municípios que se conglomeram ao seu redor, seja maior que a da capital baiana. Apesar disso — ou talvez por causa disso — a cidade não costuma ser incluída entre os destinos mais procurados pelos turistas que vão ao Nordeste. Pode ser que as pessoas, no geral, quando vão para a praia, queiram descanso e tranquilidade, e não o caos de uma cidade grande. De todo modo, Salvador é bastante visitada por turistas, enquanto Recife acaba sendo meio relegada. Há, claro, o problema da violência, tão presente nas cidades grandes brasileiras, e bastante mencionado quando se fala de Recife. Só que Salvador também padece desses problemas (minha irmã, por exemplo, já foi assaltada na frente do hotel em Salvador); o Rio, da mesma forma, é bastante lembrado pela violência, e as pessoas continuam visitando ambas — o que é bom, porque, de fato, são cidades lindas. Tentarei aqui explicar porque acho que Recife e sua irmã/vizinha Olinda devam ser visitados também.

Esclareço, desde já, que nunca visitei essas cidades durante o Carnaval, período em que, acredito, a situação deva ser bem diferente (leia-se uma muvuca). De qualquer forma, várias das atrações estão lá, sempre, e podem ser visitadas em qualquer época.

Vista de Olinda do Alto da Sé, com Recife ao fundo

Como se sabe, Olinda foi estabelecida primeiro, pelos portugueses. Quem já foi a Portugal, entende perfeitamente porque os colonizadores construíram Olinda numa área tão irregular, cheia de morros. Hoje, são as ladeiras de Olinda que fazem a fama da cidade e ficam repletas no Carnaval. Subir aquelas ruas íngremes realmente dá uma canseira, mas as vistas valem à pena. Se você vier de táxi de Recife, como eu fui nas duas vezes em que visitei a cidade, peça para o motorista parar logo no Alto da Sé. Chegando no ponto mais alto da cidade, você já economiza perna e sola de sapato e, para baixo, como diz o ditado, todo santo ajuda. Assim que o táxi terminar de subir a inclinada Ladeira da Misericórdia (você vai pedir muita misericórdia se subi-la a pé), pode parar. Lá já é a área conhecida como Alto da Sé. Há uma pequena igreja, chamada Igreja da Misericórdia, que nem sempre fica aberta (parece que ela está, atualmente, em reforma), mas a grande atração ali são as vistas da cidade antiga (Olinda tem uma parte nova, cheia de prédios altos também) e do mar lá embaixo. Você provavelmente já será abordado por pessoas se oferecendo como guia; se ão quiser o serviço, agradeça e simplesmente ignore, porque eles já vão começar, provavelmente, a contar a história de Olinda (todos recitam o mesmo texto). Se você aceitar o guia, combine o preço antes, porque depois ele vai querer te cobrar caro.

Antigo observatório do Alto da Sé

Igreja da Sé

Ao fundo do Largo da Misericórdia, você logo verá a Igreja e o Convento da Conceição, que é bem bonita por fora (não cheguei a visitá-la por dentro). A rua que segue à direita é a Rua Bispo Coutinho. Ali há algumas lojinhas de artesanato (meio caras), um antigo observatório, recentemente restaurado, e várias tendas vendendo quitutes locais — a tapioca de lá é famosa (e gigantesca). Ao final da rua, antes da descida, fica a Igreja da Sé propriamente dita. O interior é um pouco decepcionante, fruto de incêndios e reformas, mas é possível ainda ver lindos azulejos portugueses. As vistas da lateral da igreja, com os prédios de Recife ao fundo, são de tirar o fôlego.

Interior da Igreja do Mosteiro de São Bento

Há várias outras igrejas espalhadas, mas eu só visitei outra: a do Mosteiro de São Bento, na parte mais baixa da cidade antiga. Por fora a vista já é bem bonita, com vários coqueiros ladeando a fachada de estilo barroco. O interior é todo dourado (não sei dizer se é ouro de verdade) e enche os olhos. É possível assistir a uma missa com cantos gregorianos lá.

Casinhas coloridas numa ladeira de Olinda

Considero que o melhor de Olinda é sair andando pelas ladeiras e vendo as casinhas coloridas. A ladeira da Rua do Amparo é uma das principais para admirar a arquitetura colonial, além de ser cheia de restaurantes (é lá que fica o Oficina do Sabor, um dos mais famosos). Ali, também, fica o Museu de Arte Contemporânea de Olinda (oficialmente na Rua 13 de Maio, mas que é uma continuação da Rua do Amparo). Algumas ruelas, claro, são feias e dão um pouco de medo de entrar, mas se você se ater aos locais mais turísticos, não vai ter problemas.

Fachada do Museu de Arte Contemporânea de Olinda

Vista de Olinda

No geral, Olinda, com o perdão do trocadilho infame e já bem gasto, é realmente linda. As casas encrustradas nos morros, com aqueles telhados típicos da arquitetura colonial, mescladas com uma vegetação farta, é uma paisagem que deixa todo mundo boquiaberto. Há restaurantes aclamados e pousadas charmosas e, se você quiser só descansar (ou quiser ficar perto do Carnaval, nesse período), pode ser uma boa hospedar-se em Olinda. Das duas vezes em que eu fui, contudo, fiquei em Recife. Acho mais central em relação às atrações em geral, além de ter mais opções para sair à noite.

Cuidado com o tubarão! Aviso na praia de Boa Viagem

A área mais famosa de Recife para quem é de fora é o bairro de Boa Viagem, mas quem vai em busca de praia vai ficar um pouco decepcionado — certamente não é a praia mais bonita que você terá visto. Além disso, os avisos de “cuidado, tubarões” assustam bastante. A parte da praia mais badalada é em frente ao Ed. Acaiaca, um prédio de estilo moderno que lembra os de Brasília. De qualquer modo, como me confidenciou um amigo que é de lá, os locais preferem morar na Zona Norte, em bairros como Espinheiro, Graças e Aflitos. É longe da praia, mas nesses lugares há uma boa concentração de bares e restaurantes (segundo ele, os melhores restaurantes de Recife estão por lá), além de prédios bons, o que é motivo de sobra para fincar residência. Portanto, se você, de fato, busca praia, é melhor sair de Recife/Olinda — como fazem, aliás, os locais — e ir rumo a Porto de Galinhas — há várias praias no caminho.

Colorido na Rua Bom Jesus

Ainda assim, Recife tem atrações de outra espécie. O centro histórico, que fica numa ilha de frente para o mar, tem algumas construções colonais já recuperadas (e outras ainda nesse processo). A rua mais arrumadinha da região é a Rua Bom Jesus, onde fica a Sinagoga Kahal Zur Israel, considerada a mais antiga das Américas. Os judeus se estabeleceram ali na época dos holandeses — aliás, Recife se desenvolveu na época holandesa, pois, como disse acima, os portugueses instalaram-se inicialmente em Olinda — e, com a retomada da cidade por Portugal, fugiram com os holandeses para a colônia de Nova Amsterdã, que depois virou Nova Iorque. Hoje, a sinagoga é um centro judaico, e pode ser visitada.

Fachada da Sinagoga Kahal Zur Israel

Quem tem medo da Itália?

Um dos cartões postais clássicos de Roma: Fontana di Trevi

Considero que eu demorei um pouco para conhecer a Itália, o que aconteceu apenas no ano passado (a foto de Veneza do cabeçalho do blog não é minha, OK?). Tudo bem, não tem muito tempo que eu comecei a viajar para valer, mas é que esse destino costuma estar no topo da lista da maioria das pessoas, e todo mundo que já foi pelo menos uma vez à Europa deu uma passadinha por lá.

Confesso que tinha um certo receio em visitar a Itália. Os motivos são basicamente três: 1) encontrar hordas de turistas em todos os lugares com filas quilométricas para os principais museus e atrações; 2) a fama de ser um país caro; 3) a (má) fama de grosseria dos italianos. Acontece que eu me surpreendi muito positivamente, e acabei vendo que muitas dessas ideias são estereótipos, ou então são problemas que podem ser contornados de maneira simples. Vamos analisar cada um dos motivos separadamente.

1) É verdade que a Itália é invadida por hordas de turistas todos os anos, e em praticamente todas as épocas do ano. A primeira coisa a se pensar é: bem, mas você também é turista, então você faz parte dessa horda, não? Por que você teria mais direito a ver as maravilhas da Itália que os demais mortais? Tudo bem, essa arrogância nunca existiu dentro de você, mas ainda assim você morre de preguiça de filas e de lugares tumultuados, só que adoraria ver as ruínas romanas e as obras-primas da Renascença? Há algumas soluções para isso.

Em primeiro lugar, os principais museus da Itália já permitem a compra antecipada dos ingressos pela internet. Fiz isso no Museu do Vaticano, em Roma, no Uffizzi e na Galleria dell’Accademia, em Florença, e acho que valeu muito à pena. No caso dos museus em Florença, basta imprimir o e-mail que eles enviam com o número da reserva; no Museu do Vaticano eles mandam um documento com código de barra, que também deve ser impresso. É impressionante, você não tem que esperar quase nada — e as filas na entrada desses museus estavam bem compridas.

No caso do Vaticano, valeu também pelo horário: a reserva indicava entrada às 8h da manhã. Pode parecer madrugada quando se está de férias, mas essa é outra dica valiosa também para quem quer fugir das hordas: Deus ajuda quem cedo madruga. O Museu do Vaticano só abre para a fila “normal” às 9h, então você aproveita o museu, por quase uma hora, com baixíssimo movimento. Tudo bem que, quando chegamos à Capela Sistina, o negócio já estava fervilhando, e eu fiquei um pouco incomodado. Mas é preciso também um pouco de paciência para conhecer algumas obras-primas da humanidade. E o museu é fabuloso, não se resume à Capela Sistina.

O Museu do Vaticano praticamente vazio quando entramos

Para o Coliseu também é possível a compra antecipada pela internet, embora eu não a tenha utilizado. Há que se considerar também que marcar muitos compromissos “engessa” um pouco a viagem, você fica sem muita flexibilidade para mudar a programação. Mas as filas do Coliseu estavam grandes, então eu acho que pode valer à pena fazer a reserva para lá também. É possível que vários outros museus também ofereçam essa possibilidade, vale à pena pesquisar antes.

2) Fui esperando gastar uma pequena fortuna na Itália, mas no final me surpreendi. Certo, considerando a conversão para o euro, não é um país barato, e os hotéis estavam entre os mais caros da viagem que eu fiz no ano passado — mas tenho que destacar que eu escolhi hotéis simples, mas muito bem localizados. De qualquer forma, as diárias também não estavam estratosféricas, ainda mais se eu for comparar com o que eu paguei em Nova Iorque da última vez — lá sim, hospedagem anda bem cara.

Mangia che ti fa bene!

Para comer, basta seguir algumas das dicas que eu dei no texto que escrevi a respeito. Observei também que pratos de massas costumam ter uma relação custo-benefício bem melhor que pratos com carne — e, já que você está na Itália, nada melhor que comer massas, não é mesmo? A dieta fica para depois. No quesito transporte, tampouco achei as tarifas exageradamente caras, mesmo para os táxis (que são o que costuma fazer a diferença). Nas cidades que eu visitei –  Roma, Florença e Veneza — andar a pé é quase uma obrigação, pois as cidades são lindas. Com isso você economiza ainda mais. O que realmente sai caro são os vários bilhetes de museus e atrações que você vai pagar durante sua estadia. Não fiz muitas compras por lá, então não tenho como avaliar se os preços são convidativos.

3) Antes de ir à Itália, eu estudei italiano por uns três anos, de modo que conseguia me comunicar bem com os locais. Isso, na minha opinião, fez uma diferença significativa. O atendimento se mostrava mais simpático e algumas pessoas até comentavam entusiasmadas o fato de eu estar falando na língua deles. Mas eu não estudei italiano apenas porque queria viajar para Itália, estudei porque gosto de aprender outras línguas. Também não acho que todo mundo tenha essa obrigação para ser bem atendido. Ainda assim, penso que não custa nada aprender algumas palavrinhas básicas, um buongiorno, um grazie, um scusa. Acho que, basicamente, todo mundo gosta de ver o esforço do outro de aprender alguma coisa da sua língua.

Isso não significa que os ogros não existam, claro. Eles existem e certamente vão aparecer uma hora! A questão é que eles existem em todo lugar do mundo, e não vi motivos para achar que sua concentração na Itália seja maior. De qualquer forma, se o ogro for alguém do comércio, faça como eu: saia e vá embora, aquela pessoa não merece seu dinheiro! No mais, provavelmente você terá uma história engraçada para contar depois.

Ainda assim, no geral, achei as pessoas bem abertas ao inglês. Não tem jeito, turismo traz dinheiro, e se a maioria das pessoas fala em inglês, eles têm que começar a usá-lo. No hotel em Roma, uma das atendentes até ficava me perguntando como se falava determinadas coisas em português, dizendo que havia muitos brasileiros visitando a cidade e ela queria aprender um pouco do nosso idioma. Em Florença, o dono do hotel era casado com uma brasileira e nos ofereceu duas garrafas de vinho na saída. Acho que essas pequenas coisas me fizeram minimizar os episódios de grosseria, mas não sei dizer se tive sorte ou se esse é um movimento natural pelo qual as pessoas que trabalham com turismo na Itália estão passando.

Em resumo, deixe seus preconceitos de lado e visite a Itália. Você será mais um na multidão de turistas, mas é melhor ir logo e garantir a visita antes que Veneza afunde ou que os monumentos de Roma caiam de velhos.

Bruxelas

Place du Petit Sablon

Eu acho a Bélgica um país completamente subavaliado no mundo do turismo. Há um tempo atrás uma amiga me deu um livro chamado “Guia Michelíndio”, que se propõe basicamente, ao contrário da maioria dos guias de viagem, a dizer o que não devemos fazer em uma. O livro é engraçado, mas a autora diz que a Bélgica é um país a ser evitado, que não tem nada para se ver (ela faz uma exceção a Bruges). Pois eu discordo completamente dela.

Como eu disse no texto sobre Amsterdam, eu esperava muito da capital holandesa, e acabei me decepcionando um pouco. Já de Bruxelas, eu não esperava muita coisa e me surpreendi muito. A cidade não tem os charmosos canais da capital vizinha (já os teve, mas eles foram aterrados), mas tem outros lugares bonitos e alguns até bem grandiosos que me encheram os olhos.

Sem contar que o país é pequeno, então você pode ficar baseado em um lugar e conhecer de trem as “quatro estrelas” da Bélgica: Bruxelas, Bruges, Antuérpia e Ghent. Além de Bruxelas, porém, eu só fui a Bruges (que merece um texto à parte), então pretendo comentar apenas minhas impressões sobre a capital belga.

Palais de Justice e Place Poelaert

O centro de Bruxelas é dividido em uma parte alta e outra baixa. A parte alta tem menos atrações, mas as vistas são lindas, claro. Assim como em Salvador, há um elevador que leva de uma parte à outra, mas é perfeitamente possível fazer esse trecho à pé, descendo pela Rue de la Régence e, depois, pelo Mont des Arts, que é um passeio muito agradável. No topo da Rue de la Régence fica o Palácio de Justiça e a Place Poelaert. Da época imperialista da Bélgica, o Palácio tem uma cúpula maior até que a da Basílica de São Pedro, em Roma.

Notre Dame du Sablon

Nôtre-Dame du Sablon

Descendo-se pela Rue de la Régence, chega-se à Église Nôtre-Dame du Sablon. De um lado dela, fica a Praça do Grand Sablon (uma praça comum, mas rodeada de bares e lojas de chocolate). Do outro lado, fica o lindo Petit Sablon, uma praça-parque bem cuidada, cheia de estátuas retratando as profissões que constituíam as guildas medievais da cidade, com bancos e uma fonte. Uma parada lá é obrigatória. Depois do Petit Sablon, ainda na Rue de la Régence, fica a famosa loja de chocolates Côte d’Or, a única exclusiva da marca em todo o mundo. Certamente não é o melhor chocolate produzido na Bélgica, mas é a marca belga mais famosa, a que a gente sempre vê em outras lojas, de modo que é sempre uma boa lembrança para trazer para a família e amigos. E, de qualquer forma, é chocolate belga.

Vitrine no Museu Magritte

Você pode descer pelo Grand Sablon rumo à “cidade baixa”, mas recomendo seguir ainda um pouco mais pela Rue de la Régence, até a Place Royale. Ali fica a entrada para os Musées Royaux des Beaux-Arts, um complexo com vários museus que, recentemente, ganhou a adição do muito aguardado museu dedicado ao artista surrealista belga René Magritte, talvez o mais famoso do país. O acervo de pinturas não é muito amplo, mas há algumas obras bem emblemáticas, e muitos artigos biográficos, como objetos pessoais, cartas etc, além de filmes.

Mont des Arts visto de cima

Logo a seguir, na nossa batida Rue de la Régence, fica o geométrico Parc de Bruxelles, em frente do qual fica o Palais Royal, a antiga “casa” da monarquia belga. Mas é da Place Royale que fica a descida para a cidade baixa que eu adorei fazer. Já da praça você avista um grande parque com escadas que vão descendo até o centro antigo da cidade, numa região conhecida como Mont des Arts. A descida é bem agradável, embora o espaço não tenha nenhuma atração especial.

Grand Place

Uma vez na parte baixa, convém consultar um mapa, porque as ruas tornam-se labirínticas, mas é certo que o movimento sempre leva até a Grand Place. A Grand Place, a praça principal da cidade, é frequentemente listada como um dos lugares imperdíveis da Europa, e realmente causa uma impressão grandiloquente com seus prédios antigos com muitos detalhes em dourado. Além da prefeitura (o prédio maior a ocupar a praça), há um museu da cidade; as demais construções representavam as corporações de diferentes profissões, como padeiros, açougueiros e cervejeiros (esta última é identificada como Maison des Brasseurs e fica no número 10 da praça).

Manneken Pis

Perto da Grand Place fica uma das mais procuradas (e mais decepcionantes) atrações de Bruxelas: o Manneken Pis, aquela estátua de um menino fazendo xixi. Olha, a estátua fica numa esquina qualquer da cidade velha, e passaria despercebida por seu tamanho diminuto se não fosse pela quantidade de turista em volta tentando tirar uma foto. A única coisa interessante é que volta e meia eles vestem o menino com trajes os mais diferentes (como nesse dia em que eu fui).

Galeries Saint-Hubert

Também não longe da Grand Place fica uma linda galeria de lojas com teto de metal e vidro conhecida como Galeries Saint-Hubert, e que incluem três ruas diferentes: a Galerie de la Reine, a Galerie du Roi e a Galerie des Princes. Ali dentro há um cinema, cafés e várias lojas de chocolate.

Arco do Parc du Cinquantenaire

Bruxelas também é a “capital” da União Europeia, reunindo prédios onde as decisões da comunidade são tomadas, mas o prédio principal, onde fica a Comissão Europeia (conhecido como Berlaymont, que tem a forma da letra “Y”), não está aberto para visitação. Essa parte da cidade, entretanto, merece ser visitada por outro motivo: o agradável Parc du Cinquantenaire (entre as estações Schuman e Mérode do metrô), emoldurado por um lindo arco. Em volta dele, há alguns museus, como o Autoworld (de carros), um museu militar, mas nada que tenha despertado meu interesse. O passeio vale, na minha opinião, pela beleza do parque em si.

Longe do centro da cidade, em um subúrbio chamado Heysel, fica o interessante Atomium (não tenho nenhuma foto decente de lá, pois fui à noite, mas no site deles você pode ver algumas imagens). São nove esferas metálicas ligadas por túneis/colunas, que representam um átomo de ferro superampliado. Eu não entrei, mas é possível passear lá dentro, indo de uma esfera a outra por meio de escadas. Aberto para a Feira Mundial de Bruxelas de 1958, a decoração tem a tônica dessa época. Para chegar, pegue o metrô até a estação com o nome do bairro (Heysel) e siga orientações.

Ao sul do centro, no bairro de Ixelles, fica o buxixo ao redor da recém-revitalizada Praça Flagey. A praça ganhou esse nome por causa do edifício Flagey, onde antigamente funcionava uma emissora de rádio belga (La Maison de la Radio). O Café Belga é um bom ponto para experimentar vários tipos de cerveja local e ver gente à noite, quando a praça fica bem cheia. Há também uma carrocinha onde se pode comer a famosa batata frita belga.

Cervejas belgas no Café Belga, Place Flagey

O sistema de transporte de Bruxelas inclui, além de um metrô bem organizado, bondes que percorrem vários bairros. Assim, fica bem fácil se locomover pela cidade sem necessariamente recorrer-se aos táxis. De qualquer forma, a parte central é bem compacta e o mais agradável, de fato, é conhecê-la à pé.

Para encerrar, um país que tem como grandes atrações a cerveja, o chocolate e os quadrinhos (não necessariamente nessa ordem) sempre esteve no meu top list de destinos a conhecer. Que ele ainda tenha as atrações que eu listei nesse texto também contribui para aumentar seu apelo turístico. Tenho certeza de que se você tiver uns dias sobrando na sua viagem, um pulo até a Bélgica trará boas surpresas. Não se esqueça de fazer um brinde com uma boa cerveja trapista e comer uma trufa em minha homenagem.

Meu roteiro pelo México – Parte 1

Chichen Itzá

O México é um país de grande riqueza e diversidade cultural. Embora muitos dos brasileiros que visitam este país limitem-se ao balnerário de Cancún, há muito mais o que se ver por ali. Nesse texto, não pretendo falar sobre cada um dos destinos que visitei especificamente, mas dar uma ideia de como nasceu o roteiro pelo país, como eu fiz os deslocamentos internos, quanto tempo durou a viagem, enfim, dar algumas ideias que podem ajudar alguém a organizar seu próprio roteiro.

Se você está montando uma viagem pelo México, seria bom arranjar um bom guia do país — Lonely Planet, Frommer’s, Rough Guide, Guia Ilustrado da Folha etc (ainda estou devendo um texto sobre guias de viagem, mas fica para o futuro). De qualquer forma, na internet pode-se achar muita informação a respeito das cidades, distâncias etc. Com um mapa, já é possível traçar um roteiro inicial e, depois, verificar se os deslocamentos internos são factíveis no tempo planejado.

Em primeiro lugar, acredito que existem três “eixos” principais em uma viagem ao México: praia, civilizações pré-colombianas e cidades históricas/coloniais. Você precisa ter em mente o que pretende conhecer, que tipo de viagem quer fazer. Se você quiser apenas aproveitar a praia, realmente escolher alguma cidade na costa caribenha (onde fica Cancún, embora eu não recomende que a cidade seja essa) e passar todos os dias lá já estará de bom tamanho. É bom ressaltar, também, que algumas cidades e localidades oferecem atrações que pertencem a mais de um dos “eixos” mencionados.

Dito isto, comece a procurar: onde achar cada um destes ingredientes? Vejamos as praias, inicialmente. O México tem uma costa bem extensa, tanto do lado do Atlântico como do lado do Pacífico. Do lado Atlântico, as praias da Riviera Maia, na Península de Yucatán, são imbatíveis (o Estado chama-se oficialmente Quintana Roo). Elas estão de frente ao Mar do Caribe, então têm aquela cor azul que todo mundo procura. As praias mais ao norte, banhadas pelo Golfo do México, não costumam ser mencionadas (o lance ali é petróleo!)

Já do lado do Pacífico, há várias opções. Acapulco é a mais famosa (apareceu até no programa do Chaves) mas, por ser a praia mais próxima da Cidade do México, sofreu com o turismo de massa contínuo e entrou em decadência. Li que, recentemente, estão fazendo vários investimentos para revitalizar o local e que os turistas estão voltando. É uma cidade famosa, de qualquer forma, pelos clavadistas, corajosos homens que saltam de penhascos no mar e, depois, pedem dinheiro pelo espetáculo. Mais ao norte, fica Puerto Vallarta, o balneário de quem mora em Guadalajara (a segunda maior cidade do México) e também bastante procurada por turistas gays. Mais ao sul, na província de Oaxaca, fica Puerto Escondido, muito procurada por surfistas. E aquela “perninha” na parte oeste do México? É a Baja Califórnia. Pelo nome e pela proximidade com os Estados Unidos, é muito procurada pelos americanos, sendo a região de Cabo San Lucas uma das mais procuradas.

Seu negócio é ver ruínas maias, aztecas, olmecas etc? Não haverá muitos problemas: elas estão em toda a parte, de norte a sul. As maias ficam mais ao sul, na Península de Yucatán e em Chiapas (e também na Guatemala). Os aztecas ficavam mais ao centro, e você pode visitar escavações que lembram o esplendor de Tenochtitlán, a capital azteca, na própria Cidade do México (que foi construída por cima dela). Mas muitas outras civilizações habitaram o que hoje é o México, e há ruínas delas espalhadas pelo país.

Guanajuato

Assim como os portugueses construíram cidades em sua colônia, os espanhóis deixaram sua marca no México. As marcas do período colonial espanhol também estão em toda a parte, mas há centros mais conhecidos como Puebla e San Miguel de Allende.

Os voos diretos do Brasil para o México saem de São Paulo e vão para a Cidade do México. Acho que já houve voos para Cancún, mas, hoje, apenas fretados. Se você optar pela companhia Copa, que, no Brasil, sai de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte e de Manaus, você pode, via Panamá (todos os voos param lá), ir para outras cidades no México, como Guadalajara e Cancún. Aliás, fazer viagens internas de avião no México pode ser irritante: quase todos os voos param na Cidade do México, de modo que, muitas vezes, você terá que fazer conexão lá e dar uma volta danada.

Berlin, Berlim

A room with a view: Holzmarktstraße 75

Como relatei no primeito post, passei três meses em 2009 em Berlim, estudando alemão. Na realidade, foi minha segunda vez na cidade; em 2007, fiz uma viagem de um mês que incluiu Suíça, Alemanha e Holanda. Na Alemanha, conheci várias cidades: Munique, Freiburg, Heildeberg, Colônia, Hamburgo, Lübeck, Dresden e, por último, Berlim. Várias dessas cidades valem muito à pena a visita, mas eu realmente apaixonei-me por Berlim.

Como já tinha estudado um pouco de alemão no Brasil, mas ele estava um pouco capenga, resolvi aproveitar uma licença e ir estudar alemão in loco. Claro que a cidade de escolha foi Berlim. E fiquei ainda mais apaixonado pela cidade.

Berlim não é tão bonita como Dresden ou Munique. Tem “cantos bonitos”, como eu costumo dizer, mas a cidade, como um todo, ainda é bastante bagunçada: herança do longo período em que ficou dividida. E, até hoje, vinte anos após a reunificação, Berlim ainda é um canteiro de obras, com lugares sendo restaurados e prédios novos sendo construídos onde antes ficavam ruínas ou passava o muro. E isso só acrescenta ao caos.

Em Berlim, contudo, a história é muito viva, principalmente em relação ao período do nazismo, da Segunda Guerra Mundial, e da divisão pelo muro. Em alguns lugares, como no Museu Judaico ou na Topografia do Terror, senti calafrios. Acredito ser muita energia do passado concentrada.

Mas Berlim, antes das guerras, era uma das principais cidades europeias. Nem sempre foi assim. Para padrões alemães, a história de Berlim é relativamente recente, e a cidade era uma vilazinha até o século XVIII. Ela só começou a ganhar importância quando a Prússia, império do qual era capital, começou a surgir como potência. No final do século XIX e começo do século XX, contudo, já era uma das principais cidades da Europa, com cerca de 2 milhões de habitantes.

Assim, Berlim também tem heranças dessa época de abundância. Museus, momumentos e alguns palácios refletem a época de ouro da Prússia. Cabarés, bares e boates tentam recriar o clima “decadência-liberou-geral” do período após a Primeira Guerra.

Por ter sido uma cidade dividida por mais de vinte anos, há muita coisa em duplicidade, o que só aumenta as opções para os turistas. Havia casas de ópera no lado ocidental e oriental, e ambos disputaram tesouros artísticos de fazer cair o queixo após a divisão, com museus de nível internacional dos dois lados. Após a unificação, os equipamentos culturais ficaram disponíveis para todos. As casas de óperam disputam público com programação para todos os gostos. Os museus estão passando por uma reformulação do acervo, para que ele seja unificado e redividido, com uma coerência maior nas coleções de cada museu — com enfoque, por exemplo, em arte egípicia, grega, moderna ou mesmo em esculturas.

Há também dois aeroportos que servem a cidade, embora ambos tenham um jeito meio improvisado — culpa, mais uma vez, da divisão, que transformou Frankfurt e Munique nos principais hubs aeroportuários da Alemanha. Nunca usei o Schönefeld, mas o Tegel parece um pouco uma rodoviária.

Aos poucos, pretendo falar um pouco sobre os bairros e atrações de Berlim. Fica difícil condensar tudo num texto — da última vez em que escrevi um e-mail para um amigo que me pediu dicas da cidade, deu umas sete páginas. O que importa é que cada vez mais gente tem ido conhecer Berlim — que já é a terceira cidade mais visitada da Europa — e a impressão geral, ao menos o que eu tenho ouvido, é muito boa. Vá, e vá logo, pois a impressão que se tem é que a cidade está em seu ápice.

Boston

Faneuil Hall

Boston é uma das cidades mais antigas dos Estados Unidos, fundada na primeira metade do século XVII por puritanos vindos da Inglaterra. Teve um papel fundamental na independência daquele país, ali começando o movimento de resistência à coroa inglesa. Além disso, reúne duas universidades que estão entre as mais prestigiadas naquele país — a Universidade de Harvard e o MIT (Massachusetts Institute of Technology). Por isso, Boston reúne uma simbologia histórica e uma importância central para os Estados Unidos. Foi lá, por exemplo, que John F Kennedy nasceu, cresceu e começou a aparecer; há alguns lugares ligados à sua história e que podem ser visitados, como o John F Kennedy Library & Museum e o John F Kennedy National Historic Site.

OK, mas você não conhece quase nada de história dos Estados Unidos e nem se interessa muito em saber quem foram Paul Revere e Samuel Adams. Não é americano, de modo que estes chamarizes pouco significam para você. Ainda assim, Boston vale a visita. Por ser uma cidade antiga, foge daquele padrão de cidade americana grande, com avenidas largas e arranhacéus genéricos. Não que Boston não os tenha, mas eles não são onipresentes nem osfuscam as casinhas de tijolo marrom ou de madeira pintada, típicas do período mais antigo da história americana. Há muita água, pois Boston fica em uma baía, às margens de um rio — o que significa que a comida é rica em peixes e frutos do mar. Imigrantes italianos e irlandeses deram sua contribuição, e os estudantes das várias instituições de ensino da cidade, vindos de várias partes, contribuem com um pouco de alegria universitária. Há parques bonitos, e as pessoas são educadas e simpáticas. Enfim, estando a pouco mais de 3 horas de trem de Nova Iorque, pode ser uma boa escapada se você estiver cansado(a) da loucura da megalópole.

Faixa vermelha da Freedom Trail

A primeira dica de programa é a mais óbvia: a Freedom Trail (Trilha da Liberdade). A trilha foi criada para marcar os 16 lugares mais significativos da luta pela independência, que ficam mais ou menos espalhados na área central de Boston. Bem, mas você é daqueles mencionados acima que não se interessam por história americana? Não tem problema: a trilha passa pelos prédios antigos mais interessantes da cidade (alguns dos quais ficam meio escondidos no meio de arranhacéus, diga-se de passagem), o que significa que você pode conhecer alguns dos cartões postais e a típica arquitetura colonial sem precisar saber muito de história.

O National Park Service Visitor Center, que fica localizado bem ao lado da Old State House, oferede tours gratuitos da Freedon Trail, com um guia passando aquelas informações históricas pelas quais nem todo mundo se interessa. Eu acompanhei um desses tours e não gostei muito: passamos por poucos lugares da trilha, a guia falava demais e de uma forma desinteressante, e o passeio acabou ficando longo e enfadonho. No mesmo Visitor Center, contudo, você pode pegar material e fazer a trilha por conta própria. E não é difícil: a trilha é bem demarcada em ruas e calçadas por uma faixa vermelha (retratada na foto acima) ou por tijolos avermelhados. Não tem como errar.

Meus locais preferidos da trilha foram:

Old State House

1) a própria Old State House, que atualmente ostenta o título de edifício público mais antigo da cidade. É uma casinha em estilo puritano com um relógio em cima e um balcão de onde foi lida a Declaração de Independência pela primeira vez para os cidadãos de Boston. A coitada parece meio deslocada no meio de vários prédios altos, mas é impressionante como ela se destaca.

2) o Faneuil Hall (a primeira foto no começo do texto) era uma espécie de mercado central da cidade e ponto de encontro para os revolucionários (o que lhe rendeu o apelido cafoninha de “Cradle of Liberty”, “Berço da Liberdade”). Atualmente tem lojinhas de lembranças turísticas e um café. Tem esse nome meio francês porque quem o construiu foi um comerciante chamado Peter Faneuil, um dos muitos protestantes franceses huguenotes que fugiram para Boston por causa da perseguição católica.

3) a Old North Church, uma igrejinha protestante encrustada no bairro de North End. Por fora, tijolinhos vermelhos e a torre branca, como muitos outros prédios da cidade; por dentro, quase nada de decoração, tudo muito clean, bem ao estilo puritano. Mas o que chama a atenção é a ausência dos tradicionais bancos de igreja: são vários “compartimentos” pequenos com meia parede, acessíveis por uma portinha, cada um com sua prórpia Bíblia.

Casas coloridas em Charlestown

4) Charlestown/Bunker Hill Monument: se eu entendi direito, as áreas do outro lado do rio Charles, como Cambridge e Charlestown, são tecnicamente outras cidades, mas perfeitamente integradas a Boston. A Freedom Trail atravessa o rio e chega a Charlestown, terminando precisamente no Bunker Hill Monument, cenário de uma das batalhas da guerra da independência americana. Em cima de um monte, o monumento é um daqueles obeliscos fálicos genéricos, mas o que vale à pena a caminhada é passar por Charlestown, com suas casinhas de madeira coloridas (foto acima) e praças pitorescas, como a City Square. Caminhando em direção à baía, vê-se o navio mais antigo da marinha americana, o USS Constitution, que pode ser visitado.

Se você fizer a Freedom Trail, vai passar bem no meio de North End, um dos bairros de Boston. Se não fizer, vale à pena dar um pulo lá de qualquer maneira. Além da arquitetura antiga, o bairro recebeu maciça imigração italiana, cuja culinária pode ser conferida na alegre Hanover Street, com dezenas de opções de restaurante para escolher. A Hanover St parece ficar animada todos os dias da semana, pois em plena segunda-feira, na primeira vez em que fui jantar por lá, o movimento de pessoas era grande.

A propos

Outro dia, uma amiga mandou-me um e-mail pedindo para que eu desse umas dicas de restaurantes no Rio. Eu nem vou tanto assim para lá, e muitas vezes acabo comendo em locais repetidos que eu já conheço e que eu sei que serão bons. Mesmo assim, comecei a escrever a mensagem e, quando vi, já havia colocado um monte de lugares, alguns que eu conheci pessoalmente, outros de que ouvi falar. Como resposta, recebi dessa amiga o seguinte comentário: “adoro suas dicas de viagem!”
Ano passado, estive por três meses em Berlim, estudando alemão. Em consequência, tornei-me uma fonte natural para amigos que estão indo para lá. No final do ano, um amigo pediu umas dicas e lá fui eu escrever um e-mail com o que eu sabia da capital alemã, com dicas de roteiro, os melhores museus, alguns restaurantes, bares, baladas. Quando dei por mim, o texto já tinha sete páginas.
Pensando a respeito, comentei com outro amigo que talvez pudesse trabalhar com isso, seria algo que talvez me daria prazer. Acontece que eu tenho um emprego estável (sou servidor público) que me paga razoavelmente bem, e é exatamente isso que tem me permitido, ultimamente, fazer viagens. Vejam bem, eu não odeio meu trabalho. Ele tem , claro, suas dificuldades, seus estresses, como, acredito, todo emprego tem; mas também tem seus aspectos bons. E tem um lado social interessante também. Mas, talvez, trabalhar com viagens fosse mais prazeiroso para mim — não tenho como saber ao certo, a não ser o enorme prazer que eu sinto escrevendo as dicas de viagens para meus amigos.
Porém, como ressaltei acima, para viajar hoje em dia, preciso de duas coisas: férias com certa regularidade e dinheiro para pagar os custos, exatamente o que meu atual trabalho proporciona. O amigo com quem conversava deu a ideia: por que você não escreve um blog? Havíamos acabado de assistir àquele filme “Julie & Julia”. Julie, uma mulher um pouco infeliz no emprego burocrático, resolve começar um blog, no qual se propõe a fazer todas as receitas de um dos mais famosos livros de culinária dos Estados Unidos, escrito por Julia Child, relatando suas impressões e dificuldades.
Hesitei um pouco, já que o blog parece uma ferramenta um pouco gasta, ainda mais em tempos de Facebook e Twitter. E não quero me propor a nada, não quero ter nenhum desafio — meu trabalho já me dá bastante… trabalho, além das atividades quotidianas. Também não quero fazer disso uma profissão, um emprego — ao menos não por agora (quem sabe quando eu me aposentar?).
Ainda assim, a ideia pareceu-me tentadora. Primeiro porque, sem qualquer obrigação empregatícia, a publicação de textos aqui seguirá meu próprio ritmo, meu próprio tempo. Quero escrever quando estiver com vontade, quando quiser lembrar histórias de viagens antigas, e também quando quiser relatar meus preparativos para as próximas viagens, que são, para mim, tão prazeirosos quanto a própria viagem em si. O fato de o blog ser uma plataforma gasta tampouco me assusta, pois meu objetivo não é atingir um grande público, mas usá-la (a ferramenta) para fazer o que já faço, apresentar impressões e dicas para os amigos, sem o risco de que elas se percam em e-mails apagados ou na memória falha. Se pelos menos eles puderem valer-se do blog para suas viagens, já está de bom tamanho para mim.
O nome do blog pode parecer exagerado, mas é o que sinto atualmente. Não digo que viajar é para todo mundo, tem gente que não gosta e pronto. Mas tenho certeza que há tipos diferentes de viagens que podem agradar a quase todas as pessoas, basta conhecer-se um pouco para saber o que funciona e o que não funciona. Para algumas pessoas viajar é descansar: uma boa praia ou uns dias num chalé na serra são perfeitos. Outras querem ver coisas diferentes, querem ir para lugares exóticos. Algumas gostam de cultura, outras de comer bem, outras de farra e de baladas. Para alguns, hotel confortável é fundamental; outros se viram bem em um albergue.
Talvez se possa aplicar ao viajar aquela mesma afirmação que costumamos ouvir a respeito da comida japonesa: tem que ir algumas vezes para começar a gostar. Claro, algumas pessoas já nascem gostando (os japoneses), mas algum “treino” é bem vindo. Comigo pelo menos foi assim. Quando era pequeno, minhas viagens com a família (grande) eram normalmente de carro, e aí tudo era festa. Depois passei um tempo sem viajar muito, estudando e trabalhando. Quando retomei, estranhei. Dá trabalho, tem que planejar e reservar um monte de coisas, você tem que sair da sua rotina, que você já conhece muito bem, muitas vezes esforçar-se num outro idioma, às vezes lidar com comportamentos e hábitos estranhos. Com o tempo, entretanto, isso vicia. Alguns aspectos que você achava serem ruins passam a ser vistos com outros olhos, e você descobre também que há muita coisa boa numa viagem.
Nos textos do blog, tentarei falar a esse respeito. Sobre o que é bom em viajar, mas também sobre o que dá errado. É importante ter em mente que nem tudo dá certo quando se viaja, mas isso também faz parte da experiência. Na próxima vez, você já estará mais alerta com o que falhou. Além disso, não é ótimo contar esses “micos” para a família e os amigos depois? Sempre que possível, falarei de lugares específicos, mas não tomem as dicas como listas fechadas, pois mesmo naqueles lugares para onde costumo ir com mais frequência ainda há muito a explorar. Considerem as dicas como uma entrada, um aperitivo para abrir o apetite e a vontade de fazer seu próprio roteiro. Desde que depois vocês dêem uma passadinha aqui para me contar o que descobriram.