Réveillon na Praia do Rosa

Praia do Rosa vista de cima

Ano passado relatei minha experiência de réveillon em Trancoso. Esse ano pretendo falar sobre o réveillon que passei na Praia do Rosa, em Santa Catarina, na virada de 2010 para 2011.

Igreja antiga em Garopaba

A Praia da Rosa fica oficialmente no município de Imbituba, no caminho para Garopaba, ao sul da Ilha de Santa Catarina (a “parte turística” da capital Florianópolis). A cidade de Garopaba sempre foi bastante associada ao surf, já que foi lá que surgiu a marca Mormaii — embora, como mostra a foto acima, a cidade seja bem antiga. A Praia do Rosa, também bastante procurada por surfistas, fica alguns quilômetros distante do centro de Garopaba e conta com uma estrutura própria.

É verdade que falar em “estrutura” talvez seja um exagero, já que boa parte das ruas não tem qualquer tipo de pavimentação e a vila tem um ar bem rústico. Mas acho que isso faz parte do charme procurado por quem vai para lá, e não significa que o lugar não tenha nada a oferecer a quem procure algo mais confortável ou requintado. Comi em excelentes restaurantes — há opções de comida tailandesa, japonesa e italiana, por exemplo. Além disso, há pousadas charmosas (e caras), com toda a infraestrutura de um hotel bem equipado.

Canto esquerdo da Praia do Rosa (Rosa Norte)

De qualquer forma, em comparação com o destino de que eu falei ano passado (Trancoso), acho que a Praia do Rosa (ou simplesmente Rosa) é menos jet-set e os preços ainda são bem mais em conta. Embora num volume largamente inferior que a capital Florianópolis, o número de pessoas lá na época do réveillon era considerável, de modo que quem quer agito e badalação também não vai se decepcionar.

Mas vamos do começo. Como faz para chegar lá? Pode-se ir de ônibus a partir da rodoviária de Florianópolis, com destino a Garopaba, mas ele não para na Praia do Rosa. É possível parar na SC-434 (veja mapa acima), no caminho para Garopaba, mas de lá até o “centro” da Praia do Rosa em si há ainda uma distância considerável. Algumas pessoas do nosso grupo conversaram com o dono da nossa pousada e ele gentilmente se ofereceu para buscá-las nesse local; é possível que você consiga combinar alguma coisa semelhante no lugar em que for ficar.

Eu preferi alugar um carro em Florianópolis e ir dirigindo até lá. O caminho é pela perigosa BR-101 (veja mapa acima), que percorre toda a Região Sul, mas o trecho de Floripa até lá é bem tranquilo e está quase todo duplicado. Na ida gastamos menos de 1 hora, mas a volta foi mais complicada, pois pegamos muita gente voltando para casa nas estradas, e os trechos não-duplicados acabaram engarrafando. Por isso, se tiver voo marcado em Florianópolis na volta, programe-se para sair com bastante antecedência do Rosa.

Praia do Rosa

A praia em si é linda, como é possível ver pelas fotos que eu coloquei aqui, mas também é bem perigosa. Passamos pela desagradável experiência de ver uma mulher morrer afogada a poucos metros de onde estávamos. Há salva-vidas pela praia, mas nem sempre é possível socorrer quem está afogando a tempo; além do mais, eles tinham poucos equipamentos médicos e o socorro tem que vir de helicóptero. Por isso, todo cuidado é pouco: não nade nas áreas indicadas como perigosas e não se arrisque muito até uma parte mais funda. A água, é claro, é fria como em Florianópolis, mas com sol não fez muita diferença.

Morros cercando a Praia do Rosa

O grande desafio é que, assim como em Trancoso, há um grande desnível entre a praia e a vila. Não chega a ser como o paredão de Trancoso, mas a área ao redor é basicamente de morros, de modo que boa parte das pousadas fica dependurada nessa região. Há algumas poucas pousadas mais próximas da praia, mas a maioria fica numa parte mais alta mesmo. A vila fica numa área mais plana, mas também mais alta que a praia. Se você tiver carro, pode descer até perto da praia, numa rua que segue a partir da vila, mas nos dias de maior movimento fica difícil estacionar. O melhor é fazer mesmo como a maior parte das pessoas, e descer por alguma das trilhas existentes ou pela rua que parte da vila.

Deck do meio da praia

Você provavelmente chegará na praia a partir do meio dela, onde há um deck recém-construído, com algumas lojas e locais para comer, e uma pequena lagoa. Nessa parte não há muita gente; as pessoas se concentram principalmente nos “cantos”. Olhando para a praia, o “canto esquerdo” (Rosa Norte) é o mais “descolado”, reunindo o pessoal mais jovem, mas tem uma estrutura ruim, com alguns poucos quiosques vendendo o básico e com poucas cadeiras para alugar. Já o “canto direito” (Canto Sul) tem alguns bares mais estabelecidos — como o Parador Swell — e reúne mais famílias.

Tenda do réveillon Virada Mágica no hotel Fazenda do Rosa

No dia do réveillon propriamente dito, havia algumas festas anunciadas, mas parece que todo mundo foi mesmo para a festa do hotel Fazenda do Rosa, bem perto da praia. A festa chama-se “Virada Mágica”. Preferimos ver os fogos da pousada onde estávamos, onde os proprietários ofereceram aos hóspedes algumas comidinhas e espumante. Além disso, a vista lá de cima dos fogos e da praia é espetacular… Depois descemos para a praia, que estava bem cheia — muita gente da própria festa acabou saindo e indo para lá, já que era possível ouvir a música da praia também.

Experimentamos alguns lugares lá para comer e gostamos da maioria. Há algumas opções na própria vila, enquanto outras ficam em pousadas. Vou listar aqui o que eu conheci (e gostei) e algumas outras dicas que recebemos:

Prato do Tigre Asiático

1) Tigre Asiático: na Rua Calçada (a rua mais movimentada da vila), tem um ambiente bem bonito, com decoração no estilo tailandês. Os pratos não são tão apimentados e estavam bem feitos. É bem badalado e costuma ter espera.

2) Sapore di Pasta: fica dentro da pousada Morada dos Bougainvilles, no Caminho do Rei. O lugar é bem charmoso e uma boa pedida para um jantar romântico. O spaghetti negro com lascas de salmão e molho de laranja estava uma delícia! O forte do cardápio, como dá para ver pelo nome, são as massas.

3) Refúgio do Pescador: dentro da pousada Hospedaria das Brisas, também no Caminho do Rei, o forte aqui são os peixes e frutos do mar. Não gostei muito do atum que eu pedi — passado demais para o meu gosto — mas os outros pratos da mesa estavam bem feitos.

4) Dragon Sushi: fica na entrada da vila do Rosa, próximo ao posto policial. Nesse não fomos, mas recebemos muitas recomendações na pousada em que ficamos.

5) Pizzaria Margherita: próxima ao centrinho, na esquina entre a estrada que leva à praia e o Caminho do Rei. As pizzas são ótimas, só não gostamos do vinho branco quente! Comemos lá no dia 31 de dezembro, então pode ser uma boa pedida se você está procurando um lugar para comer antes do réveillon.

6) Lola: também na Rua Calçada, no centro, é uma mistura de bar e restaurante. Os pratos estavam bons, o problema foi a demora: o atendimento deixou a desejar. Quase sempre tem música ao vivo.

Já no quesito diversão noturna, o lugar mais animado era o bar Beleza Pura, na Estrada da Praia, perto da esquina com a Rua Calçada. Se você chegar cedo nem vai precisar pagar para entrar. Achamos as bandas que tocavam música ao vivo mais ou menos, mas também tem DJ tocando. Outro lugar que costumava encher era o Pico da Tribo, que fica um pouco escondido na parte de dentro da vila — melhor pedir indicações de como chegar. Costuma encher tarde e o cardápio musical é variado, depende do dia. Há ainda o Mar del Rosa, com programação mais voltada para a música eletrônica.

Para encerrar, uma boa fonte para ficar por dentro da Praia do Rosa e ver o que está rolando é o Guia do Rei.

Recife e Olinda – Parte 1

Recife é a segunda cidade mais populosa do Nordeste, atrás de Salvador — embora a região metropolitana da capital pernambucana, com os municípios que se conglomeram ao seu redor, seja maior que a da capital baiana. Apesar disso — ou talvez por causa disso — a cidade não costuma ser incluída entre os destinos mais procurados pelos turistas que vão ao Nordeste. Pode ser que as pessoas, no geral, quando vão para a praia, queiram descanso e tranquilidade, e não o caos de uma cidade grande. De todo modo, Salvador é bastante visitada por turistas, enquanto Recife acaba sendo meio relegada. Há, claro, o problema da violência, tão presente nas cidades grandes brasileiras, e bastante mencionado quando se fala de Recife. Só que Salvador também padece desses problemas (minha irmã, por exemplo, já foi assaltada na frente do hotel em Salvador); o Rio, da mesma forma, é bastante lembrado pela violência, e as pessoas continuam visitando ambas — o que é bom, porque, de fato, são cidades lindas. Tentarei aqui explicar porque acho que Recife e sua irmã/vizinha Olinda devam ser visitados também.

Esclareço, desde já, que nunca visitei essas cidades durante o Carnaval, período em que, acredito, a situação deva ser bem diferente (leia-se uma muvuca). De qualquer forma, várias das atrações estão lá, sempre, e podem ser visitadas em qualquer época.

Vista de Olinda do Alto da Sé, com Recife ao fundo

Como se sabe, Olinda foi estabelecida primeiro, pelos portugueses. Quem já foi a Portugal, entende perfeitamente porque os colonizadores construíram Olinda numa área tão irregular, cheia de morros. Hoje, são as ladeiras de Olinda que fazem a fama da cidade e ficam repletas no Carnaval. Subir aquelas ruas íngremes realmente dá uma canseira, mas as vistas valem à pena. Se você vier de táxi de Recife, como eu fui nas duas vezes em que visitei a cidade, peça para o motorista parar logo no Alto da Sé. Chegando no ponto mais alto da cidade, você já economiza perna e sola de sapato e, para baixo, como diz o ditado, todo santo ajuda. Assim que o táxi terminar de subir a inclinada Ladeira da Misericórdia (você vai pedir muita misericórdia se subi-la a pé), pode parar. Lá já é a área conhecida como Alto da Sé. Há uma pequena igreja, chamada Igreja da Misericórdia, que nem sempre fica aberta (parece que ela está, atualmente, em reforma), mas a grande atração ali são as vistas da cidade antiga (Olinda tem uma parte nova, cheia de prédios altos também) e do mar lá embaixo. Você provavelmente já será abordado por pessoas se oferecendo como guia; se ão quiser o serviço, agradeça e simplesmente ignore, porque eles já vão começar, provavelmente, a contar a história de Olinda (todos recitam o mesmo texto). Se você aceitar o guia, combine o preço antes, porque depois ele vai querer te cobrar caro.

Antigo observatório do Alto da Sé

Igreja da Sé

Ao fundo do Largo da Misericórdia, você logo verá a Igreja e o Convento da Conceição, que é bem bonita por fora (não cheguei a visitá-la por dentro). A rua que segue à direita é a Rua Bispo Coutinho. Ali há algumas lojinhas de artesanato (meio caras), um antigo observatório, recentemente restaurado, e várias tendas vendendo quitutes locais — a tapioca de lá é famosa (e gigantesca). Ao final da rua, antes da descida, fica a Igreja da Sé propriamente dita. O interior é um pouco decepcionante, fruto de incêndios e reformas, mas é possível ainda ver lindos azulejos portugueses. As vistas da lateral da igreja, com os prédios de Recife ao fundo, são de tirar o fôlego.

Interior da Igreja do Mosteiro de São Bento

Há várias outras igrejas espalhadas, mas eu só visitei outra: a do Mosteiro de São Bento, na parte mais baixa da cidade antiga. Por fora a vista já é bem bonita, com vários coqueiros ladeando a fachada de estilo barroco. O interior é todo dourado (não sei dizer se é ouro de verdade) e enche os olhos. É possível assistir a uma missa com cantos gregorianos lá.

Casinhas coloridas numa ladeira de Olinda

Considero que o melhor de Olinda é sair andando pelas ladeiras e vendo as casinhas coloridas. A ladeira da Rua do Amparo é uma das principais para admirar a arquitetura colonial, além de ser cheia de restaurantes (é lá que fica o Oficina do Sabor, um dos mais famosos). Ali, também, fica o Museu de Arte Contemporânea de Olinda (oficialmente na Rua 13 de Maio, mas que é uma continuação da Rua do Amparo). Algumas ruelas, claro, são feias e dão um pouco de medo de entrar, mas se você se ater aos locais mais turísticos, não vai ter problemas.

Fachada do Museu de Arte Contemporânea de Olinda

Vista de Olinda

No geral, Olinda, com o perdão do trocadilho infame e já bem gasto, é realmente linda. As casas encrustradas nos morros, com aqueles telhados típicos da arquitetura colonial, mescladas com uma vegetação farta, é uma paisagem que deixa todo mundo boquiaberto. Há restaurantes aclamados e pousadas charmosas e, se você quiser só descansar (ou quiser ficar perto do Carnaval, nesse período), pode ser uma boa hospedar-se em Olinda. Das duas vezes em que eu fui, contudo, fiquei em Recife. Acho mais central em relação às atrações em geral, além de ter mais opções para sair à noite.

Cuidado com o tubarão! Aviso na praia de Boa Viagem

A área mais famosa de Recife para quem é de fora é o bairro de Boa Viagem, mas quem vai em busca de praia vai ficar um pouco decepcionado — certamente não é a praia mais bonita que você terá visto. Além disso, os avisos de “cuidado, tubarões” assustam bastante. A parte da praia mais badalada é em frente ao Ed. Acaiaca, um prédio de estilo moderno que lembra os de Brasília. De qualquer modo, como me confidenciou um amigo que é de lá, os locais preferem morar na Zona Norte, em bairros como Espinheiro, Graças e Aflitos. É longe da praia, mas nesses lugares há uma boa concentração de bares e restaurantes (segundo ele, os melhores restaurantes de Recife estão por lá), além de prédios bons, o que é motivo de sobra para fincar residência. Portanto, se você, de fato, busca praia, é melhor sair de Recife/Olinda — como fazem, aliás, os locais — e ir rumo a Porto de Galinhas — há várias praias no caminho.

Colorido na Rua Bom Jesus

Ainda assim, Recife tem atrações de outra espécie. O centro histórico, que fica numa ilha de frente para o mar, tem algumas construções colonais já recuperadas (e outras ainda nesse processo). A rua mais arrumadinha da região é a Rua Bom Jesus, onde fica a Sinagoga Kahal Zur Israel, considerada a mais antiga das Américas. Os judeus se estabeleceram ali na época dos holandeses — aliás, Recife se desenvolveu na época holandesa, pois, como disse acima, os portugueses instalaram-se inicialmente em Olinda — e, com a retomada da cidade por Portugal, fugiram com os holandeses para a colônia de Nova Amsterdã, que depois virou Nova Iorque. Hoje, a sinagoga é um centro judaico, e pode ser visitada.

Fachada da Sinagoga Kahal Zur Israel

Colômbia – Cartagena e Medellín

Placa na Calle de la Amargura em Cartagena

(Esse texto é uma continuação desse outro, em que falei um pouco sobre a Colômbia e Bogotá).

Cartagena de Índias, no norte da Colômbia, às margens do Caribe, é talvez o destino mais visitado do país — é impressionante a quantidade de europeus que se vê por lá. É uma cidade linda, de fato, mas super quente (pense naquele clima caribenho-tropical). A parte central da cidade, chamada de Ciudad Amurallada é o ponto de maior interesse. Na verdade, dentro da Ciudad Amurallada ficam diferentes bairros, como o Centro propriamente dito, San Diego, Getsemaní etc. Por isso, mesmo dentro dos antigos muros, existam ainda áreas que precisam passar por uma arrumação urgentemente. De qualquer forma, dentro da parte chamada de Centro, mais turística, as coisas já estão bem renovadas, e acho que é ali que vale à pena ficar, embora isso custe mais caro. Ali há restaurantes legais e os prédios já foram pintados, estão bem coloridinhos, o que confere a graça do local. Almocei num restaurante na Plaza Santo Domingo cujo nome não me recordo, mas essa praça é uma área com várias opções, vale dar uma volta e ver o que te apetece.

Prédios coloridos em Cartagena

Dentre as atrações da parte antiga da cidade, uma das mais “estranhas” é o Palacio de la Inquisición. Como Cartagena tornou-se um centro importante da América espanhola, os colonizadores levaram a Inquisição para lá, e esse Palácio era seu “quartel-general”. Pode-se ver instrumentos de tortura usados na época, mas não há muita coisa exposta. De qualquer forma, o casarão antigo reformado vale a visita. As placas das ruas, como a retratada na foto que dá início ao texto, em estilo antigo, são também uma atração à parte. Aliás, aqui vai uma dica de navegação: no centro histórico, as ruas mudam de nome a cada quarteirão. Por isso, um mapa é fundamental.

Interior do Palacio de la Inquisición

Vista do topo das muralhas, com o bairro Bocagrande ao fundo

Apesar de Cartagena ficar no Caribe, nessa área da Ciudad Amurallada não há praias — mas você pode ver o mar subindo numa parte das muralhas que cercam a cidade. A praia urbana de Cartagena fica no bairro de Bocagrande, uma prenínsula alongada e estreita que se forma a partir do centro da cidade. Só fui dar uma olhada por lá, lembrou-me muito Ipanema, com prédios mais novos e bem mais altos que na parte antiga, além de gente praticando esportes no fim da tarde na praia. Não cheguei a “pegar praia” por ali, mas vi gente com cadeiras e guarda-sóis. Por ser uma área aparentemente residencial de alto padrão, deve abrigar restaurantes, bares e lojas legais (algumas ruas de comércio pareceram-me bem agitadas, de fato).

Playa El Agua

As praias bonitas mesmo, com aquele mar azul-caribe, ficam um pouco mais distantes de Cartagena. Por isso, quem quer pegar praia mesmo por lá acaba pegando um barco num ancoradouro sujo, uma verdadeira pocilga (pelo menos era assim quando fui, talvez melhorado por causa dos turistas) e vai para as Islas del Rosario. Não cheguei a ir até lá, fui apenas até a Playa El Agua, no meio do caminho, que é linda de morrer. Porém, há poucas coisas por lá, só alguns quiosques rústicos onde o povo quase implora para você comer ou comprar alguma coisa. É triste porque revela um pouco da pobreza local, mas acho que ainda assim vale à pena a visita, é uma praia muito bonita onde se pode passar o dia descansando, sem fazer nada.

Catedral e fonte no Parque de Bolívar, Medellín

Como fomos de ônibus de Cartagena até Bogotá (ótimo para ver o interior do país) resolvemos parar em Medellín também, que fica mais ou menos no meio do caminho. É uma cidade que ainda evoca na cabeça de muitos o passado recente, quando o Cartel de Medellín era um dos mais temidos da Colômbia. Felizmente, após a morte do Pablo Escobar, esse tempo ficou para trás. Não tenho muitas dicas para dar de lá, mas pareceu-me uma cidade moderna e bem organizada, com um sistema de metrô elevado. É uma das cidades mais ricas e industrializadas do país, mas não achei a cidade poluída — ao contrário, é cercada por montanhas bem bonitas. Há um centro antigo (que deve ser evitado a qualquer custo à noite) com construções coloniais.

Escultura de Botero com o Museo de Antioquía ao fundo

Estacas no Parque de las Luces, Medellín

Pon tus pies aquí: Parque de los Pies Descalzos

Além disso, por ser a cidade natal do Botero, há um museu recheado de obras dele — embora não exclusivo, como o de Bogotá. Chama-se Museo de Antioquía, o nome da província onde fica Medellín. As esculturas dele, da mesma forma, povoam a cidade. Achei interessante também o Parque de Las Luces, em frente à moderna biblioteca da cidade, com intrigantes estacas de concreto, e o agradável Parque de los Pies Descalzos, onde você é convidado a colocar os pés na água, na areia, na grama… enfim, diferentes sensações. O agito local também fica numa Zona Rosa (pois é, as cidades de lá parecem ter várias “Zonas Rosas”), que estava bem animada na noite em que fomos.

Meu roteiro pelo México – Parte 3

Puerto Vallarta

Queria conhecer uma praia do Pacífico do México. O destino mais lógico seria Puerto Escondido, que fica no próprio Estado de Oaxaca. Acontece que, ao contrário do que parece, precisa-se de umas sete horas para ir da capital até lá, de ônibus — aparentemente é um trecho com muitas montanhas. Puerto Escondido tem aeroporto, mas é claro que achar voos diretos de Oaxaca até lá não é uma tarefa fácil. Acabei decidindo ir para Puerto Vallarta (como eu mencionei no texto anterior, a cidade de praia mais próxima de Guadalajara), voando até lá. Houve uma conexão na Cidade do México, de qualquer maneira, mas pelo menos eu não tive que dar uma super volta para chegar até o destino.

Puerto Vallarta, Plaza Principal, Zona Centro

Puerto Vallarta parece sofrer de pressões semelhantes pelas quais passam Acapulco e Cancún. Há resorts aparecendo o tempo todo e, sendo uma cidade relativamente próxima dos Estados Unidos, há voos diretos do vizinho do norte até lá. Ainda assim, a cidade mantém um centrinho histórico e há áreas que não passaram por um processo de verticalização acentuada, como a Zona Romántica. Fiquei numa delas, onde fica a Playa de los Muertos (que nome tétrico, não?), que eu achei mais ou menos em termos de beleza — a areia é meio cinza e volta e meia o mar é invadido por algas. A cidade não estava muito cheia, o que para mim foi um ponto negativo, já que estava viajando sozinho, mas pode ser uma boa olhar isso se você quiser fazer uma viagem mais tranquila. De qualquer forma, achei que se come bem por lá.

De  Puerto Vallarta eu voei até a Cidade do México, onde passei um final de semana. De lá fiz uma pequena viagem até Guanajuato e San Miguel de Allende (fiquei duas noites na primeira e uma na segunda), antes de voltar para a Cidade do México e passar mais uns dias antes de voltar ao Brasil. A viagem até Guanajuato dura em torno de 4 horas e meia, até San Miguel de Allende, entre 3 horas e meia e 4 horas. Entre ambas o trajeto dura mais ou menos 1 hora e meia.

Guanajuato

Guanajuato é uma espécie de Ouro Preto do México. Tinha minas de prata que escoaram em profusão para a Espanha, mas acabou virando um dos berços do movimento de independência do país e atualmente é uma cidade universitária — daí a semelhança com a cidade brasileira. A cidade tem um centro histórico até charmoso, com prédios históricos, alguns bem coloridos, uma casa onde Diego Rivera passou a infância, dentre outras atrações. O interessante é que alguns túneis antigos das minas são usados hoje para o tráfego.

Paroquia de San Miguel Arcángel, San Miguel de Allende

Já San Miguel de Allende virou um centro artístico no México — semelhante a Oaxaca, mas um pouco mais elitizado, já que o boom surgiu muito em função de dinheiro injetado por americanos. Eles compraram muitas casas, reformaram-nas — o que deixou a cidade bonita, claro, mas também aumentou a valorização imobiliária. Muitos acabaram se mudando para lá, o que fez abrir restaurantes, bares, galerias etc. Também é uma cidade charmosa e dá até para passar uns dias por lá apenas perambulando pelas ruas históricas — cursos de arte também são um opcional.

Museo Nacional de Antropología

A Cidade do México certamente merece textos à parte, mas vou tentar resumir aqui porque você deve gastar alguns dias por lá. A cidade é bem caótica, lembra São Paulo; de qualquer forma, isso significa também vida noturna agitada e restaurantes bons. O Museo Nacional de Antropología reúne artefatos de vários povos pré-colombianos recolhidos em ruínas espalhadas pelo país, organizados por civilização — assim, se você não conseguiu visitar as ruínas, está tudo resumido lá, e num espaço excelente, que vale a visita. Além disso, pode-se visitar Teotihuacan, uma cidade-ruína que conta com a famosa Pirâmide do Sol, que apareceu no filme da Frida Kahlo. Fica mais ou menos a 40 minutos da capital, de ônibus, podendo ser facilmente visitada em meio dia. Enfim, motivos não faltam para você passar pelo menos uns três dias na capital do México.

Pirâmide do Sol vista a partir da Pirâmide da Lua

Meu roteiro foi criado, claro, de acordo com gostos pessoais, disponibilidade de tempo e outros fatores que eu mencionei aqui. Ficou um pouco caro por causa dos vários trechos de avião, mas isso pode ser modificado se você tiver mais tempo e não se incomodar em viajar de ônibus. Além disso, com minhas dicas não quero dizer que no México não haja outros destinos interessantes. Puebla, não muito distante da Cidade do México, é famosa por seu passado colonial. Além da capital, o México tem as metrópoles de Guadalajara e Monterrey (a segunda e a terceira maiores cidades do país, respectivamente). Cuernavaca é uma estância de águas não muito longe da capital, também com prédios coloniais. Zacatecas também é uma antiga cidade mineradora, onde há uma boate instalada dentro de uma mina desativada. Enfim, destinos e motivos não faltam para você visitar o México. Só não vale ir apenas a Cancún e dizer que prefere Miami.

Meu roteiro pelo México – Parte 2

Cancún e sua "faixa de areia"

Queria conhecer um pouco dos três “eixos” em minha viagem, e tinha vinte dias. Decidi começar logo pela Riviera Maia e aproveitar um pouco da praia. Escolhi o voo de São Paulo até a Cidade do México e, de lá, até Cancún (deixei para conhecer a capital no final da viagem). Quando preparava minha viagem, já tinha recebido recomendações de NÃO perder tempo em Cancún. Dormi apenas uma noite lá, para descansar. A cidade realmente pareceu-me artificial. Quer dizer, a Zona Hotelera, ou Isla Cancún, uma estreita e comprida faixa de terra onde ficam os resorts e boa parte do agito. Como os resorts ocupam a faixa costeira externa da ilha, quando você passa pela avenida que a cruza de norte a sul, não vê quase nada da praia (quem é acostumado com a orla do Rio vai achar tétrico).

Sem contar que, depois do furacão Wilma, em 2005, o mar comeu um bom pedaço da praia e tem hotel que não tem mais areia para oferecer aos hóspedes. Afinal, a impressão que dá é que Cancún é uma cidade que poderia estar nos Estados Unidos, e acredito que boa parte das pessoas não vai até o México para ver gringo.

Playa del Carmen

No dia seguinte, rumei para Playa del Carmen, uma cidade mais ou menos uma hora ao sul de Cancún, que está crescendo muito, mas ainda mantém um certo charme de cidadezinha de praia no Brasil (pense, sei lá, numa coisa meio Búzios, meio Pipa, algo do gênero). Mas você pode escolher os vários resorts que ficam ao sul ou ao norte de Playa para ficar. Além disso, é de Playa del Carmen que saem os ferries para a ilha de Cozumel. A cidade ainda é uma boa base para contratar um mergulho nas barreiras de coral que povoam essa parte do litoral. Tanto de Playa como de outras cidades da Riviera Maia, pode-se também visitar algumas ruínas maias, como Tulún (uma cidade-ruína na beira do mar) e a mais famosa, Chichen Itzá (na verdade, na forma como a conhecemos hoje, é um misto das culturas maia e tolteca), que virou uma das sete mararavilhas do mundo moderno após aquela votação que também elegeu o Cristo Redentor.

Palenque

De lá, o trecho mais trash da viagem. Foram umas 17 horas dentro de um ônibus noturno até Palenque, já na província de Chiapas. Queria muito visitar essa cidade-ruína maia, e não me arrependi. A moderna Palenque já é uma cidade grande, mas a antiga cidade maia fica num parque, cercada pela selva do sul do México. Muito calor e muitas fotos lindas! Como a cidade moderna não tem muitos atrativos, para visitar as ruínas, um dia está de bom tamanho.

San Cristóbal de las Casas

Umas 5 horas de ônibus e estava en San Cristobal de las Casas, a “capital cultural” de Chiapas e centro para a rica comunidade indígena que vive na região. Que delícia de cidade, com casinhas coloniais coloridas, e tanto turista do outro lado do Atlântico que a cidade quase ganha ares europeus. Sem contar que é uma cidade alta, então é bem mais fresca que a parte mais baixa da província (um casaco é necessário).

Oaxaca

Minha próxima escolha era Oaxaca, capital da província de… Oaxaca. Oaxaca é conhecida por vários motivos. É uma cidade com algumas construções do período colonial, com um casario colorido que faz lembrar os quadros da Frida Kahlo. Além disso, tornou-se um centro de arte dentro do México, com várias galerias espalhadas pela cidade, vendendo desde objetos tradicionais do artesanato local (como os famosos alebrijes, animais coloridíssimos de madeira) até arte contemporânea. Também fica próxima de Monte Albán, uma outra cidade-ruína da época pré-colombiana da cultura zapoteca, para onde saem passeios de meio-dia de Oaxaca (das ruínas, mais altas, vê-se a cidade no vale). De outro lado, é uma cidade conhecida por reunir protestos e manifestações de rua. Não peguei nada disso quando passei por lá, embora tenha visto muita gente acampada na praça central da cidade; mas alguns dias depois vi na TV que houve alguns conflitos nas ruas da cidade.

Para ir de San Cristóbal de las Casas para Oaxaca de forma rápida, tive que pesquisar e arriscar. Há, claro, ônibus que fazem o percurso, mas eles demoram de 12 a 18 horas e eu não queria perder tanto tempo assim — sem falar que já havia pegado uma viagem longa de ônibus de Playa del Carmem até Palenque dias antes. San Cristóbal não tem aeroporto, mas Tuxtla Gutiérrez, a capital da província de Chiapas, sim. Tuxtla fica a cerca de uma hora de ônibus de San Cristóbal, e a viagem é bem tranquila, numa autopista larga e com asfalto bom. Acontece que as principais companhias aéreas do México, Aeroméxico e Mexicana, não faziam o trecho até Oaxaca direto — teria que ir até Cidade do México e fazer uma conexão, o que seria uma volta danada. Descobri que havia uma empresa chamada Alma de México que fazia este percurso direto. Era uma empresa low cost baseada em Guadalajara e que, infelizmente, fechou as portas no final de 2008. Nunca tinha ouvido falar dela, mas resolvi arriscar mesmo assim. O voo foi feito num desses jatinhos menores, mas foi bem tranquilo. Valeu à pena arriscar.

Monte Albán

Recomendo uns três dias para Oaxaca, principalmente porque você vai querer visitar Monte Albán, alguns lugares coloniais e, de repente, algumas das galerias mais conhecidas da cidade. Sem falar na culinária, que é bem famosa dentro do México, como os molhos (moles) à base de chocolate. Oaxaca é o centro de produção do mezcal, uma outra bebida obtida a partir do agave (a mesma planta de que é feita a tequila), mais forte e que traz, muitas vezes, aquele verme no fundo da garrafa (não se preocupe, você não é obrigado a comê-lo, mas depois de umas doses… quem garante?)

Meu roteiro pelo México – Parte 1

Chichen Itzá

O México é um país de grande riqueza e diversidade cultural. Embora muitos dos brasileiros que visitam este país limitem-se ao balnerário de Cancún, há muito mais o que se ver por ali. Nesse texto, não pretendo falar sobre cada um dos destinos que visitei especificamente, mas dar uma ideia de como nasceu o roteiro pelo país, como eu fiz os deslocamentos internos, quanto tempo durou a viagem, enfim, dar algumas ideias que podem ajudar alguém a organizar seu próprio roteiro.

Se você está montando uma viagem pelo México, seria bom arranjar um bom guia do país — Lonely Planet, Frommer’s, Rough Guide, Guia Ilustrado da Folha etc (ainda estou devendo um texto sobre guias de viagem, mas fica para o futuro). De qualquer forma, na internet pode-se achar muita informação a respeito das cidades, distâncias etc. Com um mapa, já é possível traçar um roteiro inicial e, depois, verificar se os deslocamentos internos são factíveis no tempo planejado.

Em primeiro lugar, acredito que existem três “eixos” principais em uma viagem ao México: praia, civilizações pré-colombianas e cidades históricas/coloniais. Você precisa ter em mente o que pretende conhecer, que tipo de viagem quer fazer. Se você quiser apenas aproveitar a praia, realmente escolher alguma cidade na costa caribenha (onde fica Cancún, embora eu não recomende que a cidade seja essa) e passar todos os dias lá já estará de bom tamanho. É bom ressaltar, também, que algumas cidades e localidades oferecem atrações que pertencem a mais de um dos “eixos” mencionados.

Dito isto, comece a procurar: onde achar cada um destes ingredientes? Vejamos as praias, inicialmente. O México tem uma costa bem extensa, tanto do lado do Atlântico como do lado do Pacífico. Do lado Atlântico, as praias da Riviera Maia, na Península de Yucatán, são imbatíveis (o Estado chama-se oficialmente Quintana Roo). Elas estão de frente ao Mar do Caribe, então têm aquela cor azul que todo mundo procura. As praias mais ao norte, banhadas pelo Golfo do México, não costumam ser mencionadas (o lance ali é petróleo!)

Já do lado do Pacífico, há várias opções. Acapulco é a mais famosa (apareceu até no programa do Chaves) mas, por ser a praia mais próxima da Cidade do México, sofreu com o turismo de massa contínuo e entrou em decadência. Li que, recentemente, estão fazendo vários investimentos para revitalizar o local e que os turistas estão voltando. É uma cidade famosa, de qualquer forma, pelos clavadistas, corajosos homens que saltam de penhascos no mar e, depois, pedem dinheiro pelo espetáculo. Mais ao norte, fica Puerto Vallarta, o balneário de quem mora em Guadalajara (a segunda maior cidade do México) e também bastante procurada por turistas gays. Mais ao sul, na província de Oaxaca, fica Puerto Escondido, muito procurada por surfistas. E aquela “perninha” na parte oeste do México? É a Baja Califórnia. Pelo nome e pela proximidade com os Estados Unidos, é muito procurada pelos americanos, sendo a região de Cabo San Lucas uma das mais procuradas.

Seu negócio é ver ruínas maias, aztecas, olmecas etc? Não haverá muitos problemas: elas estão em toda a parte, de norte a sul. As maias ficam mais ao sul, na Península de Yucatán e em Chiapas (e também na Guatemala). Os aztecas ficavam mais ao centro, e você pode visitar escavações que lembram o esplendor de Tenochtitlán, a capital azteca, na própria Cidade do México (que foi construída por cima dela). Mas muitas outras civilizações habitaram o que hoje é o México, e há ruínas delas espalhadas pelo país.

Guanajuato

Assim como os portugueses construíram cidades em sua colônia, os espanhóis deixaram sua marca no México. As marcas do período colonial espanhol também estão em toda a parte, mas há centros mais conhecidos como Puebla e San Miguel de Allende.

Os voos diretos do Brasil para o México saem de São Paulo e vão para a Cidade do México. Acho que já houve voos para Cancún, mas, hoje, apenas fretados. Se você optar pela companhia Copa, que, no Brasil, sai de São Paulo, do Rio, de Belo Horizonte e de Manaus, você pode, via Panamá (todos os voos param lá), ir para outras cidades no México, como Guadalajara e Cancún. Aliás, fazer viagens internas de avião no México pode ser irritante: quase todos os voos param na Cidade do México, de modo que, muitas vezes, você terá que fazer conexão lá e dar uma volta danada.

Shabbat em Israel

Você provavelmente já ouviu falar no famoso shabbat em Israel e nos problemas que ele pode trazer ao viajante. Para quem não sabe, em Israel o dia oficial de descanso é o sábado (o tal shabbat) e, por isso, ele equivale ao nosso domingo, quando as coisas em geral fecham. Já a sexta-feira, para eles, tem a cara do nosso sábado. Além disso, os shabbats começam oficialmente ao pôr do sol da sexta-feira e duram até o pôr-do-sol do sábado em si. O mesmo vale para os feriados religiosos em geral, embora, nesse caso, eles possam cair em dias diferentes da semana.

Na verdade, acabei surpeendendo-me com a abrangência do shabbat. Quem mora em cidade grande do Brasil está acostumado, mesmo nos sábados e domingos, a ter acesso a vários serviços, non stop. Mesmo na Europa, onde eu acho que as coisas costumam fechar cedo demais (exceção honrosa da Espanha, onde as lojas fecham às 21h durante a semana), costuma haver um número razoável de opções de atividades aos domingos. Em Israel, elas ficam bem limitadas durante o shabbat.

Em Tel Aviv, que é a cidade mais moderninha de Israel, há, claro, opções de lazer durante shabbat. Mesmo assim, numa sexta-feira à noite, eu penei um pouquinho para encontrar um lugar decente para comer. E olha que eu estava no meio da Ben Yehuda, a avenida mais comercial, digamos assim, de Tel Aviv. Acontece que como os restaurantes kosher (e alguns não kosher) fecham para o shabbat, as opções que pemanecem abertas ficam lotadas e é difícil conseguir uma mesa.

Da mesma forma, como o shabbat começa na sexta-feira à noite, muita coisa já começa a fechar no meio da tarde. Quando cheguei em Tel Aviv, por exemplo, vi que havia um trem que liga o aeroporto ao centro da cidade. Ocorre que era em torno de 15h30 e já não havia mais trens funcionando. Aliás, programar o deslocamento durante o shabbat pode ser difícil. Há táxis, claro, em funcionamento, mas eles não são baratinhos. Para ir de uma cidade a outra ou fazer grandes distâncias, pesquise ou pergunte no hotel com antecedência. Algumas vans, conhecidas como sherut (seria uma versão local para shuttle?) costumam funcionar nos shabbats fazendo o transporte entre algumas cidades. Na dúvida, programe seus deslocamentos para outro dia.

Em Tel Aviv, contudo, é perfeitamente possível encontrar um lugar para beber e uma boate que funcione na sexta à noite. Quanto à isso, você não terá problemas. Acontece que algumas atrações turísticas fecham no shabbat (ao contrário do mundo ocidental, onde em geral elas fecham na segunda). Uma boa pedida para o shabbat em Tel Aviv é ir para a praia, que fica cheia, como qualquer praia urbana no domingo no Brasil.

Em cidades menores, contudo, pode ser mais difícil encontrar o que fazer. Em Haifa, até mesmo sacar dinheiro num terminal automático na sexta à noite mostrou-se difícil, já que, para os judeus ortodoxos, mexer com dinheiro é proibido no shabbat.  Depois de umas tentativas, eu consegui. E Haifa é uma cidade bem misturada, com uma população árabe considerável.

Essa é, aliás, outra dica: nas cidades com maior número de árabes e cristãos (como Nazaré, Belém e mesmo Haifa), não existe observância do shabbat; por isso, o sábado costuma ser como conhecemos.

Na verdade, com um pouco de planejamento, dá para sobreviver a um shabbat em Israel. Se você pretende comprar alguma coisa no supermercado, como água, comida, produtos de higiene, vá antes de sexta-feira à tarde. Entretanto, é possível comprar água (e outras bebidas) em lojas de conveniência que ficam abertas em boa parte do shabbat, ao menos em Tel Aviv.

Réveillon em Trancoso

Sol nascendo na praia, Tostex

Foi-se o tempo em que Trancoso era uma praia longínqua no sul da Bahia visitada basicamente por hippies e gente alternativa, e a Elba Ramalho andava nua em pêlo pela praia. Não vou nem mencionar os séculos em que o local passou sendo uma pacata vila de pescadores. Hoje, helicópteros cruzam os céus trazendo e levando gente ao aeroporto de Porto Seguro, carregando em seu interior paulistanos endinheirados; restaurantes de vários sabores e origens (e contas salgadas) pipocam aqui e ali; lojinhas vendendo marcas como Osklen, Maria Bonita e Richard’s podem ser visitadas no Quadrado; e festas animadas pela música eletrônica e regadas com vodca importada acontecem na praia ou em clubes exclusivos.

Se você é daqueles que gosta do circuito jet-set, seus olhos provavelmente brilharam com a descrição do parágrafo anterior. Se você quer apenas descansar e curtir sombra e água fresca, provavelmente já riscou Trancoso do seu caderninho. Calma, há Trancoso para todos, basta saber onde e quando ir.

Minha única experiência em Trancoso foi em um réveillon (certo, eu dei uma passadinha lá quando viajei com a turma da escola no final do 2.° grau, mas isso não conta), por isso, é a respeito dessa época que eu vou escrever. De qualquer forma, pelo que eu ouvi falar, na semana do réveillon, os preços vão às alturas, as pousadas esgotam rápido, a vila e as praias ficam cheias. Se você não quiser nada disso, recomendo escolher outra época. A dona da pousada onde ficamos, uma argentina, me disse que no primeiro semestre, depois do verão, chove muito, mas, a partir do segundo semestre, à exceção dos turistas estrangeiros, que sempre aparecem, a cidade fica bem mais tranquila. Talvez viajar no final de novembro, começo de dezembro, seja uma boa escolha para quem quer mais sossego sem perder completamente a vibe do lugar, uma vez que o verão já estará batendo na porta, mas a maioria das pessoas ainda não terá começado a viajar. Acredito que entre o réveillon e o carnaval as coisas não sejam tão diferentes da descrição que eu fiz no primeiro parágrafo; de todo modo, como costuma acontecer em várias outras cidades de praia, pode ser que na semana seguinte depois do ano novo você já encontre opções mais em conta.

Para chegar em Trancoso, vem a primeira dificuldade. A vila não fica muito distante de Porto Seguro, onde há um aeroporto que recebe voos da TAM e da GOL, além de outros fretados. De lá, peguei um táxi até a estação das balsas, de onde cruza-se o Rio Buranhém até Arraial d’Ajuda. A estação não fica muito longe do aeroporto, de modo que a corrida não fica cara. A balsa também é baratinha, custava, quando eu fui, R$ 1,00 por pessoa. Ela também atravessa carros, mas nesse caso paga-se um pouco mais. De qualquer modo, na volta de Arraial d’Ajuda, a travessia de pessoas não é cobrada. Essa balsa funciona dia e noite, mas no verão ela é mais frequente.

Lembrando-me de que, quando fui com meus colegas de escola, a travessia também era feita pela balsa, fiquei pensando porque diabos não constroem logo uma ponte sobre o rio. Bem, a resposta parece ser um pouco complexa. Além do custo da obra, claro, acho que há pouca vontade de fazê-lo. Senti que há um certo temor de que Trancoso transforme-se em uma outra Porto Seguro — que, de fato, perdeu muito encanto com o turismo em massa — caso o acesso seja facilitado. Sinceramente, não acredito que o turismo em massa desqualifique um destino automaticamente — Paris e Nova Iorque estão aí, recebendo toneladas de turistas todo ano –, mas a preparação e a forma que ele tem para receber os turistas. Tudo isso parece-me, assim, um papo bem elitista; como ressaltei acima, quem pode vai de helicóptero até Trancoso e nem tem que pensar em travessias de balsa. Mas não há como negar-se que Trancoso não tem estrutura para receber muita gente, e assim vai mantendo-se a forma atual.

Feita a travessia de balsa, chega-se, como eu disse, a Arraial d’Ajuda, uma outra vila que também já foi bem alternativa mas hoje está bastante movimentada. Bem em frente as balsas, há vários ônibus que te levam até Trancoso, deixando você perto do Quadrado. Esses ônibus “fretados” pegam o caminho de terra, que é mais curto, mas é uma estrada de terra, enfim, cheia de solavancos. Há ônibus de linha que vão por uma estrada asfaltada — peguei um deles na volta –, mas o caminho é bem mais longo, uma volta danada. Escolha o que estiver mais fácil no momento, o importante é chegar. Sempre se pode, de qualquer forma, pegar um táxi até lá — aliás, já no aeroporto de Porto Seguro, é possível combinar transfers com taxistas, a preços bem salgados, diga-se de passagem. Ele cruza a balsa com você, faz o caminho até Trancoso e te deixa em frente à sua pousada, caso seja possível nela chegar de carro. Se a preguiça bater e dinheiro não for problema, é uma opção.

A vila fica em cima de uma falésia, de forma que praia e cidade ficam bem separados. Daí vem a primeira dúvida: ficar na praia ou na vila? Depende dos seus objetivos. Se você quiser curtir a cidade à noite, ir a um restaurante legal ou até mesmo a uma balada, é bem provável que venha uma preguiça de subir, à noite, a sinuosa estradinha de terra que conecta praia e cidade. Nesse caso, opte por ficar na vila. Se você quer só curtir praia e ficar numa pousada que tenha opção de comida à noite, ficar perto da praia será a escolha mais adequada. Há motoboys que te levam da vila para a praia e vice-versa, os quais se concentram próximo ao Quadrado. Em todo caso, convém verificar com sua pousada, caso ela fique perto da praia, se eles oferecem opção de transporte até a cidade à noite.

Quadrado com sua igrejinha

A vila em si foi construída em torno do famoso Quadrado, na verdade um grande descampado cercado de casinhas coloridas com uma igreja branquinha no fundo, já na beirada da falésia. Apesar de parecer bem básico (e é), o Quadrado tem seu charme. Os moradores foram expulsos das casas — provavelmente pela especulação imobiliária –, que foram reformadas e viraram lojinhas, restaurantes e até pousadas. Tudo bastante colorido. Ali e em algumas ruas ao redor carro não circula. Um dia, passeando pelo Quadrado à noite, havia umas cangas e almofadas espalhadas pelo chão, em volta de uma roda de samba. Foi um dos melhores programas da minha viagem, e não custou nada; portanto, compensa sempre dar uma volta lá à noite para ver se tem algo acontecendo. Da mesma forma, se você não conseguir encontrar (ou não quiser) nenhuma festa para passar o réveillon, é para lá que você tem que ir — fica bem cheio e há uma queima de fogos para comemorar a virada.

Aliás, o que fazer na virada é um capítulo à parte. Quando eu fui, na passagem de 2008 para 2009, havia uma grande festa sendo divulgada e que seria realizada numa pousada perto de Trancoso. Celebridades e endinheirados eram aguardados. O ingresso era vendido numa boate perto do Quadrado e custava uns R$ 300, com direito apenas ao ingresso no local. Apesar do preço, concordamos em pagar, já que não havia muitas outras opções. Numa noite em que estávamos na tal boate, fomos até a bilheteria para comprar a entrada. Para nossa surpresa, só era possível comprar se tivéssemos recebido um convite pessoal de um dos promotores da festa. E quem são eles? Ninguém dizia. Parece que quem já estava na cidade alguns dias antes recebeu o tal convite nas praias e nas festas com certa facilidade, mas depois que chegamos só conhecendo alguém mesmo. Depois de algumas tentativas e de saco cheio daquela segregação toda, preferimos deixar para lá e passamos o réveillon lá no Quadrado mesmo. Foi animado e bem mais barato, mas não há música e, depois de uma hora, praticamente todo mundo já se dispersou.

Praia dos Nativos, em frente ao Tostex

Nas praias há, claro, vários bares, e algumas pousadas, um pouco mais distantes, também colocam algumas cadeiras na praia para os hóspedes. O bar mais famoso é o Tostex, que fica bem abaixo da vila, na Praia dos Nativos, embora para se chegar até lá tenha que se descer pela tal estrada de terra que faz um zigue-zague até chegar na praia. O Tostex oferece mesas, cadeiras, espreguiçadeiras e almofadas sem cobrar por isso, mas tem que consumir (nos dias mais cheios há uma consumação mínima). O público é de gente bonita, jovem e paulistana, e a música é basicamente eletrônica. Apesar dos preços caros e da vibe um pouco Ibiza demais para o meu gosto, a música é legal e o lugar é, no geral, bem animado. As caipirinhas são ótimas: as minhas preferidas foram a de tangerina e pimenta rosa e a de carambola com manjeiricão, mas essas criações devem mudar de vez em quando.

Porta do banheiro feminino, Tostex

A maior parte dos restaurantes fica, de fato, no Quadrado ou nas proximidades. Não experimentei muitos, mas recomendo vivamente o Capim Santo (quem também tem uma pousada no local e conta com outra unidade em São Paulo). A comida é boa (embora, como quase tudo lá, cara) e o lugar é bem bonito, com atendimento bom. O Masala, na rua que dá acesso ao Quadrado, tem uma culinária estilo sudeste asiático e serve um pad thai bem gostoso. Nas opções mais em conta, recomendo o Portinha, bem no começo do Quadrado, um self service que na hora do almoço fica bem cheio e oferece opções variadas de comida, e a Créperie du Blé Noir, praticamente um quiosque numa pequena galeria no caminho para o Quadrado, que além dos crepes em si (bons) serve um bolo de chocolate que é uma coisa!

Para sair à noite, como eu já comentei, a maioria das opções ficam no Quadrado ou próximas a ele. No Pára-Raio, bem na entrada do Quadrado, a programação era basicamente de música eletrônica, mas não sei se ainda é uma boa opção. De qualquer maneira, várias festas aconteciam em outros lugares, entre eles o próprio Tostex citado acima, onde, durante o dia, o pessoal distribui os flyers com a programação noturna da cidade. Além disso, a Elba Ramalho tem uma casa na cidade e faz shows quase semanalmente na época do verão. Quando fui, eles aconteciam no São Brás, também no caminho que leva ao Quadrado, mas é só perguntar na pousada ou para quem trabalha lá que eles sabem onde ela estará se apresentando. Mesmo para quem não gosta muito do estilo dela, o show é bem animado e o público bem eclético, com locais se misturando a turistas brasileiros e gringos, querendo aprender a dançar forró.

Haifa e Akko (Acre)

Vista dos Jardins Baha'i

Passei a maior parte da minha viagem em Israel em Haifa, uma cidade portuária no norte do país, já que lá aconteceu o workshop que foi o motivo da minha viagem. Embora a cidade já existisse desde a Antiguidade, ela só começou a ganhar importância no século XIX, com as imigrações zionistas. Na época romana, o porto principal era Cesareia, ao sul de Haifa, hoje ruínas que podem ser visitadas em um passeio. Nos séculos seguintes, a cidade de Akko, ao norte, era o porto mais importante da região. Muitos imigrantes judeus do século XIX chegaram por Haifa e, com o governo britânico após a queda do Império Otomano, Haifa virou o porto preferido da Palestina.

Haifa não é um destino muito procurado para quem visita Israel. Realmente, não é a cidade mais agitada para se conhecer por lá; mesmo assim, depois de alguns dias ali eu passei a gostar da cidade. O instituto onde fizemos o workshop ficava na parte alta da cidade, no Monte Carmelo, numa agradável área residencial, por onde eu até fiz uma corrida um dia (apesar das ladeiras). O Carmel Centre, uma área com cafés, restaurantes e um pequeno comércio, também ficava bem pertinho e permitia umas escapadas algumas noites.

A cidade iniciou-se na parte baixa e foi crescendo para o alto do Monte Carmelo. As áreas mais altas são consideradas mais nobres, seja porque são mais frescas (à noite o vento pedia um casaco, de fato), seja pelas vistas que oferece.

Haifa também é famosa por conta de uma religião não muito conhecida no Brasil, chamada Baha’i. É uma religião nova, criada no século XIX na antiga Pérsia (atual Irã). Após ser proibida por aquelas bandas, o fundador acabou numa colônia penal na vizinha cidade de Akko. A religião incorpora ensinamentos de várias outras (cristianismo, judaísmo, budismo) e diz que ninguém nasce baha’i; é uma escolha feita por cada um. Posteriormente, foi construído um memorial em sua homenagem em Haifa. Os Jardins Baha’i são, de fato, uma das principais atrações da cidade, com terraços dependurados numa parte do Monte Carmelo. Os jardins recebem um cuidado permanente e diário, o que contribui para sua beleza quase artificial. As visitas, contudo, são limitadas, com um tour saindo ao meio-dia; chegue um pouco antes.

Haifa também é conhecida como a cidade onde o profeta Elias teria se escondido quando perseguido. Há uma gruta lá que é chamada precisamente de “Gruta de Elias”. Pode ser visitada, juntamente com o Monastério Carmelita Stella Maris; ficam numa das faces do Monte Carmelo.

Sinceramente, achei a praia em Haifa mais bonita que em Tel Aviv, mas não sei se elas ficam tão agitadas como as da capital, pois não tive oportunidade de visitá-las num fim de semana. São uma boa opção, de qualquer forma, caso você passe um shabbat por lá.

Há uma área de comércio bem movimentada chamada Hadar, ao redor da Rua Nordau. Para falar a verdade, achei meio bagaceira, sem muitas opções legais de compras, e o lugar é praticamente uma Mini-Rússia, com gente falando russo em quase todas as lojas.

À noite, além da área do Carmel Centre, há a Colônia Alemã, principalmente a Avenida Ben-Gurion. O local foi, de fato, ocupada por imigrantes alemães, que, após a 2.ª Guerra, foram expulsos dali. As construções, já restauradas, realmente têm um jeitão bem alemão; várias delas abrigam bares e restaurantes que ficam movimentados à noite. Além disso, a avenida Ben-Gurion termina bem na extremidade de baixo dos Jardins Baha’i, o que torna a vista bem bonita.

Akko

Se Tel Aviv tem seu “subúrbio árabe” em Jafa, Haifa tem Akko (ou Acre, dependendo do idioma); a diferença é que nesse último caso não são tão próximas assim: ou seja, não dá para ir andando até lá. Por outro lado, achei a vibe árabe de Akko mais “autêntica” que a de Jafa. A mesquita Al-Jazzar, com sua cúpula verde, é bem bonita; lembrou-me muito algumas das que eu tinha visto em Istambul. Há um mercado (souq) típico árabe, com temperos, comidas e balangandãs em geral.

Também vale a pena dar uma espiada no Khan al-Umdan, um pátio de colunas que recebia caravanas de camelo para comércio. Atrás, como em Jafa, há uma torre com relógio em estilo inglês. Há também túneis que foram recentemente descobertos e abrigavam os Cavaleiros Templários, que passaram por ali durante as Cruzadas. Achei meio sem graça, mas me disseram que o guia de áudio (que eu não peguei, obviamente) vale à pena. O ideal é andar um pouco pela parte antiga, que fica rodeada por muros de pedra, num estilo bem como daqueles estereótipos que imaginamos quando pensamos em cidades do Oriente Médio.

Haifa e Akko são conectadas por trem a Tel Aviv — aliás, uma boa parte do caminho é bem bonito, margeando o Mar Mediterrâneo. De qualquer forma, há as infames vans sherut ligando essas cidades (Tel Aviv – Haifa, Haifa – Akko), o que torna possível fazer o passeio num dia.

Tel Aviv e Jafa

Tel Aviv é a cidade mais “moderna” de Israel. De fato, a cidade tem pouco mais de cem anos, tendo sido criada no meio das dunas por colonos judeus que migraram de Jafa (Yafo em hebraico), um pouco ao sul de Tel Aviv, uma cidade predominantemente árabe que nem sempre acolheu de boa vontade os novos migrantes judeus que começaram a chegar no século XIX.

A cidade tem uma vibe meio Rio de Janeiro — mas não a beleza. Erico Verissimo, em seu livro Israel em abril, diz que Tel Aviv lembrou-lhe Copacabana (bem, ele visitou Israel em 1966). De qualquer forma, não há aquelas montanhas recortando a paisagem, nem aquela vista exuberante tão característica do Rio.

É preciso lembrar que Tel Aviv foi construída no meio das dunas, e suas construções, em tons amarelados e pardos, não ajudam muito a colorir a paisagem. Essa cor, aliás, é a dominante em boa parte de Israel, o que dá um certo ar gasto a tudo, ainda que muitas das construções sejam relativamente recentes — pareceu-me feio inicialmente, mas com o tempo me acostumei e percebi até um certo charme naquele monocromismo.  Embora em 100 anos de vida já dê para notar uma certa “arquitetura histórica”, muitos prédios têm um jeitão meio artificial, uma coisa moderna meio agressiva.

A vibe carioca fica por conta da praia, e a população de Tel Aviv parece aproveitá-la tanto quanto a do Rio. A rua Ben Yehuda, que corre no sentido norte-sul em boa parte da área central, lembra um pouco a Visconde de Pirajá, pois fica uns três quarteirões da praia e é a principal via de comércio e de transporte nesta parte da cidade.

Vários hotéis ficam na Ben Yehuda, e por ali você também vai encontrar muitos restaurantes legais, galerias de arte, cafés. O único problema é que a rua é bem comprida e as coisas não ficam concentradas em um determinado ponto, espalhando-se ao longo da rua. Isso pode dificultar um pouco se você quiser escolher um restaurante ao acaso, mas é bem provável que você encontre algo interessante em qualquer ponto dela. Na dúvida tente o trecho mais ao sul, a partir da rua Gordon.

Indo em direção ao sul, a Ben Yehuda vira Allenby (nome do general inglês que expulsou os turcos da Palestina), que faz uma curva afastando-se da praia. Logo após essa confluência, à direita, há um tradicional mercado de comida, numa área conhecida como bairro iemenita. À noite, essa área fica um pouco estranha, com uns clubes “suspeitos”; ainda assim, eu andei por lá sem problemas.

Seguindo pela Allenby, você chegará em outra área interessante da cidade. A confluência das ruas Allenby, King George e Sheinken  é conhecida como praça Rei David, ou Kikar Magen David (em hebraico) e é um cruzamento bem movimentado. Ainda à direita, na rua Nahalat Binyamin, há uma feirinha de artesanato aos sábados, bem interessante.

A rua Sheinken é bem animada com cafés, restaurantes e lojas vendendo roupas locais, óculos, produtos de beleza etc. A vibe é ótima e a frequência jovem e bonita. Nela fica um restaurante legal, Orna and Ella, no número 33, onde comi uma excelente refeição. Já a rua King George é mais bagaceira, com lojas mais no estilo popular (seria a 25 de Março local?) Na área próxima ao parque Gan Meir, contudo, eu vi alguns bares bem cheios com um pessoal interessante (era uma quinta-feira à noite).

A área ao norte da cidade, conhecida como Old Port (Namal), atualmente concentra restaurantes, boates e bares. À noite fica bem movimentado. Você a reconhecerá por causa de uma chaminé de uma antiga usina de energia que ficava por ali.

Beach culture, Tel Aviv style

As praias de Tel Aviv são separadas por aquelas “muralhas” de pedra construídas, formando baías artificiais sem muitas ondas. Cada uma tem seu público e sua clientela, vale à pena dar uma caminhada e ver o que te chama mais a atenção. O que eu percebi é que ao sul, próximo a Jafa, há mais árabes (inclusive mulheres vestidas dos pés à cabeça na praia); já a praia mais ao norte, antes da área do Old Port, reúne judeus ortodoxos (inclusive parece que há dias só para homens e outros só para mulheres). A enorme área entre ambas abriga gente “normal”, que você veria na praia por aqui. A moda praia deles, aliás, é bem parecida com a brasileira, inclusive muitas pessoas usando biquinis e sungas (exceção aos extremos acima citados, claro).

Como disse acima, a arquitetura de Tel Aviv é bem eclética, com alguns prédios “modernos” de gosto duvidoso. A cidade, todavia, tem alguns exemplos de arquitetura no estilo art-déco, já que imigrantes oriundos da Alemanha levaram ideias da Bauhaus para lá. Segundo meu guia, muitos estão em estado deplorável, mas há prédios desse estilo já restaurados. Vi alguns exemplos na área da rua Nahalat Binyamin, ali perto da praça Rei David.

Ao sul de Tel Aviv fica a antiga cidade de Jafa, mencionada até na Bíblia. Foi um dos portos usados no reinado do Rei Salomão e uma das principais entradas da nova leva de imigrantes judeus que iniciou-se no século XIX. O interessante é que Tel Aviv, a cidade fundada por imigrantes que não queriam mais ficar em Jafa por um motivo ou por outro, acabou agigantando-se em relação à vizinha que ali estava desde a Antiguidade, e hoje pode-se dizer que Jafa vive à sombra de Tel Aviv.

De fato, Jafa é praticamente um subúrbio de Tel Aviv, e você consegue chegar até lá à pé vindo de Tel Aviv. Basta ir seguindo pela praia. Após passar pelo Dolphinarium — um antigo centro de lazer, onde uma bomba explodiu em 2001 matando muitos jovens –, pela linda (e recém-restaurada) mesquita Hassan Bek, construída ainda no tempo do Império Otomano, e pelo agradável Parque Charles Chlore (apesar das poucas árvores), você já estará praticamente em Jafa. Olhando ao sul, você verá a silhueta da cidade. Mesmo sendo um passeio agradável, preferi voltar de táxi, porque é uma caminhada razoável e você ainda tem que pensar que vai bater um pouco de perna em Jafa.

Jafa não está saindo ilesa de estar à sombra tão próxima e imponente de Tel Aviv. Muitos moradores de Tel Aviv têm se mudado para lá em busca de algo mais “autêntico” no estilo do Oriente Médio. Por um lado isso significou uma injeção de dinheiro na economia local, e muito da parte antiga da cidade foi renovada por causa disso. Por outro lado, alguns temem que isso signifique uma descaracterização dessa cidade antiquíssima, enquanto outros dizem que os novos moradores inflacionam os preços e acabam por empurrar a população árabe mais pobre para fora. Você já ouviu essa história provavelmente em vários outros lugares por aí.

É um passeio de meio-dia, e o principal é andar pelas ruinhas tipicamente árabes.  O passeio de frente ao mar está sendo renovado (pelo menos quando eu fui) para juntar-se à promenade que começa ainda em Tel Aviv, criando um grande calçadão. Em seguida a cidade acocora-se em uma colina, onde misturam-se construções árabes, cristãs (como o Monastério de São Pedro) e judaicas. Aliás, nos Jardins HaPisgah que ficam lá em cima, vi um pedaço de um casamento judaico típico. Na parte mais baixa, vindo de Tel Aviv, há uma mesquita e uma torre de relógio em estilo inglês.